Rewind

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Milinha,

Milinha, meu Amor, 

Há um só tempo verbal possível para o nosso amor - o presente-mais-que-perfeito. 

Nunca vivi um dia sem saber que me amavas - no coração de uma criança como eu fui, o medo não pôde nunca existir - tudo foi felicidade, os braços da luz chegaram ao fundo da sala onde o coração se escondia e tudo quanto era dúvida teve fim. 

Toda a vida quis ser digno do amor de uma mulher como tu - imensamente complexa e inteligente, intensa como um dia de Estio longo e demorado, sensível como a mais bela das flores, exigente como quem sonha um tamanho que ainda não há, um céu a que ainda se não chegou, uma maré que ainda se não navegou. 

Todos os meus dias te repetem - o meu coração tem no bater o compasso daqueles que ama e, sei-o bem, ter merecido o teu amor é, até hoje, parte do cimento da minha carne e dos meus ossos, parte da minha esperança no futuro, da minha fé nos regressos, reencontros e na emenda de todos os males. 

Se não estás, não sei bem o que fazer comigo - a pele é, de súbito, grande demais, como se a roupa não me servisse - emagrece-me o ânimo, encolhe-se-me a fé, estreita-se-me e esgana-se-me o horizonte e as nuvens tapam o tecto todo do corredor do futuro. 

Tu, o Avô, os Pais e a Gó puseram-nos, a mim e ao A., do lado dos preferidos toda a vida - sabes, tenho regressado muito a esse tempo quando os nossos corações caíram, sem saber e para sempre, sob o feitiço eterno do vosso encanto, da vossa sabedoria, do vosso esforço, da vossa abnegação e entrega absoluta ao cozinhar dos nossos seres. 

Espanto-me com a facilidade com que abdicas, dás, renuncias e nos desejas apenas um futuro onde tenhamos mais, melhor, tudo e quanto possa caber na medida gigante que o teu coração tem.

Nasceste com uma urgência de ser, um sentido de missão e de liberdade, uma ânsia profunda de justificação diária para ti e para o teu caminho que, de pequenino, sempre me espantou. 

Nunca terei o teu tamanho, eu sei. 

Mas peço-te, Milinha, que te demores - como no terraço de nossa casa, deixa-me correr até à ponta onde me esperas para me agarrar e, depois, esquece-te das horas. 

Uma vez, meio a brincar, em pequeno, 

Vovó, nunca me fujas, nunca partas, que eu vou direitinho atrás de ti!,

Acredito, ingenuamente, talvez, que as minhas palavras te protegem. 

Que, quem nos ouça, algures, saberá a absoluta necessidade que temos de ti e, por isso, nos tem deixado demorar os abraços, largar os relógios, serenar os corações perto uns dos outros. 

Nasci, talvez, para ver no fundo do mar dos teus olhos, o sol mais bonito e luminoso. 

Nasci, decididamente, para vos amar - a vocês que me pegaram ao colo, que me levantaram mais alto, que foram o meu chão e a minha estrada, o meu obrigado. 

A ti, Milinha, tenho-te como uma oração, um antídoto contra a tristeza, uma varanda onde eu vejo o mar mais azul e bonito de sempre. 

Nunca terei o teu tamanho, Milinha, eu sei. 

Mas, por ti, por vocês que sonharam um céu que ainda não existia e, pegando-me ao colo, me deixaram tocar o milagre infinito do amor, eu nunca fui tão grande e tão altos foram os meus sonhos. 

Obrigado. 

RM|XIV|VI|MMXVIII   

sábado, 2 de junho de 2018

01.06| Aos 31 anos,

Aos 31 anos, temos uma imensa vontade de verdade. 


Eu, pela minha parte, volto sempre aos meus - foram eles que, por mim, garantiram que a roupa do meu corpo não se sujava demais com os enganos do mundo, são eles quem melhor me conhece - foram eles que, no fim de tudo, me fizeram assim. 

E fazer anos não é, hoje, esperar mais mesas enormes - as toalhas de linho bordadas, que saiam os faqueiros polidos das gavetas, que se enfeitem de luz as paredes das salas grandes, que haja necessariamente ruído e açúcar na felicidade de uma celebração.

Não. - aos 31 anos, deseja-se, sobretudo, o podermos continuar a celebrar a verdade e a facilidade com que ela acontece mais nítida, maior e mais funda, quando estamos juntos. 

Em silêncio, apenas agradeço - os meus presentes são eles e a verdade, por eu os ter comigo ainda sem saber muito bem como os mereci, é uma revelação que a vida me permite descobrir na sorte e no milagre dos nossos encontros. 

Toca o telefone, 

É a Gó 
[e o meu coração acelera contente],

Olá Gózinha!,

Ainda conhece a minha voz, menino?, 

Oh rapariga, podem passar cem anos e nunca me hei de esquecer da tua voz, 

Foi trabalhar hoje, menino?

Vim, sim, Gó. 

Sabe, menino, que saudades tenho eu de trabalhar aí em casa e que afortunada fui nessa parte da minha vida!, 

Sorte tivemos nós, malandra, e é sinal de que, afinal, não te batemos muito e até nem te tratámos muito mal!, digo eu,  

Tu ris-te, 

Menino, só para lhe dizer que gosto muito, muito de si, que nunca me esqueço dos meninos e que sei que vai correr tudo bem, ouviu? Não desistam de mais esta batalha, tenham força e fé!

Do outro lado do telefone, a tua voz treme, falas novamente de saudades e eu recebo de ti o melhor dos presentes - o teu, 

Vai correr tudo bem,. menino!, - como num altar de luz, o meu coração sente os teus braços que o seguram, o acalmam, lhe ensinam a não esquecer a estrada da esperança. 

E uma Milinha de 94 anos - a minha Milinha dos olhos azul-luz, 

Então, meu amor, hoje não tiveste folga?, 

Não,  Vovó, a folga, neste dia da criança, é para as meninas novas dos 94 para cima, como tu!

Tu ris-te e eu atiro,

Além disso, Milinha, por aqui ninguém tem uma Avó como tu; eles não iam entender, percebes?,

Acabo a conversa a dizer, 

Uma Avó que está sempre no coração dos netos nunca está longe, ouviste menina? Amo-te muito!,

E tu, 

É verdade, meu amor, mas vem ver-me logo que possas!, 

Eu, no ecrã do meu peito, ponho a dar no coração-cassete (não nasci no tempo dos dvd), em modo contínuo, todas as recordações e os momentos que vivi e em que fui imensamente feliz. 

Depois, o Né - infinitamente melhor do que eu, meu cúmplice nesse crime de amar sem condições, sem limite, de ficar sempre, de me ajudar, de me abrir os olhos, de ser sempre o que me falta para o caminho. 

E, finalmente, os Pais - enquanto jantámos, olho-os como em pequeno, 

Nada pode roubar-nos os nossos Pais, nada pode acontecer-lhes porque toda a gente sabe que não há uma idade em que os filhos saibam viver sem eles. 

Eu, pelo menos, não sei. E, certamente, não foi ainda aos 31 anos que descobri como. 

Sempre escrevi convencido de que alguém me ouvia - por isso, mesmo que estupidamente, gosto de imaginar que, havendo quem possa decidir nestas matérias, as minhas palavras façam perceber que ainda é cedo para vivermos uns sem os outros. 

Aos 31 anos, já não preciso de uma mesa como as tuas, Gó - só preciso de ti; 

Aos 31 anos, Milinha, já não quero o maior bolo da padaria - só te quero a ti; 

Aos 31 anos, Né, já não quero mais um relógio para a nossa colecção - só quero que não tenha que haver tempo contado; 

Aos 31 anos, Mamã, não preciso que me compres mais livros - só quero reler-te, como a um livro antigo, e recordar as linhas de amor que me deixaste e que sublinhei montes de vezes;

Aos 31 anos, Papá, não preciso que te chamem,  Sr. Mesquita - só preciso que sejas o Bi que me dizia, 

Não tenho medo de nada!

[E não tenhas], 

Aos 31 anos, Avô, gostava de não ter que ter saudade - por ti, pus em repeat um dos teus abraços e o coração-cassete demorou-se nele. 

Aos 31 anos, sabe-se bem quem são os nossos amigos - a esses, sempre se diz "bom dia", deles sempre recebemos o agasalho certo para as incertezas nubladas da vida. 

Aos 31 anos, agradeço. 

E. aos 31 anos, o maior presente que tenho é a verdade do que sou graças a vocês. 

Um beijo, 

R.

RM| II-VI-MMXVIII

sábado, 5 de maio de 2018

06.05|Mamã,

Mamã,

Há quase 31 anos, vimo-nos pela primeira vez - e a vida foi somente o primeiro dos presentes e dádivas que me deste. 

Sei que nos quiseste muito - falaste-nos sempre, sonhaste-nos um futuro inteiro de luz e preparaste o mundo para que a nossa entrada na vida fosse como um abraço. 

Nós, malandros, viemos mais cedo do que o previsto - costumas dizer-nos, a brincar, que a vida nos ensinou - a mim e ao A.- a lutar desde o primeiro dia. 

Eu sorrio, querida Mamã, e digo-te, 

Quis vir conhecer-te mais cedo, foi o que foi! E que sorte a minha que, ao menos, eras linda!

Esperavas-me tu - tu que foste quem me vestiu a pele de carinho e me infiltrou os poros e o sangue todo dessa poesia irrequieta e sonora que é o amor. 

Ainda tenho guardada no frasco enorme da memória, a nítida presença do cheiro do teu perfume enquanto nos embalavas e lias histórias antes de dormirmos. 

As mãos sempre dadas - mesmo nos inúmeros passeios de carro, uma mão para cada gémeo até que, finalmente, o sono deixasse o sonho principiar.

Mas os filhos, Mamã, talvez amem mais as mães que têm e que não merecem - e, eu, não te merecia. 

Há qualquer coisa de sempre inacabado, de incompleto no retrato que construo de ti - as almas grandes, como a tua, têm, sim, divisões escondidas, recantos recônditos, vestígios de esperança e despojos de lutas antigas - e nisso, precisamente, reside o mistério maior da sua descoberta. 

Sei, meu amor, que amaste a tua Mãe até ao fim - perdê-la com apenas dezassete anos para uma doença silenciosa e maldita, é uma ferida que nada conseguiu sarar. 

E eis que, crescendo, descobri uma razão maior para te amar mais fundo, 

No dia da missa de sétimo dia da tua mãe, tu escolheste um caminho - o de, nesse mesmo dia, ires fazer os exames e ir para Coimbra, para a faculdade. 

Era isso que a Avó Bela quereria e a coragem da tua homenagem foi, então, maior do que tudo.

Sei, Mamã, que se a Avó te vir, está orgulhosa. 

És uma Mãe como ela foi - tudo sempre explicado, vivemos, entre nós, uma relação de absoluta verdade e confiança inteira - somos companheiros de caminho, meu amor, até ao fim. 

Em ti, admiro a inteligência que te fez precoce - desde o princípio, nasceste uma criança especial a quem foi ensinado o alfabeto dos afectos. E nunca o teu privilégio te fez vaidosa, menos doce, menos simples, menos capaz de reacção ao mundo e aos seus desaires. 

Ainda hoje, ouço coisas, 

Oh menino, a sua Mãezinha ajudou a pagar o curso da minha filha, ou, 

O trazeres para casa as vidas e os nomes desses miúdos que te preocupam - o quereres saber se eles comem, olhá-los com olhos de ver e, por exemplo, pagar-lhes o pequeno almoço se os achas fracos ou pouco atentos às aulas, de manhã cedo. 

Dizem-mo. 

De ti, nem uma palavra.          

Não me deste só a vida - cada vez que recordo que existes, o meu desejo de vida renasce, como fogo, nas veias; há uma redescoberta súbita de algum encanto na melodia e no mistério imenso desta viagem. 

Sem ti, o meu coração seria uma carta sem destinatário, as coisas mais belas ficariam, certamente, por dizer; o futuro de todos os verbos deixaria de se poder conjugar - porque é isso que uma mãe é para os filhos - um mar de futuro, uma janela que se abre no nosso peito e deixa entrar a luz. 

Pequenino, no escuro, deitava-me contigo no chão, 

A música - uma das da minha vida, é certo -, que tocava, 

When you're weary, feeling small
When tears are in your eyes, I'll dry them all 
I'm on your side, oh, when times get rough
And friends just can't be found
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down

E, mais tarde, a mania de te escrever cartas - dentro da mesma casa, o deixarmos cartas um ao outro - o conjugarmos no papel os verbos sem medo, o empregarmos as palavras sem receio de que elas nos prendessem - cedo me ensinaste que dizer aos outros o quanto precisamos deles não nos prende - significa, isso sim, que há liberdade de nos escolhermos, de nos acolhermos, de nos agarrarmos e sermos os dois lados de uma mesma estrada. 

Vou amar-te também no meu silêncio - como um ventre cheio de esperanças, também ele continua permanentemente a lembrar-me as pinceladas imensas e intensas deste amor que é o nosso. 

Trago o teu nome na forma como ando pelo mundo - tento, bem pior do que tu, é verdade, olhar, ver e reparar nos outros; não ser indiferente e, nunca, deixar que a vida nos torne azedos, menos capazes de crer no milagre do amor. 

Guarda sempre as minhas cartas, meu amor. 

O meu coração precisará de ser sempre uma carta para um destinatário - e, apenas tu, percebes as palavras com que, primeiro, eu aprendi a soletrar o amor. 

Entretanto, liga a música, 

When you're down and out
When you're on the street
When evening falls so hard
I will comfort you
I'll take your part, oh, when darkness comes
And pain is all around
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down

No escuro, como em pequeno, eu vou estar lá contigo. Agora, que cabes tu nos meus braços, sou eu quem te promete um futuro que nos leve juntos e, como  no carro, em pequenos, estendo-te a mão grande, só para que o sono chegue e o sonho possa, sempre, principiar. 

Obrigado, Mamã

Amo-te. 

Um beijo, 

R.

RM|V|V|MMXVIII

domingo, 22 de abril de 2018

24.04|Papá,

PELOS TEUS 70 ANOS, 

Papá, 

O tempo voa mesmo, velhote. 


Tu, aos meus olhos, ainda assim, permaneces o mesmo - nós, está visto, não te deixamos envelhecer, 

O nosso Bi, o filho do Sr. Mesquita, o Papá


E, todas as vezes que assim te chamamos, o meu coração julga que o tempo suspende a sua respiração, que as coisas podem simplesmente ficar assim - como uma mobília que definitivamente traga flores em todas as jarras para sempre. 

Nasceste de um parto longo e difícil - quase uma semana de dores e sofrimento que fizeram a Vovó e o Vovô recearem o pior. Felizmente ficaram os dois. 

Eu, parvo como tudo,

Oh Vovó, o pior de tudo seria eu e o A. não termos nascido, não achas? Já viste o que terias perdido?,

E a Avó ri-se enquanto me abraça. 

Nunca te conheci longe da família - foste sempre o filho em quem mais o Avô confiou - o homónimo -; foste sempre quem melhor satisfez as vontades da Avó; o sobrinho preferido e o companheiro e confidente mais presente de uma viagem que, ainda hoje, continua. 

E os Avós sabiam disso e sempre mo disseram. 

Um dia, agradeci-te, 

Papá, obrigado por teres salvo a vida à Vovó e ao Vovô várias vezes -  no fim, a vida triunfou e pude ser deles e eles meus -  e isso foi tanto. 

Folheio os teus álbuns da Guiné - fotografias que, se falassem, me diriam que, nessa altura, o cabelo da Avó ficou todo branco; que o Avô sempre acreditou que voltarias para eles e para nós - que haveria um futuro onde nós te esperávamos, embora não o soubesses ainda.

Um dia,  perguntei à Avó, deitado na cama onde nasceste,

Vovó, porque amas assim só o Papá?, e disse-lhe que nisso éramos iguais - eu e o A., como ela e o Avô, só conhecemos esse tipo de amor que é um fanatismo, uma entrega absoluta, uma existência ampliada apenas por termos o coração emprestado inteiro ao nome dos que amamos - e não amamos todos, diga-se. 

E, antes que a Vovó respondesse, atirei, 

Imagino que, quando o Papá esteve na Guiné, tu só pedisses a Deus que ele voltasse - dentro de ti, desde que ele voltasse, tudo teria emenda, tudo se perdoaria, tudo ficaria bem. 

E ela, 

Como sabes, pequeno?, 

Eu, Milinha, conheço-te tão bem que, pela minha boca, tu julgas, às vezes, quando me ouves, que eu nasci muito antes, que vi tudo, que sei tudo - e, de facto, quando se ama como eu vos amo, quase se vê no escuro - no fim de contas, o amor sempre acenderá as velas do tamanho certo para que a luz engula o escuro de uma vez. 

Entre nós, Papá, eu o A. sempre te falámos com verdade - mesmo que doa, mesmo que custe, mesmo que todos soframos mais por causa disso, a verdade é o único chão e cimento do verdadeiro amor. 

Tu sabes que, no A., o teu Pai continua vivo  - e cada vez mais - e, que, em mim, também só houve sempre a vontade de manter este círculo fechado em que a felicidade sempre existiu.

Digo, a rir-me, à Avó, ao explicar-lhe que, para mim, só por vocês é que há amor, 

Eu faço parte de uma família e não de uma tribo!, 

Rimo-nos os dois - ela sabe que o que eu quero é mergulhar de cabeça em cada um de vocês e levar - porque levo - mais amor que todos eles, mais tempo, mais verdade, mais intimidade, mais perdão, mais felicidade e é isso que me basta. 

Por isso, velhote, antes que o tempo passe todo, lembra-te de que a verdade é sempre a maior prova de amor que sempre te demos.

Com ela, haveremos sempre de arranjar uma forma de ficarmos todos juntos. 

Obrigado por tudo. 

Também eu fiz um pacto há muito - desde que vocês cá estejam, tudo se arranja e, seja qual for a guerra, só pode haver um futuro que nos leve a todos de mãos dadas. 

Parabéns, Papá!

RM|XXII-IV-MMXVIII

domingo, 25 de março de 2018

21.03| Avós,

Sou uma flor da primavera que vocês começaram. 

Conheci o vosso amor porque o vi acontecer diante de mim - eu, desde o princípio, engolido num abraço que sempre me incluiu, sempre me serviu na pele, sempre me orgulhou e fez de mim uma criança inteira e maior. 

Casaram por amor, sei-o bem. 

O Avô que te mandava fotografias, 

Olhando o mar pensando em ti

Tu, Vovó, que lhe bordavas mensagens em ponto de cruz, 

Levam-te mil saudades

E eu, desde pequeno, que vos perguntava, 

É assim o amor? Alguma vez se arrependeram da vossa escolha?, 

(Puto chato, eu, Deusmalivre),

E vocês, sempre me dizendo, por palavras, a verdade que eu via ser carne com os olhos e com o coração - o amor não é nunca um lugar fácil - há uma espécie de violência e de sequestro na forma como o lume intenso do nome do outro nos arde cá dentro; há o risco de uma dança sobre o abismo quando lançamos a corda dos nossos braços até ao outro; há uma imensa felicidade e paz no perdão das falhas que esse alguém nos merece; há um longo caminho todo de verdade, 

72 anos de casada, Milinha

Sentado na tua cama, falo-te do vosso primeiro jantar de casados no Abadia, relembro-te dessa vossa ida ao teatro no Sá da Bandeira e digo-te com a nudez explícita e costumeira entre nós, 

Não achas que o Vovô te amou sempre, Vovó? Que na forma como te protegeu, te engrandeceu, mereceu o teu perdão e foi teu amigo e cúmplice, te deixa uma certeza disso mesmo?, 

Tu respondes-me, 

Claro que sim, pequeno. Eu, em bom rigor, não escolhi, fui escolhida. O teu Avô não me largava antes de começarmos a namorar e eu comecei a amá-lo, quando percebi que ali estava um homem e não um rapazola, 

Rio-me ao ouvir-te dizer isso - só quem não te conheça bem, poderia imaginar, alguma vez, que irias para onde quer que fosse sem que o quisesses de verdade. 

Aproveito para te agradecer, 

Fui sempre muito feliz também por vossa causa, Vovó, e sei o que vos devo

E tu atiras, 

E já não és feliz, meu Amor?, 

Sou, Vovó, sou - tu que me lês, mesmo sem saberes, o nublado dos olhos, que vês no escuro de mim mesmo - mas sinto falta dos tempos em que estávamos todos - os Pais, o A., o Avô e a Gó, percebes?, 

Tu, de repente, abraças-me, enquanto eu te digo, 

Não nasceu de ti e do Avô nada que vos iguale

E tu, 

Mas quem te disse que tu e o teu irmão não vão até chegar mais longe do que nós? Só quero estar lá para ver! E ver os vossos filhos e pegar neles ao colo!, 

Sem que o saibas é por tudo isto que eu não consigo ir para longe - mesmo no Porto, enquanto estudante, neste mesmo dia 21, passava sempre em frente do Sá da Bandeira e, se pudesse, jantava no Abadia. 

Tenho uma espécie de fé nos meus milagres e a pedra da minha igreja é a do nosso amor.

Os olhos curiosos que procuravam a mesa, o coração que se entretinha a imaginar a conversa, o tom de azul-feliz dos teus olhos, a satisfação do Avô por ter casado com, 

A maior mulher e a mais bonita da freguesia!

E eu a saber, até hoje, que são vocês o mapa da minha existência, a geografia serena da minha história, as coordenadas certas do meu caminho. 

Como numa peça de teatro, as minhas deixas dependem das tuas - por amor, claro, também se improvisa - também se inventam pretextos para mais um abraço, uma visita, um beijo mais repenicado; também se perdoa, se guarda segredos - se fica, sempre. 

Todos os meus dias são vossos. O meu coração é um palco de onde jamais sairão de cena. 

Amo-vos com palavras por descobrir, com frases por escrever e pontuação por inventar - não há quem iguale as flores do jardim de onde nunca sairemos todos - Eu, o A., os Pais, vocês e a Gó. 

Costumava dizer em pequeno, 

Eu e o A. somos as flores mais bonitas da primavera que começou a 21 de Março de 1946!

Tu, o Avô, a Gó e os Pais riam-se - e tu piscavas-me sempre o olho como se, apesar desse silêncio, eu merecesse ter a certeza de que o que dizia, para vocês e nos vossos corações, era a verdade.  

Sei que costumavas enfeitar as lapelas dos teus casacos com flores do jardim presas num alfinete.

Tudo o que mais quero é ver o teu coração em flor para que o meu saiba como continuar. 

Antes de eu sair do teu quarto, tu dizes-me, 

Tal como eu dizia ao teu Avô, 

Ou matamos o medo, aqui, os dois, ou ele mata-nos a nós. Nunca tenhas medo, pequeno!

Sem que o saibas, sem sequer imaginares, dizes-me tudo quanto preciso. 

Por detrás da cortina, o Ricardo e a Milinha que só um e outro conhecem. 

Saio para a rua.

Graças a ti, a lapela dos meus casacos traz sempre flores. 

Nos corações de quem se sabe amado, a primavera começa todos os dias, 

e o perfume intenso da felicidade, afinal, não acaba nunca. 

Obrigado.

RM| XXV-III-MMXVIII

domingo, 4 de março de 2018

06.03| Querida Gó,

Gó, 

Toda a minha vida achei que os teus olhos eram de açúcar. 

E, toda a vida, achei que a nossa felicidade foi uma receita que tu ajudaste a cozinhar - só tu sabes quantas colheres de paciência, de infinita bondade, de genuína adoração teve sempre o amor dos Avós,  

quanto sofrimento e superação houve na nossa casa, 

em cada uma das vezes, sei-o bem, a nossa sorte era a tua sorte, a cada percalço o teu coração tremia com os nossos. 

Visto do teu colo o mundo era todo um enorme abraço - achava eu, todas as pessoas tinham que ser como tu e trazer uma luz inteira na verdade com que se entregam, com que ficam, com que sofrem, perdoam e permanecem.

Foste uma almofada a que o meu corpo sempre se agarrou - os braços enrolados no teu pescoço alto, as provocações que me perdoavas por entre gargalhadas - eu a medir, sem saber, a força da tua fé, a querer saber se me amavas a mim e ao A. acima de tudo, apesar de tudo, para lá de tudo. 

E amaste. Sempre. 

O teu amor, o dos Pais e o dos Avós foi, para mim e para o A., o milagre maior das nossas vidas.

Fomos sempre amados sem medida, sem comparação, sem interrupções e sem distâncias - talvez por isso, digo eu, só vos ame verdadeiramente a vocês. 

Não chamo amor a outra coisa que não traga a medida do absoluto que vocês me ensinaram ser possível. 

Quem ama como vocês nos amaram é como um céu que deixa brilhar somente a quem se quer muito e, justamente, eclipsa tudo o resto. 

Não tenho, por isso, meu amor, nome para os meios-sentimentos, para as quase-palavras, para as meias-verdades e para o estar-mas-ao-longe com que a maioria das pessoas diz que ama os outros. 

Dizia-te sempre, 

Gó, tu dás-me colo agora e eu dou-te mais tarde!

Prometi-te, um dia,  
   
Gó, nunca vais estar sozinha, ouviste? Eu levo-te para minha casa, tomo conta de ti e pronto!, 

Tu rias-te mas sabes que seríamos incapazes de te largar a mão. 

Há um tempo, no velório da tua irmã Maria, as pessoas, 

É da família?, 

e tu, muito rapidamente, 

É como se fosse

E que orgulho tenho em seres da minha família  - no meu sangue há, de facto, tanto de ti - todo o açúcar do teu amor honesto e simples, todo o carinho em flor, a lembrança viva de cada uma das lições, das piscadelas de olhos, das corridas no terraço, das idas à missa, dos caminhos para a escola, dos bifes com ovo do domingo à noite, de todas as velas que acendeste no escuro da minha vida. 

O meu amor por ti é maior do que tudo o que as palavras deixem aceso depois de ditas. 

Mesmo assim, minha querida, podia falar-te uma vida inteira - muito pequeno dei-te a chave do meu coração e deixei-te morar nele para sempre. 

És como uma daquelas salas das casas grandes a que se volta para nunca esquecer o quão feliz se foi. 

É isso - tu lembras-me da criança que corria num terraço; um terraço onde tu, os Avós e os Pais eram, justamente, o céu onde eu e o A. brilhávamos mais alto nessa felicidade inteira e afiada como um raio de sol.

Hei-de gastar uma vida toda a amar-te e, com isso, a agradecer-te. 

Obrigado por tudo, querida Gó. 

Acende uma vela no escuro, se puderes, e demora-te por cá. 

É desse milagre que eu e o A. precisamos 

e de um, 

Vai correr tudo bem, meninos, vão ver

só para haver um terraço, 
duas crianças que correm, 
e um amor que elas acham que será eterno. 

Parabéns! 

RM| IV|III|MMXVIII

sábado, 10 de fevereiro de 2018

13.02|Bininho,

Meu querido Bininho, 

Os meus sonhos têm a medida que só tu me mostraste ser possível. 

Teres ensinado a uma criança que o sonho é um caminho, fez de ti o promontório maior da minha vida. 


Sabes, volto muito ao nosso banco - por vezes, tudo parece ainda igual - paira no ar um silêncio confortável em que se ouve, ao longe, o barulho de vida vindo do ventre feliz da nossa casa e eu sossego, finalmente, um bocado.

Continuo a escrever-te - o meu silêncio está repleto de fotografias que te queria mostrar, de palavras que acumulo nos bolsos das calças, dos casacos; nas palmas das mãos uma cruz a dizer-me que nunca me esqueça de te lembrar. 

[e eu nunca me esqueço]

Falo-te como se os teus olhos me fitassem, ainda, do nosso jardim; como se, ainda, percorresses comigo as quintas de lés a lés e, no verde que recomeça todas as primaveras, repousasse verdadeiramente o sentido do mundo e de todas as coisas. 

A cada ano que passa, fazes-me mais falta, meu malandro. 

Os sonhos que vou realizando queria que fossem presentes para ti - em cada um deles, a vénia que te devo, o serem todos eles flores de uma árvore que tu cuidaste, mimaste, ajudaste a crescer e nunca deixaste para trás. 

Todos os anos, neste dia, pergunto à Vovó, 

Milinha, achas que foste amada pelo Vovô?, 

E, a cada ano, sempre a mesma resposta,  

Meu querido, sei que o teu Avô me amou a vida toda e eu a ele, 

E na luz dessa resposta, o escuro da noite e da vida, de repente, esbate-se todo. 

Outro dia, alguém que me dizia, 

Oh doutor, bastava que víssemos o casaco do seu Avozinho no cabide e todos sabíamos o que tínhamos de fazer, 

Eu sorrio - o teu casaco ainda pendurado no cabide do meu coração, tudo de ti guardado nas gavetas da cómoda velha que eu sou por dentro. 

Foste o maior homem que conheci. 

A Vovó outro dia, 

O teu irmão está igual ao meu marido e tu lembras-me muito o meu pai

Para mim e para o A. ser um Mesquita é ser vosso - é sermos os netos da Milinha e do Bininho e isso ser, até hoje, o maior dos abrigos, a maior das lições, a maior das bênçãos e das dádivas. 

Mais uma vez, 

Obrigado, meu querido, 

Até ao fim da minha vida que eu seja um altar onde vivas e onde não se apague jamais a luz imensa que tu foste. 

Até ao fim, 

Um casaco pendurado num cabide, 

E tu seres, na minha pele, um abraço que não acabe nunca. 

Parabéns, Bininho! 

RM| X|II|MMXVIII

sábado, 20 de janeiro de 2018

18.01|porque a Avó faz anos,

PELOS TEUS 94 ANOS, 

Milinha, meu amor, 

Toda a minha vida aconteceu sob o azul generoso dos teus olhos. 

E foi também contigo que o meu coração aprendeu a falar. 

Há uma língua que apenas os muito amados falam - essa que é a do sonho, da partilha, da mais absoluta nudez e verdade, do perdão e da mais visceral vontade do outro que possa existir.

Começámos este diálogo há muito tempo, minha querida - as mãos sempre muito dadas, a pele toda escrita como um enorme e fundo baú onde me apresso a guardar tudo de ti - pequenos detalhes, bilhetes que o meu coração adivinha deixados escritos para mim, por ti, para levar na viagem; pequenas sombras, nuvens e inclinações do vento que eu leio como se conhecesse o caminho para dentro de ti que és, afinal de contas, a minha casa.  

Leio-te como a uma oração de luz e de esperança, como um antídoto contra o granito pesado da laje da distância, da saudade ou da tristeza - e repito-te, vezes sem conta, dentro de mim. 

No meu silêncio não existe solidão, jamais me senti sozinho - existes tu, o Avô, o A., os Pais e a Gó - foi, como sabes, por entre as ameias do vosso colo que eu espreitei, primeiro, o mundo. Foi por vocês que eu vi ser possível acontecer a carne dos verbos mais honestos, maiores, mais puros e inteiros. 

Tu sabes que eu te escolho - como eu, só amas verdadeiramente quem te escolhe, quem sabes ter que estar, que ficar, que voltar - que nunca esquecer. A memória é, para nós, um caminho - nele, ama-se mais quem caminha connosco, ama-se mais quem não está longe, ama-se mais quem nos agasalha do frio de certos enganos e quem nos defende até de nós mesmos. 

Afinal, que amor  - se o é e, para o ser, de verdade - que não é, afinal de contas, a mais parcial das coisas, a inclinação de alma mais natural, mais justa, que melhor nos cose por dentro?

Nunca amarei ninguém como a ti, tal como não há um céu igual ao do azul dos teus olhos. 

Outro dia, 

Olho o relógio, são 21h e eu ainda no gabinete.

Atravesso a rua e vou encontrar-te no teu quarto - sorris muito quando me vês. Ficamos agarrados uns instantes um no outro. 

Volvidos tantos anos, sou eu quem te segura nos braços e puxa a conversa, 

Sabes, Vovó, desculpa se, às vezes, o tempo não me chega,

E principio a chamar por ti, a desatar-te os nós da memória - levo-te, pela mão, até onde possamos ser os dois felizes e esquecer-nos do mundo. 

Quando estamos juntos, no céu dos teus olhos, tudo o resto se eclipsa - falo-te do futuro, peço-te que não desistas de viver, asseguro-te que não consigo imaginar um mundo sem ti.

[e não consigo]

E tu - que me fizeste uma casa sem telhado - respeitas a minha ambição, iluminas com a luz do teu amor as curvas apertadas da estrada e, mais que tudo, queres estar lá comigo. 

Por isso, meu amor, obrigado. 

Falamos sem parar um bom bocado  e eu digo-te, antes de adormeceres, 

Amo-te muito, sabes disso, minha malandra, não sabes?, 

E tu, 

Então não sei, pequeno, então não sei. 

Espero que adormeças - deitado contigo na cama onde nasceu o meu Pai, aperto-te contra mim como a uma bóia que me salve. 

Em silêncio, agradeço esse milagre que foi o nosso encontro e tudo o que veio depois. 

Saio para a rua - sem querer, olho o céu. 

Graças a ti, serei sempre uma casa sem tecto. 

Cá dentro, o meu coração não desiste de querer apenas um céu que seja o do azul dos teus olhos e a paz que só ele me dá. 

Parabéns, Vovó!

Um beijo, 

R.

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