Rewind

domingo, 20 de dezembro de 2015

postal,

lê-me em postais antigos, se puderes,

e recorda

não sei o que tinham as janelas a ver com as saudades

ou uma esquina, uma montra e as horas do fim da tarde

a ver contigo, connosco, mas o postal era para ti,

amor.


escrevi-te sempre como se apanhasse do chão bocados de ti

como se fosses sempre tu quem eu ia esperar em todos os bancos de jardim

para te sublinhar sempre nas páginas de cada um dos livros que levava,

amor.


lê-me em postais antigos, se puderes,

e recorda

pensa nas minhas palavras como em passos para casa

e espera-me do teu lado da cama

não mudes, por favor, o lugar onde fica a chave da porta,

amor

e espera.


lê-me em postais antigos, se puderes,

e recorda

passa pela minha pele como quem passa por uma esquina, uma montra

ao fim da tarde

e espera,

amor.


lê-me em postais antigos, se puderes,

passa pelo teu coração o meu sangue, uma vez mais,

amor

e abre todas as gavetas que encheste de mim


antes de deitares tudo fora repara,

- vou ficar contigo, dizia-te

e dava-te o futuro que ainda não tinha

- porque era teu.


lê-me em postais antigos, se puderes,

e espera-me do teu lado da cama,

amor

(desculpa)

vou encontrar a chave de casa

e ficar.


amanhã o carteiro não passa.

RM| XX-XII-MMXV

domingo, 22 de novembro de 2015

Avós,

Vim, Avós, mostrar-vos um poema.

Há uma estrofe em que quase não digo nada
-  as gargalhadas felizes que vocês me deram dão versos lindos
e o jardim florido traz nas pétalas a rima fácil do sol.

Vim, Avós, mostrar-vos um poema.

Há mais uma estrofe em que vamos no carro a caminho da Aparecida
- a Avó o co-piloto mais piloto do mundo
e a tua ternura, Avô, como se fosses sempre mostrar-me o caminho de casa.

Vim, Avós, mostrar-vos um poema.

Há uma estrofe cheia do açúcar dos doces da Gó
- no amor é sempre tempo de colheita
 e há sempre alguém que me chama "menino," outra vez.

Vim, Avós, mostrar-vos um poema.

Há mais uma estrofe com o retrato dos Pais
- aprendi a desenhar o amor com as palavras
já que o infinito da matemática não me serve de medida.

Vim, Avós, mostrar-vos um poema.
- no banco do jardim, a Avó abraça-me com força
e a estrofe acende-se mais quando lhe digo,

Amo-te muito, Milinha,

Cá dentro, os dois, sabemos que nos ouves, Avô,

e isso chega.

RM| XXII-XI-MMXV

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Mãe,

Esperaste-me, Mãe. 

no princípio, deste-me o nome e acendeste o escuro. 

Esperaste-me, Mãe. 

os bolsos tão cheios de sonhos, a porta de casa que nunca mais deixaste trancada. 

Esperaste-me, Mãe. 

e dançaste-me na barriga ao som dos vinis que ouvias à noite. 

Esperaste-me, Mãe. 

e foi a tua mão que me lavou da pele o medo, a saudade, a tristeza. 

Esperaste-me, Mãe. 

e escreveste-me os postais mais bonitos que já recebi. 

Esperaste-me, Mãe. 

e ensinaste-me a fé das palavras e a escrever como quem chama.

Esperaste-me, Mãe. 

e fumaste comigo todos os fins de tarde de Verão perto do mar.

Esperaste-me, Mãe. 

e viste beijos nas falhas e abraços nas ausências.

(desculpa)

Esperaste-me, Mãe. 

e percebi contigo que as Mães deixam com os filhos uma espécie de pergunta no mundo. 

Esperaste-me, Mãe. 

toda a vida, toda a noite, sempre no lugar onde começava o regresso. 

Esperaste-me, Mãe. 

a porta sempre aberta, 

a roupa, às vezes, suja dos enganos do mundo. 

e tu, sempre. sempre tu e os cigarros como se o mar estivesse por perto e houvesse luz. 

Esperaste-me, Mãe. 

e eu trouxe de ti a tal pergunta cravada no leito dos olhos. 

Esperaste-me, Mãe. 

(Obrigado.)

eu volto sempre a tempo de um cigarro e um beijo 

que é como quem diz, minha Mãe, que és tu a resposta que vim ao Mundo para aprender. 


RM | X.XI.MMXV. 

 


sábado, 10 de outubro de 2015

fuso horário,

quando penso em ti, Avô, não me servem os relógios.
 
fico deitado todo na poltrona enorme da memória e todas as portas sentem a minha espera.
 
quando penso em ti, nenhum pretérito é perfeito - que porra de língua esta que resolve chamar perfeito ao tempo em que a saudade se conjuga.
 
mas eu falo de ti muitas vezes no presente - as pessoas que me ouvem, pensam que estás vivo, que ainda ontem falámos até às quinhentas e que é por isso que eu sorrio tanto.
 
às vezes, apetece-me mesmo enganá-las, sabes?
 
só por uma vez que seja, dizer outra vez,
 
vou jantar aos meus avós.
 
e ser verdade que estás na cabeça da mesa, que obrigas a Vovó a comer mais,
 
Milinha, anda lá, come mais um bocadinho.
 
Sabem, A. e R., fui eu que ensinei a vossa Avó a comer!
 
e a Vovó poder protestar só porque pode, só porque quer, só porque sim.
 
parou-me o coração, nessa como em tantas outras horas - às vezes, penso que a tua morte aconteceu num outro fuso horário - como em todas as perdas, cá dentro, ainda falta tempo para acabar, ainda há tempo antes de começar a véspera do fim.
 
Cá dentro, o tempo é outro - em poucos anos, vivi contigo uma vida inteira.
 
(que não chega.)
 
Sabes, Avô, hoje é sexta e pousei o relógio.
 
era bom escapar-me para jantar convosco, não achas?
 
e no terraço, a aproveitar o bom tempo, antes que passe.
 
A Mãe sorri quando lhe digo estas coisas - ela sabe, porque me ensinou, este amor sem jet-lag, este amor em que os ponteiros são inúteis e ridículos.
 
Sabes, Avô, tenho saudades desse tempo sem gramática - o amor das crianças conjuga-se sem verbos; conjuga-se com gargalhadas, com aprender a chamar casa aos braços de alguém.
 
Hoje, mais do que tudo, queria ter ido para casa - os meus Pais, vocês, a Gó, o A.- e podermos, os dois, tu e eu, pousar os relógios.
 
(e ser dentro de nós, a mesma hora).  
 
Hoje, a saudade veio no sangue, acho eu.
 
Fui levar o lixo ao fim da tarde e vi algumas sombras no passeio.
 
e se uma delas pudesse ser a tua, só hoje?
 
Sabes, Avô, todos os dias digo à Avó que não tenha pressa.
 
E digo-lhe, a rir, que sem o meu chão, a vida será um deserto.
 
A minha família - nós, os que nos escolhemos uns aos outros, os que nos quisemos, nisso de nos vermos todos os dias, de estarmos perto, de não poder haver nenhum nome depois de nós - foi o meu milagre.
 
Por isso, Avô, lembra a estes sacaninhas que não tenham pressa.
 
Diz,
 
Milinha, não tenhas pressa, que os rapazes precisam de ti.
 
E aos meus Pais e ao A. também.
 
Quanto a ti, havemos de nos encontrar.
 
Digo à Avó,
 
Só me importa a vida aqui.
 
E, depois, para onde achas que vais?
 
Avó, que é que achas, malandra?

Hei de ir sempre para onde vocês estiverem.
 

domingo, 13 de setembro de 2015

da janela do meu quarto,

I.

da janela do meu quarto,

uma, duas ruas

e o coração sempre cheio de atalhos para chegar a casa


da janela do meu quarto,

o meu Avô ainda no meio do jardim

e a saudade assombrando o parapeito dos meus olhos


da janela do meu quarto,

uma, duas ruas

e sempre as mesmas palavras em lábios novos


da janela do meu quarto,

a minha Avó sempre à minha espera

e nós a guardarmos um do outro o milagre do nosso encontro


da janela do meu quarto,

uma, duas ruas

e a minha infância diabética de amor



da janela do meu quarto,

eu a dizer: "Vovó não morras, tá bem?"

e M. a dizer: "Sabes, pequeno, é por ti e pelo A. que estou viva."


da janela do meu quarto,

uma, duas ruas

e a promessa que fiz de que os sonhos teriam sempre este chão


da janela do meu quarto,

o medo de que o regresso não possa ser ao mesmo lugar

e o A. a dizer-me: Está tudo bem, R., está tudo bem."


II.


da janela do meu quarto,

a recém-felicidade sempre

e, no silêncio do meu sangue, a mímica dos vossos nomes



da janela do meu quarto,

o vestir-me de propósito para vos ir dizer: "amo-vos"

e nunca poder haver pretérito nos verbos com que vos chamo


da janela do meu quarto, no vidro embaciado,

uma criança escreve com os olhos,

Que fazes aí, R?

Agradeço, agradeço.

RM 

domingo, 16 de agosto de 2015

o vento sem mapa|

também o vento vem sem mapa, amor

e repete nos poros do caminho o teu nome

uma, duas, muitas, todas as vezes


olha o vento a fingir que é verão

se calhar, podíamos retomar o poema

que dizes,

de enfeitares, de novo, o cabelo

com a madrugada inteira do meu desejo


sabes, amor, a saudade é a espera entre sonhos

podias voltar a tempo de me leres baixinho -

é outra vez verão nessa página

desarrumemos a distância como as gavetas onde deixamos a roupa


amor, faz como o vento e passa por aqui outra vez

veste a minha camisa outra vez

e lê-me baixinho

pega num cigarro, se quiseres

eu deixo.


lê-me como se me esperasses

veste, se puderes, a camisa azul

e vê que o bolso traz o teu nome escrito


foi a saudade que o bordou

[do lado de dentro.]


RM

sábado, 1 de agosto de 2015

Avó,

como se passar pelos teus olhos fosse sempre como entrar em casa
as pernas tão habituadas aos degraus que demoram o nosso abraço
(mas ansiosas)
como se passar pelos teus olhos fosse sempre abrir a janela da infância e poder vir gritar ao terraço,

Vovó!

só para saber que estás aí e vieste deixar-me flores frescas junto ao peito.


como se passar pelos teus olhos fosse sempre não ter que mudar de roupa
a pele habituada ao conforto destas palavras amenas e amplas como uma brisa de verão
em que escolho agasalhar a nudez brincalhona da nossa intimidade.

como se passar pelos teus olhos fosse chumbar sempre a matemática
as pernas tão habituadas a aldrabar a espera do nosso encontro
e subir os degraus dois a dois fosse amar-te mais e com mais força.

porque passar pelos teus olhos foi sempre não precisar da chave da porta
as mãos habituadas a este amor-de-porta-no-trinco
o coração habituado a ter na tua voz o melhor miradouro de mim mesmo.

sabes, Avó, amo-te e passei para te dizer isso mesmo.

não bati a porta.

[volto logo para te ouvir a resposta e fazer batota ao subir os degraus]

RM

sábado, 18 de julho de 2015

Avô,

se pudesses, Avô, descer a escada do tempo

e encontrar-me cá em baixo no princípio

íamos os dois a tempo de um cigarro no jardim

íamos os dois a tempo de dizer um ao outro das saudades

que nos ficaram como frutos suspensos no lado de dentro dos braços


se pudesses, Avô, levar.me, de novo, no carro para a Aparecida

eu a ter que me sentar no banco de trás por ser pequeno

e tu a tempo de dizer,

Já não falta muito! E depois vens comigo aqui ao lado!

íamos os dois a tempo de regressar ao teu passado

e de ficar sentados na soleira da porta esquecidos de partir


se pudesses, Avô, ver como o A. se parece contigo

e como eu penso que nasceste nele de novo só para eu não ter que andar sozinho

íamos os dois a tempo de lhe dizer,

Gostamos muito de ti

e de ficar felizes por as palavras se poderem levar nos bolsos para toda a vida


se pudesses, Avô, ver como a Avó foi a escolha certa

e como continua mais bonita por causa do que lhe deixaste agarrado à pele

íamos os dois a tempo de lhe dizer,

Obrigado

e de ver a maré cheia dos olhos de quem se sabe amado para sempre


se puderes, Avô, ver como tudo ainda te espera

pede para voltares nem que seja para um cigarro no jardim

só para eu ir a tempo de te dizer,

Quando for grande quero ser como tu

(mais uma vez)

e, mesmo não fumando,

fumar contigo no jardim da nossa casa

as saudades que me ardem no silêncio que ficou.

RM

sábado, 4 de julho de 2015

Avó,

o rapaz aprendera a ver o céu nos olhos de M.

M. tinha o hábito de lhe sorrir como uma janela aberta num dia de sol

e o rapaz gostava disso.

disseram-lhe na escola,

o céu é azul, R.

e para sempre o céu havia de estar nos olhos de M.

porque aquele fora o azul mais bonito que ele vira.

porque esse era o lugar onde repousavam todos os que M. nunca deixou morrer.

porque esse era o caminho mais curto para casa.

(sempre.)

e o rapaz tinha tanta pressa de chegar a casa.

M. sorria-lhe todas as vezes como se a espera, finalmente, não fosse doer mais,

R, meu amor, como foi a escolinha?

R., antes das palavras, quis dizer com um abraço que confirmara que o céu sempre era azul.

azul-só-meu,

as crianças inventam sempre amores egoístas como se fossem levar no bolso dos calções curtos um segredo que o mundo guardou só para elas.

azul-para-sempre,

que o céu é o lugar das coisas que não morrem.

e R. quis passar todos os dias da vida dele com os olhos postos no céu

raio do garoto!

R. aprendera na escola o que o seu coração descobrira, muito antes, escrito no lado de dentro da pele

nos olhos de M. ficavam todas as coisas sem nome.

subir vinte escadas sem nunca se cansar só para dizer

Vovó!

descer vinte escadas sem nunca deixar de ter medo e olhar sempre para trás

só para dizer

Milinha gosto muito de ti, malandra!

Ouviste?

M. ouve no escuro, M. sabe que R. há de ser sempre o rapaz que descobriu o céu que havia nos olhos dela.

ao rapaz disseram na escola,

o céu é azul, R.

R. sorriu, feliz

e disse como se visse, mais uma vez, os olhos de M., sua Avó,

pois é, e o azul é a cor da esperança.

(Obrigado, Vovó.)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

para o né|

I.VI.MMXV
 
cada vez que faço anos, agradeço aos meus pais pelo meu irmão.
 
é verdade.
 
não sei como se diz obrigado vinte e tal anos de forma diferente, mas eu insisto.
 
dizem-nos que nascemos com cinco minutos de diferença.
 
e foi isto - desde o início, o Né esperou por mim.
 
e ter quem nos espere é do caraças - é ter um princípio de casa no arrepio de cada dúvida, é ter um miradouro de calma e riso sobre as desgracinhas que, de repente, quando alguém nos diz
 
está tudo bem
 
já não são nada, nunca foram nada - afinal, o meu irmão entende as várias línguas do meu silêncio.
 
tenho um irmão que é a minha cópia, é o que nos dizem.
 
eu nunca acreditei - o Né sou eu, mas os olhos dele são os do meu Avô, as mãos dele são mais compridas e o cabelo rapado só lhe fica bem a ele.
 
para mim, ficam os brincos e pouco mais.
 
e o Né percebe de carros como ninguém, usou uns sapatos Oxford aos treze anos como ninguém e organiza tudo como ninguém.
 
tenho um irmão do caraças, só vos digo.
 
o meu pai diz que o meu irmão lhe lembra do pai até quando discutem. sobretudo quando discutem.
 
e eu quero acreditar que o meu pai tem menos saudades do pai dele e isso é bom.
 
o meu irmão tem um abraço que é como uma porta que não se fecha à chave - assim, à moda antiga, antes do tempo dos ladrões de leste e coisas tristes.
 
costumo entrar e fico para ali esquecido de voltar - nesse lugar, onde todos os relógios são inúteis e onde esvazio os bolsos de toda a tristeza e desencanto.
 
só o meu irmão sabe quantas mulheres amei e como as amei.
 
(coitado, e nunca se riu do meu amor em que os olhos são quase sempre os dedos.)  
 
às meninas apetece-me dizer: o meu irmão é muito melhor do que eu.
 
a toda a gente, já agora. porque é verdade.
 
um irmão como o meu dá jeito quando for comprar o meu primeiro Aston Martin - eu só sei que o quero verde garrafa. ele já sabe tudo, já reviu tudo e escolhe sempre o melhor.
 
talvez o meu irmão seja assim - eu sonho com um carro verde garrafa e ele certifica-se que o meu carro verde garrafa é o melhor que há para mim.
 
ter um irmão assim não é para todos, não senhor.
 
estou velho e repito-me, está visto.  
 
quem ama, repete a verdade julgando com isso que a torna maior.
 
fazemos anos.
 
vinte e oito.
 
(e a mim a saltar-me a tampa com os amigos de lisboa: ah já são vinteeóóito.)
 
olho à minha volta:
 
uma Mãe que eu não merecia (check)
 
uma Avó malandra e com olhos do azul mais bonito que há (check)
 
um Pai que me ensinou que nas diferenças que temos também há muito amor (check)
 
uma Tia-Avó que foi a mãe da minha Mãe quando a dela morreu e que é um exemplo de bondade (check)
 
a saudade dos meus Avôs que se senta sempre comigo à mesa (check)
 
e a Gó ao telefone a dizer: Ricardinho e Dédé parabéns! e a chorar do outro lado (check)
 
ter um irmão como o meu e uma família assim é como receber um presente que, não sabemos como, às tantas, nos calhou na rifa por engano.

é que eu não me portei sempre bem nem nada.
 
mas eu não os devolvi.
 
(afinal, não tinham defeito e pode ser que se esqueçam de mos vir roubar).