"The only way of catching a train I have ever discovered is to miss the train before." Chesterton (1874 -1936)
Rewind
domingo, 11 de julho de 2010
sábado, 10 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
rewind.
Ficava muitas vezes quieto. Se lhe vissem o rosto todo ele era uma espécie de promontório para onde tudo o que era se escapulia - como na direcção do mar, como num mergulho veloz. E não se afastava dos outros para os evitar - mas no silêncio podia escutar melhor as suas vozes, relembrar-lhes infinitas vezes um sorriso mais aceso ou uma qualquer ideia que ele quisesse assentar, como com medo de que o vento a levasse. A saudade era isso mesmo - ouvir chamar em nós a voz de um outro nome, querer um corpo que nos sirva, um espaço onde possamos, enfim, parar enquanto a noite desce, devagar, com um rumor amplo de calor e cheiro a fruta.
E não sentia que os rostos fossem menos seus - gostava de os relembrar para não os perder - como uma passagem breve para ter a certeza que o amor ainda habita os lugares de sempre.
A luz que as memórias acendiam nele, usava-as como um antídoto. Como para se certificar que o tempo não levara as palavras, escritas num papel, que queria ver amarelecer.
Trazia todos para se sentarem, de novo, em volta de uma mesa numa noite aberta e funda como um olhar sincero. Coleccionava memórias - como páginas lidas e relidas vezes sem conta; ou um filme visto e revisto. E sempre sorria ao reparar num pormenor que o impacto do amor, assim a quente, o tinha impedido de ver. Como um pequeno toque, uma pequena cumplicidade que a visita que fazia permitia salvar do esquecimento. Compreender os outros é, frequentemente, vê-los em retrospectiva; chegar e sentarmo-nos à mesa dispostos a que a noite dure sempre; arranjar tempo para ver até onde se desenham os contornos que pusemos na face das horas.
E não lhe sabia a vida a roupa velha e gasta com que vestia os dias por vir. Viver é isso mesmo - reparar que os despojos do mundo, que carregamos todos, não raras vezes ainda nos servem.
Gostava de ver de perto - demorar a atenção no rosto de alguém que amava. E sentia-se bem nessa companhia sem corpo que chamava para perto de si.
Essa era talvez a verdadeira cumplicidade - a que sentimos existir sem corpos, porque exactamente se forja do que alimenta a lembrança e mora do lado de lá do espaço.
Ter tempo era reviver - era, muitas vezes, um agradecer silencioso pela profundidade de alguns momentos. E pensar que a sorte nos aconteceu. E guardar todo esse manancial espesso - isso a que chamamos passado - como um trunfo sobre as linhas que vamos ter de escrever mais à frente. A gramática da humanidade faz-se disso mesmo: da memória que a pele guarda escondida e cujo nome o sabe o nosso peito.
terça-feira, 6 de julho de 2010
quinta-feira, 1 de julho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
tempo.
Costumava pensar que o tempo é o melhor solvente. Da proximidade, e só dela, nasce o amor e a desilusão. E só sem ela se pode voltar a amar o mesmo porque nos deixa de cercar o que exactamente tanto nos magoa. Mas o que fica no fim de contas? Será um esqueleto sem carne ou as cinzas de um fogo que teve fim? Como se a acalmia chegasse depois da angústia se cansar e deixar de ladrar, tal como um bicho que, exausto, acaba por serenar. E o que justamente recomeça? Será amor - numa dessas infinitas recombinações dos seres e das relações?
Pensava que a proximidade cria o contraste, acentua o contorno do que somos. E, com ela, chega o risco da desilusão - porque o melhor avistado assim de perto surge truncado, de súbito, pelo pior, assim tornado mais nítido e explícito. Estar perto, viver de perto é reconhecer a imperfeição do outro. E é aí que talvez começe o verdadeiro amor: talvez só aí ele exista - quando se ama por cima ou acima disso mesmo. O amor é o resgate que pagamos para ter alguém de volta. Como se o perdão libertasse o outro. Porque o perdão é uma coisa feita e gerada no íntimo da nossa humanidade; daquilo que todos trazemos escrito como um código na correnteza do sangue.
E sentimos que perdoamos quando damos a mão. Quando, por se recomeçar, estamos a dar a mão ao que nos torna capazes de tanto, no meio de tão pouco.
Perdoar é abraçar o mais íntimo de nós mesmos e reconhecer que aquilo que foi amado nunca deixa de ser uma memória que podemos, um dia, retomar e levar, de novo, para o caminho.
domingo, 27 de junho de 2010
ferembal house_jean prouvé.
Uma boa notícia. "Ferembal house" estará, em breve, pronta para correr mundo e dar a conhecer a fabulosa obra de jean prouvé. E o mérito cabe a patrick seguin. Em 1940, jean prouvé desenvolveu um sistema de construção em massa de casas para os deslocados da guerra. Eram precisos apenas cerca de três homens e um dia para o processo estar concluído. Um processo semelhante ao destas "maison des sinistrés" foi usado na casa ferembal. Esta, contudo, foi construída com o propósito de servir de escritórios de uma fábrica de latas de um amigo de prouvé. Construída em 1948, na sua cidade natal, Nancy, a fábrica acabou por vir a desaparecer em 1978. Destino quase idêntico teve esta obra. A sorte quis que seguin conseguisse adquiri-la da pessoa que a havia recolhido, pela quantia de 1500 euros. A obra está, hoje, avaliada em cerca de 8 milhões.
Contudo, para que a casa se possa deslocar seguin recorreu aos serviços de outro portento da arquitectura contemporânea - o mestre jean nouvel, seu amigo, aliás. O processo de construção envolveu um esforço e um cuidado imensos por parte do último - este quis que se notasse, contudo, que esta simbiose resulta de dois contributos absolutamente distintos. A grande diferença reside sobretudo na escolha dos materiais.
Paris poderá apreciar esta obra já este Outono. Seguin, que é proprietário de uma esplêndida galeria perto da Bastilha, detém também o edíficio escola de Boqueval, norte de Paris, construído em 1949. Este, também em processo de adaptação por parte de Nouvel, foi comprado por seguin com o intuito de ser a sua residência. Esperemos que ferembal house passe por cá.
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