Rewind

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Passos

Choro nas lágrimas as palavras mudas
E há no que choro a voz calada
Da vida feita dos passos
Num caminho que não é o meu.

Ricardo Pinto Mesquita

domingo, 11 de janeiro de 2009

Do que fica

Podem não me ter ensinado a viver as palavras que sonhei poder dizer e entregar como parte da minha alma; podem não me ter dado dias serenos e uma felicidade contente os sonhos que fiz do tamanho do céu, para lá caber uma vida maior do que a nossa; podem não me ter dado caminhos seguros as noites onde te quis sempre encontrar para te dar a mão; podem não me ter deixado de doer as ausências a que nunca aprendi o nome; podem continuar a doer os rostos que gravei na pedra da minha saudade; podem nunca ter sido inteiros os dias depois de neles ter posto a medida combinada dos teus sonhos nos meus e não mais terem as noites o mesmo brilho, depois de ter sido meu um olhar na noite mais funda que é, às vezes, a da Vida. Podem não mais ter parado as lágrimas depois de ter prometido que ficariam todos os que acabaram partindo e não mais terem acabado as noites solitárias depois de terem ensinado ao meu coração o ritmo de algumas vozes. Podem não ter-se realizado metade dos meus sonhos por tê-los feito para um Mundo que não há; podem os dias ter ficado menos meus porque os sonhei com outras vidas na minha.
Mas foi mais vida e foi mais meu o que me aconteceu do que seria alguma vez viver apenas do que poderia ter sido mas que não seria meu. Como acaba sempre sendo de uma estrela o brilho apagado contra o bréu.

Nas ondas

Só as ondas do mar
Ouvem, na noite, meu lamento
Só a elas conto como é
Como é o sentimento
De ser mar e ter a água
Mas não mais haver céu
Lá no alto
E ser apenas a sombra
Tudo o que vejo e é meu.
Ricardo Pinto Mesquita

Do que foi

Foi dos meus olhos
A luz quieta do teu corpo
E a calma suave do teu respirar
Junto ao meu peito

Foi dos meus braços
O tremor inseguro do teu medo
E das minhas mãos
Foi todo o cansaço da vida que vestes

Foi enfim sereno meu sono
Por mais nada ter que sonhar
E nascer a cada dia com o Sol
A promessa cumprida que eras tu.
Ricardo Pinto Mesquita

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

No silêncio, as palavras

Gosto de igrejas vazias. Gosto de sentir que há espaço para mim e para aquilo que carrego debaixo do silêncio; gosto de sentir que não há ninguém a roubar-me o ar de que preciso e que me falta no peito, tantas vezes.
Tenho ido a umas igrejas, dessas escondidas da poeira do mundo e da sua voz, para ouvir o silêncio. Para ouvir as perguntas, para não ter nada com que as abafar e elas sairem assim - nítidas e pela minha voz.
Estive muitas vezes sentado num desses bancos, a desenrolar a alma e as suas curvas, sem ter de levantar muito a voz, sem ter de a ouvir sequer. Houve rostos que vi com a vida pendurada por um fio àquela nesga de esperança que era a paz emprestada por uns segundos.
Perguntava-me o que lhes iria debaixo da pele; o que seria isso da vida sair ao contrário mas continuar a ser vida.
Provavelmente não mais verei os rostos daquela gente que, fora do umbral daquelas portas, se perderá de mim, sem volta.
Fui lá para ouvir a profundidade das ausências, para ver até onde iria o avesso dos sonhos. Para ouvir o que calamos tantas vezes à superfície, por debaixo de uma vida que continua e que gostamos de acreditar que acompanhamos sempre. O Mundo não pára connosco. E o sentirmos que há nesse movimento incessante uma fibra e uma força que nos falta, faz-nos recolher a todos, sem excepção, ao silêncio que nos devolve como resposta um silêncio com a calma do peso que saiu. Um silêncio que tem como resposta um silêncio calmo como um abraço fechado, onde se choram lágrimas que são palavras feitas água.
Não fui para falar. Não fui para ouvir respostas. Fui para ouvir em mim o que sempre falou. E não tive medo de palavras que não queria ouvir, de esbarrar com a incompreensão.
Devolveram-me as paredes a calma e o silêncio, onde pude ouvir a memória do que já não tenho e, onde me pôde visitar assim banhada por uma luz tenra, a saudade infinita, que chegara. Não me senti sozinho naquele banco.
Levantei-me, olhei para trás, para aquele mesmo banco de igreja. Não sei quando voltarei. Sei apenas que ali ficou de mim o silêncio que não quebrei mas que ouviu dizer da minha boca em silêncio, o que o Mundo não pode ouvir sem palavras.
Havia saudade. E fiquei feliz - por ser a saudade a prova que dói do amor que ainda temos por alguém. Que dói o amor. Mas que, mesmo com dor, é amor. Como alguém que sai pela porta de uma igreja sem saber quando volta. Mas que voltando, tem um banco onde a luz nos recebe como os braços de alguém que nos ama.

Depois do sonho

Sonhei-te por cima dos dias
Imaginei-te em tudo e com tudo
Chamando-te apenas esperança
Enquanto não vinhas

Engoli o medo e as dúvidas
E ignorei as sombras da solidão
Em dias em que o vazio
Era tudo o que tinha na mão

Não te pedi que ficasses
Mas agora apenas pergunto
O que fica depois do sonho
O que fica depois de teres vindo
E mais nada haver que sonhar.


Ricardo Pinto Mesquita

domingo, 4 de janeiro de 2009

Lágrimas

Chorei lágrimas por baixo do orgulho, porque tive medo que nelas adivinhasses a nudez explícita com que o meu coração me gravou no peito a tua lembrança e se refez inteiro à tua medida para que nele coubesse o mais que eu que és tu.

Estar presente no Natal

As coisas podem ser sempre maiores do que imaginamos. Ou, se as imaginamos grandes, enormes e maiores do que nós, por vezes, elas existirem fora de nós ou atingirem-nos com esse golpe certo da reciprocidade, é algo que sempre nos faz sentir bem na nossa pele.
O que se passou comigo foi há uns dias já. Foi num jantar de Natal em que se sentiram algumas ausências, talvez por viver ainda em nós quem não pode ou não quer estar presente.
A noite corria com essa sensação que nestas ocasiões sempre nos visita - isso de termos debaixo da pele o pensamento a fugir e a chamar por dias onde nos sentimos mais inteiros.
Admito que sempre balanço a vida nestas alturas. Nestas e noutras, em boa verdade. Mas nestas é sempre bom o que ganhamos estar connosco para o fazermos a nossa defesa contra os arbítrios da vida e do mundo.
Não sabia o que me esperava. E o que veio fez-me sentir pequeno e, todavia, a pessoa mais importante do Mundo.
Talvez tenha alguém ouvido a minha voz, ou tenham tido os meus pensamentos como destinatário um destino de bom humor. Não sei. O que quer que tenha sido, resultou para mim como um grande presente - o melhor, sobretudo pela altura em que veio.
A noite corria e os dias contavam-se para que chegasse alguém que tinha feito falta todo aquele tempo. E, na verdade, o que aconteceu foi que esse alguém chegou assim, de repente, para animar uma noite que adivinhava ser prosaica e para parar a contagem dos dias para o regresso.
Esse alguém estava ali, embrulhado na surpresa e no espanto, mas ali. E ainda hoje me pergunto como foi possível aquilo - o estar ali alguém que sempre quisemos que chegasse, por cima de catorze horas de voo e uma otite, só para nos fazer felizes. Percebi o que valia acima de quê. Guardei aquela noite como uma em que alguém me provou que nos podem ouvir, mesmo do outro lado do Atlântico e chegar assim, como uma luz no meio da escuridão da Vida que, de repente, pareceu mais pequena.
Nenhum Natal terá este sabor. Não há muitas noites como esta. Com pessoas como esta. Que me aconteceram a mim.
Lucky me!

A Viagem do Elefante

Está lida a última obra de Saramago. Devorada, será talvez melhor termo. Mistura de saudade e vício só podem dar nesta enorme sensação de contentamento, onde as palavras pouco chegam ou, se acabam chegando ficam apenas perto do que é sentir uma saudade morta, mas logo pronta a nascer nas folhas que ainda não há.

Volta uma voz atenta, num tom de crónica, a fazer notar com a cirurgia habitual de uma linguagem cortante isso que é sermos gente. Isso de se abrirem em nós fendas onde se mistura o sentimento, onde se mistura o instinto, o medo, onde se infiltra a nossa humanidade que Saramago parece nunca deixar escapar.


Na viagem de um elefante, Salomão ou Solimão, sentimos que é em nós que o autor sempre acaba por tocar, não em vão, não sem aquela mordaz certeza que é para nós a ironia fina, o riso piedoso e a complacência resignada e sábia da sua voz.


Foi bom matar saudades ou, pelo menos, tentar fazê-lo. E talvez seja para mim esse o grande prazer desta obra de Saramago - o sentirmos uma sensação de prémio, de resgate. Não calou a doença esta magistral voz mas antes, ela voltou com o seu esplendor claro, cortante e fino e, isso, para fãs de Saramago e das suas letras como eu, é uma sensação de alívio e de alegria.


Obrigado a Pilar por, segundo o próprio Saramago, "não o ter deixado morrer."


E ainda bem.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Chuva

Conto à chuva
O arrepio que passa na minha pele
O arrepio triste e fácil
De ser meu peito o chão onde ela cai
E ser minha memória
Uma rua molhada e escura
Onde passa a minha voz a chamar
Pelos passos de alguém que já não vem.

Ricardo Pinto Mesquita