Ao Deus que inventou o azul dos teus olhos,
eu disse que não queria amor mais nenhum.
[não é preciso]
não sei se é próprio de um Deus sorrir mas continuei,
e falei-lhe dos nossos abraços como gavetas em que as nossas imperfeições nos uniram mais
e aproveitei para lhe lembrar que te prometi muita coisa que ainda não fiz só para haver futuro.
Ao Deus que não sabe o que nos chamar,
eu disse que não queria milagres.
[não é preciso]
não sei se é próprio de um Deus abanar a cabeça com doçura mas continuei,
e contei-lhe que não sei o que fazer com o verde da Aparecida, as palavras no meu peito e as mãos nervosas se tu não estás
e, já agora, mostrei-lhe as fotografias que vimos os dois outro dia, à noite.
Ao Deus que se esconde no lado de dentro das tuas mãos,
eu disse que não quero saber para onde vou.
[não é preciso]
não sei se é próprio de um Deus encolher os ombros mas continuei,
e pus-me a ler todos os postais da minha infância que tu ainda guardas
e, já agora, ainda hoje se ouve o meu riso por baixo das palavras.
Ao Deus que sempre me disse que estás à minha espera
eu disse que não sei rezar.
[não é preciso]
não sei se é próprio de um Deus piscar um olho mas continuei,
e escrevi o teu nome mil vezes na espera irrequieta do meu sangue
e, sem saber, escrevi com ele também o meu.
Ao Deus que inventou a Primavera do teu jardim
eu agradeci cada uma das flores.
são todas para ti, Vovó.
não demores.
"The only way of catching a train I have ever discovered is to miss the train before." Chesterton (1874 -1936)
Rewind
domingo, 19 de abril de 2015
sábado, 11 de abril de 2015
se era amor, veio à paisana|
se era amor, veio à paisana, sabes?
primeiro, foste um fósforo numa noite escura.
ri-me muito contigo e o cheiro da tua pele foi uma maré cheia por cima de tudo.
depois, a tua boca ensinou-me a esperar.
havia silêncio e os teus olhos eram a luz no fundo dos meus.
primeiro, foste um fósforo numa noite escura.
depois, a saliva foi a tinta inventada para o papel-fogo da nossa pele
e quisemos despir-nos de luz acesa.
primeiro, fomos um poema ilegível.
depois, as linhas dos nossos braços rasgaram a noite
e ficou escrito que eras minha na diagonal do suor nas minhas costas.
primeiro, quis continuar a ir sozinho ao cinema ou ao café
depois, vi que já não era minha a sombra que vinha nos passeios
e telefonei-te três dias seguidos quando a luz do fim de tarde, de repente, me doeu.
primeiro, guardei a tua t-shirt branca na gaveta do fundo da cómoda sem pensar
depois, tive saudades tuas como quem espreita uma vizinha com uns olhos bonitos demais para se ficar longe
e voltei a telefonar-te.
primeiro, foste um fósforo numa noite escura.
depois, o escuro continuou a ser escuro
e a noite continuou a ser noite.
eu, era outro.
(porque era teu)
primeiro, foste um fósforo numa noite escura.
ri-me muito contigo e o cheiro da tua pele foi uma maré cheia por cima de tudo.
depois, a tua boca ensinou-me a esperar.
havia silêncio e os teus olhos eram a luz no fundo dos meus.
primeiro, foste um fósforo numa noite escura.
depois, a saliva foi a tinta inventada para o papel-fogo da nossa pele
e quisemos despir-nos de luz acesa.
primeiro, fomos um poema ilegível.
depois, as linhas dos nossos braços rasgaram a noite
e ficou escrito que eras minha na diagonal do suor nas minhas costas.
primeiro, quis continuar a ir sozinho ao cinema ou ao café
depois, vi que já não era minha a sombra que vinha nos passeios
e telefonei-te três dias seguidos quando a luz do fim de tarde, de repente, me doeu.
primeiro, guardei a tua t-shirt branca na gaveta do fundo da cómoda sem pensar
depois, tive saudades tuas como quem espreita uma vizinha com uns olhos bonitos demais para se ficar longe
e voltei a telefonar-te.
primeiro, foste um fósforo numa noite escura.
depois, o escuro continuou a ser escuro
e a noite continuou a ser noite.
eu, era outro.
(porque era teu)
RM
sexta-feira, 3 de abril de 2015
no princípio,
no princípio, acho que foram os teus olhos.
o autocarro passou e era noite, de repente.
no princípio, foi tudo o que não me disseste.
(ainda)
e eu atrasei qualquer futuro que fosse nas rodas daquele autocarro e deixei-me ficar.
fomos andar para perto do mar.
hoje, percebo que o amor começa quando o que ainda não vemos do outro é tudo o que queremos ter.
disse-te
algumas pessoas decidem ficar a viver sempre na véspera do futuro.
riste-te ao pensar nessa vida de vésperas, nessa vida que fica sempre do lado de cá do nevoeiro, nessa vida de quem se esqueceu de sonhar.
tens razão. mas escolhes sempre não apanhar autocarros só porque o futuro tem que estar noutro lugar?
nessa altura, acendeste um cigarro e o vento era quente e vagaroso.
[não. não apanhei o autocarro porque senti que o futuro tinha que começar hoje.]
esta teria sido a minha resposta, se não tivesse descoberto que havia pele no fundo dos meus olhos e que tu a acordaste.
escondeste-te dentro do meu casaco - os teus braços à volta da minha cintura e o silêncio a deixar, de repente, de ser um lugar desabitado.
fizemos tantas vezes isto - falar, noite dentro, agasalhados no corpo um do outro e descobrir que o silêncio de quem ama nunca é silêncio - é outra coisa.
no princípio, o autocarro passou e não demos por nada.
rimos por causa de um filme qualquer e rimos por causa de tudo e de nada.
rimos porque o que ainda não víamos um do outro era o que queríamos ter.
no princípio, atrasei-me.
e habituei-me a ver-te fumar pendurada no parapeito das janelas, nas escadas do prédio ou no meu colo, na varanda.
naquele dia, não tive pressa - falei-te como se sempre me tivesses esperado, como se fossem todos teus os meus sorrisos naquele desvio e improviso em que começa o amor.
naquele dia, o autocarro levou a véspera do futuro com ele. o futuro começava ali - no lado de lá do nevoeiro para onde me levaste pela mão.
naquele dia, amor, atrasei-me.
e cheguei a horas.
o autocarro passou e era noite, de repente.
no princípio, foi tudo o que não me disseste.
(ainda)
e eu atrasei qualquer futuro que fosse nas rodas daquele autocarro e deixei-me ficar.
fomos andar para perto do mar.
hoje, percebo que o amor começa quando o que ainda não vemos do outro é tudo o que queremos ter.
disse-te
algumas pessoas decidem ficar a viver sempre na véspera do futuro.
riste-te ao pensar nessa vida de vésperas, nessa vida que fica sempre do lado de cá do nevoeiro, nessa vida de quem se esqueceu de sonhar.
tens razão. mas escolhes sempre não apanhar autocarros só porque o futuro tem que estar noutro lugar?
nessa altura, acendeste um cigarro e o vento era quente e vagaroso.
[não. não apanhei o autocarro porque senti que o futuro tinha que começar hoje.]
esta teria sido a minha resposta, se não tivesse descoberto que havia pele no fundo dos meus olhos e que tu a acordaste.
escondeste-te dentro do meu casaco - os teus braços à volta da minha cintura e o silêncio a deixar, de repente, de ser um lugar desabitado.
fizemos tantas vezes isto - falar, noite dentro, agasalhados no corpo um do outro e descobrir que o silêncio de quem ama nunca é silêncio - é outra coisa.
no princípio, o autocarro passou e não demos por nada.
rimos por causa de um filme qualquer e rimos por causa de tudo e de nada.
rimos porque o que ainda não víamos um do outro era o que queríamos ter.
no princípio, atrasei-me.
e habituei-me a ver-te fumar pendurada no parapeito das janelas, nas escadas do prédio ou no meu colo, na varanda.
naquele dia, não tive pressa - falei-te como se sempre me tivesses esperado, como se fossem todos teus os meus sorrisos naquele desvio e improviso em que começa o amor.
naquele dia, o autocarro levou a véspera do futuro com ele. o futuro começava ali - no lado de lá do nevoeiro para onde me levaste pela mão.
naquele dia, amor, atrasei-me.
e cheguei a horas.
sábado, 7 de março de 2015
Até sempre, Tia!
Tia,
Já há flores na varanda de sua casa, sabe?
Uma varanda como uma ferida verde na altura cinzenta dos prédios daquela rua do Porto.
Graças a ela, mesmo em pequeno, soube sempre onde morava - nessa casa tão cheia de memórias, de livros, de pintura e tão cheia da vossa história de amor.
Sabe, Tia, sempre achei que a sua história e do Tio Arnaldo foi, sobretudo, uma belíssima história de amor.
A Avó diz-me que começaram a namorar ainda muito novos. A Tia vinha do Porto passar os Verões à Aparecida e costumava passear muito com o primo que aprendeu a amar.
E eu aprendi a admirar o tamanho desse amor - a luz que ele teve pelo meio das trevas de tantas e tantas coisas difíceis, a verdade que ficou no abraço doce que a sua memória nos deixa.
Lembro-me da Gó me contar que o Tio lhe disse uma vez:
Sabe, Glória, eu quero morrer primeiro que a Maria Alcina. Nós somos como um casal de passarinhos e eu não saberia aprender a viver sem ela.
Até hoje, guardamos todos uma saudade imensa desse Tio que, como Homem, tem o tamanho de todas as vidas que vieram depois dele e que foram melhores por sua causa.
Dele guardo, sobretudo, a doçura de todos os encontros - a vontade que tinha, como me dizia, que "fizéssemos o futuro acontecer mais cedo."
Lembro-me de ficar com a Tia a olhar as pinturas horas a fio e de ficarmos a conversar no quarto com vista para a Ponte da Arrábida.
Lembro-me da Donzília, com a sua voz tão alegre, às compras na mercearia, em Miguel Bombarda:
Olá, olá, meninos! Então, queridos, como estão? - nela vi sempre a vossa Gó, essa espécie de família que a vida nos revela no coração de alguns.
Também eu gostava de ter vivido os Verões em que os meus Avós iam com os Tios e os filhos e primos todos até à casa com janelas em bico, na Foz.
Admiro os meus Avós por terem estado sempre do lado do futuro que era o vosso lado - olho a minha Avó com um respeito enorme quando me diz que nunca teve medo de ir visitar o Tio à cadeia; ou quando, ainda ontem, ao lembrar-se dos julgamentos chorou, uma vez mais.
Lembro-me do Nanau e de passear com ele e com o A., ao fim da tarde, depois da faculdade.
Lembro-me de ficar vaidoso quando a Tia dizia:
Estes meus sobrinhos também tiraram Direito como o Arnaldo.
Hei de lembrar-me sempre de si, Tia.
Deixo-lhe o poema que o Tio lhe dedicou quando fizeram 50 anos de casados, dia 17.04.2005.
Tenho o convite guardado até hoje.
Aqui vai:
Tu me foste
namorada,
noiva,
amante.
E Irmã,
Amiga,
Mãe,
Mulher.
É de
justo
que eu
te cante.
Que eu
me encante
até morrer.
E o faça,
e o faça
com prazer!
Arnaldo Mesquita, in Dispersos (diversos), p. 194.
Sei, hoje, que o Tio foi maior graças ao Amor que lhe guardou sempre.
Sei, também, que o seu coração se cansou de saudade.
A esta hora, que estejam todos juntos: a Tia, o Tio e o Nanau.
Sei que saberão encontrar-se, também desta vez.
Já há flores na sua varanda, querida Tia.
É a Primavera que vem aí.
E o Céu enche-se de pássaros que parecem querer voar juntos para sempre.
Pai,
Para a Bárbara,
e às pessoas que nos deixam olhos no coração.
Pai,
Pensei que ia ter a vida toda para ser tua
Pensei que íamos ficar esquecidos de partir
Sentados os dois à mesa de uma noite felizSem longe e sem medo
Pai,
Pensei que podia chamar-te mais mil vezes sem te gastar o nome
Pensei que na verdade não havia pressa
E que íamos morar os dois para sempre
Na pátria do sonho de onde viemos
Pai,
Pensei que a guitarra do nosso Fado nunca seria triste
Pensei que o nosso tempo seria somente o tempo todo
Quis, sabes, chegar sempre a casa apenas para te encontrar
E para acreditar contigo na doçura de todos os enganos
Mas, Pai,
Quero que saibas que estou a aprender com que letras se continua o Amor
Quero que saibas que o que somos, sei dizê-lo.
O poema que me foste, sei cantá-lo.
Dá-me tempo, Papá.
Dá-me tempo.
E eu vou aprender que o futuro será sempre o lugar onde terei, inteira, a verdade do que fomos.
[Dá um abraço ao Avô Adolfo por mim.]
RM
Parabéns, Gó.
06.03.
Gó,
Chego à porta de tua casa.
O dia está limpo e no jardim, do lado de dentro do portão, já há flores.
São camélias.
São camélias.
Decido chamar-te:
Gó
E tu vens logo, como sempre.
Trazes nos olhos uns braços que chegam ansiosos e dizem saudade.
Ricardinho, como está? Que saudades, Ricardinho!.
Quase posso jurar que ninguém me chama Ricardinho como tu, malandra.
Como ninguém cozinha bifes com ovo ao Domingo à noite como tu.
Ou ninguém tem uma fé com a luz e a verdade da tua.
Venho ver-te para que o tempo pare. Venho ver-te para falar do Avô com quem o conheceu tão bem.
Venho ver-te para nos rirmos das cócegas que eu e o A. te fazíamos na missa ou de quando nós os dois te pedíamos para ver uma galinha por dentro.
Venho ver-te porque é tão fácil e os teus braços têm sempre o tamanho do que me falta.
Dizes-me
Sabe o que me alegra muito, menino? Que seja sempre tão amigo dos seus Papás, das suas Avózinhas e do Dédé.
[Dédé para sempre.]
E teu, respondo-te.
Sim, e meu.
Conheces-me tão bem, penso eu.
O meu coração é como um portão fechado onde há um jardim com flores.
E, juntos, os meus Pais, os Avós, o A. e tu são uma promessa de Primavera no chão de tudo.
Gosto muito de ti, Gó.
Vim mesmo foi para te dizer
Obrigado.
mais uma vez.
mais uma vez.
E lembrar-me de como o Jesus era bonito na tua boca, de como agradeceste todas as nossas alegrias como se fossem as tuas e de como nos adoçaste as tristezas do caminho.
Venho porque me apetece ser criança outra vez - e correr nos terraços de casas onde os Avós não morrem, os Pais não envelhecem e as empregadas são do sangue que o nosso coração queria ter dentro.
[e tem]
Venho para gostar de perto - tu sabes que eu só gosto assim.
Venho, porque sim.
Venho por tudo.
E virei sempre.
Só para chamar
Gó!
E caber inteiro no teu abraço.
(sabes, ou eu não cresci ou tu tens sempre o tamanho do que me falta.)
Parabéns, Gó!
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
o teu nome,
fecha os olhos.
vá lá,
deixa que te mostre, de novo, o nome de tudo.
aprende comigo que se diz noite com um sorriso.
depois, muito devagar, aprende o teu nome como eu o escrevo:
os teus lábios são as linhas onde a caligrafia se desmorona
as tuas mãos os cadernos onde os sonhos se confessam
e o teu corpo é a boca por onde o desejo, finalmente, se escapa.
fecha os olhos.
vá lá,
lembra-te, se puderes, que antes do encontro das nossas bocas havíamos esquecido todas as palavras
sei, apenas, que meti as mãos dentro do teu vestido e queimei a língua ao sublinhar-te muitas vezes.
lembras-te?
vem ver como em tudo sempre houve uma espera
sim, amor, tive até que arranjar mais sangue só para caberes cá dentro e te poder guardar inteira.
fecha os olhos.
vá lá,
prova-te nos cantos da minha boca, encontra-te nas sombras da minha pele
e diz que ficas.
vem ver, amor, como é o teu nome que eu escrevi.
aprende-me as letras e verás.
é o teu nome
à espera, toda a noite, que tu digas o meu.
vá lá,
deixa que te mostre, de novo, o nome de tudo.
aprende comigo que se diz noite com um sorriso.
depois, muito devagar, aprende o teu nome como eu o escrevo:
os teus lábios são as linhas onde a caligrafia se desmorona
as tuas mãos os cadernos onde os sonhos se confessam
e o teu corpo é a boca por onde o desejo, finalmente, se escapa.
fecha os olhos.
vá lá,
lembra-te, se puderes, que antes do encontro das nossas bocas havíamos esquecido todas as palavras
sei, apenas, que meti as mãos dentro do teu vestido e queimei a língua ao sublinhar-te muitas vezes.
lembras-te?
vem ver como em tudo sempre houve uma espera
sim, amor, tive até que arranjar mais sangue só para caberes cá dentro e te poder guardar inteira.
fecha os olhos.
vá lá,
prova-te nos cantos da minha boca, encontra-te nas sombras da minha pele
e diz que ficas.
vem ver, amor, como é o teu nome que eu escrevi.
aprende-me as letras e verás.
é o teu nome
à espera, toda a noite, que tu digas o meu.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
tão branco este silêncio,
o nosso silêncio era feito de paredes cansadas, lembras-te?
e eram nossas as sombras que nelas dançavam as horas rápidas da noite, lembras-te?
sabes, os meus olhos ainda procuram a janela onde deixaste a minha roupa.
não precisas dela, dizias.
e rias-te enquanto tudo o que eu vestia eram os teus dedos.
comecei a calar-me dentro dos teus braços - a minha língua queria era ler as letras trémulas do teu arrepio e tu trazias o mapa do meu corpo todo escrito no relento quente da pele.
hoje lembrei-me de ti - há uma solidão demasiado branca nas paredes desta casa, trago na boca um mastigar de espera que incomoda e continuo sem saber da roupa.
este sofá cheira às flores que te semeei no fundo da barriga e ainda há restos de ti no fundo dos espelhos do quarto.
sabes, há uma luz de primavera a inundar o chão e faltam os teus pés a mostrar-lhe o caminho para dentro do meu peito.
ontem à noite, dormi sem almofada - ainda havia nela a expectativa dos sonhos que inventei para ti; havia ainda, no avesso, promessas por cumprir.
ando sem roupa à procura da janela onde ias só para fumar um cigarro. e ando à procura do teu sorriso quando dizias
não vais precisar dela.
tenho o corpo à espera e um coração que tem pressa, amor.
ando à procura do verbo que te empurre.
sim, do verbo que te empurre para dentro de uma parede branca comigo.
outra vez, mais uma vez.
deixaste os cigarros na mesa da entrada.
volta nem que seja para os vires buscar.
vá lá, entra e tranca a porta.
onde estão as chaves?, perguntas.
não vais precisar delas, digo-te eu.
domingo, 18 de janeiro de 2015
Parabéns, Vovó!
18.01.
O coração sabe que é a hora.
O telefone chama.
Tu não demoras a atender.
"- Muitos parabéns, querida Milinha!!"
Curioso que se diga que o telefone chama, como se o telefone estendesse a nossa voz até à outra ponta da saudade.
A minha Avó faz hoje anos e isto chega.
E eu quase quero que este texto seja isso mesmo - uma janela cheia de luz toda aberta para dentro da pele; cada um dos instantes imensos em que, num feliz engano, cremos que vamos ser esquecidos e deixados para sempre junto uns dos outros.
Quem escreve, chama.
E eu gosto sempre de chamar o nome da minha Avó, de andar pela casa, percorrer os corredores e saber que as minhas mãos sempre encontram quem as agarre; que, afinal, sempre há uma razão para sorrir apenas porque o azul dos seus olhos pode muito bem ser um poema escrito só para nós.
A minha avó foi um poema escrito para mim - as nossas vozes rimam, os nossos olhos abraçam-se e as palavras são presentes que abrimos juntos na intimidade do que somos.
A minha Avó é um poema que sei de cor - todo o amor é uma espécie de vício, todo o amor é uma espécie de sequestro feliz.
E a quem se agradece que o poema possa ter mais uma estrofe? A quem agradecer a infinita alegria de poder dizer mais uma vez:
"- Vovó gosto muito de ti. Sabes disso, não sabes?"
Eu agradeço uma vez e outra, mil vezes, todas as vezes em que o meu amor encontra do outro lado quem diga:
"- Eu sei, meu amor. Eu também."
O coração sabe que é a hora.
O coração escreve só para dizer que já tem saudades daquilo que sabe que podemos vir a ser, Avó.
Vovó, os maiores amores são aqueles em que o tempo se desalinha só para que seja possível o encontro.
Para ir ter contigo, eu chego sempre adiantado.
E rio-me ao pensar que, em todas as vezes que cheguei antes da hora, tu já lá estavas:
"- Estava à tua espera, Ricardinho!"
O coração sabe que é a hora.
E dentro dos nossos corações, felizmente, a hora será sempre a mesma.
Parabéns, Milinha!
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
Até sempre, Tia,
Tive uma família que nunca me ensinou a dizer adeus.
A vida foi sempre um ciclo sereno em que as saudades cresciam no intervalo entre as visitas, entre as vindimas, entre as férias de Verão que pareciam não acabar nunca.
Até hoje, dizer adeus não deixa de ser estranho - é quase ter que chamar vida à vida sem vindimas, sem Verões em Caldelas, sem lanches e almoços em dias de anos. Todos os anos, toda uma vida.
Temos saudades suas, Tia Ester.
Outro dia, lembrei-me das nossas conversas debaixo das árvores nas termas, de como conservou a sua serenidade de Professora durante toda a vida e de como gostava de falar comigo.
Lembro-me muito do Avô, desses Tios e Tias que foram parte da muralha em que a infância pôde ser o chão de uma casa.
A Avó fala-me muito de si, fala-me dos vossos tempos de amigas na escola, muito antes de serem cunhadas, fala-me como se não conseguisse deixar de a esperar nunca.
Ficámos os dois a ver fotografias até muito tarde - aprendi com ela esse vício de ocupar as ausências com a doçura do que vivemos, com a verdade do que fomos uns para os outros.
Ri-me muito ao lembrar-me da Tia a dizer:
"- Ricardinho, escolhe um carro para brincares que eu dou-to."
Era o Verão de Caldelas, era o tempo das brincadeiras sem fim e sem medo.
E logo a Tia Né a correr muito:
"- Querido, escolhe dois que eu pago."
Aprendi que em todo o amor há uma espécie de rivalidade e habituei-me a ter um coração grande como um abraço generoso onde coubessem todos quantos gostavam de mim.
Acabei essa tarde com três carros para brincar e um saco de berlindes que guardo até hoje.
O carro que a Tia me deu, ofereci-o ao Tiago, filho do Pedro, este Natal.
Gostar das pessoas é repetir o bem que elas nos fizeram, é prolongar o afecto dos outros para lá do tempo que temos por aqui.
Lembro-me do parque das termas, de beber muita daquela água e de andar a dizer à família toda que a bebesse também para que tudo durasse para sempre.
Uma família é uma árvore perene com frutos que vão caindo.
Tenho pena de serem cada vez menos os que me chamam:
"Ricardinho."
Como se tudo fosse ser sempre bom, como se em todas as curvas da vida sempre houvesse quem nos esperasse.
"Anda cá, querido, anda cá."
Obrigado, Tia e até um dia.
Já sabe, é só chamar.
"Ricardinho!"
E eu arranjo uma maneira de a encontrar.
Era o Verão de Caldelas, era o tempo das brincadeiras sem fim e sem medo.
E logo a Tia Né a correr muito:
"- Querido, escolhe dois que eu pago."
Aprendi que em todo o amor há uma espécie de rivalidade e habituei-me a ter um coração grande como um abraço generoso onde coubessem todos quantos gostavam de mim.
Acabei essa tarde com três carros para brincar e um saco de berlindes que guardo até hoje.
O carro que a Tia me deu, ofereci-o ao Tiago, filho do Pedro, este Natal.
Gostar das pessoas é repetir o bem que elas nos fizeram, é prolongar o afecto dos outros para lá do tempo que temos por aqui.
Lembro-me do parque das termas, de beber muita daquela água e de andar a dizer à família toda que a bebesse também para que tudo durasse para sempre.
Uma família é uma árvore perene com frutos que vão caindo.
Tenho pena de serem cada vez menos os que me chamam:
"Ricardinho."
Como se tudo fosse ser sempre bom, como se em todas as curvas da vida sempre houvesse quem nos esperasse.
"Anda cá, querido, anda cá."
Obrigado, Tia e até um dia.
Já sabe, é só chamar.
"Ricardinho!"
E eu arranjo uma maneira de a encontrar.
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