Rewind

sábado, 15 de setembro de 2018

Mamã,

São as mães quem nos ensina o verdadeiro nome das coisas. 

Tu, minha querida, ensinaste-nos a pronunciar o amor até ao último centímetro possível - há que demorar o amor no fundo dos olhos, nos veios da pele, nas gavetas que trazemos  dentro e, sobretudo, saber levá-lo sempre onde ele falte. 

São, também, as mães quem nos ensina a escutar o silêncio - como um balão cheio de ar quente, como num abraço-de-lareira-acesa, pode ouvir-se igualmente tanto do crepitar do amor, tal como na certeza que existiu sempre quando, pelas tuas mãos e nos teus braços, todos os trapézios tiveram rede. 

Foi contigo que aprendi a falar - a minha voz é, ainda hoje, a tua, o meu coração dança ao som da composição que tu fizeste com tanto empenho, doçura e infinita bondade. 

E, desde cedo, não te importaste que eu desse nomes diferentes às coisas - onde os outros viam tristeza, eu via aprendizagem e crescimento; onde os outros viam erro, eu via uma oportunidade, redenção, esperança e perdão. 

Via tudo isso e, digo-to sem qualquer dúvida, porque havia o teu amor que serviu para coser as fissuras todas, para reatar os nós mais apertados, para reparar com luz, o escuro das fendas mais fundas. 

Por amor, as mães inventam nomes que não existem - tudo para que a estrada continue, o caminho atire em direcção ao infinito, o sonho cresça e o céu seja um telhado alto o suficiente para acomodar tudo isso. 

Sentado no teu colo, os meus poros eram uma escrita que tu soubeste ler sempre - a minha pele veio da tua e continuas, até hoje, no firmamento iluminado dos meus olhos - levo-te comigo a ver do mundo coisas de que não descobri, ainda, o nome; trago-te comigo numa viagem que não sei, ao certo, onde me levará, 

Como em pequeno, 

Mamã, porque é que as coisas são assim?, 

E, até hoje, o procurar no manual de sobrevivência que me legaste no sangue, a resposta que tu darias, que explicação doce seria a tua para os desaires e desencontros do mundo. 

No fim de tudo, por cima de tudo, para lá de tudo, uma coisa que aprendi contigo - as coisas podem ter um nome diferente do que os outros lhes dão - por isso, vejo sempre esperança, ponho a dar pela enésima vez - como uma cassete que se repete vezes sem conta - o arquivo atento que te gravou dentro de mim. 

Tal como me ensinaste, se nos faltam as palavras, há que inventar outras - desde que se possa continuar a falar de amor, de perdão, de dádiva, de felicidade e de futuro. 

Obrigado, Mamã, por me teres ensinado a falar - e a falar assim. 

Mais, obrigado por me teres mostrado que, sobre o amor, ainda não se inventaram as palavras todas - pode, por isso, haver amor muito para lá do que achamos ser possível. 

Entre nós, há - e ainda bem. 

Vou continuar a escrever sobre o amor e, com isso, sobre ti. 

Vão faltar-me as palavras, eu sei, e vão ficar aquém de ti, todos os elogios. 

Mesmo assim, que saibas sempre que te amo. 

E, se estiver calado, lê-me nos poros as palavras mais antigas da nossa história. 

Sempre foi amor, mesmo antes das palavras. E será depois delas. 

Tu, eu e a nossa pele que será, para sempre, pó que se levanta e abraça numa estrada que se estreita num abraço sem fim. 

Obrigado. 

RM| XV-IX-MMXVIII

sábado, 8 de setembro de 2018

Vovó,

Tenho vontade de ti todos os dias. 

Pela manhã, durante toda a minha vida, da janela do meu coração, houve o azul atlântico dos teus olhos - até hoje. 

E eu fui imensamente feliz na liberdade brincalhona com que aprendi a nadar-te o coração, a conhecer-te as marés, as zonas de rebentação, as grutas de rocha onde me levaste a conhecer de ti todos os segredos; ao receber a poesia do luar que te escorre dos olhos quando te seguro nos meus braços. 

Contigo nunca perdi o pé - és uma das minhas bóias, a praia onde vou para descansar, onde nunca me faltou tempo, onde volto para saber e me lembrar da criança que tinha uma crença desmesurada na luz do mundo; para saber que, apesar de tudo, ainda é possível renovar os meus votos de absoluta gratidão para contigo e para com os meus. 

Sou mais vosso do que, no fundo, sou meu - o meu lugar é o lugar onde estiverem, a minha casa é o lugar onde podemos estar juntos, a minha estrada aponta sempre o caminho do vosso nome. 

Vou para fintar o medo, para arrumar os destroços da tristeza, para me espantar com a tua coragem, a firmeza do teu desejo de bem, de futuro, de redenção e de amor. 

Digo-te, 

Não sei viver sem ti, Vovó, sabes?

E tu, pendurada no meu pescoço, as lágrimas no canto dos olhos, 

Nem eu sem vocês, pequenos, 

E eu, sempre mais crente nos milagres dos homens por vossa causa, acho, todavia, que há alguém que nos ouve e nos deixa ficar juntos - só porque uma criança não pode sentir um amor destes e não ter a quem o entregar. 

Eu, na verdade, não entrego amor - devolvo, retribuo, estendo os braços a quem, primeiro que as palavras, que o ruído do mundo, me gravou na pele, para sempre, o calor de uma morada. 

Telefono-te nem que seja para dizer, 

Milocas, malandra, gosto muito de ti!, 

E, se não falo de ti, tu és o meu norte em todos os lugares, pelas portadas de osso do meu peito, ouve-se no vento a tua voz. 

Tenho uma alegria infinita em que sejas, mais do que tudo, minha amiga, minha cúmplice e que, sem sabermos bem como, os nossos corações tenham falado a mesma língua, precisem, até hoje, do mesmo e se queiram sempre juntos. 

Tenho vontade de viver porque o azul de todos os céus, em todos os lugares, todos os dias, me lembra do azul dos teus olhos.

Sei que tenho uma casa. 

Voltarei sempre, Milocas, para descansar junto da areia da tua pele. 

Entrarei na vida, como, até agora, mergulho no mar - de cabeça.

Graças a vocês, nunca perdi o pé. 

Graças a vocês, há a possibilidade de um abrigo em cada porto a que chego. 

Foi debaixo do céu azul dos teus olhos, que me aconteceram todos os milagres. 

Por tudo isso, meu amor, obrigado.

Ouço-te passear-me nos ossos como o vento. 

O meu coração é uma janela aberta e há luz. 

Chama-me que eu vou. 

RM| VIII-IX-MMXVIII

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

24.08|Avô,

Meu querido Avô Adélio,

Volta nem que seja para um abraço. 

Eu, prometo-te, preparo tudo - o teu cadeirão de orelhas largas, o couro e a pregaria com o cheiro a tempos felizes; a limonada fresca para os gumes afiados do calor e, claro, uma brisa que relembre às árvores que a sua sombra é, outra vez, um abrigo para nós. 

Sabes, meu querido, se, mesmo assim, não for fácil convenceres quem quer que seja que te tem, diz-lhes, por favor, que há, ainda, um areal inteiro de sorrisos por desenhar nos lábios da Mãe - ela ia gostar tanto dos teus dedos longos presos nos dela, do teu olhar que acenava de longe e que era como uns braços abertos assim que te víamos. 

Não sei como te contaríamos tudo quanto se passou na tua ausência - talvez, na verdade, a mobília tenha ficado, todo este tempo, no mesmo sítio - a tua cadeira sendo tua até ao fim dos tempos, a casa um mapa onde a tua existência e os teus passos sempre se sentiram - ninguém conseguiria, eu sei, viver num mundo onde nunca tivesses existido. 

Logo eu, um falador nato, acho, somente, que ficaria agarrado a ti como um sol que teimasse em não se pôr, que pudesse atrasar o escuro, adiar o gole voraz da noite e da partida.

Quem ama quer, hoje, que a tua cadeira está pronta, a limonada se serviu e há uma sombra gentil e fresca a dançar no jardim, que os despertadores não toquem - por amor, que tudo se atrase, se prolongue, se demore e ninguém nos lembre de outros lugares - não há nenhum outro lugar que importe, sabes?

Sorris-me do fundo das molduras - eu recordo-te sempre porque, quem ama, é como uma nascente que, embora correndo todas as vezes em direcção ao mesmo lugar, não se importa de levar na corrente a mesma vontade, como um vício benigno, de chegar a casa. 

Iremos sempre para perto de ti, meu querido.

Espera-te o teu jardim, 

a cadeira de couro

e a limonada fresca. 

Volta para um abraço que seja, por favor. 

Hoje a noite não tem hora para começar. 

Obrigado por tudo.

Parabéns! 

RM| XXIII-VIII-MMXVIII

domingo, 12 de agosto de 2018

Casa,

Há, segundo creio, uma espécie de geografia dos afectos - somente o amor povoa as grades das nossas costelas das flores mais bonitas, de flores que nunca murcham. 

Há uma primavera-para-sempre que começa quando nos escolhem para ser a terra, o berço dos sonhos mais bonitos; há um baú que quem escolhe o amor acaba sempre sendo - o perfume intenso das velas sempre acesas debaixo das memórias que a maré do tempo não apaga nunca. 

Há uma paisagem que somos nós e, no fim de contas, quem amamos é o mapa que torna possíveis todos os regressos, todas as emendas, todas as vezes em que o caminho prossegue, se espreguiça, se alarga e nos leva juntos até ao fim e não nos afasta de nós mesmos. 

Os meus olhos foram sempre janelas abertas - memorizei, como pude e com a alegria do coração, todas as formas de voltar a casa. 

O abrigo que vocês me são, bem sei, tem a porta no trinco - entro, subo as escadas - os dedos, como sobre a pele de alguém conhecido, percorrem sempre as paredes todas; há no ar o perfume da infância que as jarras preservam e fazem boiar. 

Quem ama não tem nunca um silêncio calado - há um alvoroço nas entranhas, há um soalho que treme porque alguém nos trepa os ossos e nos assombra com luz o sótão da memória. 

Amar é sermos, para sempre, uma casa habitada - a mobília que trazemos dentro é feita, justamente, de todos quantos nos ensinaram o coração a girar o disco do amor. 

E o amor é uma dança que não tem coreografia - começando a música, nada há de ensaiado, de repetido - tudo é um milagre; o espanto no leito aceso dos olhos e uma vontade de, mesmo que de improviso, os corpos não se descosam, não se deslacem, se não separem jamais. 

A minha fé veio toda do altar que tem sido o vosso colo - por isso, obrigado. 

Há uma geografia dos afectos, dizia. 

Eu, pela minha parte, serei sempre a vossa morada - por perto, o mar e as portadas dos olhos sempre abertas. 

A porta no trinco e um silêncio nunca calado. 

Cá dentro, a música que alguém, um dia, pôs a girar e que se chama amor. 

Subam as escadas, pisem-me o soalho do sangue e encham de luz o sótão todo da memória. 

Passem, já agora, a levar as flores que plantaram na varanda de ferro das minhas costelas. 

É primavera-para-sempre, sabiam? 

E as jarras têm de cheirar, até ao fim, à alegria de uma infância feliz que não pode acabar nunca. 

Amo-vos. 

RM| XII-VIII-MMXVIII

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Avô,

Um dia pensei que quem ama olha sempre para trás antes de atravessar uma passadeira. 

De facto, amar é esperar que a sombra que nos segue pelos passeios não tenha que ser necessariamente a nossa - que possa, sim, ser a de alguém cujos passos andam, por ali, ensarilhados bem perto nos nossos. 

E que o sol, como que a brincar, nos põe a dançar os corpos por cima das lajes do cimento numa coreografia inventada pela luz num fim de tarde quente qualquer.  

Eu, pelo menos, dou por mim a gostar de imaginar que quem ama não atravessa nenhum caminho sem pensar no que deixa para trás. 

Fui sempre assim - desde pequenino, por cima do ombro, aguardei sempre uma mão que remasse comigo rumo ao que quer que fosse que viesse depois.

Lembro-me tão bem dos nós dos dedos, do abraço das peles, dos braços presos e, sobretudo, de nunca ter medo de atravessar nenhum caminho, de não me parecer nenhuma estrada ampla demais, nada demasiado longínquo ou impossível. 

Nunca me deixaram para trás, está visto. 

E eu, como posso, tento não os deixar para trás - as mãos que se oferecem, o braço que se estende, as palavras com que somente um coração que fale a língua do outro lhe diz, 

Vai tudo correr bem

E, sempre, do outro lado de todas as viagens, para onde for que a vida nos leve, que se agarrem as mãos, que sejam cegos os nós com que os dedos se entrelaçam e que possa ser eterno o abraço das nossas peles. 

Há dezoito anos, Avô, tinhas acabado de fazer 80 anos e ias renovar a carta, 

Eu e o A. radiantes por te vermos na rua - um abraço longo e o teu sorriso doce de quem parecia sempre querer convidar os outros a permanecer,

E a nossa maldita pressa em cumprir horários, 

Temos que ir para as aulas, Vovô, desculpa

Vão lá, pequenos

E o beijo que te demos ter sido o último, enquanto, olhando para trás, te acenámos até chegarmos à esquina, rumo ao liceu. 

Até hoje, sinto que chegar a horas a certos sítios é, inevitavelmente, chegar demasiado tarde a outros. 

Desde então, o olhar para trás - fixar o outro antes que o poente seja noite, oferecer-lhe os ossos, o abraço da carne, é como um vício. 

Quem ama, nunca atravessa nenhum caminho sem olhar para trás. 

Eu e o A. nunca fizemos nenhum caminho sem estendermos a mão. 

Estamos todos cá, Avô, felizmente. 

Eu, ainda assim, olho por cima do ombro antes do princípio de cada viagem. 

Vejo o teu sorriso doce, o teu aceno feliz e, na dúvida, estendo a mão. 

Espero por ti no início de tudo, todas as vezes. 

O meu coração espera por ti - o semáforo suspenso até que regresses. 

Um beijo do teu, 

R.  

RM| VII-VIII-MMXVIII

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Milinha,

Milinha, meu Amor, 

Há um só tempo verbal possível para o nosso amor - o presente-mais-que-perfeito. 

Nunca vivi um dia sem saber que me amavas - no coração de uma criança como eu fui, o medo não pôde nunca existir - tudo foi felicidade, os braços da luz chegaram ao fundo da sala onde o coração se escondia e tudo quanto era dúvida teve fim. 

Toda a vida quis ser digno do amor de uma mulher como tu - imensamente complexa e inteligente, intensa como um dia de Estio longo e demorado, sensível como a mais bela das flores, exigente como quem sonha um tamanho que ainda não há, um céu a que ainda se não chegou, uma maré que ainda se não navegou. 

Todos os meus dias te repetem - o meu coração tem no bater o compasso daqueles que ama e, sei-o bem, ter merecido o teu amor é, até hoje, parte do cimento da minha carne e dos meus ossos, parte da minha esperança no futuro, da minha fé nos regressos, reencontros e na emenda de todos os males. 

Se não estás, não sei bem o que fazer comigo - a pele é, de súbito, grande demais, como se a roupa não me servisse - emagrece-me o ânimo, encolhe-se-me a fé, estreita-se-me e esgana-se-me o horizonte e as nuvens tapam o tecto todo do corredor do futuro. 

Tu, o Avô, os Pais e a Gó puseram-nos, a mim e ao A., do lado dos preferidos toda a vida - sabes, tenho regressado muito a esse tempo quando os nossos corações caíram, sem saber e para sempre, sob o feitiço eterno do vosso encanto, da vossa sabedoria, do vosso esforço, da vossa abnegação e entrega absoluta ao cozinhar dos nossos seres. 

Espanto-me com a facilidade com que abdicas, dás, renuncias e nos desejas apenas um futuro onde tenhamos mais, melhor, tudo e quanto possa caber na medida gigante que o teu coração tem.

Nasceste com uma urgência de ser, um sentido de missão e de liberdade, uma ânsia profunda de justificação diária para ti e para o teu caminho que, de pequenino, sempre me espantou. 

Nunca terei o teu tamanho, eu sei. 

Mas peço-te, Milinha, que te demores - como no terraço de nossa casa, deixa-me correr até à ponta onde me esperas para me agarrar e, depois, esquece-te das horas. 

Uma vez, meio a brincar, em pequeno, 

Vovó, nunca me fujas, nunca partas, que eu vou direitinho atrás de ti!,

Acredito, ingenuamente, talvez, que as minhas palavras te protegem. 

Que, quem nos ouça, algures, saberá a absoluta necessidade que temos de ti e, por isso, nos tem deixado demorar os abraços, largar os relógios, serenar os corações perto uns dos outros. 

Nasci, talvez, para ver no fundo do mar dos teus olhos, o sol mais bonito e luminoso. 

Nasci, decididamente, para vos amar - a vocês que me pegaram ao colo, que me levantaram mais alto, que foram o meu chão e a minha estrada, o meu obrigado. 

A ti, Milinha, tenho-te como uma oração, um antídoto contra a tristeza, uma varanda onde eu vejo o mar mais azul e bonito de sempre. 

Nunca terei o teu tamanho, Milinha, eu sei. 

Mas, por ti, por vocês que sonharam um céu que ainda não existia e, pegando-me ao colo, me deixaram tocar o milagre infinito do amor, eu nunca fui tão grande e tão altos foram os meus sonhos. 

Obrigado. 

RM|XIV|VI|MMXVIII   

sábado, 2 de junho de 2018

01.06| Aos 31 anos,

Aos 31 anos, temos uma imensa vontade de verdade. 


Eu, pela minha parte, volto sempre aos meus - foram eles que, por mim, garantiram que a roupa do meu corpo não se sujava demais com os enganos do mundo, são eles quem melhor me conhece - foram eles que, no fim de tudo, me fizeram assim. 

E fazer anos não é, hoje, esperar mais mesas enormes - as toalhas de linho bordadas, que saiam os faqueiros polidos das gavetas, que se enfeitem de luz as paredes das salas grandes, que haja necessariamente ruído e açúcar na felicidade de uma celebração.

Não. - aos 31 anos, deseja-se, sobretudo, o podermos continuar a celebrar a verdade e a facilidade com que ela acontece mais nítida, maior e mais funda, quando estamos juntos. 

Em silêncio, apenas agradeço - os meus presentes são eles e a verdade, por eu os ter comigo ainda sem saber muito bem como os mereci, é uma revelação que a vida me permite descobrir na sorte e no milagre dos nossos encontros. 

Toca o telefone, 

É a Gó 
[e o meu coração acelera contente],

Olá Gózinha!,

Ainda conhece a minha voz, menino?, 

Oh rapariga, podem passar cem anos e nunca me hei de esquecer da tua voz, 

Foi trabalhar hoje, menino?

Vim, sim, Gó. 

Sabe, menino, que saudades tenho eu de trabalhar aí em casa e que afortunada fui nessa parte da minha vida!, 

Sorte tivemos nós, malandra, e é sinal de que, afinal, não te batemos muito e até nem te tratámos muito mal!, digo eu,  

Tu ris-te, 

Menino, só para lhe dizer que gosto muito, muito de si, que nunca me esqueço dos meninos e que sei que vai correr tudo bem, ouviu? Não desistam de mais esta batalha, tenham força e fé!

Do outro lado do telefone, a tua voz treme, falas novamente de saudades e eu recebo de ti o melhor dos presentes - o teu, 

Vai correr tudo bem, menino!, - como num altar de luz, o meu coração sente os teus braços que o seguram, o acalmam, lhe ensinam a não esquecer a estrada da esperança. 

E uma Milinha de 94 anos - a minha Milinha dos olhos azul-luz, 

Então, meu amor, hoje não tiveste folga?, 

Não,  Vovó, a folga, neste dia da criança, é para as meninas novas dos 94 para cima, como tu!

Tu ris-te e eu atiro,

Além disso, Milinha, por aqui ninguém tem uma Avó como tu; eles não iam entender, percebes?,

Acabo a conversa a dizer, 

Uma Avó que está sempre no coração dos netos nunca está longe, ouviste menina? Amo-te muito!,

E tu, 

É verdade, meu amor, mas vem ver-me logo que possas!, 

Eu, no ecrã do meu peito, ponho a dar no coração-cassete (não nasci no tempo dos dvd), em modo contínuo, todas as recordações e os momentos que vivi e em que fui imensamente feliz. 

Depois, o Né - infinitamente melhor do que eu, meu cúmplice nesse crime de amar sem condições, sem limite, de ficar sempre, de me ajudar, de me abrir os olhos, de ser sempre o que me falta para o caminho. 

E, finalmente, os Pais - enquanto jantamos, olho-os como em pequeno, 

Nada pode roubar-nos os nossos Pais, nada pode acontecer-lhes porque toda a gente sabe que não há uma idade em que os filhos saibam viver sem eles. 

Eu, pelo menos, não sei. E, certamente, não foi ainda aos 31 anos que descobri como. 

Sempre escrevi convencido de que alguém me ouvia - por isso, mesmo que estupidamente, gosto de imaginar que, havendo quem possa decidir nestas matérias, as minhas palavras façam perceber que ainda é cedo para vivermos uns sem os outros. 

Aos 31 anos, já não preciso de uma mesa como as tuas, Gó - só preciso de ti; 

Aos 31 anos, Milinha, já não quero o maior bolo da padaria - só te quero a ti; 

Aos 31 anos, Né, já não quero mais um relógio para a nossa colecção - só quero que não tenha que haver tempo contado; 

Aos 31 anos, Mamã, não preciso que me compres mais livros - só quero reler-te, como a um livro antigo, e recordar as linhas de amor que me deixaste e que sublinhei montes de vezes;

Aos 31 anos, Papá, não preciso que te chamem,  Sr. Mesquita - só preciso que sejas o Bi que me dizia, 

Não tenho medo de nada!

[E não tenhas], 

Aos 31 anos, Avô, gostava de não ter que ter saudade - por ti, pus em repeat um dos teus abraços e o coração-cassete demorou-se nele. 

Aos 31 anos, sabe-se bem quem são os nossos amigos - a esses, sempre se diz "bom dia", deles sempre recebemos o agasalho certo para as incertezas nubladas da vida. 

Aos 31 anos, agradeço. 

E. aos 31 anos, o maior presente que tenho é a verdade do que sou graças a vocês. 

Um beijo, 

R.

RM| II-VI-MMXVIII

sábado, 5 de maio de 2018

06.05|Mamã,

Mamã,

Há quase 31 anos, vimo-nos pela primeira vez - e a vida foi somente o primeiro dos presentes e dádivas que me deste. 

Sei que nos quiseste muito - falaste-nos sempre, sonhaste-nos um futuro inteiro de luz e preparaste o mundo para que a nossa entrada na vida fosse como um abraço. 

Nós, malandros, viemos mais cedo do que o previsto - costumas dizer-nos, a brincar, que a vida nos ensinou - a mim e ao A.- a lutar desde o primeiro dia. 

Eu sorrio, querida Mamã, e digo-te, 

Quis vir conhecer-te mais cedo, foi o que foi! E que sorte a minha que, ao menos, eras linda!

Esperavas-me tu - tu que foste quem me vestiu a pele de carinho e me infiltrou os poros e o sangue todo dessa poesia irrequieta e sonora que é o amor. 

Ainda tenho guardada no frasco enorme da memória, a nítida presença do cheiro do teu perfume enquanto nos embalavas e lias histórias antes de dormirmos. 

As mãos sempre dadas - mesmo nos inúmeros passeios de carro, uma mão para cada gémeo até que, finalmente, o sono deixasse o sonho principiar.

Mas os filhos, Mamã, talvez amem mais as mães que têm e que não merecem - e, eu, não te merecia. 

Há qualquer coisa de sempre inacabado, de incompleto no retrato que construo de ti - as almas grandes, como a tua, têm, sim, divisões escondidas, recantos recônditos, vestígios de esperança e despojos de lutas antigas - e nisso, precisamente, reside o mistério maior da sua descoberta. 

Sei, meu amor, que amaste a tua Mãe até ao fim - perdê-la com apenas dezassete anos para uma doença silenciosa e maldita, é uma ferida que nada conseguiu sarar. 

E eis que, crescendo, descobri uma razão maior para te amar mais fundo, 

No dia da missa de sétimo dia da tua mãe, tu escolheste um caminho - o de, nesse mesmo dia, ires fazer os exames e ir para Coimbra, para a faculdade. 

Era isso que a Avó Bela quereria e a coragem da tua homenagem foi, então, maior do que tudo.

Sei, Mamã, que se a Avó te vir, está orgulhosa. 

És uma Mãe como ela foi - tudo sempre explicado, vivemos, entre nós, uma relação de absoluta verdade e confiança inteira - somos companheiros de caminho, meu amor, até ao fim. 

Em ti, admiro a inteligência que te fez precoce - desde o princípio, nasceste uma criança especial a quem foi ensinado o alfabeto dos afectos. E nunca o teu privilégio te fez vaidosa, menos doce, menos simples, menos capaz de reacção ao mundo e aos seus desaires. 

Ainda hoje, ouço coisas, 

Oh menino, a sua Mãezinha ajudou a pagar o curso da minha filha, ou, 

O trazeres para casa as vidas e os nomes desses miúdos que te preocupam - o quereres saber se eles comem, olhá-los com olhos de ver e, por exemplo, pagar-lhes o pequeno almoço se os achas fracos ou pouco atentos às aulas, de manhã cedo. 

Dizem-mo. 

De ti, nem uma palavra.          

Não me deste só a vida - cada vez que recordo que existes, o meu desejo de vida renasce, como fogo, nas veias; há uma redescoberta súbita de algum encanto na melodia e no mistério imenso desta viagem. 

Sem ti, o meu coração seria uma carta sem destinatário, as coisas mais belas ficariam, certamente, por dizer; o futuro de todos os verbos deixaria de se poder conjugar - porque é isso que uma mãe é para os filhos - um mar de futuro, uma janela que se abre no nosso peito e deixa entrar a luz. 

Pequenino, no escuro, deitava-me contigo no chão, 

A música - uma das da minha vida, é certo -, que tocava, 

When you're weary, feeling small
When tears are in your eyes, I'll dry them all 
I'm on your side, oh, when times get rough
And friends just can't be found
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down

E, mais tarde, a mania de te escrever cartas - dentro da mesma casa, o deixarmos cartas um ao outro - o conjugarmos no papel os verbos sem medo, o empregarmos as palavras sem receio de que elas nos prendessem - cedo me ensinaste que dizer aos outros o quanto precisamos deles não nos prende - significa, isso sim, que há liberdade de nos escolhermos, de nos acolhermos, de nos agarrarmos e sermos os dois lados de uma mesma estrada. 

Vou amar-te também no meu silêncio - como um ventre cheio de esperanças, também ele continua permanentemente a lembrar-me as pinceladas imensas e intensas deste amor que é o nosso. 

Trago o teu nome na forma como ando pelo mundo - tento, bem pior do que tu, é verdade, olhar, ver e reparar nos outros; não ser indiferente e, nunca, deixar que a vida nos torne azedos, menos capazes de crer no milagre do amor. 

Guarda sempre as minhas cartas, meu amor. 

O meu coração precisará de ser sempre uma carta para um destinatário - e, apenas tu, percebes as palavras com que, primeiro, eu aprendi a soletrar o amor. 

Entretanto, liga a música, 

When you're down and out
When you're on the street
When evening falls so hard
I will comfort you
I'll take your part, oh, when darkness comes
And pain is all around
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down

No escuro, como em pequeno, eu vou estar lá contigo. Agora, que cabes tu nos meus braços, sou eu quem te promete um futuro que nos leve juntos e, como  no carro, em pequenos, estendo-te a mão grande, só para que o sono chegue e o sonho possa, sempre, principiar. 

Obrigado, Mamã

Amo-te. 

Um beijo, 

R.

RM|V|V|MMXVIII

domingo, 22 de abril de 2018

24.04|Papá,

PELOS TEUS 70 ANOS, 

Papá, 

O tempo voa mesmo, velhote. 


Tu, aos meus olhos, ainda assim, permaneces o mesmo - nós, está visto, não te deixamos envelhecer, 

O nosso Bi, o filho do Sr. Mesquita, o Papá


E, todas as vezes que assim te chamamos, o meu coração julga que o tempo suspende a sua respiração, que as coisas podem simplesmente ficar assim - como uma mobília que definitivamente traga flores em todas as jarras para sempre. 

Nasceste de um parto longo e difícil - quase uma semana de dores e sofrimento que fizeram a Vovó e o Vovô recearem o pior. Felizmente ficaram os dois. 

Eu, parvo como tudo,

Oh Vovó, o pior de tudo seria eu e o A. não termos nascido, não achas? Já viste o que terias perdido?,

E a Avó ri-se enquanto me abraça. 

Nunca te conheci longe da família - foste sempre o filho em quem mais o Avô confiou - o homónimo -; foste sempre quem melhor satisfez as vontades da Avó; o sobrinho preferido e o companheiro e confidente mais presente de uma viagem que, ainda hoje, continua. 

E os Avós sabiam disso e sempre mo disseram. 

Um dia, agradeci-te, 

Papá, obrigado por teres salvo a vida à Vovó e ao Vovô várias vezes -  no fim, a vida triunfou e pude ser deles e eles meus -  e isso foi tanto. 

Folheio os teus álbuns da Guiné - fotografias que, se falassem, me diriam que, nessa altura, o cabelo da Avó ficou todo branco; que o Avô sempre acreditou que voltarias para eles e para nós - que haveria um futuro onde nós te esperávamos, embora não o soubesses ainda.

Um dia,  perguntei à Avó, deitado na cama onde nasceste,

Vovó, porque amas assim só o Papá?, e disse-lhe que nisso éramos iguais - eu e o A., como ela e o Avô, só conhecemos esse tipo de amor que é um fanatismo, uma entrega absoluta, uma existência ampliada apenas por termos o coração emprestado inteiro ao nome dos que amamos - e não amamos todos, diga-se. 

E, antes que a Vovó respondesse, atirei, 

Imagino que, quando o Papá esteve na Guiné, tu só pedisses a Deus que ele voltasse - dentro de ti, desde que ele voltasse, tudo teria emenda, tudo se perdoaria, tudo ficaria bem. 

E ela, 

Como sabes, pequeno?, 

Eu, Milinha, conheço-te tão bem que, pela minha boca, tu julgas, às vezes, quando me ouves, que eu nasci muito antes, que vi tudo, que sei tudo - e, de facto, quando se ama como eu vos amo, quase se vê no escuro - no fim de contas, o amor sempre acenderá as velas do tamanho certo para que a luz engula o escuro de uma vez. 

Entre nós, Papá, eu o A. sempre te falámos com verdade - mesmo que doa, mesmo que custe, mesmo que todos soframos mais por causa disso, a verdade é o único chão e cimento do verdadeiro amor. 

Tu sabes que, no A., o teu Pai continua vivo  - e cada vez mais - e, que, em mim, também só houve sempre a vontade de manter este círculo fechado em que a felicidade sempre existiu.

Digo, a rir-me, à Avó, ao explicar-lhe que, para mim, só por vocês é que há amor, 

Eu faço parte de uma família e não de uma tribo!, 

Rimo-nos os dois - ela sabe que o que eu quero é mergulhar de cabeça em cada um de vocês e levar - porque levo - mais amor que todos eles, mais tempo, mais verdade, mais intimidade, mais perdão, mais felicidade e é isso que me basta. 

Por isso, velhote, antes que o tempo passe todo, lembra-te de que a verdade é sempre a maior prova de amor que sempre te demos.

Com ela, haveremos sempre de arranjar uma forma de ficarmos todos juntos. 

Obrigado por tudo. 

Também eu fiz um pacto há muito - desde que vocês cá estejam, tudo se arranja e, seja qual for a guerra, só pode haver um futuro que nos leve a todos de mãos dadas. 

Parabéns, Papá!

RM|XXII-IV-MMXVIII

domingo, 25 de março de 2018

21.03| Avós,

Sou uma flor da primavera que vocês começaram. 

Conheci o vosso amor porque o vi acontecer diante de mim - eu, desde o princípio, engolido num abraço que sempre me incluiu, sempre me serviu na pele, sempre me orgulhou e fez de mim uma criança inteira e maior. 

Casaram por amor, sei-o bem. 

O Avô que te mandava fotografias, 

Olhando o mar pensando em ti

Tu, Vovó, que lhe bordavas mensagens em ponto de cruz, 

Levam-te mil saudades

E eu, desde pequeno, que vos perguntava, 

É assim o amor? Alguma vez se arrependeram da vossa escolha?, 

(Puto chato, eu, Deusmalivre),

E vocês, sempre me dizendo, por palavras, a verdade que eu via ser carne com os olhos e com o coração - o amor não é nunca um lugar fácil - há uma espécie de violência e de sequestro na forma como o lume intenso do nome do outro nos arde cá dentro; há o risco de uma dança sobre o abismo quando lançamos a corda dos nossos braços até ao outro; há uma imensa felicidade e paz no perdão das falhas que esse alguém nos merece; há um longo caminho todo de verdade, 

72 anos de casada, Milinha

Sentado na tua cama, falo-te do vosso primeiro jantar de casados no Abadia, relembro-te dessa vossa ida ao teatro no Sá da Bandeira e digo-te com a nudez explícita e costumeira entre nós, 

Não achas que o Vovô te amou sempre, Vovó? Que na forma como te protegeu, te engrandeceu, mereceu o teu perdão e foi teu amigo e cúmplice, te deixa uma certeza disso mesmo?, 

Tu respondes-me, 

Claro que sim, pequeno. Eu, em bom rigor, não escolhi, fui escolhida. O teu Avô não me largava antes de começarmos a namorar e eu comecei a amá-lo, quando percebi que ali estava um homem e não um rapazola, 

Rio-me ao ouvir-te dizer isso - só quem não te conheça bem, poderia imaginar, alguma vez, que irias para onde quer que fosse sem que o quisesses de verdade. 

Aproveito para te agradecer, 

Fui sempre muito feliz também por vossa causa, Vovó, e sei o que vos devo

E tu atiras, 

E já não és feliz, meu Amor?, 

Sou, Vovó, sou - tu que me lês, mesmo sem saberes, o nublado dos olhos, que vês no escuro de mim mesmo - mas sinto falta dos tempos em que estávamos todos - os Pais, o A., o Avô e a Gó, percebes?, 

Tu, de repente, abraças-me, enquanto eu te digo, 

Não nasceu de ti e do Avô nada que vos iguale

E tu, 

Mas quem te disse que tu e o teu irmão não vão até chegar mais longe do que nós? Só quero estar lá para ver! E ver os vossos filhos e pegar neles ao colo!, 

Sem que o saibas é por tudo isto que eu não consigo ir para longe - mesmo no Porto, enquanto estudante, neste mesmo dia 21, passava sempre em frente do Sá da Bandeira e, se pudesse, jantava no Abadia. 

Tenho uma espécie de fé nos meus milagres e a pedra da minha igreja é a do nosso amor.

Os olhos curiosos que procuravam a mesa, o coração que se entretinha a imaginar a conversa, o tom de azul-feliz dos teus olhos, a satisfação do Avô por ter casado com, 

A maior mulher e a mais bonita da freguesia!

E eu a saber, até hoje, que são vocês o mapa da minha existência, a geografia serena da minha história, as coordenadas certas do meu caminho. 

Como numa peça de teatro, as minhas deixas dependem das tuas - por amor, claro, também se improvisa - também se inventam pretextos para mais um abraço, uma visita, um beijo mais repenicado; também se perdoa, se guarda segredos - se fica, sempre. 

Todos os meus dias são vossos. O meu coração é um palco de onde jamais sairão de cena. 

Amo-vos com palavras por descobrir, com frases por escrever e pontuação por inventar - não há quem iguale as flores do jardim de onde nunca sairemos todos - Eu, o A., os Pais, vocês e a Gó. 

Costumava dizer em pequeno, 

Eu e o A. somos as flores mais bonitas da primavera que começou a 21 de Março de 1946!

Tu, o Avô, a Gó e os Pais riam-se - e tu piscavas-me sempre o olho como se, apesar desse silêncio, eu merecesse ter a certeza de que o que dizia, para vocês e nos vossos corações, era a verdade.  

Sei que costumavas enfeitar as lapelas dos teus casacos com flores do jardim presas num alfinete.

Tudo o que mais quero é ver o teu coração em flor para que o meu saiba como continuar. 

Antes de eu sair do teu quarto, tu dizes-me, 

Tal como eu dizia ao teu Avô, 

Ou matamos o medo, aqui, os dois, ou ele mata-nos a nós. Nunca tenhas medo, pequeno!

Sem que o saibas, sem sequer imaginares, dizes-me tudo quanto preciso. 

Por detrás da cortina, o Ricardo e a Milinha que só um e outro conhecem. 

Saio para a rua.

Graças a ti, a lapela dos meus casacos traz sempre flores. 

Nos corações de quem se sabe amado, a primavera começa todos os dias, 

e o perfume intenso da felicidade, afinal, não acaba nunca. 

Obrigado.

RM| XXV-III-MMXVIII