Rewind

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Mãe|

Que nenhuma noite desperte de véspera
Enquanto te consolam as memórias como beijos
Que nenhum dia te seja curto na pele
Enquanto o mar for fundo e luminoso
Que nenhum ruído grite mais alto que o silêncio
Que canta quando estamos juntos
Que nenhuma pétala de luz
Deixe de iluminar teu rosto quando sorris
E que sempre haja uma praia
E tudo se expanda boiando na espuma da saudade
Tudo se agigante, se serene e amplie
E teu rosto surja sempre renovado
Inteiro, belo e de luz emoldurado.
Que o sol encha de amanhã o horizonte
E juntos, na areia, conversando
Na nudez das palavras revelados
Entremos na noite caminhando.
Fica, Mãe, enquanto a alma se atrasa neste amor
E tudo quanto é demora é recompensa.

RM

terça-feira, 9 de abril de 2013

o teu corpo|

O teu corpo
É o tempo de todos os silêncios
De todos os esquissos imperfeitos do amor
O teu corpo
É a justa medida de todos sonhos
Desse conforto na alma de ir medindo a vida
Com o calor das pontas dos dedos
E o brilho do olhar
O teu corpo
É essa rima imperfeita
Do bater de dois corações
Que esperam rindo para a noite que chega
Que a manhã traga mais beijos
Para se darem numa boca húmida
Enquanto na rua as pessoas passam
Os carros rosnam furiosos
O céu se indispõe
E nada disso importa
Se não o silêncio do teu corpo

No princípio de todas as horas.

RM 

cumpre.te|

Cumpre-te
E faz da espuma dos dias um mar de esperança

Cumpre-te 
Lentamente enamorando-te do Sol que adormece

Cumpre-te
Sem esquecer o perfume do pescoço onde o amor atou teus dedos

Cumpre-te
Enquanto os rios correm postos a sorrir pelo vento que os beija

Cumpre-te
Enquanto os versos rimam e a música flutua nas noites de janela aberta

Cumpre-te
Enquanto o frio da montanha empresta à noite uma nostalgia funda

Cumpre-te
Enquanto os campos balouçam e as águas jorram dos tanques de pedra

Cumpre-te
E faz do corredor dos dias
Um castelo que se ergue no alto, lento e sólido
E em cujas muralhas poderás ver saciada
A tua sede de um infinito mais fundo
A tua fome de um céu mais alto.

RM

domingo, 7 de abril de 2013

não venhas tarde|

Não venhas tarde
Porque estás anunciada na tarde que desliza no céu através dos vidros

Não venhas tarde
Porque está escrito teu nome nas árvores que tremem no vento que passa

Não venhas tarde
Porque te chamam meus lábios com este princípio de chama

Não venhas tarde
Porque sobe o teu nome no nevoeiro de cinza que se adensa

Não venhas tarde
Porque ouço teus passos na escada deserta

Não venhas tarde
Porque o jardim floriu para te ver passar

Não venhas tarde
Não quero percorrer sozinho esta alameda

Onde a saudade é sombra no caminho
Quando não vens.

RM

os teus braços|

Estende os teus braços sobre a noite
Deixa que te beije o ar quente do Estio
Que se enamore das linhas do teu ventre, a cidade quieta

Estende os teus braços sobre a noite
Deixa que sobre eles caiam beijos
Como folhas trazidas num murmúrio do tempo

Estende os teus braços sobre a noite
Deixa que sobre eles caiam promessas
Como sonhos perdidos nas linhas da tua mão

Estende os teus braços sobre a noite
Deixa que sobre eles caiam os meus
E juntos atemos sobre a pele
O mapa do sonho e da harmonia.

RM

Na varanda, as flores|

Nas varandas de ferro as flores
E no céu um guache entardecendo brilhante
A cidade nua em silêncio
As ruas abertas como braços em brasa
E na tua boca respirando
Todos os sonhos.

RM

sábado, 6 de abril de 2013

nos dias tristes|

Nos dias tristes não escrevas.
Deixa as palavras no bolso enquanto choras.
Se escreves enquanto te dói o corpo como fogo
As palavras ardem e no chão a cinza é morte.

Nos dias tristes não escrevas.
Deixa a dor no estendal da varanda.
O vento chega e dá-lhe uma coça
E o teu corpo serena adormecido.

Nos dias tristes não escrevas.
Deixa a sombra na terra do caminho
A gente passa e pisa-a com os pés
E a tua boca se apaga adormecida.

Nos dias tristes não escrevas.
Deita ao vento os gritos do teu peito
Que a terra gira e leva-os para longe
E a tua voz descansa adormecida.

Nos dias tristes não escrevas.
E se acaso com tristeza escreves
O frio dos montes será fundo demais
E aos mares faltará o verde que o sonho inventa.

Nos dias tristes não escrevas.
E se acaso com tristeza escreves
As paredes serão da pedra que não quebra
E às flores faltará o sol que a esperança inventa.

Nos dias tristes não escrevas.
Abre a janela e muda de pele.
Espera pela juventude que nasce do chão das lágrimas e recomeça.

E principia a frase escrita com o sonho.
E os dias tristes não virão mais.

RM

porque escrevo.

Escrevo para que as esquinas tragam sempre fumo no ar baço do Outono e as Primaveras se sucedam num céu que escorrega na luz. Escrevo para que os barcos saibam a sal e esse sal sejam as lágrimas de quem parte para chegar.
Escrevo para que os dias tristes sejam o pretexto de um abraço apertado, de casas com cheiro de gente como a anunciar que alguém está para chegar. Escrevo para que tu, mãe, vistas o cheiro teu que vive nas dobras das ausências maiores do que eu quando não estás, não ris e ficas comigo. Escrevo, avô, para que vivas sempre nas pedras de musgo do muro da igreja onde rezo para que estejas bem. Escrevo para que todos os dias sejam bonitos, porque nos dias bonitos ninguém pode morrer.
Escrevo para fintar a morte com as vírgulas e a respiração do coração, para entreter o medo com essa ladaínha humana dos amores que querem arder sempre.
Escrevo para que os cafés tenham espelhos e possa sempre ver teus olhos quando me olham. Escrevo para que as despedidas sejam sempre um adiamento, uma ousadia da existência sobre o abismo e a escarpa escura da saudade.
Escrevo para que os teus braços, A., sejam sempre a morada perdida da infância, o eco desse rio de tempo que nos fez margens do mesmo corpo, dois lados para o mesmo caminho.
Escrevo, Gó, para que no fundo dos teus olhos viva sempre essa bondade de açúcar e o teu sorriso chegue por entre o rumor dos passeios e da multidão.
Escrevo para que tu, pai, te salves sempre dessa guerra que não quiseste e repetidas vezes voltes para a mãe que te quis por perto e para nós que te esperávamos do lado de lá do tempo.
Escrevo para inaugurar o espaço vazio da solidão com esses bordados que nos atam na pele uns dos outros. Escrevo para que as mesas vestidas de linho e cristal não se levantem nunca - que do vento cheguem sempre as palavras mais belas, as gargalhadas mais sinceras e tudo perdure como um lustre suspenso na noite escura da vida.
Escrevo para que os retratos nos tragam sempre juntos, para que durmamos juntos nos braços das molduras de prata da salinha de visitas e os pianos toquem músicas suaves como um fim de tarde de Verão.
Escrevo para que tu, mãe, voltes a ter a tua mãe nessa infância maravilhosa e quente como um gato preguiçoso num muro qualquer.
Escrevo para que esta obrigação de viver, este exílio forçado na vida que trazemos por detonar no sangue seja a perdição de quem nos criou, para que, mesmo sem nada sabermos do amor sejamos levados por ele a voos que o desenho do mundo queria apenas para a aves. Para que do egoísmo do mundo nada reste e a ordem das coisas seja tão arbitrária como o sonho.
Escrevo nem que seja para que do silêncio me chegue o eco do que digo e já não fiquemos sozinhos.
Escrevo para antecipar as flores do amanhã e fazê-las nascer no chão incompleto do hoje. Escrevo para morrer, amar de véspera, ter no peito como epitáfio a saudade do futuro que quero ver.
Escrevo para dizer que o homem morre sempre de véspera - que ao amor, que a um amor como o que podemos sentir por aqui, o amanhã é sempre a justa medida da beleza.
Escrevo para que os castanheiros da minha infância sejam perenes como as memórias que guardo deles nas tardes longas, quase sem fim, como se tudo se pudesse prolongar mais um pouco enquanto o tempo se distrai e adormece na palha quente.
Escrevo para que todos os jardins sejam floridos e te encontre sempre neles, minha avó, com teus olhos de um azul ardendo e teu sorriso de menina marota. Para que Deus me chegue pelo amor que me deram e acredite nele porque um amor desses me parece um pecado bom. 
Escrevo para vos chamar, pelo gosto de passar a língua na luz dos vossos nomes e ficar agarrado a eles como a um colo que dure sempre. Escrevo porque durmo no mesmo lençol de luz dos que vieram antes de mim e desejo ser possível que todos nos encontremos numa ceia, sob as estrelas num terraço grande de um lugar perdido.
Escrevo para que a chuva escorra sempre na pele sêca da terra e tudo baptize e redima, para que as lareiras se acendam e tu, avô, possas ter de novo a tua mãe que vos lia poesia no abraço quente do lume.
Escrevo para que o tempo não seja um corredor estreito demais para guardar uma história tão longa e bonita como a nossa. Escrevo para me lembrar do som das vossas vozes e agarrar-me a elas enquanto sigo no caminho.
Escrevo para que o calor das sílabas me reconforte e dias nasçam mais longos enquanto as palavras se casam, se unem num verso. Escrevo para inventar mais tempo, um tempo mais manso, molengão, obeso que não ande tão depressa.
Escrevo para ao morrer, ir vivendo mais. Para que entre as duas pontas do caminho, a poeira do ar seja de ouro e os corações mais felizes ao morrer.       

sexta-feira, 5 de abril de 2013

cativa|

Tens no olhar uma clareira de luz intensa
Um lençol de alegrias e dores secretas
Uma maré funda e imensa
E enigmas de profetas

Tens na boca uma pira de loucura  
Uma saudade que calas e que temes
E se sozinha na noite tremes
Sou eu quem te procura

Tens na pele a areia da saliva
Poeira de entregas sinceras
Memórias ferozes como feras
E que te trazem cativa

Tens na palavra a faísca da liberdade
Searas de céu e de acalmia
Sol em brasa que se esvazia
Morrendo sobre a cidade

Tens no cabelo um galope marcado
Uma insolência sem medida
E hei de encontrar-te perdida
Na encruzilhada do teu fado

Tens nas mãos o nó do amor
As veias como cordas de uma guitarra
Luz desmaiando sobre o terror
Enquanto meu corpo te agarra

RM

enamoramento|

Estende-me inteira a tua mão
Dá-me o beijo dos teus dedos
E deixa que os passos da multidão
Esmaguem em pó os meus medos

Não trago na algibeira a ilusão
Trago na boca o sangue quente
Para que juntos ao poente
Renunciemos à razão

Levo-te para a noite comigo
Baptizo-te com fogo na madrugada
E com o silêncio te digo
Essa verdade adivinhada

Dou-te um amor denunciado 
Feito de pedra e poesia 
Tal qual as palavras que enamorado
Sorrindo contente te dizia

RM