Rewind

sábado, 19 de janeiro de 2019

18.01| Milinha, meu Amor,

PELOS TEUS 95 ANOS, 

Quis ser o primeiro hoje de manhã.

Tinhas os telefones na sala e, vinte e duas chamadas minhas depois que não ouviste, atendeste, 

Finalmente, Milinha, minha malandra!, disse-te eu a rir, 

Meu amor, como estás? Estava no banho, desculpa

Primeiro que tudo, queria dizer que te amo muito. Já agora, porque parece que fazes anos, muitos parabéns e, claro, estás desculpada! Bonita e bem arranjada sempre, se fazes favor!

Rimo-nos os dois, enquanto a tua voz tremia, quando repeti que te amava, uma vez mais. 

Sempre tive pressa nestas coisas do amor - do chegar a tempo, dizer tudo, ter a certeza absoluta de que sabes que todos os dias te levo comigo para todo o lado. 

Hoje é um dia feliz, pensei. Devo ter andado com um sorriso parvo o tempo todo, o trabalho não me custou nada e senti-me em paz depois de te ter ouvido responder-me, 

Eu também te amo muito

Sabes, Vovó, hoje sei que só consigo amar quem me espanta. Tu, desde sempre, foste um exemplo de como podemos ser afogados inteiros pela admiração que nos causa a inteligência, a bondade, o afecto e o estoicismo de alguém. 

Em criança eu não falava, fazia anúncios.

Aos dez anos, disse, ao almoço, que era fundamental a educação sexual nas escolas. Que não se podia fazer do corpo um tabu; que jovens instruídos e confiantes tomariam, em princípio, melhores decisões. 

Ninguém me excomungou - os meus Pais concordaram, o A. também e os meus Avós sorriram. 

A minha Avó acrescentou, 

Nunca percebi as pessoas que diziam que teriam os filhos que Deus quisesse. Eu, pelo menos, achei sempre que devia ter apenas os filhos que pudesse manter. 

Olhou para mim com um sorriso irónico e, em jeito de confidência, 

Além do mais, filho, espera-se mais das mulheres do que serem somente mulinhas de carga!

Milinha e a defesa do planeamento familiar, pois então. 

Eu, parvinho-da-silva como até hoje, pisquei o olho ao meu Avô e ainda disse, 

Eu acho, aliás, pensando bem, que educação sexual pode ser um contra-senso. Em matéria de alcova, alguma falta de educação pode até ser desculpável, 

Todos se riram - eu achava, sobretudo, admirável o facto de nunca a minha família me ter parecido anacrónica - não se sente, até hoje, que o tempo separe as pessoas. Falamos todos a linguagem do progresso e todos quiseram que ele acontecesse mais cedo. 

Hoje, recordei outra conversa nossa. 

Filho, sabes o que fez o teu bisavô António, um dia? Sentou as filhas à mesa e disse-nos, 

As meninas que sangue têm nas veias? Não é o meu e o da Mãe? Então para quê adoptarem os nomes dos vossos maridos? É desta casa que vocês são - hoje e sempre. Não caiam nesse disparate, isso é um atestado de inferioridade. 

Obviamente, assim fizeram e Mesquitas que eram, Mesquitas foram, até ao fim.  

Um dia, para provocar a Gó, eu disse, 

A minha relação com o vizinho-do-andar-de-cima é estritamente pessoal. Não acho muita graça a padres, se queres saber, 

Como assim, menino?, 

Gó, sou a quinta ou sexta geração de uma família ligada aos negócios. Achas que não percebi a vantagem de eliminar intermediários? Pode ser que consiga negociar a salvação da minha alma de forma mais vantajosa, entendes?, 

[Coitada da Gó, penso eu hoje, certo de que o amor dela por nós é, de facto, imenso.]

Seguiu-se toda uma explicação da minha parte sobre as indulgências - a igreja dela tinha vendido lugares no céu aos ricos para construir a Basílica de São Pedro, em Roma e, também, uma revolta grande minha contra o lugar que os pobres teriam, afinal, no céu num mundo desses. 

E, mais, não acredito na absolvição pela simples confissão. Um erro, basta uma avé Maria ou duas e um Pai Nosso e já está? Não seria melhor aliviar a consciência pedindo perdão a quem se fez mal? Os padres têm, por acaso, uma tabela para indexar isso?,

Ninguém me proibia as questões, ninguém achava o raciocínio estúpido. Ninguém se apressava a abafar a dúvida. 

O meu encontro com a espiritualidade faz-se como todos os abraços da minha vida. Umas vezes, abro eu os braços; outras, sou surpreendido pelo milagre que foi esta família - os Avós, os Pais, o A. e a Gó. 

E faltam-me sempre as palavras para este espanto com que os contemplo, este orgulho sem medida que tenho na liberdade que me foi permitida e que me amarrou a eles para sempre. Amá-los era a única hipótese - eu já era deles, desde o primeiro dia. 

Sabes, Milinha, cheguei à conclusão de que amo muito poucas pessoas, sabes?

Ai é? Não me parece, filho. Tu tens um coração grande, 

Milinha, um coração grande? Isso é uma cardiopatia grave! Tenho um coração justo, acho eu, 

Como assim?, 

Amo incondicionalmente muito poucos e gosto até mais deles do que de mim. Gosto do que sou porque vos tenho, entendes?, 

A minha Avó entende-me, eu sei. 

Lemos bem o silêncio um do outro, trocámos, toda a vida, olhares, toques e cotoveladas debaixo da mesa quando ambos reparávamos em alguma coisa. 

A minha fé está toda nisto. A minha liturgia é a do amor pelos que me amaram e somente por esses. 

À minha Avó, dou o meu coração inteiro como quem lhe devolve a vida que ela ajudou que valesse a pena. 

Obrigado, minha Milinha. 

PARABÉNS! 

O maior dos beijos, 

Do sempre teu, 

R. 

RM|XVIII-I-MMXVIIII

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Os livros da Mãe,

A Mãe lê como quem repete um hábito antigo - abre o coração como a umas portadas de madeira para que entre a luz, se sinta o mundo, se cheire e ouça a vida - para que se veja através de outros olhos, se ouça a verdade no timbre de outras inúmeras vozes que não somente as nossas. 

Gostei sempre disso na Mãe - o gosto que guarda por cada livro, as lembranças e as marcas dos personagens de quem fala como se os tivesse recebido para jantar, lhes tivesse conhecido os segredos mais íntimos, as esquinas mais afiadas ou os sorrisos mais iluminados. 

E sempre, em todos eles, a sua assinatura e a data em que os leu. De certo modo, os livros da Mãe são uma outra biografia que posso traçar dela - quem conheceu e quando, onde estava quando se deram todos esses encontros e, mais do que tudo, pelos sublinhados e notas suas nas páginas, posso ouvir o que disse, então, o seu coração. 

O papel dos livros cá de casa tem a minha Mãe dentro - o cheiro do perfume que usava, vestígios de uma caligrafia que aprendi a reconhecer de imediato, dobras e sulcos nas capas que mostram os quilómetros das viagens que fizeram - eles sempre ao seu lado ou dentro de uma das suas inúmeras carteiras onde, sem que perceba bem, pode, afinal, caber o mundo inteiro. 

Há livros da Mãe que eu leio ou levo em viagem para que as saudades doam menos - mesmo longe, descubro que, ela e eu, podíamos ser amigos dos mesmos personagens, recebê-los, sim, para jantar ou ficar a ouvi-los enquanto durem as páginas e as confidências. 

Abrir um livro da Mãe é, justamente, abrir uma espécie de baú para o tempo que veio antes de mim - passar nos passeios das mesmas ruas, entrar nas vidas e nas casas dessas pessoas e quase poder dizer, 

A minha Mãe esteve por aqui. Lembram-se dela?

Também eu os assino sempre com a data em que os leio, também eu os sublinho e anoto como se, com os sedimentos do tempo e de ambas as passagens pelos mesmos lugares, se pudesse fixar para sempre um encontro meu com o coração da Mãe. 

Guardo os livros da Mãe como partes de um retrato seu que hei de continuar a fazer enquanto durarem as páginas, enquanto puder encontrar dela o perfume doce, a letra desenhada 

e o caminho para casa. 

RM| XXV|XII|MMXVIII

sábado, 10 de novembro de 2018

Mamã,

Porque a Mãe faz anos,

Ouço-te chegar, sempre.

Nos tempos da creche, não falhavas - acontecesse o que acontecesse, essa era a tua hora - a hora de nos ires buscar, de nos ouvires as aventuras daquele dia, de nos trazeres, finalmente, para casa. 

Toda a minha vida foste isto - sempre que foi preciso que me fosses buscar, que me desses a mão, que houvesse um regresso, estiveste lá. 

Na verdade, os meus ossos são as escadas que te ouço subir quando o meu coração se aperta, se interroga, se perde ou duvida - o meu sangue é a tua morada e a minha consciência tem o som meigo da tua voz. 

Por isso, hoje, como sempre, digo que te ouço chegar.

És tu quem conhece, verdadeiramente, a casa que sou - percorres-me as divisões todas, lembras-te de que há que vedar as torneiras onde a tristeza teime em pingar, que há que abrir as janelas e deixar entrar a luz. 

Mas, Mãe, a luz é toda do teu nome, 

Mamã, o que faço?

Não te preocupes, filho, eu trouxe a chave

E a chave que tu trazes, essa de que tu nunca te esqueces, é a chave do meu coração - é a chave que abre a porta da esperança, que inventa outros sonhos, se preciso, ou um outro chão e céu, só para que eu possa continuar. 

O som da tua chegada é o som mais feliz da minha vida - sempre que te lembro, que te vejo ou te chamo minha, estou em casa. 

Devo-te, mais do que a vida, esta vida - uma vida em que houve, até hoje, uma casa, em que me soubeste, sempre, perdoar, em que me arranjaste por dentro como ninguém. 

Tu tens a chave suplente do meu coração - caso eu perca a que é minha, só tu me poderás salvar. 

Vou amar-te sempre. 

E, melhor do que isso, sei que vai ser impossível não te amar. 

Fazes anos, meu amor. 

O meu coração está em festa. 

Sobe-me as escadas dos ossos e demora-te num abraço. 

Para ti, para sempre, a porta fica aberta. 

Um beijo, 

R. 

RM| X|XI|MMXVIII

sábado, 3 de novembro de 2018

Gó,

Gó, 

Foste um rochedo forte contra as minhas inúmeras investidas de miúdo chato, sabes?

Era um puto com perguntas nos olhos, uma criança que teve a liberdade debaixo dos pés, que andou de colo em colo e que foi feliz. 

Eras para mim, bem o sabes, o amor no superlativo - sempre. 

Mesmo assim, lembro-me bem, eu testava os limites da tua fé, media o pulso da tua crença sem perceber, no fundo, que o que queria era poder emendar o mal que achava que o mundo te tinha feito e que não merecias. 

Gó, achas que Deus é justo? - eu, de pijama de seda trazido de Macau, uma espécie de quimono que achavas que me ficava bem, sentado na tua cama, com não mais de oito, nove anos,

É que não percebo como Deus dividiu o mundo entre pobres e ricos e os ricos vão para o céu só por ajudarem os pobres. Isso é instrumentalizar os pobres, percebes? Quem decidiu, antes de tudo, quem fica de que lado?, 

[Round 1] - Menino Ricardo - 1 vs. Gó - 0. 

Dentro de mim, ecoava a história da tua vida - muitas irmãs, uma casa pequenina, uma infância de trabalho, pouco direito a sonhar - o mais longe possível do que eu tive. 

Doía-me tudo aquilo, gostava de poder aliviar algumas das tuas dores, devolver horas inteiras à criança que não chegaste a poder ser. E, antes de dormir, zangava-me com um Menino Jesus que, como criança que foi também, não te deixou ser uma por mais tempo. 

Tu sorriste-me e, enquanto me calçavas as pantufas, disseste-me, 

Menino, a minha vida não foi fácil, sabe? Mas, no meio de tudo, tive direito à minha dose de coisas boas. Apareceram nas nossas vidas os seus Avózinhos e tudo melhorou. O seu Avô empregou a minha família toda, trouxe-me cá para casa e, mais tarde, veio o menino e o Dedé e tudo mudou na minha vida. 

Não acha que Deus esteve por detrás de tudo isso?, 

[Round 2] - Menino Ricardo - um murro no estômago. 

Nunca me esqueci disto, sabes? 

Que os teus olhos me tenham ensinado a ver que na vida há sempre uma razão para agradecer. Que, por muito mal que nos tenha acontecido, há sempre a esperança de que alguém nos estenda a mão e tudo se possa compor. 

Mas eu não desistia, 

Sabes, Gó, quando estiveres aflita, não peças logo ajuda a Deus. Eu ajudo-te no que puder, está bem? Prometo., 

Pelo amor que te tinha, não podia arriscar que a ajuda de que precisasses, pudesse não chegar a tempo. Havia de fazer tudo o que pudesse por ti - era o coração, desde pequeno, a querer salvar-te do que viesse que pudesse levar-te de nós. 

Levaste-me à escola, meu amor, muitas vezes. Na verdade, o teu exemplo tornou-se, até hoje, na mais perfeita lição de amor, de paciência, de abnegação, de coragem e superação que conheci. 

Desculpa, Gó, qualquer coisa. Tudo o que quis, em todas as vezes que interroguei o teu Deus, foi uma resposta para os desaires do mundo. 

Percebo, hoje, que a culpa é dos homens - e que, sim, há pessoas como o meu Avô e a minha Avó que, podendo, estenderam a mão e tentaram fazer a diferença. 

Mesmo assim, tal como te disse, em pequeno, 

Um dia quem te vai dar colo sou eu!

Telefona-me e, se quiseres, diz,

Menino, quer ir comigo e com o Dedé à missa?

Eu vou, nós vamos. 

Por ti, pela fé que tenho no mistério deste nosso encontro e, também, para agradecer. 

Por ti, pela luz do teu coração e pelo bem infinito que te devemos. 

Obrigado por tudo, meu amor.

Os milagres existem. 

Tu és o meu. 

RM| III-XI-MMXVIII

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Milinha,

Preciso de arrumar-me, às vezes, como a uma gaveta grande e funda. 

Ir ver a minha Avó é poder pegar com ela na melhor parte de mim - aquela que ela tão bem cuidou, aquela que ela sempre amou com um infinito que as palavras não alcançam, com gestos que não cabem no tamanho conhecido das coisas deste mundo. 

Vou vê-la porque a amo, vou vê-la porque gosto de voltar à janela de onde se vê o mar azul-verdade dos seus olhos - o mar onde o meu nome nada, até hoje, como uma promessa jamais quebrada. 

Tiro os sapatos, sento-me no chão - a minha Avó mexe-me no cabelo como num ritual antigo; os dedos longos e a meiguice na voz de quem, desde sempre, me esperou. 

E, então, começam as coisas do amor, 

Vovó, tenho a certeza que o Vovô te amou sempre, sabes?, 

Sim, meu querido, o teu Avô sempre me disse, 

Apaixonei-me por ti, Milinha, porque foste sempre lindíssima, vestias-te sempre com elegância mas, sobretudo, por ter percebido onde poderia chegar contigo e o que poderias fazer de mim, 

Fico feliz por ter sabido mais este pedaço da história que também é a minha - ouço a voz do meu Avô, de novo, e estendo-lhe a mão como se o chamasse. 

E, depois, a minha Avó dizer-me, 

O romance da nossa família, meu amor, há de ser escrito por ti. Conheces-me como ninguém e, quando vens, o meu coração pode falar. Os corações precisam de poder falar, sabes?

E a minha Avó parecer-me um milagre - quase 95 anos e estes versos que lhe saem do fundo de uma alma toda luz, ensinamentos que acendem as vielas escuras dos meus dias mais tristes. 

Sempre tive fé nisto - nos meus Pais, no A., nos meus Avós e na Gó. 

Juntos, o mundo estava inteiro dentro dos meus braços, o chão seguro e o céu limpo como uma planície de esperança e paz. 

Ter encontrado uma das irmãs da Gó e ter-lhe dito, 

Então, menina, quando vão ver a patroa? A porta da nossa casa está sempre aberta!,

Dois dias depois, a minha Avó recebeu a Gó e a irmã - vale a pena, por isso, andar na vida de coração aberto e deixá-lo assim - quem nos ama, sempre voltará. 

Vou para perto da minha Avó para me arrumar. 

Volto a vestir o agasalho que são sempre os seus braços, volto para lhe emprestar um dos meus casacos e, sobretudo, para descobrir que um e outro, ela e eu, nos guardamos sempre com essa devoção recíproca, com essa cumplicidade de quem já se amparou muitas vezes nas noites mais escuras das nossas vidas. 

É este o cimento dos meus dias - guardo esta verdade contra a torrente do tempo, insisto em escrever, em repetir, em relembrar como quem agradece a sorte que teve. 

Volto a ti, Milinha, para que o meu coração fale. 

Sei, sim, meu amor, que eles precisam de falar. 

E nos nossos, felizmente, a língua é, até hoje, a mesma. 

RM| I-XI-MMXVIII

domingo, 28 de outubro de 2018

Avô,

A mesa redonda, ainda, no mesmo lugar.
A janela de onde se vê o grande terraço. 
E hoje ser domingo. 

O meu coração que, de súbito, ouve a nossa Gó, 

Meninos, Sr. Mesquita, o chá está pronto!,

Eu, tu, o A. e as peças do dominó espalhadas na mesa; algures, os jornais do dia que lemos, as conversas em que, sem o sabermos, o coração foi gravando um antídoto eterno contra a tristeza. 

E que jogador generoso foste para nós, toda a tua vida. 

As peças mais altas foram sempre para nós - o futuro tinha que ser um abraço teu, mesmo que já cá não estivesses; havia que se compor o caminho e dares-me, a mim e ao A., as peças que desempatassem o jogo. 

Pelo meio, ensinar-nos, também, as regras que foram sempre as tuas - as do esforço, do trabalho, do perdão, da verdade e do afecto num grau absoluto. 

E, hoje, eu saber que os corações que amam fazem sempre batota - como no dominó que se joga com duas crianças, a vitória estava, sim, nas regras que a verdade do que fomos uns para os outros, nos permitiu - nada pôde a morte no meu coração - o teu abraço continua aqui, o chão do meu caminho é obra tua e o céu dos meus sonhos tem a altura que os teus ombros generosos me permitiram. 

Olho a mesa com os meus 31 anos - na caixa de madeira, as peças todas. 

Como no meu coração, tudo continua a postos - até hoje, as peças todas que foram os teus ensinamentos, a memória viva da tua voz alegre quando um de nós te ganhava, 

Parabéns, pequeno!

Até hoje, em cada vitória, tu estás lá comigo, 
Até hoje, em cada tristeza, o teu abraço que os meus ossos sentem

e o vapor quente da saudade que sobe no sangue e embacia o vidro dos olhos.

Trago no bolso as peças todas, Avô. 

No jogo da vida, já ganhei - o manual do dominó do nosso amor teve somente as nossas regras. 

Por isso, é possível a um neto desejar que tivesses tido na tua vida mais peças para que o jogo pudesse ter durado mais. 

A mesa está pronta. 
Eu peço à Gó e ao A. que me ajudem a chamar-te. 

Eu e ele temos no coração, até hoje, as peças todas que nos deixaste.  

Senta-te connosco, Bininho, meu querido.

O chá deste domingo trouxe saudade. 

RM| XXVIII-X-MMXVIII

domingo, 30 de setembro de 2018

Vovó,

O teu braço preso no meu, 

Meu amor, vens comigo ali e vimos já?, 

Palavra de honra que, creio, nunca ter conseguido dizer-te - não

Na verdade, foste comigo, também tu, a todos os lugares da minha vida - nunca, por uma vez, deixei de sentir o teu braço atado no meu, os teus dedos finos e compridos apertando-me a pele como que cegando de vez um nó que não se podia soltar. 

Nunca te perguntei sequer onde íamos - contigo todos os passeios são um ritual de absoluto prazer e cumplicidade - a tua voz, ainda agora, na minha cabeça a puxar a corda do futuro, a ousar sonhar, planear, dançar por cima de todos os abismos e impor-lhe o que o coração te diz sempre - mergulha-se no desconhecido com uma fé de pedra de que, venha o que vier, há de continuar o amor. 

Por isso, atemos sempre as nossas mãos, Vovó, - juntos, seja qual for o caminho, sejam quais forem os lugares por onde a vida nos faça passar, que as nossas mãos sejam como marcos de pedra velha na estrada que contam os quilómetros - mas, sempre, os quilómetros a que estaremos, um e outro, de um regresso, de um reencontro, de um abraço demorado ou de uma conversa longa - sempre isso. 

Que em todas as paisagens, o vento me traga o cheiro de casa - e que eu, vaidoso e feliz, possa passear-te pelas ruas e alamedas todas do meu caminho como a luz inteira que foste sempre para mim.

Disse-te eu, 

Vovó, achas que te agradeço vezes suficientes?, 

e tu, 

Meu amor, eu é que tenho que vos agradecer por serem sempre tão meus amigos, 

Mas eu, ainda hoje, acho que o amor tem que se merecer - que, tal como tu nos esperaste de braços abertos, - a vossa fotografia com a dos Pais, por cima das nossas camas - há que te mostrar que o meu braço está, ainda, aqui - agarra-o, Milinha, e vamos os dois. 

Aprende-se a andar, sobretudo, com quem nos mostra, de verdade, o que é o amor - quando alguém nos ama, o corpo ergue-se, primeiro, para alcançar os braços que o convidam a entrar; depois, mais tarde, o corpo repete tudo como um hábito feliz em que tudo o que quer é que a camisola da pele - e o cheiro da memória - lembrem ao coração que está em casa. 

A minha camisola-de-pele tem os vincos de todos os caminhos que foram nossos e sente, até hoje, o peso dos teus dedos a ensinar-me como se anda pelo mundo. 

Caso queiras ir a qualquer lado, Milinha, pede-me,

Queres vir ali comigo num instante, meu Amor, e vimos já?

eu irei, claro,

só para, como sempre, poder ser o rapazola mais feliz e mais vaidoso da rua - quem nos vir, reparará que, até hoje, a minha camisola-de-pele é a mesma - a mais confortável, a mais perfumada, a mais verdadeira e vincada de todas. 

Nas dobras dos meus braços, as marcas dos teus dedos como vincos de quem nunca se quis perder até chegar a casa. 

Vamos os dois e,

seja qual for o caminho, 
seja qual for a distância, 
que as nossas mãos contem os quilómetros, 

e haja sempre um regresso, 
para um reencontro, 
um abraço 
ou uma conversa longa, 

para mim, que haja sempre tempo de te dizer, 

obrigado

a camisola-pele arrepiada inteira da luz que só tu acendes quando te vejo. 


RM| XXX|IX|MMXVIII




sábado, 15 de setembro de 2018

Mamã,

São as mães quem nos ensina o verdadeiro nome das coisas. 

Tu, minha querida, ensinaste-nos a pronunciar o amor até ao último centímetro possível - há que demorar o amor no fundo dos olhos, nos veios da pele, nas gavetas que trazemos  dentro e, sobretudo, saber levá-lo sempre onde ele falte. 

São, também, as mães quem nos ensina a escutar o silêncio - como um balão cheio de ar quente, como num abraço-de-lareira-acesa, pode ouvir-se igualmente tanto do crepitar do amor, tal como na certeza que existiu sempre quando, pelas tuas mãos e nos teus braços, todos os trapézios tiveram rede. 

Foi contigo que aprendi a falar - a minha voz é, ainda hoje, a tua, o meu coração dança ao som da composição que tu fizeste com tanto empenho, doçura e infinita bondade. 

E, desde cedo, não te importaste que eu desse nomes diferentes às coisas - onde os outros viam tristeza, eu via aprendizagem e crescimento; onde os outros viam erro, eu via uma oportunidade, redenção, esperança e perdão. 

Via tudo isso e, digo-to sem qualquer dúvida, porque havia o teu amor que serviu para coser as fissuras todas, para reatar os nós mais apertados, para reparar com luz, o escuro das fendas mais fundas. 

Por amor, as mães inventam nomes que não existem - tudo para que a estrada continue, o caminho atire em direcção ao infinito, o sonho cresça e o céu seja um telhado alto o suficiente para acomodar tudo isso. 

Sentado no teu colo, os meus poros eram uma escrita que tu soubeste ler sempre - a minha pele veio da tua e continuas, até hoje, no firmamento iluminado dos meus olhos - levo-te comigo a ver do mundo coisas de que não descobri, ainda, o nome; trago-te comigo numa viagem que não sei, ao certo, onde me levará, 

Como em pequeno, 

Mamã, porque é que as coisas são assim?, 

E, até hoje, o procurar no manual de sobrevivência que me legaste no sangue, a resposta que tu darias, que explicação doce seria a tua para os desaires e desencontros do mundo. 

No fim de tudo, por cima de tudo, para lá de tudo, uma coisa que aprendi contigo - as coisas podem ter um nome diferente do que os outros lhes dão - por isso, vejo sempre esperança, ponho a dar pela enésima vez - como uma cassete que se repete vezes sem conta - o arquivo atento que te gravou dentro de mim. 

Tal como me ensinaste, se nos faltam as palavras, há que inventar outras - desde que se possa continuar a falar de amor, de perdão, de dádiva, de felicidade e de futuro. 

Obrigado, Mamã, por me teres ensinado a falar - e a falar assim. 

Mais, obrigado por me teres mostrado que, sobre o amor, ainda não se inventaram as palavras todas - pode, por isso, haver amor muito para lá do que achamos ser possível. 

Entre nós, há - e ainda bem. 

Vou continuar a escrever sobre o amor e, com isso, sobre ti. 

Vão faltar-me as palavras, eu sei, e vão ficar aquém de ti, todos os elogios. 

Mesmo assim, que saibas sempre que te amo. 

E, se estiver calado, lê-me nos poros as palavras mais antigas da nossa história. 

Sempre foi amor, mesmo antes das palavras. E será depois delas. 

Tu, eu e a nossa pele que será, para sempre, pó que se levanta e abraça numa estrada que se estreita num abraço sem fim. 

Obrigado. 

RM| XV-IX-MMXVIII

sábado, 8 de setembro de 2018

Vovó,

Tenho vontade de ti todos os dias. 

Pela manhã, durante toda a minha vida, da janela do meu coração, houve o azul atlântico dos teus olhos - até hoje. 

E eu fui imensamente feliz na liberdade brincalhona com que aprendi a nadar-te o coração, a conhecer-te as marés, as zonas de rebentação, as grutas de rocha onde me levaste a conhecer de ti todos os segredos; ao receber a poesia do luar que te escorre dos olhos quando te seguro nos meus braços. 

Contigo nunca perdi o pé - és uma das minhas bóias, a praia onde vou para descansar, onde nunca me faltou tempo, onde volto para saber e me lembrar da criança que tinha uma crença desmesurada na luz do mundo; para saber que, apesar de tudo, ainda é possível renovar os meus votos de absoluta gratidão para contigo e para com os meus. 

Sou mais vosso do que, no fundo, sou meu - o meu lugar é o lugar onde estiverem, a minha casa é o lugar onde podemos estar juntos, a minha estrada aponta sempre o caminho do vosso nome. 

Vou para fintar o medo, para arrumar os destroços da tristeza, para me espantar com a tua coragem, a firmeza do teu desejo de bem, de futuro, de redenção e de amor. 

Digo-te, 

Não sei viver sem ti, Vovó, sabes?

E tu, pendurada no meu pescoço, as lágrimas no canto dos olhos, 

Nem eu sem vocês, pequenos, 

E eu, sempre mais crente nos milagres dos homens por vossa causa, acho, todavia, que há alguém que nos ouve e nos deixa ficar juntos - só porque uma criança não pode sentir um amor destes e não ter a quem o entregar. 

Eu, na verdade, não entrego amor - devolvo, retribuo, estendo os braços a quem, primeiro que as palavras, que o ruído do mundo, me gravou na pele, para sempre, o calor de uma morada. 

Telefono-te nem que seja para dizer, 

Milocas, malandra, gosto muito de ti!, 

E, se não falo de ti, tu és o meu norte em todos os lugares, pelas portadas de osso do meu peito, ouve-se no vento a tua voz. 

Tenho uma alegria infinita em que sejas, mais do que tudo, minha amiga, minha cúmplice e que, sem sabermos bem como, os nossos corações tenham falado a mesma língua, precisem, até hoje, do mesmo e se queiram sempre juntos. 

Tenho vontade de viver porque o azul de todos os céus, em todos os lugares, todos os dias, me lembra do azul dos teus olhos.

Sei que tenho uma casa. 

Voltarei sempre, Milocas, para descansar junto da areia da tua pele. 

Entrarei na vida, como, até agora, mergulho no mar - de cabeça.

Graças a vocês, nunca perdi o pé. 

Graças a vocês, há a possibilidade de um abrigo em cada porto a que chego. 

Foi debaixo do céu azul dos teus olhos, que me aconteceram todos os milagres. 

Por tudo isso, meu amor, obrigado.

Ouço-te passear-me nos ossos como o vento. 

O meu coração é uma janela aberta e há luz. 

Chama-me que eu vou. 

RM| VIII-IX-MMXVIII

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

24.08|Avô,

Meu querido Avô Adélio,

Volta nem que seja para um abraço. 

Eu, prometo-te, preparo tudo - o teu cadeirão de orelhas largas, o couro e a pregaria com o cheiro a tempos felizes; a limonada fresca para os gumes afiados do calor e, claro, uma brisa que relembre às árvores que a sua sombra é, outra vez, um abrigo para nós. 

Sabes, meu querido, se, mesmo assim, não for fácil convenceres quem quer que seja que te tem, diz-lhes, por favor, que há, ainda, um areal inteiro de sorrisos por desenhar nos lábios da Mãe - ela ia gostar tanto dos teus dedos longos presos nos dela, do teu olhar que acenava de longe e que era como uns braços abertos assim que te víamos. 

Não sei como te contaríamos tudo quanto se passou na tua ausência - talvez, na verdade, a mobília tenha ficado, todo este tempo, no mesmo sítio - a tua cadeira sendo tua até ao fim dos tempos, a casa um mapa onde a tua existência e os teus passos sempre se sentiram - ninguém conseguiria, eu sei, viver num mundo onde nunca tivesses existido. 

Logo eu, um falador nato, acho, somente, que ficaria agarrado a ti como um sol que teimasse em não se pôr, que pudesse atrasar o escuro, adiar o gole voraz da noite e da partida.

Quem ama quer, hoje, que a tua cadeira está pronta, a limonada se serviu e há uma sombra gentil e fresca a dançar no jardim, que os despertadores não toquem - por amor, que tudo se atrase, se prolongue, se demore e ninguém nos lembre de outros lugares - não há nenhum outro lugar que importe, sabes?

Sorris-me do fundo das molduras - eu recordo-te sempre porque, quem ama, é como uma nascente que, embora correndo todas as vezes em direcção ao mesmo lugar, não se importa de levar na corrente a mesma vontade, como um vício benigno, de chegar a casa. 

Iremos sempre para perto de ti, meu querido.

Espera-te o teu jardim, 

a cadeira de couro

e a limonada fresca. 

Volta para um abraço que seja, por favor. 

Hoje a noite não tem hora para começar. 

Obrigado por tudo.

Parabéns! 

RM| XXIII-VIII-MMXVIII