Rewind

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

mãe,

acho que devias entrar no meu quarto sem eu saber, mãe
a sério, 
entrar no meu quarto e abrir uma gaveta por cada coisa que não te digo 
[e que devia.] 

senta-te na minha cama e, da janela, enquanto o dia te fita sereno
abre a gaveta que achares mais próxima do meu coração e espreita
anda lá, eu deixo, 

algures, pelo meio dos discos, dos livros - quase todos teus e com o teu cheiro - 
algures, pelo meio das t-shirts, dos bilhetes de cinema e das meias - há de estar o amor

sim, o amor: 

ou o número de vezes em que adormeci agarrado à promessa de ti no dia seguinte,
todas as cartas, os postais e as respostas que sempre tiveste para mim, mesmo antes que te soubesse perguntar coisa alguma, 
ou os passeios todos e o cheiro a infinito e a pele morena nas fotografias, o abraço do mar e da praia onde pudemos sempre demorar-nos um no outro sem ter pressa

juro que, às vezes, imagino que o amor se possa guardar em gavetas

porque amar talvez seja guardar na gaveta mais perto do coração aquilo que nos fez, nos faz e nos fará lembrar e tentar ser sempre o melhor de nós mesmos. 

e, sabes mãe, eu volto tantas vezes a essa gaveta - e repito os passeios, ouço do mar a voz rouca que me traz do teu nome a luz inteira ou, ouvindo o Zeca Afonso ou o Simon e o Garfunkel, volto a poder aninhar-me no teu colo, no chão de uma sala às escuras, a deixar-nos ser, na pele inteira, do tamanho da verdade que o conforto do silêncio nos deixa aos dois. 

volto à gaveta para escrever um bilhete desajeitado e trapalhão, 

desculpa, a sério, malandra, 
desculpa. 

ou somente para pensar em ti - e na luz de todo o perdão que me deste com os teus braços sempre doces, o teu sorriso como uma janela que se esqueceu aberta um verão inteiro e a tua saudade doce de quem espera, no banco de um jardim qualquer, que eu chegue - e isso chega-te. 

eu chego-te, o A. chega-te. 

mas, mãe, uma gaveta não chega para ti - eu sei. 

mesmo assim, quando não estiver, entra, senta-te e espreita, que eu deixo. 

sorri, de novo, como na fotografia na varanda atravessada pelo poente na praia, 
recebe, de novo, as flores que te dei e secaste e deixaste dentro dos livros
[sabes, mãe, elas cheirarão, para sempre, à minha gratidão.] 
  
entra no meu quarto, fica e demora-te no meu amor por ti, mãe
a sério. 

uma gaveta perto do coração não chega, eu sei.
mas o resto, mãe, anda comigo todos os dias 

acredita, 

eu serei a gaveta mais cheia de luz onde viverás sempre 
e onde se ouvirá repetida pelo mar a esperança eterna de um regresso. 

Obrigado.


RM| XX-I-MMXVII

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

18.01.

Avó, 

PELOS TEUS QUASE 93 ANOS,

Que as minhas palavras te levem para junto do mar
e que aí, juntos, possamos ficar para sempre esquecidos de partir
tu, a minha praia de luares acesos e segredos doces
e eu, eternamente, a maré que feliz retorna a casa

Que eu te chame mil vezes e tu me respondas sempre, Vovó 
e que, dentro das paredes transparentes de um abraço, nos prometam, uma vez mais, o amanhã
tu, esse meu milagre que me acende, de noite, as curvas do caminho 
eu, essa estrada que, por ti, terá que ser sempre a de um regresso 

Que eu te nomeie mil vezes como quem aprende, de novo, a falar
e, sem saber, aprenda a gastar a luz do amor imenso que me deixas no coração
tu, essa janela enorme de onde se vê a infinita planície da tua bondade
eu, uma criança que, pendurada no parapeito, só sabe que quer ficar

Que eu te veja florir mil vezes num terraço atravessado pela luz da tarde
e, sem que tu saibas, te olhe com os olhos cheios de lágrimas que são vontade de futuro 
tu, essa chuva de flores com que quero inundar os dois lados da estrada onde sigo
eu, suplicando, em silêncio, mais chão, mais tempo, mais vida 

Que, sobretudo, eu te agradeça sempre, Milinha, 
e, a alguém, o mistério eterno da luz do nosso encontro. 

do resto, falamos logo quando, depois de subir as escadas a correr, te der mais um abraço dos meus. 

espera por mim e deixa sempre a chave no mesmo sítio. 

Avó, a minha casa é o lugar onde estivermos os dois

e isso chega-me.

Amo-te. Obrigado.

RM|XVI-I-MMXVII 

sábado, 14 de janeiro de 2017

mãe,

vejo-te na rua do costume, mãe
essa, onde as casas alinhadas ainda dormem
essa, onde, no céu, ainda ardem os sonhos mornos da véspera
só para que tu, da tua janela aberta de esperança, me possas ver voltar

eu sei, mãe, que me olharás até ao fim da estrada
os teus olhos serão quase tão infinitos quantas as vezes que me chamarás
mesmo em silêncio - [eu sei.]

e, mãe, mesmo que eu não olhe para trás 
[porque me dói]
prometo fazer surgir parapeitos inteiros de saudade em flor
e deixar-te um bilhete escrito no cheiro doce do amor de cada alegria pura que vivemos juntos

mãe, vejo-te na rua do costume, combinado?
essa, onde mesmo as árvores nos esperam aos dois para encher as sombras de um abraço
essa, onde nos passeios os outonos nunca são tristes
e tudo nos aguarda para que, como um segredo aceso no escuro, tu me recebas

vejo-te na rua do costume, mãe 

um café curto, 
um sorriso teu que é todo o açúcar de que preciso
e um cigarro enquanto as palavras são os casacos que vestimos um ao outro 
[a solidão é fria]

e isso basta. 

lembra-te, mãe, de me esperar na janela da rua do costume

[eu volto]

espero que nunca tenhas que colher as flores todas
que tenhas apenas que pedir um café curto e acender um cigarro 

e eu chegue rápido. 

afinal, todas as ruas são a do costume
se nelas se repetir, em cada vez, o código postal do nosso amor. 


RM| XIV-I-MMXVII

domingo, 8 de janeiro de 2017

para o Carlos,

Carlinhos, 

Não sei bem porquê, mas acredito que chegamos sempre tarde ao entendimento dos milagres que nos acontecem na vida.  

Mesmo assim, Amigo, aqui vai. 

Não sei porque uso agora as palavras, porque vêm elas tentar dizer do tamanho da luz que deixou nos nossos corações. Talvez sejam as saudades, talvez seja o seu sofá que, ainda ontem, passei a noite toda a olhar como se esperasse que, algures dali, viessem umas palmas, um sorriso, uma qualquer prova de que o abraço da vida há de tentar, até ao fim, engolir tudo. 

449, o número da vossa casa e o caminho que eu e o mano tantas vezes fizemos a pé, dispostos a escolher o abrigo dos vossos sorrisos, das vossas palavras, das vossas tristezas para aí nos unirmos nesse profundo mistério de certos encontros das nossas vidas. 

Aos poucos, a vossa casa foi também a nossa e a vossa família a prova de que há promessas que levamos até ao fim - só para que elas se cumpram, só para que, no fim de contas, nos acabemos cumprindo a nós mesmos também. 

E o Amor é isto - falar de si há de ser sempre falar da Clara, a nossa Lopinhas, - essa mulher que, por cima do abismo mais fundo de todos, abraçou o homem que escolheu e dançou com ele até ao fim - apesar de tudo, contra tudo, por causa de tudo. 

Tantas vezes vim para casa pensando que, algures neste mundo, quantos dariam tudo para ter um Pai Coelho que, mesmo já sem poder falar, disse mais à família sobre o que é o amor do que tantos outros que, podendo, deixam quase tudo por dizer. 

[Gosto muito de vocês, meus sacanas] 

Espero que, mesmo de um jeito trapalhão, o Carlinhos tenha percebido que ter estado perto de si me fez melhor pessoa, me lembrou ao coração o valor infinito da nossa entrega aos outros, o retorno absoluto e luminoso que nos fica de termos podido, noite dentro, esquecer o medo, a finitude e, fintando a morte, rirmo-nos como se tudo fosse durar para sempre. 

[E tudo dura para sempre.] 

Sobre a sua filha, as palavras não chegam. 

Para a Maria fica o longo caminho de verdade que fizeram os dois. E isso, mesmo depois da sua partida, será o espelho onde ela poderá encontrar o sentido do amanhã, as respostas, uma forma de "pensar em grande" e vencer, como sempre lhe dizia.

Grande, Carlos, foi o seu Amor pelas suas meninas. 

Grande foi a forma como viveu, como amou, como lutou, como foi sempre. 

Espero que as minhas palavras se ouçam e, quem sabe, o Carlinhos possa bater palmas só para dizer que está tudo bem que, apesar de tudo, no fim de contas, no número 449 ou noutro lugar qualquer, quem se ama sempre se encontra. 

Até lá, prometo que, no meu coração, continuarei a brindar ao Pai Coelho e a pensar em grande.

Um abraço, meu Amigo, de quem sabe, apesar de tudo, nunca conseguir vir a ser tão grande como o Carlos foi. 

Até sempre!

RM| VIII-I-MMXVII

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

para que seja uma casa,

para que seja uma casa, mãe, 
que fiquemos os dois 

sempre os dois
nessa ausência completa de nomes
nesse tão honesto conforto do amor

eu, de t-shirt branca numa varanda qualquer
tu, com um cigarro que nos ouve aos dois noite dentro

para que seja uma casa, mãe, 
que fiquemos os dois

sempre os dois
nos sublinhados dos livros que trocamos
nas gavetas que enchemos de coisas nossas

eu, tantas vezes esquecido de te agradecer
tu, em todas elas, inventando abrigos nas ausências

para que seja uma casa, mãe, 
que fiquemos os dois

sempre os dois
nessa longa insónia de luz
nessas flores que persistem sem as regarmos

eu, cruzando-me contigo nas escadas e sorrindo
tu, acenando do lado de dentro da porta do prédio que se fecha

para que seja uma casa, mãe
que fiquemos os dois

sempre os dois

e, se ao cruzar-me contigo, não te disser que te amo, mãe
lembra-te que o bilhete do autocarro que trago no bolso dá para ir sempre até onde tu estiveres e espera por mim. 

Obrigado. 

RM| XIX-XII-MMXVI

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Mãe,

as tuas mãos nas minhas, Mãe
[sempre sem pressa]
nos cinzeiros de todos os encontros
o cigarro que arde tão depressa
quanto a paz que chega deslizando devagar

e os teus olhos a atravessar a rua rumo aos meus, Mãe
[sempre com pressa]
nos semáforos de todas as distâncias
o vermelho fechado que se ignora tão depressa
quanto o peito que me arde e que te chama

e o teu riso de vidraça aberto em infinito, Mãe 
[sempre sem pressa] 
nos poentes de todas as estradas
a curva que se engole tão depressa
quanto aos dois nos chamam as coisas tão sem nome

e de ti, Mãe, tudo quanto me diz que a poesia das flores de uma alameda inteira nunca chega 

no silêncio de todos os poemas que te faço -

há sempre tempo para um cigarro
um vermelho que se ignora num semáforo
uma vidraça que se abre devagar

e um obrigado por sempre te atrasares 
para que fosse eu quem chegasse sempre a tempo. 

Obrigado. 

Parabéns, Mamã. 

RM| X-XI-MMXVI

domingo, 16 de outubro de 2016

Mãe,

talvez, Mãe, o tempo se atrase um pouco 
e possamos, os dois, dançar na luz do que te digo, 
tu, como uma praia que me espera
e eu, como a maré que se enche para te chegar

talvez, Mãe, eu chegue mesmo antes de ser noite
e possamos, os dois, retomar o fôlego silencioso do amor
tu, fumando nos lábios o infinito quente do poente
e eu, dormindo inteiro na soleira do teu colo meigo

talvez, Mãe, ninguém nos ouça 
e possamos, afinal, inventar os dois uma língua do princípio
tu, com as sílabas imensas do perdão 
e eu, com a métrica irrequieta da saudade

talvez, Mãe, o tempo se atrase um pouco 
e o fim não comece nunca
talvez, Mãe, a maré durma na praia nessa noite


de manhã, a luz demora-se.
na praia, 
o mar conta um segredo devagar. 

RM| XVI-X-MMXVI 

  

domingo, 25 de setembro de 2016

Mãe,

MÃE, 

nunca estarei longe demais para voltar a casa. 

tu sabes, Mãe, que saio sempre a correr 

a carteira,
o relógio, 
um sms todos os dias que te diz,

amo-te muito

e é verdade que esse amor é sempre o melhor assento do autocarro, 
que a lembrança do teu abraço é o melhor casaco que tenho. 

sabes, Mãe,  

o telefone não to diz mas eu lembro-me, sabes?

juro que me lembro de todos os passeios na praia
de todas as vezes em que me perdoaste
e tudo continuou exactamente como antes:

o mesmo sorriso-de-areia-morna, 
a mesma voz de brisa-que-dança,
o mesmo coração-cheio-como-uma-gaveta-de-sonhos. 

parece, Mãe, que a verdade que sei 
é, tantas vezes, um segredo que não conto
mas, se puderes, lê isto: 

amo-te muito, 

e juro que me lembro de tudo. 

vem ter comigo perto do mar
no coração para toda a vida um sms que te diga,

amo-te muito

mesmo que, junto do mar, já haja frio 

eu serei, para toda a vida, 

o casaco de que precisas. 

RM| XXV-IX-MMXVI





sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Para a minha mãe,

um postal de improviso que diga apenas,
 
tenho saudades tuas, Mãe,
 
fumar um cigarro e esperar que o postal te leve a minha voz
 
e me devolva os teus braços
 
sempre.
 
 
engraçado isto de a minha saudade poder ser, para sempre, uma carta devolvida ao remetente
 
o carteiro a dizer,
 
oh senhor, caraças, as duas moradas são sempre iguais!
 
e eu sem saber muito bem se sou seu que sou a tua casa
 
ou se tu é que és a minha
 
[mas não interessa.]
 
 
talvez, então, te deixe o postal enquanto dormes
 
e te ouça no escuro quando, tarde, a noite nos abraçar aos dois
 
 
depois, ao sair do quarto,
 
o coração cheio e o postal quase vazio.
 
 
mas, Mãe, lê sobretudo o que não diz o postal
 
e que é tanto,
 
imagina que o postal é uma porta que deixo aberta
 
e entra
 
[sempre.]
 
 
sabes, acredito que o carteiro te levará, outro dia, uma outra carta,
 
por pouco que eu diga e que as moradas se repitam sempre
 
todos os carteiros tiveram mãe
 
e sabem que, muitas vezes, as cartas sem palavras
 
levavam os envelopes mais cheios de amor.
  
 
RM| XXVI-VIII-MMXVI

domingo, 12 de junho de 2016

Avô,

às vezes, a saudade é um lugar errado
onde fica tudo o que foi certo

descendo, devagar, vejo

a tua caneta parker
o teu porta moedas
e a tua boina no sofá

e a saudade é um lugar errado
debaixo de um poente repetido onde faltas tu

mas eu vejo, ainda

a tua primeira fotografia comigo quando nasci
no dia em que faço 29 anos,
olho-a de novo

que lugar tão cheio de coisas certas
que doem
que faltam
que falam

sabes,
às vezes, demoro-me nos lugares errados
pego-te na caneta parker e escrevo o teu nome

uma, duas, três
todas as vezes
e o teu nome é uma árvore ou um pretexto de sonho

e a tinta não me acaba nunca.

sabes,
às vezes, pego-te no porta moedas
e roubo-te uma moeda
só mais uma hora, senhora saudade, por favor

e o parquímetro pára de nos contar a distância.

sabes, nas vindimas pego-te na boina
e fico a olhar o verde da esperança que ter-te tido me deixou

e a boina, mesmo pequena, serve-me, outra vez.

serve-me a boina
há tinta na caneta
e uma moeda para mais uma hora nesse lugar errado
onde ficou a coisa mais certa da minha vida

que és tu.

[Saudades, Vovô.]

RM| XII -VI - MMXVI