Rewind

domingo, 25 de março de 2018

21.03| Avós,

Sou uma flor da primavera que vocês começaram. 

Conheci o vosso amor porque o vi acontecer diante de mim - eu, desde o princípio, engolido num abraço que sempre me incluiu, sempre me serviu na pele, sempre me orgulhou e fez de mim uma criança inteira e maior. 

Casaram por amor, sei-o bem. 

O Avô que te mandava fotografias, 

Olhando o mar pensando em ti, 

Tu, Vovó, que lhe bordavas mensagens em ponto de cruz, 

Levam-te mil saudades, 

E eu, desde pequeno, que vos perguntava, 

É assim o amor? Alguma vez se arrependeram da vossa escolha?, 

(Puto chato, eu, Deusmalivre),

E vocês, sempre me dizendo, por palavras, a verdade que eu via ser carne com os olhos e com o coração - o amor não é nunca um lugar fácil - há uma espécie de violência e de sequestro na forma como o lume intenso do nome do outro nos arde cá dentro; há o risco de uma dança sobre o abismo quando lançamos a corda dos nossos braços até ao outro; há uma imensa felicidade e paz no perdão das falhas que esse alguém nos merece; há um longo caminho todo de verdade, 

72 anos de casada, Milinha, 

Sentado na tua cama, falo-te do vosso primeiro jantar de casados no Abadia, relembro-te dessa vossa ida ao teatro no Sá da Bandeira e digo-te com a nudez explícita e costumeira entre nós, 

Não achas que o Vovô te amou sempre, Vovó? Que na forma como te protegeu, te engrandeceu, mereceu o teu perdão e foi teu amigo e cúmplice, te deixa uma certeza disso mesmo?, 

Tu respondes-me, 

Claro que sim, pequeno. Eu, em bom rigor, não escolhi, fui escolhida. O teu Avô não me largava antes de começarmos a namorar e eu comecei a amá-lo, quando percebi que ali estava um homem e não um rapazola, 

Rio-me ao ouvir-te dizer isso - só quem não te conheça bem, poderia imaginar, alguma vez, que irias para onde quer que fosse sem que o quisesses de verdade. 

Aproveito para te agradecer, 

Fui sempre muito feliz também por vossa causa, Vovó, e sei o que vos devo, 

E tu atiras, 

E já não és feliz, meu Amor?, 

Sou, Vovó, sou - tu que me lês, mesmo sem saberes, o nublado dos olhos, que vês no escuro de mim mesmo - mas sinto falta dos tempos em que estávamos todos - os Pais, o A., o Avô e a Gó, percebes?, 

Tu, de repente, abraças-me, enquanto eu te digo, 

Não nasceu de ti e do Avô nada que vos iguale, 

E tu, 

Mas quem te disse que tu e o teu irmão não vão até chegar mais longe do que nós? Só quero estar lá para ver! E ver os vossos filhos e pegar neles ao colo!, 

Sem que o saibas é por tudo isto que eu não consigo ir para longe - mesmo no Porto, enquanto estudante, neste mesmo dia 21, passava sempre em frente do Sá da Bandeira e, se pudesse, jantava no Abadia. 

Tenho uma espécie de fé nos meus milagres e a pedra da minha igreja é a do nosso amor.

Os olhos curiosos que procuravam a mesa, o coração que se entretinha a imaginar a conversa, o tom de azul-feliz dos teus olhos, a satisfação do Avô por ter casado com, 

A maior mulher e a mais bonita da freguesia!, 

E eu a saber, até hoje, que são vocês o mapa da minha existência, a geografia serena da minha história, as coordenadas certas do meu caminho. 

Como numa peça de teatro, as minhas deixas dependem das tuas - por amor, claro, também se improvisa - também se inventam pretextos para mais um abraço, uma visita, um beijo mais repenicado; também se perdoa, se guarda segredos - se fica, sempre. 

Todos os meus dias são vossos. O meu coração é um palco de onde jamais sairão de cena. 

Amo-vos com palavras por descobrir, com frases por escrever e pontuação por inventar - não há quem iguale as flores do jardim de onde nunca sairemos todos - Eu, o A., os Pais, vocês e a Gó. 

Costumava dizer em pequeno, 

Eu e o A. somos as flores mais bonitas da primavera que começou a 21 de Março de 1946!, 

Tu, o Avô, a Gó e os Pais riam-se - e tu piscavas-me sempre o olho como se, apesar desse silêncio, eu merecesse ter a certeza de que o que dizia, para vocês e nos vossos corações, era a verdade.  

Sei que costumavas enfeitar as lapelas dos teus casacos com flores do jardim presas num alfinete.

Tudo o que mais quero é ver o teu coração em flor para que o meu saiba como continuar. 

Antes de eu sair do teu quarto, tu dizes-me, 

Tal como eu dizia ao teu Avô, 

Ou matamos o medo, aqui, os dois, ou ele mata-nos a nós. Nunca tenhas medo, pequeno!

Sem que o saibas, sem sequer imaginares, dizes-me tudo quanto preciso. 

Por detrás da cortina, o Ricardo e a Milinha que só um e outro conhecem. 

Saio para a rua.

Graças a ti, a lapela dos meus casacos traz sempre flores. 

Nos corações de quem se sabe amado, a primavera começa todos os dias, 

e o perfume intenso da felicidade, afinal, não acaba nunca. 

Obrigado.

RM| XXV-III-MMXVIII

domingo, 4 de março de 2018

06.03| Querida Gó,

Gó, 

Toda a minha vida achei que os teus olhos eram de açúcar. 

E, toda a vida, achei que a nossa felicidade foi uma receita que tu ajudaste a cozinhar - só tu sabes quantas colheres de paciência, de infinita bondade, de genuína adoração teve sempre o amor dos Avós,  

quanto sofrimento e superação houve na nossa casa, 

em cada uma das vezes, sei-o bem, a nossa sorte era a tua sorte, a cada percalço o teu coração tremia com os nossos. 

Visto do teu colo o mundo era todo um enorme abraço - achava eu, todas as pessoas tinham que ser como tu e trazer uma luz inteira na verdade com que se entregam, com que ficam, com que sofrem, perdoam e permanecem.

Foste uma almofada a que o meu corpo sempre se agarrou - os braços enrolados no teu pescoço alto, as provocações que me perdoavas por entre gargalhadas - eu a medir, sem saber, a força da tua fé, a querer saber se me amavas a mim e ao A. acima de tudo, apesar de tudo, para lá de tudo. 

E amaste. Sempre. 

O teu amor, o dos Pais e o dos Avós foi, para mim e para o A., o milagre maior das nossas vidas.

Fomos sempre amados sem medida, sem comparação, sem interrupções e sem distâncias - talvez por isso, digo eu, só vos ame verdadeiramente a vocês. 

Não chamo amor a outra coisa que não traga a medida do absoluto que vocês me ensinaram ser possível. 

Quem ama como vocês nos amaram é como um céu que deixa brilhar somente a quem se quer muito e, justamente, eclipsa tudo o resto. 

Não tenho, por isso, meu amor, nome para os meios-sentimentos, para as quase-palavras, para as meias-verdades e para o estar-mas-ao-longe com que a maioria das pessoas diz que ama os outros. 

Dizia-te sempre, 

Gó, tu dás-me colo agora e eu dou-te mais tarde!, 

Prometi-te, um dia,  
   
Gó, nunca vais estar sozinha, ouviste? Eu levo-te para minha casa, tomo conta de ti e pronto!, 

Tu rias-te mas sabes que seríamos incapazes de te largar a mão. 

Há um tempo, no velório da tua irmã Maria, as pessoas, 

É da família?, 

e tu, muito rapidamente, 

É como se fosse, 

E que orgulho tenho em seres da minha família  - no meu sangue há, de facto, tanto de ti - todo o açúcar do teu amor honesto e simples, todo o carinho em flor, a lembrança viva de cada uma das lições, das piscadelas de olhos, das corridas no terraço, das idas à missa, dos caminhos para a escola, dos bifes com ovo do domingo à noite, de todas as velas que acendeste no escuro da minha vida. 

O meu amor por ti é maior do que tudo o que as palavras deixem aceso depois de ditas. 

Mesmo assim, minha querida, podia falar-te uma vida inteira - muito pequeno dei-te a chave do meu coração e deixei-te morar nele para sempre. 

És como uma daquelas salas das casas grandes a que se volta para nunca esquecer o quão feliz se foi. 

É isso - tu lembras-me da criança que corria num terraço; um terraço onde tu, os Avós e os Pais eram, justamente, o céu onde eu e o A. brilhávamos mais alto nessa felicidade inteira e afiada como um raio de sol.

Hei-de gastar uma vida toda a amar-te e, com isso, a agradecer-te. 

Obrigado por tudo, querida Gó. 

Acende uma vela no escuro, se puderes, e demora-te por cá. 

É desse milagre que eu e o A. precisamos 

e de um, 

Vai correr tudo bem, meninos, vão ver, 

só para haver um terraço, 
duas crianças que correm, 
e um amor que elas acham que será eterno. 

Parabéns! 

RM| IV|III|MMXVIII

sábado, 10 de fevereiro de 2018

13.02|Bininho,

Meu querido Bininho, 

Os meus sonhos têm a medida que só tu me mostraste ser possível. 

Teres ensinado a uma criança que o sonho é um caminho, fez de ti o promontório maior da minha vida. 


Sabes, volto muito ao nosso banco - por vezes, tudo parece ainda igual - paira no ar um silêncio confortável em que se ouve, ao longe, o barulho de vida vindo do ventre feliz da nossa casa e eu sossego, finalmente, um bocado.

Continuo a escrever-te - o meu silêncio está repleto de fotografias que te queria mostrar, de palavras que acumulo nos bolsos das calças, dos casacos; nas palmas das mãos uma cruz a dizer-me que nunca me esqueça de te lembrar. 

[e eu nunca me esqueço]

Falo-te como se os teus olhos me fitassem, ainda, do nosso jardim; como se, ainda, percorresses comigo as quintas de lés a lés e, no verde que recomeça todas as primaveras, repousasse verdadeiramente o sentido do mundo e de todas as coisas. 

A cada ano que passa, fazes-me mais falta, meu malandro. 

Os sonhos que vou realizando queria que fossem presentes para ti - em cada um deles, a vénia que te devo, o serem todos eles flores de uma árvore que tu cuidaste, mimaste, ajudaste a crescer e nunca deixaste para trás. 

Todos os anos, neste dia, pergunto à Vovó, 

Milinha, achas que foste amada pelo Vovô?, 

E, a cada ano, sempre a mesma resposta,  

Meu querido, sei que o teu Avô me amou a vida toda e eu a ele, 

E na luz dessa resposta, o escuro da noite e da vida, de repente, esbate-se todo. 

Outro dia, alguém que me dizia, 

Oh doutor, bastava que víssemos o casaco do seu Avozinho no cabide e todos sabíamos o que tínhamos de fazer, 

Eu sorrio - o teu casaco ainda pendurado no cabide do meu coração, tudo de ti guardado nas gavetas da cómoda velha que eu sou por dentro. 

Foste o maior homem que conheci. 

A Vovó outro dia, 

O teu irmão está igual ao meu marido e tu lembras-me muito o meu pai, 

Para mim e para o A. ser um Mesquita é ser vosso - é sermos os netos da Milinha e do Bininho e isso ser, até hoje, o maior dos abrigos, a maior das lições, a maior das bênçãos e das dádivas. 

Mais uma vez, 

Obrigado, meu querido, 

Até ao fim da minha vida que eu seja um altar onde vivas e onde não se apague jamais a luz imensa que tu foste. 

Até ao fim, 

Um casaco pendurado num cabide, 

E tu seres, na minha pele, um abraço que não acabe nunca. 

Parabéns, Bininho! 

RM| X|II|MMXVIII

sábado, 20 de janeiro de 2018

18.01|porque a Avó faz anos,

PELOS TEUS 94 ANOS, 

Milinha, meu amor, 

Toda a minha vida aconteceu sob o azul generoso dos teus olhos. 

E foi também contigo que o meu coração aprendeu a falar. 

Há uma língua que apenas os muito amados falam - essa que é a do sonho, da partilha, da mais absoluta nudez e verdade, do perdão e da mais visceral vontade do outro que possa existir.

Começámos este diálogo há muito tempo, minha querida - as mãos sempre muito dadas, a pele toda escrita como um enorme e fundo baú onde me apresso a guardar tudo de ti - pequenos detalhes, bilhetes que o meu coração adivinha deixados escritos para mim, por ti, para levar na viagem; pequenas sombras, nuvens e inclinações do vento que eu leio como se conhecesse o caminho para dentro de ti que és, afinal de contas, a minha casa.  

Leio-te como a uma oração de luz e de esperança, como um antídoto contra o granito pesado da laje da distância, da saudade ou da tristeza - e repito-te, vezes sem conta, dentro de mim. 

No meu silêncio não existe solidão, jamais me senti sozinho - existes tu, o Avô, o A., os Pais e a Gó - foi, como sabes, por entre as ameias do vosso colo que eu espreitei, primeiro, o mundo. Foi por vocês que eu vi ser possível acontecer a carne dos verbos mais honestos, maiores, mais puros e inteiros. 

Tu sabes que eu te escolho - como eu, só amas verdadeiramente quem te escolhe, quem sabes ter que estar, que ficar, que voltar - que nunca esquecer. A memória é, para nós, um caminho - nele, ama-se mais quem caminha connosco, ama-se mais quem não está longe, ama-se mais quem nos agasalha do frio de certos enganos e quem nos defende até de nós mesmos. 

Afinal, que amor  - se o é e, para o ser, de verdade - que não é, afinal de contas, a mais parcial das coisas, a inclinação de alma mais natural, mais justa, que melhor nos cose por dentro?

Nunca amarei ninguém como a ti, tal como não há um céu igual ao do azul dos teus olhos. 

Outro dia, 

Olho o relógio, são 21h e eu ainda no gabinete.

Atravesso a rua e vou encontrar-te no teu quarto - sorris muito quando me vês. Ficamos agarrados uns instantes um no outro. 

Volvidos tantos anos, sou eu quem te segura nos braços e puxa a conversa, 

Sabes, Vovó, desculpa se, às vezes, o tempo não me chega,

E principio a chamar por ti, a desatar-te os nós da memória - levo-te, pela mão, até onde possamos ser os dois felizes e esquecer-nos do mundo. 

Quando estamos juntos, no céu dos teus olhos, tudo o resto se eclipsa - falo-te do futuro, peço-te que não desistas de viver, asseguro-te que não consigo imaginar um mundo sem ti.

[e não consigo]

E tu - que me fizeste uma casa sem telhado - respeitas a minha ambição, iluminas com a luz do teu amor as curvas apertadas da estrada e, mais que tudo, queres estar lá comigo. 

Por isso, meu amor, obrigado. 

Falamos sem parar um bom bocado  e eu digo-te, antes de adormeceres, 

Amo-te muito, sabes disso, minha malandra, não sabes?, 

E tu, 

Então não sei, pequeno, então não sei. 

Espero que adormeças - deitado contigo na cama onde nasceu o meu Pai, aperto-te contra mim como a uma bóia que me salve. 

Em silêncio, agradeço esse milagre que foi o nosso encontro e tudo o que veio depois. 

Saio para a rua - sem querer, olho o céu. 

Graças a ti, serei sempre uma casa sem tecto. 

Cá dentro, o meu coração não desiste de querer apenas um céu que seja o do azul dos teus olhos e a paz que só ele me dá. 

Parabéns, Vovó!

Um beijo, 

R.

RM|XX|I|MMXVIII

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Tio Arnaldo,





Querido Tio, 

Começar o ano - como todos - com o coração preso na gramática com que ele aprendeu a falar. 

Esse sou eu - sempre uma enorme sala de visitas que vos recebe a todos, que vos guarda e protege com todos os antídotos possíveis contra o esquecimento e a distância. 

Faz hoje sete anos que a sua voz ampla como uma janela deixou de se ouvir nos corredores de vossa casa, que tivemos todos que aprender a iluminar a escuridão que ficou com a luz do amor que nos deixou. 

E é isso que faço sempre que o lembro - imerso todo no meu amor terno pelo homem e na admiração absoluta pela história de superação que foi a sua - sorrindo, todas as vezes, pelo privilégio destas mãos que o sangue e o carinho mantiveram, até hoje, unidas entre nós. 

Visito muito a sua casa - o Carlos fez anos há dias, meu querido, e houve festa. Debaixo da luz morna do lustre de cristal, houve, de novo, espaço para riso naquela casa. A memória viva da Tia na beleza exuberante de tudo o que ela coleccionou - os livros, as antiguidades, a pintura - a estética como um fio que tudo une e nos conduz divisão após divisão - um espaço intocado como se, apesar de tudo, pudesse, todavia, haver ainda a esperança de um regresso. 

E a Donzília - essa guardiã e a testemunha maior de tudo quanto foi a maravilha do vosso encontro. Rio-me muito com ela - deixo que ela volte aos lugares onde foi feliz  e me leve com ela para ver o que não pude conhecer, estar onde não pude estar porque tudo veio muito antes de mim. 

Somos diferentes, meu querido Tio - mas agradeço-lhe o poder haver um país onde, justamente, a diferença exista, onde as vozes se possam ouvir e se possa, finalmente, respirar. 

Somos semelhantes, ainda assim, no horror visceral ao dogma, no feitio aceso, no gosto de debater, nessa fome de ar limpo, no incómodo perene que temos de pensar, de questionar, de contestar. 

Encontro-me consigo numa circunstância que lhe devo - somos, hoje, livres, podemos discordar, podemos protestar e, por isso, me lembro da sua voz como um vento que empurrou a derradeira janela que faltava abrir. 

Dela se via um País que eu não conheci, mas que não quereria de maneira nenhuma - leio e releio todos os seus livros, passeio-me neles e reconheço nos poemas coisas que ouvi toda a vida, 

Ao Bininho e à Milinha, meus Avós, a sua gratidão por nunca o terem deixado sozinho; 
À Tia Alcina, o Amor como a ponte eterna por cima do terror dos maiores abismos;
Aos seus Pais - uma Mãe que lhe lia à lareira, um Pai republicano que mandou deitar foguetes na Aparecida quando caiu a Monarquia - e as cicatrizes que, por se amarem de verdade, todos carregaram a vida toda; 
Ao Nanau e ao Carlos - os seus filhos - a quem o Pai foi roubado tantas vezes e a quem o Tio amou sempre; 
À Donzília - o carinho brincalhão que faz dela, até hoje, o lugar onde o vosso retrato mais fiel permanece vivo. 

Levanto-me e proponho um brinde, 

Vá lá, Tios e Nanau, já podem sair debaixo da mesa!, 

Todos nos rimos - cá dentro, fintamos, como podemos, a infinita tristeza que as vossas ausências deixam na sala enorme.  

Mas estamos juntos - elos de uma mesma corrente que vos levará, dentro de nós, até ao futuro, que vos lembrará sempre com uma gratidão maior que o tempo e as palavras. 

Por isso, meu caro, a cada início de ano, eu escolho recomeçar o que não pode nunca acabar - o tempo de dizer obrigado, o tempo de fazer o que um dia me pediu, 

Pequeno, anda cá. 

O futuro é teu. Só tens que o fazer acontecer mais cedo. 

Sempre que a escuridão parecer maior que nós, eu lembrar-me-ei da sua voz, meu querido. 

E por cada janela que, finalmente, se abra, o seu exemplo permanecerá vivo. 

Até sempre!

Um beijo,

R.

RM| I-I-MMXVIII

   

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

porque a Mãe faz anos,

Mãe, 

porque contigo os meus olhos se podem fechar - 
o amor pode ser um gole fundo de silêncio
e as palavras todas deixadas, à entrada, no bengaleiro antigo
serem agasalhos que a verdade que nos une não impõe

sentados - eu de t-shirt cinza, descalço, jeans velhos e barba por fazer
tu, de cigarro, a música que toca, só o mar que nos ouve
e não haver parapeito mais honesto que o do teu olhar
e não haver vista mais bonita que a verdade que tu me mostras

porque só contigo, Mãe, o meu amor não foi nunca uma escolha - 
amo-te porque a gravidade me cola ao trilho de terra e luz que tu és
e amo-te mais ainda por me saber sempre condenado a voltar à praia do teu colo
como, ao fundo, as ondas que se desfazem num afecto de danças antigas e repetidas 

e tu, Mãe, serves-me todas as vezes no corpo, na pele, nas dúvidas
sempre te encontro a medida exacta do que me falta,
um tecto mais alto para os sonhos, 
e adivinho, porque tu queres, onde escondes a chave para que, apesar de tudo, eu volte 

[Mãe, amo-te] 

obrigado pela liberdade com que o teu coração prendeu, para sempre, o meu. 

acende um cigarro, 
deixa que o mar nos ouça 
no bengaleiro ficam as palavras 

afinal, nós vemos no escuro um do outro
e isso basta.

PARABÉNS. 


RM| X-XI-MMXVII


sábado, 14 de outubro de 2017

Avô,

quase como se a saudade fosse uma primavera que pudesse nascer sempre da fenda mais funda

e trazer flores.

assim te lembro, meu querido. 

quase 18 anos depois - e ainda, não ter havido ninguém como tu; eu ter deixado por dar, no cabide da vida, infinitos abraços que só podiam ter sido teus, passeios que não dei como se, sem ti, a estrada fosse um rio sem margens; ou o terem morrido poentes que não contemplei por não podermos estar juntos no terraço eterno da nossa amizade. 

e, depois, saber que toda a vida pedias à Vovó, 

Milinha, já há flores no jardim. Podíamos ir à Aparecida deixá-las à Mãe.

e o meu coração se encantar sempre com esse teu lado tão doce, a minha pele se arrepiar com a devoção que sempre nos tiveste, a mim e ao A. 

toda a tua vida com saudades da tua Mãe que te lia à lareira, toda a tua vida com uma fé de aço no milagre que te aconteceu nos braços dela. 

não há primavera que não me lembre de ti e não há flor que se abra que não me traga o cheiro da verdade com que nos tivemos e uma vontade intensa como um gume de que tivesse havido mais tempo. 

sabe, avô, que a saudade com que te chamo traz sempre flores - houve-as de sobra nas bordas do caminho que fizeste comigo. 

mesmo assim, tal como fazias tu, também o meu coração terá sempre para te dar todas as flores que só o adubo doce do teu esforço, do teu amor, da tua bondade, farão, um dia, brotar do chão ainda desconhecido do meu futuro. 

serão todas tuas. 

se puderes, vem colhê-las. 

não sei se as flores de um neto podem cheirar a gratidão, mas eu sei que, tal como o teu coração nunca se esqueceu de as deixar onde o amor lhe soava mais fundo, tu saberás melhor que ninguém o que te quero dizer. 

obrigado, 

se puderes, pede um poente no banco do costume 

só para que possa ser primavera

e, só desta vez, tu possas levar das minhas mãos as flores com que a minha saudade não te esquece. 

[nunca.] 

RM| XIV|X|MMXVII
     

sábado, 30 de setembro de 2017

Carolina,

lembro-me de um corredor que era o de uma faculdade,

uma colega minha com quem, sem saber já bem porquê, comecei a falar.

até hoje, o som imenso da voz da Carolina - há pessoas que dão às palavras raízes mais fundas, dizem-nas com tal convicção que o sonho parece poder começar logo ali - e a Carolina é assim.

escrevo, hoje, a saber exactamente porque devo falar-lhe - devo-lhe, sem que se calhar ela o saiba, o que ela me ensinou todo este tempo.

há poucos que amem como a Carolina ama - a mãe, o pai, o irmão, o Rui, o Afonsinho, os gatos, a profissão, os amigos - e menos há, ainda, quem tenha na verdade desse amor uma alegria tão luminosa e uma gratidão tamanha. 

falo da Carolina com a falta de palavras que só existe quando as pessoas de quem queremos falar estão para lá de qualquer medida, de um círculo fechado, de uma linha que pare e as fixe no tempo. 

sei, porque a conheço, que a Carolina me vai continuar a surpreender - um telefonema que se prolonga, o conforto de uma mão que se estende, a ajuda que se tem sem se pedir. 

e a fé da Carolina - a cada soluço, a cada partida, a cada improviso que a vida lhe impõe, há sempre a luz que ela arranja forma de acender - pelos outros, primeiro e sempre, para que se não percam e depois por ela para que saibam como continuar - juntos, sempre. 

lembro-me de uma conversa que começou nos tempos da faculdade e dura até hoje - acho mesmo que a vida, por algum motivo, nos faz desatar o nó do silêncio para que a infinita alegria de certas entregas nos possa acontecer. 

por tudo, Carolina, obrigado. 

o sorriso da tua mãe naquele dia de romaria na Senhora da Aparecida - a alegria com que lhe pude ver o orgulho em ti estampado no rosto - vocês, as vossas mãos dadas e essa cumplicidade sem nome que vos levará para sempre juntas.

lembro-me da Carolina, da família dela, do orgulho que tenho no caminho que esta minha amiga fez e volto aos corredores da faculdade para agradecer a sorte deste encontro. 

C., o teu coração é como a casa que, finalmente, arranjaste - um lugar onde, seja de que maneira for, caberão sempre todos, se agarrarão sempre todos neste salto sem rede que é a vida. 

da Carolina e do seu coração sei que quem entra dificilmente sai. 

gosta-se de ficar na casa que é o coração da Carolina - uma porta sempre aberta, sempre o conforto de um abraço sincero, uma gargalhada doce e a luz de uma fé que é um esteio no meio dos desaires do mundo. 

querida Carolina, obrigado. 

o amor é uma casa que tem a medida dos que queremos por perto. 

por isso, na casa que é o coração da Carolina, haverá sempre a mãe dela. 

a voz imensa da Carolina que dirá ao Afonsinho, 

esta é a Avó, Afonso, 

ela acenderá a luz pelos que ama

e o sonho começará ali. 

RM| XXX-IX-MMXVII

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

mãe,

isto de ser voz tudo o que te guarda - 
os livros, os discos que me deste, as cartas, 
e poder neles ouvir-se do teu amor sempre a toada firme
quase como se o princípio de um abraço pudesse sempre começar
e no chão apontasse o pó o caminho para casa

isto de te ouvir passear dentro de mim - 
eu, a casa onde tu decidiste que havia de morar o amor
e, desde então, essa ferida que ajudas a curar sempre que as coisas me doem 
que o tempo não chega ou não existem palavras para calar-me as perguntas

chegas tu, mamã, 

arrumas-me o peito - com jeito, como num livro que conheces de cor -
abres a página certa, reabres as janelas, o ar fresco entra como se, de repente, se pudesse começar de novo, 
e eu, ao som da mesma música, descubro que se pode amar outras coisas, aprender outros nomes, 
dançar com outros corpos uma felicidade desconhecida

é isso, minha querida, 

decidiste, no momento em os nossos dedos se ataram, que eu havia de conhecer o amor. 

por isso, minha malandra, 

obrigado. 

fizeste de mim, ainda assim, uma casa grande - as divisões cheias de rumores de gente que, algures, deixei entrar; as gavetas repletas do cheiro dos enganos do mundo, restos de sonho, cartas que não enviei ou que ainda esperam, de alguém, a resposta merecida - e ser isso tudo, mesmo assim, o lugar onde persiste tanta coisa boa - o ter-se tentado, o ter-se errado, o ter-se emendado, a tempo, o que quisemos, sem dúvida, que permanecesse. 

ensinaste-me, mãe, o amor - o convidarmos alguém a pisar-nos o soalho dos ossos; o dizermos a alguém, com vontade, onde se esconde a chave do nosso coração e deixar tudo isso entrar. 

mas, mãe, as casas grandes desarrumam-se, às vezes, 

sabes, o correio não traz todas as respostas, 
as janelas precisam de quem as abra, 
e as gavetas de quem, finalmente, as feche

por isso, mãe, diz-me que, se eu precisar, tu vens e arrumas-me,

não me importo que os teus pés pequenos me pisem o soalho dos ossos, 
que as janelas se abram e se desenhem na parede, sob a luz da tarde, pegadas do tempo que passa
isso e que ponhas a tocar a música de sempre - 

gasta, repetida, decorada, ridícula - nossa. 

vem e fica. 

as mães ensinam aos filhos o que é o amor e só elas, que os conhecem como a uma casa, sabem onde se esconde, sob a pele deles, a chave suplente que lhes abre, de novo, o coração. 

Obrigado. 

RM| IV-IX-MMVII    

sábado, 26 de agosto de 2017

24.08

Meu querido Avô Adélio, 

só porque o teu jardim se encheu de flores, porque há uma luz quente que acendeu mais a vista da janela do teu quarto e a nossa saudade não deixou nunca de se ouvir, 

parabéns, 

só porque, sob a sombra das árvores da tua casa, queria poder segurar-te os dedos compridos, ver-te sorrir para a minha mãe com os olhos inundados de orgulho - ficar, sempre, pendurado na varanda de aço florido da vossa cumplicidade sem medida, sem tempo, sem remédio - os dois, para sempre, condenados a uma adoração mútua, a uma caminhada repleta de coincidências que vos fizeram mais unidos na compreensão do verdadeiro sentido de tudo. 

só porque, uma vez mais, te queria dizer,  

obrigado. 

e, enquanto a minha mãe fuma um cigarro e, nas árvores, cantam os pássaros esquecidos de partir, pedir-te que desenhes, que me fales das tuas inúmeras viagens - o pôr do sol de áfrica, o calor do brasil, os hóteis, as saudades de lisboa, a música, os bailes e esses rituais em que a minha mãe era o centro do teu mundo. 

os salões grandiosos em que a minha mãe dançou contigo uma música que o coração dela ainda ouve, a tua paixão pelo design nórdico, os teus sapatos entrançados feitos por medida e a tua pose, nobreza e elegância até ao fim.

mas, mais que tudo, por cima de tudo, para lá de tudo, 

haver corações que amem como amou o teu a minha mãe, 

os dois que liam compulsivamente noite dentro, tu que ias a coimbra se a voz da mãe estava mais triste ou a saudade te doía mais fundo - e vocês entregues sempre um ao outro por uma vida que quis ensinar, a quem vos visse, que o amor sempre nos borda na pele o caminho de casa. 

vejo-te nas fotografias - que saudades de ser visto pelos teus olhos e ler escrito neles o amor que nos tinhas, de te ver a perna cruzada a balouçar como se o tempo de viver fosse, então, mais lento, mais longo, mais livre e tudo quase pudesse durar para sempre. 

tenho saudades tuas todos os dias e a minha mãe sente falta do bem que só tu lhe fazias. 

fala muito do teu nome, relê livros cujas passagens, como caminhos, ela espera a levem até ti e ama-te com a gratidão do primeiro dia. 

aprendi com ela o vício dos afectos, o antídoto que a memória é contra a saudade, a finitude, a injustiça de despedidas que não podiam nunca ter acontecido. 

e sei, meu querido, que não há corações como o teu. 

por isso, por tudo o que me ensinaste e que a gramática do mundo não pode conter, um beijo enorme. 

97 anos, farias tu. 

pudessem vocês e a minha mãe voltaria ao estio sem fim para dançar contigo a música que o coração dela ainda ouve. 

encosto o ouvido ao peito dela. 

lá dentro, a orquestra não parou nunca de tocar. 

é contigo que ela dança até hoje. 

RM| XXVI-VIII-MMXVII