"-Vens ver-me hoje, Ricardinho? E o teu irmão?"
Uma boa parte dos meus dias começam assim. A mãe ri-se do lado de cá do telefone porque já sabe que palavras vêm do outro lado.
"-Vamos, sim, Avó."
E sou eu quem gostava que eles acabassem sempre assim - o amor como esse corpo que nasce de actos simples. Esse ir a tempo, chegar e aguardar por essas imagens, palavras e gestos que sei me manterão sempre perto de uma ideia muito clara de felicidade - como um jardim silencioso bordado de cheiros e ruído a água por perto.
Todos os dias conheço melhor a minha família - há sempre alguém que não os deixa esquecer, que lhes presta homenagem com as palavras ou com o silêncio de um olhar embaciado pelas lágrimas que diz tudo.
As palavras são a nossa forma de cravar o orgulho no lugar das ausências - desde sempre me ensinaram a acalmar o vazio das perdas com esboços sempre mais perfeitos de um amor que subsiste.
Reconstruo a imagem daqueles que a minha mãe, irmão, avó e pai amaram com eles para que possam ter uma imagem mais perfeita, mais nítida por cima dos escombros das ausências.
A memória é uma finta sobre a fatalidade da vida - nada nos pode roubar o sol de tardes infinitas, as frases ditas a direito sobre o coração, sobre as lágrimas e as dúvidas.
Escrever ajuda a lembrar melhor - as palavras pousam puxando pelo fio da memória e cada linha é como um abraço ou uma ruga que fica mais apertado ou marcada mais fundo.
Escrever é o desabafar da memória como se se abrisse uma sala de uma casa fechada há muito para se varrer o pó e tocar as teclas de um piano há muito solitário.
As palavras, como os sentimentos, são testemunhos que se deixa ao futuro - não nos queremos longe uns dos outros.
A minha avó é uma pessoa que fez da família - de mim e do A. o corpo onde ela morará no futuro. Connosco, como nos diz, chegará àqueles que vierem depois dela.
Dizemos-lhe que saberão dos seus olhos azuis fundos como cristal, das suas mãos finas e longas, do seu gosto pelos retratos acolhidos no fundo de molduras, do seu carácter, da sua força e do seu carinho. O seu rosto acende-se, olha-nos como para nos fixar por uma última vez - estes dois rostos que desejam que não se note o medo da perda.
O amor é sempre algo que nos sobra no peito perante a escassez da vida. De cada vez que a ouvimos desejamos ouvi-la mais, vê-la mais, crescer outra vez debaixo do abrigo desta família que aprendemos a amar.
A minha mãe e o meu pai sempre nos quiseram por perto deles - sabiam como é importante "ouvir a vida de lá para cá", como diz a minha avó.
E fizeram bem - ouvir a vida foi conhecer a forma mais sublime do amor que é a saudade feita sentimento todos os dias.
No lugar das ausências pomos todos em conjunto a vontade de que eles vivam em nós nos dias do amanhã.
São como flores que voltam a nascer do chão que os sepultou - flores que transformam a vida nesse jardim calmo de flores e rumor de água fresca de encontro à pedra.
Apetece-nos dizer "Avó, ainda não crescemos tudo, fica." A absoluta necessidade de alguém faz o tempo sempre uma insuficiência.
O amor não se resigna ao tempo porque justamente radica na vontade. Numa vontade absoluta a quem ninguém avisou que a vida acaba.
Para nós, a resposta será sempre "Vamos, sim, avó."
Porque iremos sempre - um dia, esteja onde estiver, é por ela que chamaremos como medida do azul mais perfeito, da ambição mais digna, da avó a quem tanto ficamos a dever. ´
Uma vida não chega para agradecer. Por isso, se evoca tanto cá por casa - como que a dizer o que a vida nos abafou num soluço ou nessa enxurrada intensa que é o amor.
Obrigado mãe e pai - só assim a face do amor fica completa.
E a minha avó ficará sempre no nosso coração emoldurada por essa vontade de dar parte da nossa vida para que ela a viva connosco.
"-Vens ver-me hoje, Ricardinho? E o teu irmão?"
"- Vamos, sim, avó, vamos sempre."
Esta é a resposta que ela ouve sempre que nos despedimos - lá no fundo ela sabe, como nós, que ao amor ninguém disse que a vida acaba. Por isso se pode amar tanto. E isso nos saber sempre a tão pouco.
Só quem conhece o amor saberá que foi ele que deu ao Homem a razão porque a finitude nos dói tanto. Porque no dia seguinte, incondicionalmente, nasce uma vontade de ir. De ir no caminho que nos leva uns aos outros. Sempre.
assim são os avós...
ResponderEliminarQue beleza de texto!!!
Um beijinho Ricardo da Conceição, que não é ausente, nem está...
( formiga que lê)