Chorei lágrimas por baixo do orgulho, porque tive medo que nelas adivinhasses a nudez explícita com que o meu coração me gravou no peito a tua lembrança e se refez inteiro à tua medida para que nele coubesse o mais que eu que és tu.
"The only way of catching a train I have ever discovered is to miss the train before." Chesterton (1874 -1936)
Rewind
domingo, 4 de janeiro de 2009
Estar presente no Natal
As coisas podem ser sempre maiores do que imaginamos. Ou, se as imaginamos grandes, enormes e maiores do que nós, por vezes, elas existirem fora de nós ou atingirem-nos com esse golpe certo da reciprocidade, é algo que sempre nos faz sentir bem na nossa pele.
O que se passou comigo foi há uns dias já. Foi num jantar de Natal em que se sentiram algumas ausências, talvez por viver ainda em nós quem não pode ou não quer estar presente.
A noite corria com essa sensação que nestas ocasiões sempre nos visita - isso de termos debaixo da pele o pensamento a fugir e a chamar por dias onde nos sentimos mais inteiros.
Admito que sempre balanço a vida nestas alturas. Nestas e noutras, em boa verdade. Mas nestas é sempre bom o que ganhamos estar connosco para o fazermos a nossa defesa contra os arbítrios da vida e do mundo.
Não sabia o que me esperava. E o que veio fez-me sentir pequeno e, todavia, a pessoa mais importante do Mundo.
Talvez tenha alguém ouvido a minha voz, ou tenham tido os meus pensamentos como destinatário um destino de bom humor. Não sei. O que quer que tenha sido, resultou para mim como um grande presente - o melhor, sobretudo pela altura em que veio.
A noite corria e os dias contavam-se para que chegasse alguém que tinha feito falta todo aquele tempo. E, na verdade, o que aconteceu foi que esse alguém chegou assim, de repente, para animar uma noite que adivinhava ser prosaica e para parar a contagem dos dias para o regresso.
Esse alguém estava ali, embrulhado na surpresa e no espanto, mas ali. E ainda hoje me pergunto como foi possível aquilo - o estar ali alguém que sempre quisemos que chegasse, por cima de catorze horas de voo e uma otite, só para nos fazer felizes. Percebi o que valia acima de quê. Guardei aquela noite como uma em que alguém me provou que nos podem ouvir, mesmo do outro lado do Atlântico e chegar assim, como uma luz no meio da escuridão da Vida que, de repente, pareceu mais pequena.
Nenhum Natal terá este sabor. Não há muitas noites como esta. Com pessoas como esta. Que me aconteceram a mim.
Lucky me!
A Viagem do Elefante
Está lida a última obra de Saramago. Devorada, será talvez melhor termo. Mistura de saudade e vício só podem dar nesta enorme sensação de contentamento, onde as palavras pouco chegam ou, se acabam chegando ficam apenas perto do que é sentir uma saudade morta, mas logo pronta a nascer nas folhas que ainda não há.Volta uma voz atenta, num tom de crónica, a fazer notar com a cirurgia habitual de uma linguagem cortante isso que é sermos gente. Isso de se abrirem em nós fendas onde se mistura o sentimento, onde se mistura o instinto, o medo, onde se infiltra a nossa humanidade que Saramago parece nunca deixar escapar.
Na viagem de um elefante, Salomão ou Solimão, sentimos que é em nós que o autor sempre acaba por tocar, não em vão, não sem aquela mordaz certeza que é para nós a ironia fina, o riso piedoso e a complacência resignada e sábia da sua voz.
Foi bom matar saudades ou, pelo menos, tentar fazê-lo. E talvez seja para mim esse o grande prazer desta obra de Saramago - o sentirmos uma sensação de prémio, de resgate. Não calou a doença esta magistral voz mas antes, ela voltou com o seu esplendor claro, cortante e fino e, isso, para fãs de Saramago e das suas letras como eu, é uma sensação de alívio e de alegria.
Obrigado a Pilar por, segundo o próprio Saramago, "não o ter deixado morrer."
E ainda bem.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Chuva
Conto à chuva
O arrepio que passa na minha pele
O arrepio triste e fácil
De ser meu peito o chão onde ela cai
E ser minha memória
Uma rua molhada e escura
Onde passa a minha voz a chamar
Pelos passos de alguém que já não vem.
O arrepio que passa na minha pele
O arrepio triste e fácil
De ser meu peito o chão onde ela cai
E ser minha memória
Uma rua molhada e escura
Onde passa a minha voz a chamar
Pelos passos de alguém que já não vem.
Ricardo Pinto Mesquita
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Dúvida
Morde-me em socos
Uma raiva súbita
De não haver no Mundo
Nada que seja certo
Dói-me que não haja na vida
Isso da vida sempre perto
Não me bastam as àrvores
E os caminhos sabidos
Quero sonhos despidos
Quero os dias perdidos
Não sei a quem peça
Que fiquem
Que fiquem de mim
Meus afectos
Só sei que os dias assim
São tão grandes desertos.
Uma raiva súbita
De não haver no Mundo
Nada que seja certo
Dói-me que não haja na vida
Isso da vida sempre perto
Não me bastam as àrvores
E os caminhos sabidos
Quero sonhos despidos
Quero os dias perdidos
Não sei a quem peça
Que fiquem
Que fiquem de mim
Meus afectos
Só sei que os dias assim
São tão grandes desertos.
Ricardo Pinto Mesquita
Passos
Vejo-me há uns tempos
Passeando nas ruas do agora
Lembrando caras que vi
E deixei ir embora
Havia sombra e desgosto
Havia solidão e desalento
E eu seguia feliz
Seguro do meu próprio intento
Nas feridas que adivinhei naqueles peitos
Estava eu adiado
E hoje que me vejo nas ruas
Sou eu a isso condenado.
Passeando nas ruas do agora
Lembrando caras que vi
E deixei ir embora
Havia sombra e desgosto
Havia solidão e desalento
E eu seguia feliz
Seguro do meu próprio intento
Nas feridas que adivinhei naqueles peitos
Estava eu adiado
E hoje que me vejo nas ruas
Sou eu a isso condenado.
Ricardo Pinto Mesquita
Esquecimento
Pena de quem só ama e cuida
O que vê, o que está perto
Pena dos que dão passos para longe
E não as mãos
Quando o coração se estreita
Sob o peso de um corpo cansado
Pena de quem ergue paredes
Fecha portas e sobe muros
Para que fique de fora
A súplica, o pedido, a saudade
Cuidando que assim
Não mais existe quem sofre
Não mais se lembra o lamento
Não mais existe ninguém
Mas pena também
Ou talvez não
Que somente isso se possa apagar
Do fundo de uns olhos que já não veêm
Mas se não possa apagar também
A culpa, essa, que não esquece ninguém.
O que vê, o que está perto
Pena dos que dão passos para longe
E não as mãos
Quando o coração se estreita
Sob o peso de um corpo cansado
Pena de quem ergue paredes
Fecha portas e sobe muros
Para que fique de fora
A súplica, o pedido, a saudade
Cuidando que assim
Não mais existe quem sofre
Não mais se lembra o lamento
Não mais existe ninguém
Mas pena também
Ou talvez não
Que somente isso se possa apagar
Do fundo de uns olhos que já não veêm
Mas se não possa apagar também
A culpa, essa, que não esquece ninguém.
Ricardo Pinto Mesquita
Se um dia
Estivesses tu como estou
Faltasses tu à tua vida como eu
Pedisses tu como peço
Pelo que foi de mim
E estaria lá eu
Todo feito, de novo, esperança
Todo feito, de novo, defesa
Força, mão e corpo
Estivesses tu tão longe do que precisas
Como eu
E do longe pela minha mão
Se faria perto
Se te desabasse o mundo nas lágrimas
Secaria eu a tua dor com a areia da minha vida
Se um dia fores tu e a tua pele
Viagem que se fez sem ti
Estarei lá eu
Porque já terei estado assim
Mas eu não fujo dos meus
Como não fujo de mim.
Faltasses tu à tua vida como eu
Pedisses tu como peço
Pelo que foi de mim
E estaria lá eu
Todo feito, de novo, esperança
Todo feito, de novo, defesa
Força, mão e corpo
Estivesses tu tão longe do que precisas
Como eu
E do longe pela minha mão
Se faria perto
Se te desabasse o mundo nas lágrimas
Secaria eu a tua dor com a areia da minha vida
Se um dia fores tu e a tua pele
Viagem que se fez sem ti
Estarei lá eu
Porque já terei estado assim
Mas eu não fujo dos meus
Como não fujo de mim.
Ricardo Pinto Mesquita
Vi no mar
Vi no mar uma raiva solitária
Escureceu-se-lhe o génio
E vieram as nuvens à sua mente
Enquanto bramia seus gritos de chofre nas rochas
Vi no mar a mesma revolta que a minha
Também em mim havia nuvens
Mas só as rochas as não havia
Vi no mar a mesma face de sempre
Reconheci-lhe o gesto magoado e cansado
E perdoei-lhe as ondas revoltas
Porque vi nele a mesma fenda que em mim
Uma dessas fendas que nos separa assim
Do Mundo que fica longe de nós
Quando o que esperavamos dele
Era a praia deserta onde
Depois dos gritos
Ficasse ela connosco nos braços abertos
Molhada das lágrimas nossas
Marcada da espuma da raiva
Que fez sua.
Escureceu-se-lhe o génio
E vieram as nuvens à sua mente
Enquanto bramia seus gritos de chofre nas rochas
Vi no mar a mesma revolta que a minha
Também em mim havia nuvens
Mas só as rochas as não havia
Vi no mar a mesma face de sempre
Reconheci-lhe o gesto magoado e cansado
E perdoei-lhe as ondas revoltas
Porque vi nele a mesma fenda que em mim
Uma dessas fendas que nos separa assim
Do Mundo que fica longe de nós
Quando o que esperavamos dele
Era a praia deserta onde
Depois dos gritos
Ficasse ela connosco nos braços abertos
Molhada das lágrimas nossas
Marcada da espuma da raiva
Que fez sua.
Ricardo Pinto Mesquita
Nas ruas
Conto à noite
Em segredo por essas ruas
O filme agora mudo da memória
Confio-lhes o manto de dúvida
E de cansaços
E nas janelas onde havia Sol
Nasce nas vidraças uma sombra opaca
Não assomam os rostos de outrora
Não há abrigo nem calma
E enganam-se meus passos
À procura do que já não há
Há o silêncio de portas fechadas e ruas estreitas
Onde não chega a luz
Como se só no escuro
Eu visse o que há de igual dentro de mim
Lugares onde não chega nada
Ruas onde só passo eu
Onde só passa do que fui
A sombra engolida pelas pedras da calçada.
Em segredo por essas ruas
O filme agora mudo da memória
Confio-lhes o manto de dúvida
E de cansaços
E nas janelas onde havia Sol
Nasce nas vidraças uma sombra opaca
Não assomam os rostos de outrora
Não há abrigo nem calma
E enganam-se meus passos
À procura do que já não há
Há o silêncio de portas fechadas e ruas estreitas
Onde não chega a luz
Como se só no escuro
Eu visse o que há de igual dentro de mim
Lugares onde não chega nada
Ruas onde só passo eu
Onde só passa do que fui
A sombra engolida pelas pedras da calçada.
Ricardo Pinto Mesquita
Subscrever:
Mensagens (Atom)