às vezes, a saudade é um lugar errado
onde fica tudo o que foi certo
descendo, devagar, vejo
a tua caneta parker
o teu porta moedas
e a tua boina no sofá
e a saudade é um lugar errado
debaixo de um poente repetido onde faltas tu
mas eu vejo, ainda
a tua primeira fotografia comigo quando nasci
no dia em que faço 29 anos,
olho-a de novo
que lugar tão cheio de coisas certas
que doem
que faltam
que falam
sabes,
às vezes, demoro-me nos lugares errados
pego-te na caneta parker e escrevo o teu nome
uma, duas, três
todas as vezes
e o teu nome é uma árvore ou um pretexto de sonho
e a tinta não me acaba nunca.
sabes,
às vezes, pego-te no porta moedas
e roubo-te uma moeda
só mais uma hora, senhora saudade, por favor
e o parquímetro pára de nos contar a distância.
sabes, nas vindimas pego-te na boina
e fico a olhar o verde da esperança que ter-te tido me deixou
e a boina, mesmo pequena, serve-me, outra vez.
serve-me a boina
há tinta na caneta
e uma moeda para mais uma hora nesse lugar errado
onde ficou a coisa mais certa da minha vida
que és tu.
[Saudades, Vovô.]
RM| XII -VI - MMXVI
"The only way of catching a train I have ever discovered is to miss the train before." Chesterton (1874 -1936)
Rewind
domingo, 12 de junho de 2016
domingo, 29 de maio de 2016
Né,
I.VI.
Quem nasceu primeiro?
o A., respondi, com gosto, toda a minha vida.
E toda a minha vida, cá dentro, soube que isso significou sempre que o engano da solidão não me tinha acontecido a mim.
O A. esperou-me desde o princípio - juntos, espreitámos sempre a vida um do outro como duas partes da mesma coisa que se olham, que se medem por uma medida ainda por inventar, toda feita dos silêncios em que apenas nos abrigámos sob a evidência morna dessa cumplicidade sem nome.
O A. sorriu-me da carteira no primeiro dia de escola - o mano estava lá, os óculos de massa, o brilho nos olhos e um aceno breve como quem diz meu sacana, isto vai correr bem.
Gosto de ouvir o meu nome na voz do meu irmão - o meu nome dito por ele é que é o meu, como se só ele guardasse de mim o retrato mais fiel e mais perfeito e, só assim, eu soubesse que é a mim que o mundo chama e abriga, que o mundo reconhece e cumprimenta.
Ricardo,
e eu, por cima do ombro, de repente, já sei que estou perto de casa, já sei que me vieram buscar ao avesso escuro dos enganos para me levarem de volta à morada que o A. tem escrita no envelope da pele dele.
Em mim, desde o princípio, nunca morei sozinho - se o meu coração fosse uma mesa, penso eu a sorrir, ela veio, desde o primeiro dia, posta para dois.
E o meu irmão mora em mim como o soalho velho que fala no escuro das noites das casas antigas - o chão chama por quem tem que cumprir uma espécie de promessa, por quem tem que, de alguma forma, ficar.
O meu irmão foi meu irmão por cima de tudo, primeiro que ele, em vez dele, contra ele, quando foi preciso.
Como se ser meu irmão lhe bastasse para, apesar de tudo, sorrir e dizer,
meu sacana, vai correr tudo bem.
Obrigado, Né, por todas as vezes em que a mesa estava posta e tu vieste e, mesmo quando não mereci, ficaste comigo nesse vício contente de repetir um prato de que se gosta muito, já sem saber porquê.
O palato do meu irmão, felizmente, nunca mudou.
Ele vem sempre sentar-se à minha mesa, pede muito pouco e vai ficando a ouvir-me com as mãos estendidas e os dedos grandes pousados como se ouvissem.
O A. ensinou-me, como numa aula da primária, como se escreve o perdão, como sempre se manda uma carta com uma morada para enviar resposta.
De todas as vezes, o meu irmão respondeu-me e perdoou.
De todas as vezes, o carteiro que a vida pôs a passar à nossa porta encontrou-nos remetente e destinatário do amor de que o outro precisou.
O meu irmão acende as partes mal iluminadas das ruas onde me perco e fica a sorrir-me como se apenas viesse para me dizer,
anda para casa, mano.
Agradeço à vida os cinco minutos que o meu irmão leva a mais do que eu. Graças a isto, nunca soube o que era a solidão e ando por aqui convencido de que, algures, alguém me espera.
29 anos e os cinco minutos em que o meu irmão já cá estava - desconfio, até hoje, que o A. arranjou maneira, já na altura, de me dizer, naquele primeiro dia, que íamos para casa.
e de sorrir, sempre.
O meu coração é uma mesa sempre posta para dois.
O mano vem e diz, sorrindo,
Ricardo,
Dentro de nós é sempre a mesma hora.
Os cinco minutos de avanço que ele leva, usa-os para pôr a mesa, compor tudo e ligar a música à espera, apenas, de poder ser o irmão que eu tenho mas, claramente, não mereço.
Obrigado.
RM| XXIX-V-MMXVI
RM| XXIX-V-MMXVI
sábado, 30 de abril de 2016
ouvir-te ficar, Mãe,
Mãe,
ouvir-te ficar, Mãe -
o teu amor com passos doces e braços enormes como janelas
os teus olhos como parapeitos de luz e de esperança
e o silêncio em que te digo com a pele o que me falta
ouvir-te ficar, Mãe -
tu que entras sempre devagar
não sei bem como, mas arranjas sempre a chave
e vais entrando,
o amor, de repente, é um filme que vemos os dois no sofá
ou um café improvisado em que me dás a mão mesmo antes de eu sair para a rua,
os carros passam, Mãe,
tu ficas a sorrir-me do lado de dentro do vidro
e eu repito em todos os vidros de todos os cafés o nosso encontro
como num espelho.
ouvir-te ficar, Mãe -
e eu que sei que nem sempre o meu amor é como o teu
e tu continuas,
insistes,
não pedes nada, Mãe,
um fósforo, de repente, acende as letras do nome de tudo
tu sobes o vão da minha escada todas as vezes
só para me ensinares a soletrar esperança no vapor do vidro das janelas.
ouvir-te ficar, Mãe,
os teus dedos a agarrarem-se aos meus
mesmo antes de eu ir para rua
tu que ficas a sorrir-me do lado de dentro do vidro num café
e eu que repito em todas as montras de todos os cafés o nosso encontro
só para saber qual o caminho,
que a casa é perto
e isso chega.
RM| XXX-IV-MMXVI
ouvir-te ficar, Mãe -
o teu amor com passos doces e braços enormes como janelas
os teus olhos como parapeitos de luz e de esperança
e o silêncio em que te digo com a pele o que me falta
ouvir-te ficar, Mãe -
tu que entras sempre devagar
não sei bem como, mas arranjas sempre a chave
e vais entrando,
o amor, de repente, é um filme que vemos os dois no sofá
ou um café improvisado em que me dás a mão mesmo antes de eu sair para a rua,
os carros passam, Mãe,
tu ficas a sorrir-me do lado de dentro do vidro
e eu repito em todos os vidros de todos os cafés o nosso encontro
como num espelho.
ouvir-te ficar, Mãe -
e eu que sei que nem sempre o meu amor é como o teu
e tu continuas,
insistes,
não pedes nada, Mãe,
um fósforo, de repente, acende as letras do nome de tudo
tu sobes o vão da minha escada todas as vezes
só para me ensinares a soletrar esperança no vapor do vidro das janelas.
ouvir-te ficar, Mãe,
os teus dedos a agarrarem-se aos meus
mesmo antes de eu ir para rua
tu que ficas a sorrir-me do lado de dentro do vidro num café
e eu que repito em todas as montras de todos os cafés o nosso encontro
só para saber qual o caminho,
que a casa é perto
e isso chega.
RM| XXX-IV-MMXVI
domingo, 6 de março de 2016
Gó,
06.03
Gózinha!,
Diga menino,
Parabéns!
toda a minha vida, a tua voz
toda a minha vida, os teus olhos marotos
e o teu sorriso como o número de porta que sabemos ser o da nossa casa.
Vim para te agradecer, Gó.
O Deus das missas onde eu e o A. te fazíamos cócegas
O Deus das tuas velinhas,
Oh menino, vai correr tudo bem, vai ver!,
[e a vela acesa, sempre por nós]
Vim para te abraçar e sorrir-te do portão
para poder não ter pressa, outra vez
e ficar para jantar,
Que querem jantar, meninos?,
Bife com ovo!, Gó, bife com ovo!
Vim para te dar a mão, Gó,
sei que já não tens que me levar à escolinha nem nada
mas dá-me a mão,
só porque sim
só porque podes
só porque queres
como se fosse a minha vez de te levar onde for preciso.
Vim para que me ouças, Gó,
tu que sabes o tamanho da minha saudade
tu que tens no coração os nossos nomes
e és também a minha casa,
acende uma vela, nesta hora, se puderes,
diz que ao Deus das missas-com-cócegas
que os Meninos precisam da Avó
(e de ti)
e dá.me um abraço,
Oh menino, vai correr tudo bem, vai ver!,
Dentro dos teus braços, estou bem.
e o teu sorriso, como um número de porta,
diz-me que estou em casa
e isso chega.
RM| VI-III-MMXVI
sábado, 27 de fevereiro de 2016
Avó,
R., meu amor, é bonito seres um homem com um coração de menino, sabes?
As coisas que só a minha Avó me diz.
A Avó dos olhos doces, a Avó que fez com que o regresso nunca fosse longe demais.
Obrigado, Milinha,
Sabes, Avó, vou ter contigo para salvar o meu coração,
Vou ter contigo para ser possível sonhar por cima da ruína do medo
e sorrir por ver o mar dos teus olhos encher-se todo de luz outra vez.
R, meu menino, temos que conversar!
Conta-me coisas da tua vida!
As coisas que eu te digo, Avó,
Como se por te chamar todos os dias
Tu possas lembrar-te da paz que te promete o teu jardim
e da nossa casa em que os relógios pararam há um mês à tua espera
Amo-te, Milinha,
E as flores que te levo são as minhas palavras,
os meus dedos a rimarem com os teus por dentro do tempo
a salvo do tempo,
para lá do tempo,
o tempo todo.
As coisas que só a minha Avó me diz
A falta que só ela me faz
A saudade que só tenho para ela
E a casa com o jardim muito quieto
E os relógios parados como se esperassem
Porque o amor é isto -
uma casa onde as flores esperam
e os relógios param
por quem sabem
ter sempre que chegar
só para que a casa seja casa
e se possa viver tudo devagar.
RM| XXVII-II-MMXVI
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Avô,
13.02.
Quero pedir-te uma coisa, Vovô.
Diz pequeno,
Olha pela Vovó, sim?
Hoje, Avô, fui lembrar-me de ti para ao pé de quem mais te amou.
[Parabéns!]
E falei de ti a tarde toda - as mãos sempre dadas com a esperança que só o teu nome acende.
A Avó riu muito - o coração dela vive do que deixaste nele, sabes?
[Obrigado]
Hoje, Avô, queria muito pedir-te uma coisa, não te importas?
Olha pela Milinha, sim?
Peço-te a ti que foste o maior coração de todos,
que foste a minha casa, a minha voz, o meu amigo
que não deixes que a nossa Milinha tenha pressa.
Hoje, Avô, não houve festa, nem mesa comprida, nem bolo,
mas, mesmo num hospital, eu, o A., os Pais e a Vovó estivemos contigo
[porque estivemos juntos]
Hoje, Avô, fizeste anos
e eu peço-te, a ti, que sempre quiseste mais para nós do que para ti
que o azul dos olhos da Vovó continue a ser o céu para onde te mudaste.
Faz, Avô, o que puderes,
só tu que sabes a falta que vocês me fazem.
[Obrigado]
Nós por cá, não te esquecemos
E, agarrados à luz que acendeste nas nossas vidas,
Havemos de chegar juntos ao outro lado do escuro.
Um beijo,
R.
sábado, 16 de janeiro de 2016
Avó,
Porque a Avó faz anos na Segunda,
Avó,
Pudessem os teus olhos ser palavras e escreveria com eles o meu nome
devagar, como a luz tenra que desce no espelho da tarde sobre o mar
Pudessem os teus olhos ser uma carta e haveria para tudo uma resposta
devagar, como a esperança a acender no fundo do escuro o caminho
Pudessem os teus olhos ser dois pássaros e seríamos os dois brisa ao poente
devagar, como se de nós e das flores tivesse que sobrar apenas o perfume
Podiam os teus olhos ter sido um rio, Avó
mas os rios partem, continuam e não olham para trás.
e tu ficas
(e eu fico, Milinha.)
e tu olhas para trás.
e, graças a ti, eu sempre encontro uma forma de chegar a casa.
Obrigado.
RM| XVI-I-MMXVI
domingo, 20 de dezembro de 2015
postal,
lê-me em postais antigos, se puderes,
e recorda
não sei o que tinham as janelas a ver com as saudades
ou uma esquina, uma montra e as horas do fim da tarde
a ver contigo, connosco, mas o postal era para ti,
amor.
escrevi-te sempre como se apanhasse do chão bocados de ti
como se fosses sempre tu quem eu ia esperar em todos os bancos de jardim
para te sublinhar sempre nas páginas de cada um dos livros que levava,
amor.
lê-me em postais antigos, se puderes,
e recorda
pensa nas minhas palavras como em passos para casa
e espera-me do teu lado da cama
não mudes, por favor, o lugar onde fica a chave da porta,
amor
e espera.
lê-me em postais antigos, se puderes,
e recorda
passa pela minha pele como quem passa por uma esquina, uma montra
ao fim da tarde
e espera,
amor.
lê-me em postais antigos, se puderes,
passa pelo teu coração o meu sangue, uma vez mais,
amor
e abre todas as gavetas que encheste de mim
antes de deitares tudo fora repara,
- vou ficar contigo, dizia-te
e dava-te o futuro que ainda não tinha
- porque era teu.
lê-me em postais antigos, se puderes,
e espera-me do teu lado da cama,
amor
(desculpa)
vou encontrar a chave de casa
e ficar.
amanhã o carteiro não passa.
e recorda
não sei o que tinham as janelas a ver com as saudades
ou uma esquina, uma montra e as horas do fim da tarde
a ver contigo, connosco, mas o postal era para ti,
amor.
escrevi-te sempre como se apanhasse do chão bocados de ti
como se fosses sempre tu quem eu ia esperar em todos os bancos de jardim
para te sublinhar sempre nas páginas de cada um dos livros que levava,
amor.
lê-me em postais antigos, se puderes,
e recorda
pensa nas minhas palavras como em passos para casa
e espera-me do teu lado da cama
não mudes, por favor, o lugar onde fica a chave da porta,
amor
e espera.
lê-me em postais antigos, se puderes,
e recorda
passa pela minha pele como quem passa por uma esquina, uma montra
ao fim da tarde
e espera,
amor.
lê-me em postais antigos, se puderes,
passa pelo teu coração o meu sangue, uma vez mais,
amor
e abre todas as gavetas que encheste de mim
antes de deitares tudo fora repara,
- vou ficar contigo, dizia-te
e dava-te o futuro que ainda não tinha
- porque era teu.
lê-me em postais antigos, se puderes,
e espera-me do teu lado da cama,
amor
(desculpa)
vou encontrar a chave de casa
e ficar.
amanhã o carteiro não passa.
RM| XX-XII-MMXV
domingo, 22 de novembro de 2015
Avós,
Vim, Avós, mostrar-vos um poema.
Há uma estrofe em que quase não digo nada
- as gargalhadas felizes que vocês me deram dão versos lindos
e o jardim florido traz nas pétalas a rima fácil do sol.
Vim, Avós, mostrar-vos um poema.
Há mais uma estrofe em que vamos no carro a caminho da Aparecida
- a Avó o co-piloto mais piloto do mundo
e a tua ternura, Avô, como se fosses sempre mostrar-me o caminho de casa.
Vim, Avós, mostrar-vos um poema.
Há uma estrofe cheia do açúcar dos doces da Gó
- no amor é sempre tempo de colheita
e há sempre alguém que me chama "menino," outra vez.
Vim, Avós, mostrar-vos um poema.
Há mais uma estrofe com o retrato dos Pais
- aprendi a desenhar o amor com as palavras
já que o infinito da matemática não me serve de medida.
Vim, Avós, mostrar-vos um poema.
- no banco do jardim, a Avó abraça-me com força
e a estrofe acende-se mais quando lhe digo,
Amo-te muito, Milinha,
Cá dentro, os dois, sabemos que nos ouves, Avô,
e isso chega.
Há uma estrofe em que quase não digo nada
- as gargalhadas felizes que vocês me deram dão versos lindos
e o jardim florido traz nas pétalas a rima fácil do sol.
Vim, Avós, mostrar-vos um poema.
Há mais uma estrofe em que vamos no carro a caminho da Aparecida
- a Avó o co-piloto mais piloto do mundo
e a tua ternura, Avô, como se fosses sempre mostrar-me o caminho de casa.
Vim, Avós, mostrar-vos um poema.
Há uma estrofe cheia do açúcar dos doces da Gó
- no amor é sempre tempo de colheita
e há sempre alguém que me chama "menino," outra vez.
Vim, Avós, mostrar-vos um poema.
Há mais uma estrofe com o retrato dos Pais
- aprendi a desenhar o amor com as palavras
já que o infinito da matemática não me serve de medida.
Vim, Avós, mostrar-vos um poema.
- no banco do jardim, a Avó abraça-me com força
e a estrofe acende-se mais quando lhe digo,
Amo-te muito, Milinha,
Cá dentro, os dois, sabemos que nos ouves, Avô,
e isso chega.
RM| XXII-XI-MMXV
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Mãe,
Esperaste-me, Mãe.
no princípio, deste-me o nome e acendeste o escuro.
Esperaste-me, Mãe.
os bolsos tão cheios de sonhos, a porta de casa que nunca mais deixaste trancada.
Esperaste-me, Mãe.
e dançaste-me na barriga ao som dos vinis que ouvias à noite.
Esperaste-me, Mãe.
e foi a tua mão que me lavou da pele o medo, a saudade, a tristeza.
Esperaste-me, Mãe.
e escreveste-me os postais mais bonitos que já recebi.
Esperaste-me, Mãe.
e ensinaste-me a fé das palavras e a escrever como quem chama.
Esperaste-me, Mãe.
e fumaste comigo todos os fins de tarde de Verão perto do mar.
Esperaste-me, Mãe.
e viste beijos nas falhas e abraços nas ausências.
(desculpa)
Esperaste-me, Mãe.
e percebi contigo que as Mães deixam com os filhos uma espécie de pergunta no mundo.
Esperaste-me, Mãe.
toda a vida, toda a noite, sempre no lugar onde começava o regresso.
Esperaste-me, Mãe.
a porta sempre aberta,
a roupa, às vezes, suja dos enganos do mundo.
e tu, sempre. sempre tu e os cigarros como se o mar estivesse por perto e houvesse luz.
Esperaste-me, Mãe.
e eu trouxe de ti a tal pergunta cravada no leito dos olhos.
Esperaste-me, Mãe.
(Obrigado.)
eu volto sempre a tempo de um cigarro e um beijo
que é como quem diz, minha Mãe, que és tu a resposta que vim ao Mundo para aprender.
RM | X.XI.MMXV.
no princípio, deste-me o nome e acendeste o escuro.
Esperaste-me, Mãe.
os bolsos tão cheios de sonhos, a porta de casa que nunca mais deixaste trancada.
Esperaste-me, Mãe.
e dançaste-me na barriga ao som dos vinis que ouvias à noite.
Esperaste-me, Mãe.
e foi a tua mão que me lavou da pele o medo, a saudade, a tristeza.
Esperaste-me, Mãe.
e escreveste-me os postais mais bonitos que já recebi.
Esperaste-me, Mãe.
e ensinaste-me a fé das palavras e a escrever como quem chama.
Esperaste-me, Mãe.
e fumaste comigo todos os fins de tarde de Verão perto do mar.
Esperaste-me, Mãe.
e viste beijos nas falhas e abraços nas ausências.
(desculpa)
Esperaste-me, Mãe.
e percebi contigo que as Mães deixam com os filhos uma espécie de pergunta no mundo.
Esperaste-me, Mãe.
toda a vida, toda a noite, sempre no lugar onde começava o regresso.
Esperaste-me, Mãe.
a porta sempre aberta,
a roupa, às vezes, suja dos enganos do mundo.
e tu, sempre. sempre tu e os cigarros como se o mar estivesse por perto e houvesse luz.
Esperaste-me, Mãe.
e eu trouxe de ti a tal pergunta cravada no leito dos olhos.
Esperaste-me, Mãe.
(Obrigado.)
eu volto sempre a tempo de um cigarro e um beijo
que é como quem diz, minha Mãe, que és tu a resposta que vim ao Mundo para aprender.
RM | X.XI.MMXV.
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