Rewind

sexta-feira, 27 de março de 2009

Oficinas do Pensável - OdP

Esta iniciativa organizada no quadro das actividades da UPP – Universidade Popular do Porto é, antes de mais, um lugar de intercâmbio onde falamos do nosso trabalho e conhecemos o dos outros. Tudo porque rejeitamos essa espécie de “solidão especializada”, hoje tantas vezes prevalecente, e reconhecemos que o conhecimento é sempre mais do que a soma das suas infinitas partes.Somos uma oficina onde o pensar é um trabalho de todos para todos. Por isso, junta-te a nós no esforço de alargar os limites do pensável.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Thoughts

Claro que o ódio também cansa. Depois de odiares tudo no mundo já só te resta odiares-te a ti próprio. O idealismo nunca te cansa; o extremismo esgota-te.

terça-feira, 17 de março de 2009

Conversas

"- Os médicos podiam começar a mandar as pessoas fazerem as suas caminhadas nos shoppings em dias de mau tempo. Anda-se uns bons quilómetros."
"- Ah, já percebi porque é que vejo lá tanta gente de fato de treino nos domingos à tarde..."

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Conselhos IV

"Cada um vê aquilo que espera. Parece estranha esta afirmação. Vemos o que esperamos! É assim. Se o que espero são desgraças, só vejo desgraças e tudo me parece já mal. Mas se o que espero (e sei que vem) é o Bem, tudo já são sinais desse bem. É isso que me purifica o olhar e me liberta de fantasmas. Quem sabe que o Bem vem, já vê o bem a vir. Vê com bons olhos, mesmo no meio do nevoeiro."
Padre Vasco Pinto de Magalhães

Conselhos.III

"Não podemos viver sem coragem! Sem coragem ninguém sairia de casa, ninguém entraria num avião, ninguém ligaria um aquecedor. Tudo pode rebentar! Mas a coragem maior é aquela de que precisamos para sermos coerentes connosco próprios e com os nossos valores, sobretudo quando todos os atacam ou se riem deles. Sem coragem não há personalidade nem felicidade!"

Pe. Vasco Pinto de Magalhães

La Boheme


La Boheme - Charles Aznavour

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O Café de Fassbinder


"Oportunistas, jogadores compulsivos, cafeíno-dependentes, cowboys anacrónicos, gangsters, adúlteros incorrigíveis, falsários, criados endinheirados & outras criaturas virtuosas formam a fauna de O Café, a peça que o hiperactivo R. W. Fassbinder compôs após uma única leitura da comédia homónima de Carlo Goldoni. Na sequência da montagem da obra setecentista, encenada há um ano por Giorgio Barberio Corsetti, o TNSJ entregou a paráfrase livre de Fassbinder nas mãos de Nuno M Cardoso (...)"


"O vício é um dos temas mais fortes, e está tão patente na voragem do jogo como no consumo de droga. O café é aqui uma droga – ou a droga. A viciação atinge e corrompe as próprias relações. Elas estão viciadas, ou são, de alguma forma, viciantes. Diz-se por vezes que há uma “química” entre pessoas. Aqui há um químico, uma substância que gera uma dependência nos relacionamentos e impede que as personagens se libertem. O que coíbe, por exemplo, Vittoria de se libertar de um marido incorrigível? Ou o que faz Placida correr atrás de um traste como Leander? Há uma outra coisa que me parece importante assinalar: a sobrevivência pós-perda total. Eugenio e Vittoria sobrevivem à perda de tudo, incluindo a perda dos brincos, que são descritos como “o que resta da nossa felicidade”. Todas estas criaturas são, à sua maneira, sobreviventes. Sobrevivem à falência afectiva, à falência das relações e do que socialmente as sustenta, à falência de todos os valores, pulverizados pelo vício e pelo jogo. Mesmo os que ganham – como Leander, que ganha apenas ilusoriamente – estão em falência absoluta. É uma liquidação total. O capitalismo aqui instaurado não serve para criar uma “sociedade feliz”, uma sociedade em que se evolui para um bem-estar comum ou para o bem-estar de quem quer que seja. Apenas produz sobreviventes."

Nuno M Cardoso


Uma peça brilhante que vale a pena ir ver!

Na chuva


Chovia tanto nesse dia, meu amor. O céu era um chão pesado de chumbo. O asfalto das ruas a pele morta de um rio sem fundo. Segurava-te a mão com os teus dedos compridos enlaçados na pequenez impotente do meu corpo. Via-te nos olhos a areia fina de lágrimas contidas e envergonhadas.

O teu corpo pedia-me: "Olha a chuva." E, então, percebi que querias a cortina dela para poderes chorar todas as lágrimas que o teu corpo continha. E seguravas a tua mão na minha, como a bóia que te impediria de sucumbir no mar do pranto. Falava-me tanto esse silêncio de água lançada contra o corpo altivo e prepotente dos prédios e das casas, nas ruas. Também as tuas lágrimas eram o rio de protesto contra o que morava na tua vida, sem que o habitasses. O teu grito de raiva escrito na água das tuas lágrimas.


Tinhas o corpo molhado, com a água a dobrar as esquinas dos teus ossos. O cabelo num desalinho de cola na pele do teu rosto. Tudo o que se ouvia era o mundo calado. Era o vento a chicotear as nossas costas e a varrer o caminho. E tu a alma que desabita a existência que acontece sem ti. Saíste do palco da tua vida para a deixares no espaço vazio das ruas. Tinhas esperança que no corpo da água dos teus olhos se misturasse a água do céu e a elas, as pisassem os pés da gente que chegaria.


Foi maior do que eu e a minha vontade encostou o teu rosto ao meu peito. Puseste as mãos nas costas do meu pescoço - senti dar-se um nó na pele dos teus dedos.


E o meu peito foi o chão onde caíram as lágrimas - tuas e do mundo. Segurava-te inteira nos meus braços e senti que tinha inteiro o céu.




"- Olha a chuva" - dizias. E foi nos teus olhos que encontrei a mais perfeita delas, caindo inteira na terra dos meus braços. E nas ruas do meu corpo tudo o que passou foram os passos do meu amor por ti. Com cheiro a terra molhada.


O continuar


Há coisas que acabam na nossa vida. Coisas que, de repente, não podemos mais seguir. Coisas que seriam o corpo e a causa dos dias mas que não chegam mais. E nós continuamos e continua a ser vida os dias que vêm sem o nosso sonho na palma da mão.

Custa chamar a isso vida. Ou mesmo que lhe chamemos vida e saibamos que ela corre, o difícil é mesmo sentir que estamos inteiros no tempo que passa por nós.

Continuar significa, pois, seguir em frente depois de deixarmos para trás algo que era nosso. E sabe a perda. Tem esse sabor de prisão e vazio.

E a sua vida continuava. Mas, às vezes, com o mar em fundo e vozes recentes que lhe falavam, pensava onde estaria se o que continuasse fosse o filme parado no silêncio. Estranha essa sensação, quase certeza, de que estaria noutros lugares e os rostos seriam outros.

Estranha essa sensação de saber que há uma imagem da vida que poderia ter sido. Pensava só que a nossa vontade de trilhar novos caminhos pode vir de encruzilhadas que chegam ao fim. Ou talvez o que nos levasse para a frente não fosse vontade - não fosse esse desejo nas veias, mas antes uma esperança de encaixarmos o nosso corpo e espírito num vazio um pouco mais cheio.

Tivera já de continuar. E, não raras vezes, encontrara uma vontade de ficar no caminho aberto no avesso da vida. E o continuar podia ser o começar. O começar por reconhecer nas coisas novas razões para ficar. Tudo no mundo continua, afinal. Nada é como no primeiro dia. E a vida que corre nas ruas é uma versão fortalecida do sonho. Fortalecida por esses amores imprevisíveis que, quando olhamos, percebemos terem começado exactamente no avesso disso, sem nada que fosse a nossa vontade a chamar-lhe o nome que ainda não tem.

E, aos poucos, os seus dias enchiam-se de coisas que poderia ter perdido. E o segredo era esse: pensar no que teria perdido se não tivesse havido uma fenda na certeza que era o chão dos dias que viriam. Vieram os dias. E talvez não tivesse vindo o mesmo chão de sempre. Mas havia o homem. E a vontade de chamar seu ao caminho que agora se abria.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O esquecimento

Quanto tempo demora o esquecimento a chegar? Quanto tempo se demora a esvaziar a nossa lembrança de alguém?
Lembrava-se sempre do tempo em que gostar era coleccionar a vida como se a simplicidade das coisas fosse o que tem mais valor. Guardava sempre os momentos mais raros - esses em que a vida se assemelha tanto a um corpo sem peso; a um corpo sem ele ou sem os seus limites.

O esquecimento demora sempre mais quando o amor foi intenso ou longo. Como se a borracha do seu lápis nunca chegasse para roubar às nervuras das páginas o sabor do que aí ficou gravado.
E mesmo do que engole o véu do olvidar fica sempre a marca sem cor das letras da nossa vida. Como uma folha marcada pelo corpo agora ausente do que já não há. Perguntava-se, por isso, se esquecer seria verdadeiramente possível. Porque querer esquecer, com a vontade de um desejo lá no meio, significava lembrar o que se queria esquecer.

Quando chamamos o esquecimento as coisas são uma recordação maior do que nós. E aí percebemos o quanto delas é nosso e quanto somos no que delas existiu.

Não sabia se alguma vez se esqueceria alguém ou alguma coisa. Talvez esquecer fosse ensinar ao coração a não chamar pelo nome do que lhe dissemos ser nosso. O esquecer é evitar passar por certos caminhos e evitar ver certos rostos. Até que desaprendemos como chegar até eles. Sabemos que eles existem; sabemos onde estão mas não sabemos mais como chegar até eles.

O esquecimento é a exclusão de partes do mundo. Como se nos tirássemos de uma parte do mundo para que ele deixe de nos reconhecer.

Esquecer não é apagar as coisas. Talvez seja não passarmos tanto por elas, como se o lápis não pudesse mais carregar fundo nas letras daquela estória.

Esquecer não é, pois, a absoluta dissolução do que fomos. Esquecer é lembrar mas não desejar mais o corpo do que se lembra. Esquecer é poder lembrar sem desejo.

Sabia pois que o esquecer era lembrar menos vezes. Lembrar e parar no momento em que não mais se pode desejar o que foi.

O esquecimento enquanto utopia de destruição total só persiste enquanto há ressentimento ou mágoa. Como se tentássemos provar a nós próprios que a nossa vontade pode desdizer o que aconteceu acima dela.

Depois dele vivemos na ilusão a que chamamos esquecimento. Mas, na verdade, podíamos chamar-lhe contemplação. Sabemos que o corpo das coisas está lá e mora connosco. E olhamos para elas com um olhar onde cabe a serenidade do que já não dói.

O esquecimento é, então, o esquecer a forma como recordávamos as coisas. Ou viver com a corpo dessa recordação mas aceitar lembrá-las da forma como elas podem ser.

E a forma como elas podem ser é, em geral, um não-ser do que já foram. Por isso custa tanto. Porque sabe a menos do que já foi. Porque sabe a pouco.

Mas com o tempo e o seu balouçar o nosso sonho encaixa-se no imperativo das possibilidades.

E talvez depois de termos teimado em esquecer, o que fique em nós das coisas seja a forma de as mantermos vivas. E de elas existirem sempre connosco.
*"A Persistência da Memória" de Salvador Dalí.