Rewind

domingo, 13 de setembro de 2015

da janela do meu quarto,

I.

da janela do meu quarto,

uma, duas ruas

e o coração sempre cheio de atalhos para chegar a casa


da janela do meu quarto,

o meu Avô ainda no meio do jardim

e a saudade assombrando o parapeito dos meus olhos


da janela do meu quarto,

uma, duas ruas

e sempre as mesmas palavras em lábios novos


da janela do meu quarto,

a minha Avó sempre à minha espera

e nós a guardarmos um do outro o milagre do nosso encontro


da janela do meu quarto,

uma, duas ruas

e a minha infância diabética de amor



da janela do meu quarto,

eu a dizer: "Vovó não morras, tá bem?"

e M. a dizer: "Sabes, pequeno, é por ti e pelo A. que estou viva."


da janela do meu quarto,

uma, duas ruas

e a promessa que fiz de que os sonhos teriam sempre este chão


da janela do meu quarto,

o medo de que o regresso não possa ser ao mesmo lugar

e o A. a dizer-me: Está tudo bem, R., está tudo bem."


II.


da janela do meu quarto,

a recém-felicidade sempre

e, no silêncio do meu sangue, a mímica dos vossos nomes



da janela do meu quarto,

o vestir-me de propósito para vos ir dizer: "amo-vos"

e nunca poder haver pretérito nos verbos com que vos chamo


da janela do meu quarto, no vidro embaciado,

uma criança escreve com os olhos,

Que fazes aí, R?

Agradeço, agradeço.

RM 

domingo, 16 de agosto de 2015

o vento sem mapa|

também o vento vem sem mapa, amor

e repete nos poros do caminho o teu nome

uma, duas, muitas, todas as vezes


olha o vento a fingir que é verão

se calhar, podíamos retomar o poema

que dizes,

de enfeitares, de novo, o cabelo

com a madrugada inteira do meu desejo


sabes, amor, a saudade é a espera entre sonhos

podias voltar a tempo de me leres baixinho -

é outra vez verão nessa página

desarrumemos a distância como as gavetas onde deixamos a roupa


amor, faz como o vento e passa por aqui outra vez

veste a minha camisa outra vez

e lê-me baixinho

pega num cigarro, se quiseres

eu deixo.


lê-me como se me esperasses

veste, se puderes, a camisa azul

e vê que o bolso traz o teu nome escrito


foi a saudade que o bordou

[do lado de dentro.]


RM

sábado, 1 de agosto de 2015

Avó,

como se passar pelos teus olhos fosse sempre como entrar em casa
as pernas tão habituadas aos degraus que demoram o nosso abraço
(mas ansiosas)
como se passar pelos teus olhos fosse sempre abrir a janela da infância e poder vir gritar ao terraço,

Vovó!

só para saber que estás aí e vieste deixar-me flores frescas junto ao peito.


como se passar pelos teus olhos fosse sempre não ter que mudar de roupa
a pele habituada ao conforto destas palavras amenas e amplas como uma brisa de verão
em que escolho agasalhar a nudez brincalhona da nossa intimidade.

como se passar pelos teus olhos fosse chumbar sempre a matemática
as pernas tão habituadas a aldrabar a espera do nosso encontro
e subir os degraus dois a dois fosse amar-te mais e com mais força.

porque passar pelos teus olhos foi sempre não precisar da chave da porta
as mãos habituadas a este amor-de-porta-no-trinco
o coração habituado a ter na tua voz o melhor miradouro de mim mesmo.

sabes, Avó, amo-te e passei para te dizer isso mesmo.

não bati a porta.

[volto logo para te ouvir a resposta e fazer batota ao subir os degraus]

RM

sábado, 18 de julho de 2015

Avô,

se pudesses, Avô, descer a escada do tempo

e encontrar-me cá em baixo no princípio

íamos os dois a tempo de um cigarro no jardim

íamos os dois a tempo de dizer um ao outro das saudades

que nos ficaram como frutos suspensos no lado de dentro dos braços


se pudesses, Avô, levar.me, de novo, no carro para a Aparecida

eu a ter que me sentar no banco de trás por ser pequeno

e tu a tempo de dizer,

Já não falta muito! E depois vens comigo aqui ao lado!

íamos os dois a tempo de regressar ao teu passado

e de ficar sentados na soleira da porta esquecidos de partir


se pudesses, Avô, ver como o A. se parece contigo

e como eu penso que nasceste nele de novo só para eu não ter que andar sozinho

íamos os dois a tempo de lhe dizer,

Gostamos muito de ti

e de ficar felizes por as palavras se poderem levar nos bolsos para toda a vida


se pudesses, Avô, ver como a Avó foi a escolha certa

e como continua mais bonita por causa do que lhe deixaste agarrado à pele

íamos os dois a tempo de lhe dizer,

Obrigado

e de ver a maré cheia dos olhos de quem se sabe amado para sempre


se puderes, Avô, ver como tudo ainda te espera

pede para voltares nem que seja para um cigarro no jardim

só para eu ir a tempo de te dizer,

Quando for grande quero ser como tu

(mais uma vez)

e, mesmo não fumando,

fumar contigo no jardim da nossa casa

as saudades que me ardem no silêncio que ficou.

RM

sábado, 4 de julho de 2015

Avó,

o rapaz aprendera a ver o céu nos olhos de M.

M. tinha o hábito de lhe sorrir como uma janela aberta num dia de sol

e o rapaz gostava disso.

disseram-lhe na escola,

o céu é azul, R.

e para sempre o céu havia de estar nos olhos de M.

porque aquele fora o azul mais bonito que ele vira.

porque esse era o lugar onde repousavam todos os que M. nunca deixou morrer.

porque esse era o caminho mais curto para casa.

(sempre.)

e o rapaz tinha tanta pressa de chegar a casa.

M. sorria-lhe todas as vezes como se a espera, finalmente, não fosse doer mais,

R, meu amor, como foi a escolinha?

R., antes das palavras, quis dizer com um abraço que confirmara que o céu sempre era azul.

azul-só-meu,

as crianças inventam sempre amores egoístas como se fossem levar no bolso dos calções curtos um segredo que o mundo guardou só para elas.

azul-para-sempre,

que o céu é o lugar das coisas que não morrem.

e R. quis passar todos os dias da vida dele com os olhos postos no céu

raio do garoto!

R. aprendera na escola o que o seu coração descobrira, muito antes, escrito no lado de dentro da pele

nos olhos de M. ficavam todas as coisas sem nome.

subir vinte escadas sem nunca se cansar só para dizer

Vovó!

descer vinte escadas sem nunca deixar de ter medo e olhar sempre para trás

só para dizer

Milinha gosto muito de ti, malandra!

Ouviste?

M. ouve no escuro, M. sabe que R. há de ser sempre o rapaz que descobriu o céu que havia nos olhos dela.

ao rapaz disseram na escola,

o céu é azul, R.

R. sorriu, feliz

e disse como se visse, mais uma vez, os olhos de M., sua Avó,

pois é, e o azul é a cor da esperança.

(Obrigado, Vovó.)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

para o né|

I.VI.MMXV
 
cada vez que faço anos, agradeço aos meus pais pelo meu irmão.
 
é verdade.
 
não sei como se diz obrigado vinte e tal anos de forma diferente, mas eu insisto.
 
dizem-nos que nascemos com cinco minutos de diferença.
 
e foi isto - desde o início, o Né esperou por mim.
 
e ter quem nos espere é do caraças - é ter um princípio de casa no arrepio de cada dúvida, é ter um miradouro de calma e riso sobre as desgracinhas que, de repente, quando alguém nos diz
 
está tudo bem
 
já não são nada, nunca foram nada - afinal, o meu irmão entende as várias línguas do meu silêncio.
 
tenho um irmão que é a minha cópia, é o que nos dizem.
 
eu nunca acreditei - o Né sou eu, mas os olhos dele são os do meu Avô, as mãos dele são mais compridas e o cabelo rapado só lhe fica bem a ele.
 
para mim, ficam os brincos e pouco mais.
 
e o Né percebe de carros como ninguém, usou uns sapatos Oxford aos treze anos como ninguém e organiza tudo como ninguém.
 
tenho um irmão do caraças, só vos digo.
 
o meu pai diz que o meu irmão lhe lembra do pai até quando discutem. sobretudo quando discutem.
 
e eu quero acreditar que o meu pai tem menos saudades do pai dele e isso é bom.
 
o meu irmão tem um abraço que é como uma porta que não se fecha à chave - assim, à moda antiga, antes do tempo dos ladrões de leste e coisas tristes.
 
costumo entrar e fico para ali esquecido de voltar - nesse lugar, onde todos os relógios são inúteis e onde esvazio os bolsos de toda a tristeza e desencanto.
 
só o meu irmão sabe quantas mulheres amei e como as amei.
 
(coitado, e nunca se riu do meu amor em que os olhos são quase sempre os dedos.)  
 
às meninas apetece-me dizer: o meu irmão é muito melhor do que eu.
 
a toda a gente, já agora. porque é verdade.
 
um irmão como o meu dá jeito quando for comprar o meu primeiro Aston Martin - eu só sei que o quero verde garrafa. ele já sabe tudo, já reviu tudo e escolhe sempre o melhor.
 
talvez o meu irmão seja assim - eu sonho com um carro verde garrafa e ele certifica-se que o meu carro verde garrafa é o melhor que há para mim.
 
ter um irmão assim não é para todos, não senhor.
 
estou velho e repito-me, está visto.  
 
quem ama, repete a verdade julgando com isso que a torna maior.
 
fazemos anos.
 
vinte e oito.
 
(e a mim a saltar-me a tampa com os amigos de lisboa: ah já são vinteeóóito.)
 
olho à minha volta:
 
uma Mãe que eu não merecia (check)
 
uma Avó malandra e com olhos do azul mais bonito que há (check)
 
um Pai que me ensinou que nas diferenças que temos também há muito amor (check)
 
uma Tia-Avó que foi a mãe da minha Mãe quando a dela morreu e que é um exemplo de bondade (check)
 
a saudade dos meus Avôs que se senta sempre comigo à mesa (check)
 
e a Gó ao telefone a dizer: Ricardinho e Dédé parabéns! e a chorar do outro lado (check)
 
ter um irmão como o meu e uma família assim é como receber um presente que, não sabemos como, às tantas, nos calhou na rifa por engano.

é que eu não me portei sempre bem nem nada.
 
mas eu não os devolvi.
 
(afinal, não tinham defeito e pode ser que se esqueçam de mos vir roubar). 

sábado, 16 de maio de 2015

verão,

às vezes, amor, há demasiado verão quando estamos juntos.
 
escuta, não te rias, que é verdade.
 
amar-te foi tirar aos olhos todos os limites, aprender em que verbos a minha língua me sabia mais a ti e, de repente, não ter onde ficar.
 
amar-te foi como sair de casa - assim, cheio de pressa, assim cheio de promessas como vésperas de dias que sabemos vão ser bons.
 
achei, amor, que os teus olhos seriam uma boa morada.
 
o meu nome num envelope e, como uma janela aberta onde a saudade não doa, os teus olhos - essa morada onde os espelhos me mostravam melhor.
 
depois, as tuas mãos sempre todas cheias de mim - da minha boca, dos bocados da minha pele em que ainda havia noite e os instantes eram perpétuos como sonhos.
 
ainda, o haver raios de sol nas palavras que antes eram apenas corpo, mãos e boca e olhos.
 
depois, haver um incêndio em todos os verbos que antes eram somente sílabas cosidas à espera de ti.
 
tens medo, dizes tu, que a tua pele não me chegue - sabes, amor, ponho sempre uma vírgula nas bordas do teu corpo e os versos que escrevo continuam e usam a minha pele como um rascunho de ti.
 
nisto, houve sempre verão ou tu não podias andar sempre nua e as janelas estarem sempre abertas e não precisarmos nunca de cobertores.
 
nisto, houve sempre verão ou eu não podia sair em calções à rua só para te ir buscar flores, arranjar alguma saudade e trazer quente a pele dos dedos todos que te dei.
 
ofereço-te os meus dedos como quem oferece umas flores que trazem nas pétalas suor e desejo.
 
tu rias-te e havia verão nesse sorriso também - era um sorriso como uma dança numa estrada deserta - como se viéssemos de mão dada do futuro.
 
nisto, houve sempre verão e o amor foi como uma boleia que apanhámos os dois.
 
sem o sabermos, no banco de trás de um acaso muito feliz, fizemos um desvio.
 
mas, amor, o verão acaba - por enquanto, não vás dançar para a estrada e fecha as janelas.
 
eu arrumei os calções na gaveta do meio e vou pôr um cobertor na cama.
 
vem, amor, que a minha pele não me chega e preciso de virgular em ti todos os meus versos.
 
anda lá.
 
eu prometo-te que, mesmo debaixo de um cobertor, há de haver verão.
 
senão não andávamos os dois nus
 
e os meus versos não trariam tanta luz.
 
RM

sábado, 2 de maio de 2015

Mãe,

se vieres ler isto, Mãe, traz um sorriso.

eu deixo-te aqui dessas flores que não murcham

(e são palavras)

vem colhê-las, anda lá.

e usa todas as jarras para guardar os beijos que nos faltam

as palavras que ainda não te disse 

e as frases que estão por vir.


se vieres ler isto, Mãe, tem paciência.

saí a correr e não me viste

(desculpa)

eu deixo-te aqui um livro a meio

lê, se puderes, a frase que sublinhei a pensar em ti

e acalma-te.


se vieres ler isto, Mãe, obrigado.
 
(vezes mil)
  
sobretudo por tudo o que não quis, não vi e não sabia

mas foi sempre tudo o que precisei.  
 

se vieres ler isto, Mãe, tenta ler a caligrafia

(amo-te)

liga-me e fica feliz, vá lá. 

e as flores, meu menino?

essas, minha Mãe, levo-as eu no coração. 


RM

domingo, 19 de abril de 2015

Milinha,

Ao Deus que inventou o azul dos teus olhos,

eu disse que não queria amor mais nenhum.

[não é preciso]

não sei se é próprio de um Deus sorrir mas continuei,

e falei-lhe dos nossos abraços como gavetas em que as nossas imperfeições nos uniram mais

e aproveitei para lhe lembrar que te prometi muita coisa que ainda não fiz só para haver futuro.


Ao Deus que não sabe o que nos chamar,

eu disse que não queria milagres.

[não é preciso]

não sei se é próprio de um Deus abanar a cabeça com doçura mas continuei,

e contei-lhe que não sei o que fazer com o verde da Aparecida, as palavras no meu peito e as mãos nervosas se tu não estás

e, já agora, mostrei-lhe as fotografias que vimos os dois outro dia, à noite.


Ao Deus que se esconde no lado de dentro das tuas mãos,

eu disse que não quero saber para onde vou.

[não é preciso

não sei se é próprio de um Deus encolher os ombros mas continuei,

e pus-me a ler todos os postais da minha infância que tu ainda guardas

e, já agora, ainda hoje se ouve o meu riso por baixo das palavras.


Ao Deus que sempre me disse que estás à minha espera

eu disse que não sei rezar.

[não é preciso]

não sei se é próprio de um Deus piscar um olho mas continuei,

e escrevi o teu nome mil vezes na espera irrequieta do meu sangue

e, sem saber, escrevi com ele também o meu.


Ao Deus que inventou a Primavera do teu jardim

eu agradeci cada uma das flores.

são todas para ti, Vovó.



não demores.

sábado, 11 de abril de 2015

se era amor, veio à paisana|

se era amor, veio à paisana, sabes?

primeiro, foste um fósforo numa noite escura.

ri-me muito contigo e o cheiro da tua pele foi uma maré cheia por cima de tudo.

depois, a tua boca ensinou-me a esperar.

havia silêncio e os teus olhos eram a luz no fundo dos meus.

primeiro, foste um fósforo numa noite escura.

depois, a saliva foi a tinta inventada para o papel-fogo da nossa pele

e quisemos despir-nos de luz acesa.

primeiro, fomos um poema ilegível.

depois, as linhas dos nossos braços rasgaram a noite

e ficou escrito que eras minha na diagonal do suor nas minhas costas.

primeiro, quis continuar a ir sozinho ao cinema ou ao café

depois, vi que já não era minha a sombra que vinha nos passeios

e telefonei-te três dias seguidos quando a luz do fim de tarde, de repente, me doeu.

primeiro, guardei a tua t-shirt branca na gaveta do fundo da cómoda sem pensar

depois, tive saudades tuas como quem espreita uma vizinha com uns olhos bonitos demais para se ficar longe

e voltei a telefonar-te.

primeiro, foste um fósforo numa noite escura.

depois, o escuro continuou a ser escuro

e a noite continuou a ser noite.

eu, era outro.

(porque era teu)

RM