quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Mãe,

as tuas mãos nas minhas, Mãe
[sempre sem pressa]
nos cinzeiros de todos os encontros
o cigarro que arde tão depressa
quanto a paz que chega deslizando devagar

e os teus olhos a atravessar a rua rumo aos meus, Mãe
[sempre com pressa]
nos semáforos de todas as distâncias
o vermelho fechado que se ignora tão depressa
quanto o peito que me arde e que te chama

e o teu riso de vidraça aberto em infinito, Mãe 
[sempre sem pressa] 
nos poentes de todas as estradas
a curva que se engole tão depressa
quanto aos dois nos chamam as coisas tão sem nome

e de ti, Mãe, tudo quanto me diz que a poesia das flores de uma alameda inteira nunca chega 

no silêncio de todos os poemas que te faço -

há sempre tempo para um cigarro
um vermelho que se ignora num semáforo
uma vidraça que se abre devagar

e um obrigado por sempre te atrasares 
para que fosse eu quem chegasse sempre a tempo. 

Obrigado. 

Parabéns, Mamã. 

RM| X-XI-MMXVI

domingo, 16 de outubro de 2016

Mãe,

talvez, Mãe, o tempo se atrase um pouco 
e possamos, os dois, dançar na luz do que te digo, 
tu, como uma praia que me espera
e eu, como a maré que se enche para te chegar

talvez, Mãe, eu chegue mesmo antes de ser noite
e possamos, os dois, retomar o fôlego silencioso do amor
tu, fumando nos lábios o infinito quente do poente
e eu, dormindo inteiro na soleira do teu colo meigo

talvez, Mãe, ninguém nos ouça 
e possamos, afinal, inventar os dois uma língua do princípio
tu, com as sílabas imensas do perdão 
e eu, com a métrica irrequieta da saudade

talvez, Mãe, o tempo se atrase um pouco 
e o fim não comece nunca
talvez, Mãe, a maré durma na praia nessa noite


de manhã, a luz demora-se.
na praia, 
o mar conta um segredo devagar. 

RM| XVI-X-MMXVI 

  

domingo, 25 de setembro de 2016

Mãe,

MÃE, 

nunca estarei longe demais para voltar a casa. 

tu sabes, Mãe, que saio sempre a correr 

a carteira,
o relógio, 
um sms todos os dias que te diz,

amo-te muito

e é verdade que esse amor é sempre o melhor assento do autocarro, 
que a lembrança do teu abraço é o melhor casaco que tenho. 

sabes, Mãe,  

o telefone não to diz mas eu lembro-me, sabes?

juro que me lembro de todos os passeios na praia
de todas as vezes em que me perdoaste
e tudo continuou exactamente como antes:

o mesmo sorriso-de-areia-morna, 
a mesma voz de brisa-que-dança,
o mesmo coração-cheio-como-uma-gaveta-de-sonhos. 

parece, Mãe, que a verdade que sei 
é, tantas vezes, um segredo que não conto
mas, se puderes, lê isto: 

amo-te muito, 

e juro que me lembro de tudo. 

vem ter comigo perto do mar
no coração para toda a vida um sms que te diga,

amo-te muito

mesmo que, junto do mar, já haja frio 

eu serei, para toda a vida, 

o casaco de que precisas. 

RM| XXV-IX-MMXVI





sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Para a minha mãe,

um postal de improviso que diga apenas,
 
tenho saudades tuas, Mãe,
 
fumar um cigarro e esperar que o postal te leve a minha voz
 
e me devolva os teus braços
 
sempre.
 
 
engraçado isto de a minha saudade poder ser, para sempre, uma carta devolvida ao remetente
 
o carteiro a dizer,
 
oh senhor, caraças, as duas moradas são sempre iguais!
 
e eu sem saber muito bem se sou seu que sou a tua casa
 
ou se tu é que és a minha
 
[mas não interessa.]
 
 
talvez, então, te deixe o postal enquanto dormes
 
e te ouça no escuro quando, tarde, a noite nos abraçar aos dois
 
 
depois, ao sair do quarto,
 
o coração cheio e o postal quase vazio.
 
 
mas, Mãe, lê sobretudo o que não diz o postal
 
e que é tanto,
 
imagina que o postal é uma porta que deixo aberta
 
e entra
 
[sempre.]
 
 
sabes, acredito que o carteiro te levará, outro dia, uma outra carta,
 
por pouco que eu diga e que as moradas se repitam sempre
 
todos os carteiros tiveram mãe
 
e sabem que, muitas vezes, as cartas sem palavras
 
levavam os envelopes mais cheios de amor.
  
 
RM| XXVI-VIII-MMXVI

domingo, 12 de junho de 2016

Avô,

às vezes, a saudade é um lugar errado
onde fica tudo o que foi certo

descendo, devagar, vejo

a tua caneta parker
o teu porta moedas
e a tua boina no sofá

e a saudade é um lugar errado
debaixo de um poente repetido onde faltas tu

mas eu vejo, ainda

a tua primeira fotografia comigo quando nasci
no dia em que faço 29 anos,
olho-a de novo

que lugar tão cheio de coisas certas
que doem
que faltam
que falam

sabes,
às vezes, demoro-me nos lugares errados
pego-te na caneta parker e escrevo o teu nome

uma, duas, três
todas as vezes
e o teu nome é uma árvore ou um pretexto de sonho

e a tinta não me acaba nunca.

sabes,
às vezes, pego-te no porta moedas
e roubo-te uma moeda
só mais uma hora, senhora saudade, por favor

e o parquímetro pára de nos contar a distância.

sabes, nas vindimas pego-te na boina
e fico a olhar o verde da esperança que ter-te tido me deixou

e a boina, mesmo pequena, serve-me, outra vez.

serve-me a boina
há tinta na caneta
e uma moeda para mais uma hora nesse lugar errado
onde ficou a coisa mais certa da minha vida

que és tu.

[Saudades, Vovô.]

RM| XII -VI - MMXVI

domingo, 29 de maio de 2016

Né,

I.VI.
 
Quem nasceu primeiro?
 
o A., respondi, com gosto, toda a minha vida.
 
E toda a minha vida, cá dentro, soube que isso significou sempre que o engano da solidão não me tinha acontecido a mim.
 
O A. esperou-me desde o princípio - juntos, espreitámos sempre a vida um do outro como duas partes da mesma coisa que se olham, que se medem por uma medida ainda por inventar, toda feita dos silêncios em que apenas nos abrigámos sob a evidência morna dessa cumplicidade sem nome.

O A. sorriu-me da carteira no primeiro dia de escola - o mano estava lá, os óculos de massa, o brilho nos olhos e um aceno breve como quem diz meu sacana, isto vai correr bem.

Gosto de ouvir o meu nome na voz do meu irmão - o meu nome dito por ele é que é o meu, como se só ele guardasse de mim o retrato mais fiel e mais perfeito e, só assim, eu soubesse que é a mim que o mundo chama e abriga, que o mundo reconhece e cumprimenta.

Ricardo,
 
e eu, por cima do ombro, de repente, já sei que estou perto de casa, já sei que me vieram buscar ao avesso escuro dos enganos para me levarem de volta à morada que o A. tem escrita no envelope da pele dele.
 
Em mim, desde o princípio, nunca morei sozinho - se o meu coração fosse uma mesa, penso eu a sorrir, ela veio, desde o primeiro dia, posta para dois.
 
E o meu irmão mora em mim como o soalho velho que fala no escuro das noites das casas antigas - o chão chama por quem tem que cumprir uma espécie de promessa, por quem tem que, de alguma forma, ficar.
 
O meu irmão foi meu irmão por cima de tudo, primeiro que ele, em vez dele, contra ele, quando foi preciso.
 
Como se ser meu irmão lhe bastasse para, apesar de tudo, sorrir e dizer,
 
meu sacana, vai correr tudo bem.
 
Obrigado, Né, por todas as vezes em que a mesa estava posta e tu vieste e, mesmo quando não mereci, ficaste comigo nesse vício contente de repetir um prato de que se gosta muito, já sem saber porquê.
 
O palato do meu irmão, felizmente, nunca mudou.
 
Ele vem sempre sentar-se à minha mesa, pede muito pouco e vai ficando a ouvir-me com as mãos estendidas e os dedos grandes pousados como se ouvissem.
 
O A. ensinou-me, como numa aula da primária, como se escreve o perdão, como sempre se manda uma carta com uma morada para enviar resposta.
 
De todas as vezes, o meu irmão respondeu-me e perdoou.
 
De todas as vezes, o carteiro que a vida pôs a passar à nossa porta encontrou-nos remetente e destinatário do amor de que o outro precisou.
 
O meu irmão acende as partes mal iluminadas das ruas onde me perco e fica a sorrir-me como se apenas viesse para me dizer,
 
anda para casa, mano.
 
Agradeço à vida os cinco minutos que o meu irmão leva a mais do que eu. Graças a isto, nunca soube o que era a solidão e ando por aqui convencido de que, algures, alguém me espera.
 
29 anos e os cinco minutos em que o meu irmão já cá estava - desconfio, até hoje, que o A. arranjou maneira, já na altura, de me dizer, naquele primeiro dia, que íamos para casa.
 
e de sorrir, sempre.
 
O meu coração é uma mesa sempre posta para dois.
 
O mano vem e diz, sorrindo,
 
Ricardo,
 
Dentro de nós é sempre a mesma hora.
 
Os cinco minutos de avanço que ele leva, usa-os para pôr a mesa, compor tudo e ligar a música à espera, apenas, de poder ser o irmão que eu tenho mas, claramente, não mereço.
 
Obrigado.

RM| XXIX-V-MMXVI  

sábado, 30 de abril de 2016

ouvir-te ficar, Mãe,

Mãe,

ouvir-te ficar, Mãe -

o teu amor com passos doces e braços enormes como janelas

os teus olhos como parapeitos de luz e de esperança

e o silêncio em que te digo com a pele o que me falta


ouvir-te ficar, Mãe -

tu que entras sempre devagar

não sei bem como, mas arranjas sempre a chave

e vais entrando,

o amor, de repente, é um filme que vemos os dois no sofá

ou um café improvisado em que me dás a mão mesmo antes de eu sair para a rua,

os carros passam, Mãe,

tu ficas a sorrir-me do lado de dentro do vidro

e eu repito em todos os vidros de todos os cafés o nosso encontro

como num espelho.


ouvir-te ficar, Mãe -

e eu que sei que nem sempre o meu amor é como o teu

e tu continuas,

insistes,

não pedes nada, Mãe,

um fósforo, de repente, acende as letras do nome de tudo

tu sobes o vão da minha escada todas as vezes

só para me ensinares a soletrar esperança no vapor do vidro das janelas.


ouvir-te ficar, Mãe,

os teus dedos a agarrarem-se aos meus

mesmo antes de eu ir para rua

tu que ficas a sorrir-me do lado de dentro do vidro num café 

e eu que repito em todas as montras de todos os cafés o nosso encontro

só para saber qual o caminho,

que a casa é perto

e isso chega.


RM| XXX-IV-MMXVI