Rewind

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Um risco no céu

Há dias que começam assim - o horizonte esgotado como a esperança debaixo do cimento do desalento. Dias com a sensação de derrota antes mesmo do começo.
O Mundo a parecer, de repente, uma longa e profunda sensação de aridez - o corpo de pedra e granito dos prédios; os passeios e os carros que passam - tudo demasiado concreto, nessa nudez despida de sentido. E a sucessão do tempo como a moldura de uma paisagem e apenas isso.

Isto aqui pode, de repente, ser somente isto: a pedra das estátuas uma harmonia cujo som não se ouve; a pintura como uma morada que não habitamos; a música palavras que não nos dizem onde mora a paz.

E, nesses dias, ele procurava imaginar tudo de cima. E via o céu num desses dias de luz, beijando as folhas ainda presas nos poros do asfalto.

E havia um risco no céu - nessa enorme planície azul, um risco percorria um caminho, que os seus olhos seguiam. E pareceu-lhe singelo esse simples traço no manto imenso e uniforme - uma pequena conquista.

E lembrou-se de que os dias como esse - com o traço baço da dúvida - podem servir para atentarmos na parte e não no todo: na nossa casa, a lareira acesa e o mar que nos vê a vida pelos vidros das janelas; nos sorrisos abertos como braços que nos acolhem; no curar das feridas depois da distância ir morar nas nossas costas.

Há dias assim: em que o sentido das coisas parece morrer sob o corpo moldado pelo hábito. Mas, nesses dias, ele pensava no sentido muito maior que faziam as pequenas coisas: alguém que chega para nos mergulhar numa gargalhada; alguém que partilha um segredo ou um beijo longo numa esquina qualquer.

Ele pensava nas imagens em cujo muro se inscrevera o seu passado: eis rostos felizes; corpos pequeninos donos de expectativas enormes.

Os mesmos prédios e a vida, às vezes, como uma valsa mecânica nas ruas; o carvão escuro das fachadas e o chumbo reflectido no espelho dos passeios.

Sempre houve dias assim - em que o Mundo não fazia sentido nenhum ou, o sentido que fazia era apenas esse: o dos lugares onde mora o que somos.

E, de novo, lembrava - agora com o corpo maior e os sonhos, por vezes, menores - que não importa o todo. Importa precisamente essa parte onde mora a vida, presa no olhar de quem sempre nos espera; esse nosso caminho que abrimos por entre o que não dominamos e, no fundo do qual, sempre existe luz.

Como um risco no céu de uma manhã de Sol.

domingo, 11 de outubro de 2009

Tears for affairs by Camera Obscura

Noite

Há noites que desejava se prolongassem indefinidamente. Noites que, como grandes goles sôfregos, nos engolissem por inteiro. Há na noite essa espécie de consolo - como se finalmente se pudesse respirar fundo. E, então sim, deixar que o compasso do sangue ganhe finalmente voz, enquanto as bátegas da vida cessaram.
A noite é sempre só nossa. Ou para quem nos pode ou consegue ver de perto. Como se num fundo negro apenas se visse o nosso rosto - esse que só alguns conhecem verdadeiramente.
A cidade ilumina o seu corpo - pequenos pontos de luz e as vagas amplas e serenas do silêncio.
E isso como uma espécie de trégua. Há dias a que não pertencemos. E quando, enfim, chega a noite sabemos o que tanto nos sobra ou não nos chega.
Poucos ficam connosco à noite - esses com quem partilhamos a espessura e o volume do, tantas vezes, indizível. Esses com quem partilhamos a segurança de se poder ouvir o silêncio.
E surgia, então, esse desejo de que algumas noites pudessem engolir os dias. De que ainda não fosse tempo de retomar os gestos que o mundo diz pertencerem-nos.
A noite é, então, o tempo das ausências ou dos excessos. E poucos nos conhecem nessas horas - quando ao espírito falta ensejo ou quando lhe sobra o tempero.
A esses aprendemos a associar as noites da nossa vida - os que partilham connosco as falhas que mais ninguém vê, ou os desejos que mais ninguém acende.
A noite talvez nos diga a verdade. Se passarmos os dias a fugirmos de nós mesmos, talvez a noite nos diga o que fizemos da vida. Ou o que a vida fez de nós.
Gostava quando as noites se prolongavam indefinidamente. Porque havia horas em que lhe sobrava o desejo e, outras, em que lhe faltava a medida exacta das coisas. E quando sempre chegava alguém - esses rostos familiares, ele percebia que há na vida coisas que se tornam bocados de nós mesmos - que nos faltam ou nos completam, consoante as noites da nossa vida.

sábado, 10 de outubro de 2009

Vanished by Crystal Castles

Respiro

Respiro conta a história de Grazia, Pietro e dos seus três filhos. A primeira é a personagem central. Numa aldeia da ilha de Lampeduza tudo decorre com normalidade - os homens pescam e as mulheres ajudam-nos e cuidam dos filhos. Mas Grazia não é assim -dona de um espírito livre e incoformado cedo atrai sobre si as atenções de todos. Pietro, amando-a incondicionalmente, finge ignorar os humores da mulher até que, tornando-se Grazia uma presença cada vez mais comentada, todos decidem enviá-la para Milão para tratamento.
Pasquale, um dos seus filhos, protege a mãe e ajuda-a. Tudo para os manter a todos unidos. Uma excelente reflexão sobre o peso das convenções e, sobretudo, uma lição sobre o amor.

Com uma belíssima fotografia e uma perfeita Valeria Giolino, Respiro, a primeira longa metragem de Emanuele Crialese, acabou por ganhar na Semana da Crítica no Festival de Cannes, em 2002.


O carteiro de Pablo Neruda. Il postino

Há muito que o cinema italiano nos habituou a histórias simples - histórias intensas, verdadeiras mas contadas sem grandes artifícios. "O Carteiro de Pablo Neruda" é uma dessas. Adaptado para o cinema, o filme conta-nos a história do escritor chileno Pablo Neruda e de Mário, o seu carteiro e, mais tarde, companheiro e amigo.
Encontrando-se exilado em Itália por motivos políticos, Pablo desenvolve por Mário um enorme afecto. É, aliás, o escritor que o acompanha no seu amor por Beatrice Russo. Uma trama plena de momentos verdadeiramente profundos onde o humor, o amor e a amizade tecem uma história inesquecível. Recheado de diálogos muito ricos; de um lirismo e intensidade muito próprios este é um daqueles filmes que são um testemunho - um testemunho desse reduto de raridade e beleza que dificilmente se encontram.

Curioso é pensar que o actor e argumentista Massimo Troisi (Mario Ruoppolo) morreu, de crise cardíaca, apenas doze horas após a conclusão das filmagens. Dele fica um papel brilhante, merecedor do Óscar para melhor actor, em 1994. E a certeza de que as coisas maiores do que nós, essas, nunca morrem.

O Sr Breton e a Entrevista de Gonçalo M. Tavares

Há livros que nos esperam sem o sabermos. E, no caso deste, quem o escolheu sabia o que fazia. Um bom presente, portanto. O reencontro com Gonçalo M. Tavares foi para mim mais emocionante do em "Jerusálem".
Esta obra é um breve repositório de palavras - breve no sentido de que a narrativa é curta, mas funda no sentido em que o autor cava fundo no desenrolar das questões. Um discurso profundamente reflexivo retrata o Sr. Breton num monólogo - um monólogo que fica sem resposta. No papel ficam as interrogações- essas que observam a poesia e lhe tentam diagnosticar o carácter; essas que procuram captar-lhe a pulsação e traçar-lhe o retrato fiel.

Surpreendente a temática neste escritor - Gonçalo M. Tavares é a voz meticulosa e exacta de narrativas calculadas. Ao vestir a pele do Sr. Breton, M. Tavares é como um relator de um monólogo que o próprio André Breton poderia ter tido. Em frente de um espelho, com um gravador pelo lado. Numa casa de um bairro qualquer.


Obrigado J.


"4ª pergunta:


Tenho a convicção de que um escritor acredita mais na palavra deus do em Deus propriamente dito. E este modo de colocar a linguagem no quarto principal do palácio não é de forma alguma exclusivo dos poetas, pois também os que trabalham com leis confiam mais nas palavras do que na vida em geral. Ou seja: confiam menos nas coisas que vão acontecendo antes ou durante a existência do verbo do que no verbo propriamente dito.

Para descrever o aparecimento da Surpresa no mundo não há decreto-lei, mas haverá certamente um verso. Para a descrição da Repetição não existirá um verso, mas um decreto-lei que a entende, explica e prevê. A vida inteira encontra-se, assim, coberta por palavras. Apenas com vinte e seis letras se dá nome a todas as coisas do mundo, se explicam os inteiros movimentos de todas as coisas do mundo. O que se conseguiria, então, se o alfabeto tivesse vinte e sete letras? Há quem considere, aliás, que o brutal desconhecimento de Deus se deve precisamente à falta desta última letra do alfabeto. E a qualquer Língua falta uma última letra. Terminámos cedo demais e, assim, ficámos com os Mistérios no mundo. Mas isto é outro assunto, Sr. Breton. O que lhe queria mesmo perguntar, Sr. Breton, surge, afinal, de uma outra preocupação, e é esta: será que só a realidade onde a expectativa existe é que se pode transformar em verso? Isto é: poderá ser a poesia entendida como os momentos (plural) que antecedem o momento (singular) em que uma cadeira, por exemplo, se parte? Ou, dito de outra forma assim definitiva: parece-me que a poesia é, nas palavras, o momento em que a linguagem está prestes a partir-se em dois. E porquê? Porque aí foi colocado um peso excessivo: os versos pousam palavras sobre a linguagem, palavras que, lado a lado, pesam mais do que o suportável. E a frase pode nunca cair, mas até ao fim dos dias promete cair, ameaça cair. E cairá.

Ou não? O que lhe parece, Sr. Breton?"