Não sei se gostamos das pessoas pelo que podemos esperar delas. Se com tudo o que vamos juntando delas em nós, o que fazemos é roubar os dias ao amanhã e imaginá-los cheios de coisas que são a nossa certeza sonhada acerca dos outros. Amamos também pelo que ainda não foi. Conscientes de que não podemos controlar o que nos acontece, os arbítrios da vida, vamos imaginando o nosso futuro um pouco menos incerto pela luz da esperança que temos nos outros.
Gostamos pelo heroísmo que lhes imaginamos, pelo amor quase incondicional que as fará dividir connosco o peso de certos dias. Imaginamos um carinho a nascer desse sítio onde nasceu o amor por nós. Gostamos porque as imaginamos a vestir-nos a pele e a saberem o quão são importantes para nós.
E quando isso não acontece? Talvez reste só o medo por detrás do cortinado espesso do resto dos dias. E toda a esperança se converta num estilhaço cruel do que não foi.
O ficarmos sós com esse sonho adiado e o mundo a doer custa muito. Custa não termos curtas-metragens de sol no nevoeiro da vida. Custa que ninguém nos rasgue a dor sem pedir e contarie o absoluto do sofrimento que nos aperta o peito.
Custa coleccionar os dias com espaços vazios que pertenceriam aos existires de outros. Porque amamos pelo futuro? Porque queremos a segurança do presente em todos os dias do resto do tempo? Porque é que o futuro quando acontece sem isso parece uma vida pela metade?
Talvez não devesse haver o céu lá no alto e o horizonte tão largo. E aí talvez não nascessem desejos de superação, talvez não me acontecesse a esperança.
A esperança quero-a por entre os medos. Para me encher esse grande vazio de incerteza. E faço-a de tudo o que se me infiltra, aqui se instala e prospera. Daquilo que me levam a acreditar que existe; do Sol que me levaram a acreditar nasceria da vontade de que houvesse luz. Mesmo quando eu não tivesse força para o desejar.
Vivemos a esperar a vida perdida? Vivemos de passar por cima dos sonhos e tantas vezes ignorar o que sonhamos como se fosse já carne?
Como superar o vazio que afinal foi tudo o que se concretizou?
Não sei. Aos sonhos que não se concretizam, guardo-os.
Como promessas que os outros me fizeram e em que acreditei. Promessas que talvez vivam agora da minha voz que as repisa e as ressuscita. Mas promessas.
E continuarei a imaginar a minha vida cheia da vida dos outros. E eu a viver inúmeros existires e vidas que o meu corpo assume como meus. E enquanto promessas se vão fazendo, é a vida que se cumpre e que é tudo o que temos. Como essa promessa que se cumpre todos os dias, enquanto se acredita.
'Custa coleccionar os dias com espaços vazios que pertenceriam aos existires de outros. Porque amamos pelo futuro? '
ResponderEliminarLindo. Vou pensar na resposta a essa pergunta e depois comunico. Só sei que é bom - e por isso quase sempre incontornável - meu querido stranger.