Rewind

sábado, 20 de janeiro de 2018

18.01|porque a Avó faz anos,

PELOS TEUS 94 ANOS, 

Milinha, meu amor, 

Toda a minha vida aconteceu sob o azul generoso dos teus olhos. 

E foi também contigo que o meu coração aprendeu a falar. 

Há uma língua que apenas os muito amados falam - essa que é a do sonho, da partilha, da mais absoluta nudez e verdade, do perdão e da mais visceral vontade do outro que possa existir.

Começámos este diálogo há muito tempo, minha querida - as mãos sempre muito dadas, a pele toda escrita como um enorme e fundo baú onde me apresso a guardar tudo de ti - pequenos detalhes, bilhetes que o meu coração adivinha deixados escritos para mim, por ti, para levar na viagem; pequenas sombras, nuvens e inclinações do vento que eu leio como se conhecesse o caminho para dentro de ti que és, afinal de contas, a minha casa.  

Leio-te como a uma oração de luz e de esperança, como um antídoto contra o granito pesado da laje da distância, da saudade ou da tristeza - e repito-te, vezes sem conta, dentro de mim. 

No meu silêncio não existe solidão, jamais me senti sozinho - existes tu, o Avô, o A., os Pais e a Gó - foi, como sabes, por entre as ameias do vosso colo que eu espreitei, primeiro, o mundo. Foi por vocês que eu vi ser possível acontecer a carne dos verbos mais honestos, maiores, mais puros e inteiros. 

Tu sabes que eu te escolho - como eu, só amas verdadeiramente quem te escolhe, quem sabes ter que estar, que ficar, que voltar - que nunca esquecer. A memória é, para nós, um caminho - nele, ama-se mais quem caminha connosco, ama-se mais quem não está longe, ama-se mais quem nos agasalha do frio de certos enganos e quem nos defende até de nós mesmos. 

Afinal, que amor  - se o é e, para o ser, de verdade - que não é, afinal de contas, a mais parcial das coisas, a inclinação de alma mais natural, mais justa, que melhor nos cose por dentro?

Nunca amarei ninguém como a ti, tal como não há um céu igual ao do azul dos teus olhos. 

Outro dia, 

Olho o relógio, são 21h e eu ainda no gabinete.

Atravesso a rua e vou encontrar-te no teu quarto - sorris muito quando me vês. Ficamos agarrados uns instantes um no outro. 

Volvidos tantos anos, sou eu quem te segura nos braços e puxa a conversa, 

Sabes, Vovó, desculpa se, às vezes, o tempo não me chega,

E principio a chamar por ti, a desatar-te os nós da memória - levo-te, pela mão, até onde possamos ser os dois felizes e esquecer-nos do mundo. 

Quando estamos juntos, no céu dos teus olhos, tudo o resto se eclipsa - falo-te do futuro, peço-te que não desistas de viver, asseguro-te que não consigo imaginar um mundo sem ti.

[e não consigo]

E tu - que me fizeste uma casa sem telhado - respeitas a minha ambição, iluminas com a luz do teu amor as curvas apertadas da estrada e, mais que tudo, queres estar lá comigo. 

Por isso, meu amor, obrigado. 

Falamos sem parar um bom bocado  e eu digo-te, antes de adormeceres, 

Amo-te muito, sabes disso, minha malandra, não sabes?, 

E tu, 

Então não sei, pequeno, então não sei. 

Espero que adormeças - deitado contigo na cama onde nasceu o meu Pai, aperto-te contra mim como a uma bóia que me salve. 

Em silêncio, agradeço esse milagre que foi o nosso encontro e tudo o que veio depois. 

Saio para a rua - sem querer, olho o céu. 

Graças a ti, serei sempre uma casa sem tecto. 

Cá dentro, o meu coração não desiste de querer apenas um céu que seja o do azul dos teus olhos e a paz que só ele me dá. 

Parabéns, Vovó!

Um beijo, 

R.

RM|XX|I|MMXVIII

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Tio Arnaldo,





Querido Tio, 

Começar o ano - como todos - com o coração preso na gramática com que ele aprendeu a falar. 

Esse sou eu - sempre uma enorme sala de visitas que vos recebe a todos, que vos guarda e protege com todos os antídotos possíveis contra o esquecimento e a distância. 

Faz hoje sete anos que a sua voz ampla como uma janela deixou de se ouvir nos corredores de vossa casa, que tivemos todos que aprender a iluminar a escuridão que ficou com a luz do amor que nos deixou. 

E é isso que faço sempre que o lembro - imerso todo no meu amor terno pelo homem e na admiração absoluta pela história de superação que foi a sua - sorrindo, todas as vezes, pelo privilégio destas mãos que o sangue e o carinho mantiveram, até hoje, unidas entre nós. 

Visito muito a sua casa - o Carlos fez anos há dias, meu querido, e houve festa. Debaixo da luz morna do lustre de cristal, houve, de novo, espaço para riso naquela casa. A memória viva da Tia na beleza exuberante de tudo o que ela coleccionou - os livros, as antiguidades, a pintura - a estética como um fio que tudo une e nos conduz divisão após divisão - um espaço intocado como se, apesar de tudo, pudesse, todavia, haver ainda a esperança de um regresso. 

E a Donzília - essa guardiã e a testemunha maior de tudo quanto foi a maravilha do vosso encontro. Rio-me muito com ela - deixo que ela volte aos lugares onde foi feliz  e me leve com ela para ver o que não pude conhecer, estar onde não pude estar porque tudo veio muito antes de mim. 

Somos diferentes, meu querido Tio - mas agradeço-lhe o poder haver um país onde, justamente, a diferença exista, onde as vozes se possam ouvir e se possa, finalmente, respirar. 

Somos semelhantes, ainda assim, no horror visceral ao dogma, no feitio aceso, no gosto de debater, nessa fome de ar limpo, no incómodo perene que temos de pensar, de questionar, de contestar. 

Encontro-me consigo numa circunstância que lhe devo - somos, hoje, livres, podemos discordar, podemos protestar e, por isso, me lembro da sua voz como um vento que empurrou a derradeira janela que faltava abrir. 

Dela se via um País que eu não conheci, mas que não quereria de maneira nenhuma - leio e releio todos os seus livros, passeio-me neles e reconheço nos poemas coisas que ouvi toda a vida, 

Ao Bininho e à Milinha, meus Avós, a sua gratidão por nunca o terem deixado sozinho; 
À Tia Alcina, o Amor como a ponte eterna por cima do terror dos maiores abismos;
Aos seus Pais - uma Mãe que lhe lia à lareira, um Pai republicano que mandou deitar foguetes na Aparecida quando caiu a Monarquia - e as cicatrizes que, por se amarem de verdade, todos carregaram a vida toda; 
Ao Nanau e ao Carlos - os seus filhos - a quem o Pai foi roubado tantas vezes e a quem o Tio amou sempre; 
À Donzília - o carinho brincalhão que faz dela, até hoje, o lugar onde o vosso retrato mais fiel permanece vivo. 

Levanto-me e proponho um brinde, 

Vá lá, Tios e Nanau, já podem sair debaixo da mesa!, 

Todos nos rimos - cá dentro, fintamos, como podemos, a infinita tristeza que as vossas ausências deixam na sala enorme.  

Mas estamos juntos - elos de uma mesma corrente que vos levará, dentro de nós, até ao futuro, que vos lembrará sempre com uma gratidão maior que o tempo e as palavras. 

Por isso, meu caro, a cada início de ano, eu escolho recomeçar o que não pode nunca acabar - o tempo de dizer obrigado, o tempo de fazer o que um dia me pediu, 

Pequeno, anda cá. 

O futuro é teu. Só tens que o fazer acontecer mais cedo. 

Sempre que a escuridão parecer maior que nós, eu lembrar-me-ei da sua voz, meu querido. 

E por cada janela que, finalmente, se abra, o seu exemplo permanecerá vivo. 

Até sempre!

Um beijo,

R.

RM| I-I-MMXVIII

   

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

porque a Mãe faz anos,

Mãe, 

porque contigo os meus olhos se podem fechar - 
o amor pode ser um gole fundo de silêncio
e as palavras todas deixadas, à entrada, no bengaleiro antigo
serem agasalhos que a verdade que nos une não impõe

sentados - eu de t-shirt cinza, descalço, jeans velhos e barba por fazer
tu, de cigarro, a música que toca, só o mar que nos ouve
e não haver parapeito mais honesto que o do teu olhar
e não haver vista mais bonita que a verdade que tu me mostras

porque só contigo, Mãe, o meu amor não foi nunca uma escolha - 
amo-te porque a gravidade me cola ao trilho de terra e luz que tu és
e amo-te mais ainda por me saber sempre condenado a voltar à praia do teu colo
como, ao fundo, as ondas que se desfazem num afecto de danças antigas e repetidas 

e tu, Mãe, serves-me todas as vezes no corpo, na pele, nas dúvidas
sempre te encontro a medida exacta do que me falta,
um tecto mais alto para os sonhos, 
e adivinho, porque tu queres, onde escondes a chave para que, apesar de tudo, eu volte 

[Mãe, amo-te] 

obrigado pela liberdade com que o teu coração prendeu, para sempre, o meu. 

acende um cigarro, 
deixa que o mar nos ouça 
no bengaleiro ficam as palavras 

afinal, nós vemos no escuro um do outro
e isso basta.

PARABÉNS. 


RM| X-XI-MMXVII


sábado, 14 de outubro de 2017

Avô,

quase como se a saudade fosse uma primavera que pudesse nascer sempre da fenda mais funda

e trazer flores.

assim te lembro, meu querido. 

quase 18 anos depois - e ainda, não ter havido ninguém como tu; eu ter deixado por dar, no cabide da vida, infinitos abraços que só podiam ter sido teus, passeios que não dei como se, sem ti, a estrada fosse um rio sem margens; ou o terem morrido poentes que não contemplei por não podermos estar juntos no terraço eterno da nossa amizade. 

e, depois, saber que toda a vida pedias à Vovó, 

Milinha, já há flores no jardim. Podíamos ir à Aparecida deixá-las à Mãe.

e o meu coração se encantar sempre com esse teu lado tão doce, a minha pele se arrepiar com a devoção que sempre nos tiveste, a mim e ao A. 

toda a tua vida com saudades da tua Mãe que te lia à lareira, toda a tua vida com uma fé de aço no milagre que te aconteceu nos braços dela. 

não há primavera que não me lembre de ti e não há flor que se abra que não me traga o cheiro da verdade com que nos tivemos e uma vontade intensa como um gume de que tivesse havido mais tempo. 

sabe, avô, que a saudade com que te chamo traz sempre flores - houve-as de sobra nas bordas do caminho que fizeste comigo. 

mesmo assim, tal como fazias tu, também o meu coração terá sempre para te dar todas as flores que só o adubo doce do teu esforço, do teu amor, da tua bondade, farão, um dia, brotar do chão ainda desconhecido do meu futuro. 

serão todas tuas. 

se puderes, vem colhê-las. 

não sei se as flores de um neto podem cheirar a gratidão, mas eu sei que, tal como o teu coração nunca se esqueceu de as deixar onde o amor lhe soava mais fundo, tu saberás melhor que ninguém o que te quero dizer. 

obrigado

se puderes, pede um poente no banco do costume 

só para que possa ser primavera

e, só desta vez, tu possas levar das minhas mãos as flores com que a minha saudade não te esquece. 

[nunca.] 

RM| XIV|X|MMXVII
     

sábado, 30 de setembro de 2017

Carolina,

lembro-me de um corredor que era o de uma faculdade,

uma colega minha com quem, sem saber já bem porquê, comecei a falar.

até hoje, o som imenso da voz da Carolina - há pessoas que dão às palavras raízes mais fundas, dizem-nas com tal convicção que o sonho parece poder começar logo ali - e a Carolina é assim.

escrevo, hoje, a saber exactamente porque devo falar-lhe - devo-lhe, sem que se calhar ela o saiba, o que ela me ensinou todo este tempo.

há poucos que amem como a Carolina ama - a mãe, o pai, o irmão, o Rui, o Afonsinho, os gatos, a profissão, os amigos - e menos há, ainda, quem tenha na verdade desse amor uma alegria tão luminosa e uma gratidão tamanha. 

falo da Carolina com a falta de palavras que só existe quando as pessoas de quem queremos falar estão para lá de qualquer medida, de um círculo fechado, de uma linha que pare e as fixe no tempo. 

sei, porque a conheço, que a Carolina me vai continuar a surpreender - um telefonema que se prolonga, o conforto de uma mão que se estende, a ajuda que se tem sem se pedir. 

e a fé da Carolina - a cada soluço, a cada partida, a cada improviso que a vida lhe impõe, há sempre a luz que ela arranja forma de acender - pelos outros, primeiro e sempre, para que se não percam e depois por ela para que saibam como continuar - juntos, sempre. 

lembro-me de uma conversa que começou nos tempos da faculdade e dura até hoje - acho mesmo que a vida, por algum motivo, nos faz desatar o nó do silêncio para que a infinita alegria de certas entregas nos possa acontecer. 

por tudo, Carolina, obrigado. 

o sorriso da tua mãe naquele dia de romaria na Senhora da Aparecida - a alegria com que lhe pude ver o orgulho em ti estampado no rosto - vocês, as vossas mãos dadas e essa cumplicidade sem nome que vos levará para sempre juntas.

lembro-me da Carolina, da família dela, do orgulho que tenho no caminho que esta minha amiga fez e volto aos corredores da faculdade para agradecer a sorte deste encontro. 

C., o teu coração é como a casa que, finalmente, arranjaste - um lugar onde, seja de que maneira for, caberão sempre todos, se agarrarão sempre todos neste salto sem rede que é a vida. 

da Carolina e do seu coração sei que quem entra dificilmente sai. 

gosta-se de ficar na casa que é o coração da Carolina - uma porta sempre aberta, sempre o conforto de um abraço sincero, uma gargalhada doce e a luz de uma fé que é um esteio no meio dos desaires do mundo. 

querida Carolina, obrigado. 

o amor é uma casa que tem a medida dos que queremos por perto. 

por isso, na casa que é o coração da Carolina, haverá sempre a mãe dela. 

a voz imensa da Carolina que dirá ao Afonsinho, 

esta é a Avó, Afonso, 

ela acenderá a luz pelos que ama

e o sonho começará ali. 

RM| XXX-IX-MMXVII

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

mãe,

isto de ser voz tudo o que te guarda - 
os livros, os discos que me deste, as cartas, 
e poder neles ouvir-se do teu amor sempre a toada firme
quase como se o princípio de um abraço pudesse sempre começar
e no chão apontasse o pó o caminho para casa

isto de te ouvir passear dentro de mim - 
eu, a casa onde tu decidiste que havia de morar o amor
e, desde então, essa ferida que ajudas a curar sempre que as coisas me doem 
que o tempo não chega ou não existem palavras para calar-me as perguntas

chegas tu, mamã, 

arrumas-me o peito - com jeito, como num livro que conheces de cor -
abres a página certa, reabres as janelas, o ar fresco entra como se, de repente, se pudesse começar de novo, 
e eu, ao som da mesma música, descubro que se pode amar outras coisas, aprender outros nomes, 
dançar com outros corpos uma felicidade desconhecida

é isso, minha querida, 

decidiste, no momento em os nossos dedos se ataram, que eu havia de conhecer o amor. 

por isso, minha malandra, 

obrigado

fizeste de mim, ainda assim, uma casa grande - as divisões cheias de rumores de gente que, algures, deixei entrar; as gavetas repletas do cheiro dos enganos do mundo, restos de sonho, cartas que não enviei ou que ainda esperam, de alguém, a resposta merecida - e ser isso tudo, mesmo assim, o lugar onde persiste tanta coisa boa - o ter-se tentado, o ter-se errado, o ter-se emendado, a tempo, o que quisemos, sem dúvida, que permanecesse. 

ensinaste-me, mãe, o amor - o convidarmos alguém a pisar-nos o soalho dos ossos; o dizermos a alguém, com vontade, onde se esconde a chave do nosso coração e deixar tudo isso entrar. 

mas, mãe, as casas grandes desarrumam-se, às vezes, 

sabes, o correio não traz todas as respostas, 
as janelas precisam de quem as abra, 
e as gavetas de quem, finalmente, as feche

por isso, mãe, diz-me que, se eu precisar, tu vens e arrumas-me,

não me importo que os teus pés pequenos me pisem o soalho dos ossos, 
que as janelas se abram e se desenhem na parede, sob a luz da tarde, pegadas do tempo que passa
isso e que ponhas a tocar a música de sempre - 

gasta, repetida, decorada, ridícula - nossa. 

vem e fica. 

as mães ensinam aos filhos o que é o amor e só elas, que os conhecem como a uma casa, sabem onde se esconde, sob a pele deles, a chave suplente que lhes abre, de novo, o coração. 

Obrigado. 

RM| IV-IX-MMVII    

sábado, 26 de agosto de 2017

24.08

Meu querido Avô Adélio, 

só porque o teu jardim se encheu de flores, porque há uma luz quente que acendeu mais a vista da janela do teu quarto e a nossa saudade não deixou nunca de se ouvir, 

parabéns

só porque, sob a sombra das árvores da tua casa, queria poder segurar-te os dedos compridos, ver-te sorrir para a minha mãe com os olhos inundados de orgulho - ficar, sempre, pendurado na varanda de aço florido da vossa cumplicidade sem medida, sem tempo, sem remédio - os dois, para sempre, condenados a uma adoração mútua, a uma caminhada repleta de coincidências que vos fizeram mais unidos na compreensão do verdadeiro sentido de tudo. 

só porque, uma vez mais, te queria dizer,  

obrigado. 

e, enquanto a minha mãe fuma um cigarro e, nas árvores, cantam os pássaros esquecidos de partir, pedir-te que desenhes, que me fales das tuas inúmeras viagens - o pôr do sol de áfrica, o calor do brasil, os hóteis, as saudades de lisboa, a música, os bailes e esses rituais em que a minha mãe era o centro do teu mundo. 

os salões grandiosos em que a minha mãe dançou contigo uma música que o coração dela ainda ouve, a tua paixão pelo design nórdico, os teus sapatos entrançados feitos por medida e a tua pose, nobreza e elegância até ao fim.

mas, mais que tudo, por cima de tudo, para lá de tudo, 

haver corações que amem como amou o teu a minha mãe, 

os dois que liam compulsivamente noite dentro, tu que ias a coimbra se a voz da mãe estava mais triste ou a saudade te doía mais fundo - e vocês entregues sempre um ao outro por uma vida que quis ensinar, a quem vos visse, que o amor sempre nos borda na pele o caminho de casa. 

vejo-te nas fotografias - que saudades de ser visto pelos teus olhos e ler escrito neles o amor que nos tinhas, de te ver a perna cruzada a balouçar como se o tempo de viver fosse, então, mais lento, mais longo, mais livre e tudo quase pudesse durar para sempre. 

tenho saudades tuas todos os dias e a minha mãe sente falta do bem que só tu lhe fazias. 

fala muito do teu nome, relê livros cujas passagens, como caminhos, ela espera a levem até ti e ama-te com a gratidão do primeiro dia. 

aprendi com ela o vício dos afectos, o antídoto que a memória é contra a saudade, a finitude, a injustiça de despedidas que não podiam nunca ter acontecido. 

e sei, meu querido, que não há corações como o teu. 

por isso, por tudo o que me ensinaste e que a gramática do mundo não pode conter, um beijo enorme. 

97 anos, farias tu. 

pudessem vocês e a minha mãe voltaria ao estio sem fim para dançar contigo a música que o coração dela ainda ouve. 

encosto o ouvido ao peito dela. 

lá dentro, a orquestra não parou nunca de tocar. 

é contigo que ela dança até hoje. 

RM| XXVI-VIII-MMXVII          

domingo, 23 de julho de 2017

mãe,

amar-te-ei sempre mais a cada um dos meus versos não relidos
ditos todos assim com a pressa dos que se amam com verdade -
esvazio os bolsos fundos na folha ainda em branco - 
e mais do que poesia, é amor tudo o que teu trago comigo 

entre nós, mãe, há poemas meus que falam de cafés, de livros trocados, 
dos erros que a gramática trapalhona dos amores acesos deixa no papel e na pele 
de passeios, mesas de jantares felizes ou de janelas de onde se veja o teu rosto 

porque poesia, mãe, podem muito bem ser as flores que o teu amor faz nascer nos canteiros de cimento da vida. 

amar-te-ei sempre, querida mãe, com a pressa de quem chega da rua
de quem, mesmo no escuro, se guia pelo teu cheiro nas curvas da casa e sempre te encontra
os olhos demorando-se nos vincos da tua pele quando sorris ou a doçura nas tuas mãos que me pousas no ombro, mesmo antes de eu sair, 

Mamã, amo-te, 

os degraus engolidos e um último olhar meu como que certeiro no teu coração - que te abrace, te chegue, nos baste e te agradeça, meu amor. 

por isso, mãe, alguns poemas falam de tudo quanto um filho acumula no bolso das calças gastas - 
os dedos a pescarem a infinita bondade com que me esperaste sempre, 
todas as vezes em que inventaste uma resposta só porque eu precisava que a verdade doesse menos
e ser tudo isso amor - uns jeans, um filho com pressa para chegar a casa e alguém que sempre o esperou

riem-se da nossa poesia tonta, os que vêem um filho guardar o amor da mãe nos jeans

e talvez, até, que não haja poesia alguma nem sejam versos sequer as vezes em que - 

voltei a passear contigo na praia, 
te levei a jantar só comigo, 
me aninhei no silêncio em que deixas não ser preciso falar

talvez, querida mãe, não seja isso um poema. 

mas, mãe, deixa, por favor, que continue a poder amar-te como quem despeja do bolso dos jeans coisas esquecidas e que, de repente, me lembram de que o teu amor é o chão de todos os meus caminhos. 

riam-se os que não lhe chamam poesia - eu escolherei sempre chamar-lhe amor, mãe. 

chamando-lhe poesia ou não, sabe tu ao menos
que mesmo quando a métrica não esteja certa
e eu fale de coisas pouco dignas de versos muito pensados

tu, mais que ninguém, sabe que, se é amor, é poesia, 

porque o meu coração não desiste de chamar por ti. 

Amo-te. 


RM| XXIII-VII-MMXVII

domingo, 7 de maio de 2017

Mãe,

De todas as palavras do mundo, uma que é só para ti,

Mamã,

e que sorte a minha teres sido tu quem veio ter comigo neste encontro da vida,
que milagre ter sido através das paredes dos teus braços que comecei a espreitar o mundo
e que infinita alegria a minha por teres sabido sempre esperar-me sem cansaço

De todas as palavras do mundo, uma que é só para ti,

Obrigado,

e que sorte a minha teres sabido ler os gatafunhos confusos com que, às vezes, só quis dizer que te amo,
que milagre saberes caminhar no meu silêncio como quem vê no escuro
e que infinita gratidão a minha por saber a tua mão atada na minha dentro dos bolsos de todos os meus casacos

De todas as palavras do mundo, uma que é só para ti,

Desculpa,

e que sorte a minha teres sabido sempre perdoar-me com os braços abertos,
que milagre teres-me dado, de uma vez, a chave da porta do teu coração e ela ser para sempre inútil
e que infinita luz a que me chega porque a soube desde sempre encostada só no trinco para mim

De todas as palavras do mundo, uma que é só para ti,

Saudades,

e que sorte a minha de só poder ter vontade de um futuro que te tenha,
que milagre que em todas as minhas esperas a tua voz se ouvisse sempre
e que infinita esperança me nasce de te imaginar sorrindo por detrás do vidro que dá para a rua

De todas as palavras do mundo, uma que só tu me ensinaste,

Amor,

e que sorte a minha o meu coração poder ser um baú onde:
os filhos caminham na praia com as mães,
onde as mães fumam um cigarro enquanto os filhos cansam nelas, como o mar nas rochas, todas as dores, a estupidez e a solidão absurda do mundo
e que infinita dádiva todos os dicionários serem incompletos na definição do que nos une

Querida Mãe,

que as minhas palavras mais sinceras sejam sempre tuas,
e que a verdade, mesmo que doa, nos leve aos dois no mesmo caminho

no fim de tudo, terei aprendido o que é o Amor,
e sabido poder ele ser um sorriso teu só para mim por detrás de um vidro que dá para a rua

entrarei sempre, meu Amor
a porta no trinco como me habituaste
e um cigarro que espero que fumes comigo como um abrigo dentro do absurdo imenso do mundo.

Amo-te.

RM| VII-V-MMXVII

terça-feira, 25 de abril de 2017

Avó,

sobre a desgraçada falta que as mães fazem aos filhos, Avó, 
(e desculpa começar por falar assim)
podia deixar-se uma folha branca - sim, toda branca - 
e imaginar nunca mais poder continuar-se a dar o que só nasceu para ser dado - 
uma maré a que falte das ondas a esperança de um regresso,
uma manhã que chegue sobre as coisas, as ruas e tudo o resto para sempre atrasada
ou um abraço a que falte a carne para que a vontade sossegue, finalmente

sobre a desgraçada falta que tu fizeste, querida Avó, 
a mãe com dezassete anos apenas,
tu com quarenta e dois 
e, depois, esse deserto de sonhos adiados,
de coisas que tinham que ser ditas - 
o amor gasto de repetido, 
os olhos embaciados de felicidade, 
os teus netos a chamarem-te, 

Avó

e isso não ter podido acontecer
essa maldita doença que nos roubou - 
o som da tua voz que nunca ouvi,
as tuas mãos que nunca me levaram ao jardim de tua casa, 
a tua letra que nunca li num postal pelos meus anos
ou, apenas, o obrigado que nunca te pude dizer pela mãe que me deste

sim, Avó, obrigado. 

aqui por casa, a mãe fala de ti como se te encontrasse em mim e no A., 

A Mãe era assim, meninos, também fazia isso

e que felicidade a nossa porque a nossa pele também é, afinal de contas, a tua morada. 

mas, mesmo assim, Avó, que desgraçada falta tu nos fazes,
um telefone que tocasse só para nós e se pudesse dizer, 

Avó Bela, como estás?,

e o meu coração que se põe a imaginar o que te diria, 
que cartas te enviaria ou 
como gostarias, somente, de ver como a minha Mãe é boa para nós.

42 anos,  

e eu ter contado os anos até que a minha Mãe durasse mais - 
o medo que tenho, ainda hoje, de coisas demasiado curtas
do que se não diz, do que se não dá, do que se não emenda 
a tempo. 

isso ou, quando acabei o curso, a primeira pessoa a quem telefonei, 

Mamã, acabei o curso, 

e, nesse momento, me ter lembrado que a minha Mãe não pôde ter feito o mesmo
e isso me doer como um gume afiado, quando desliguei a chamada 

da desgraçada falta que nos fazes, Avó, 
das coisas que tinha vontade de viver contigo, 
do que te podia ter dito sentado no jardim da tua casa

e, melhor que tudo, um sorriso teu que saísse das fotografias que guardamos
e fosse teu só para mim
ouvir-te dizer, 

Ricardo

e saber que, finalmente, tu me respondes à falta com que te chamamos cá em casa. 

sabe, Avó, que o meu coração consegue acender uma luz na tua ausência
e ter a certeza de que, se pudesses, me havias de sorrir, 
caminhar comigo uma estrada infinita de verdade e de alegria,
telefonar-me mil vezes e deixar-me gastar-te o nome com um amor guloso

eu sei disso, querida Avó, 

mas a falta que nos fizeste, tornou-me a mim e ao A., capazes apenas de um amor vigilante, de um amor de quem anda por perto a medir o pulso e que, mesmo longe, leva no coração sempre uma janela com vista para casa. 

querida Avó, 

sabe que entro no quarto enorme da nossa saudade por ti, muitas vezes, e, no meio do escuro, desafio a distância que não escolhemos e imagino que, como numa fotografia, nos sorris com a ternura generosa que o coração da minha Mãe aprendeu contigo. 

temos saudades tuas, Avó, 

se nos ouvires, sabe-te lembrada
se possível, responde-nos, 

apesar de nunca ter ouvido o som da tua voz, tive quem, graças a ti, me ensinasse a reconhecer o amor. 

Um beijo, 

R.

RM|XXV-IV-MMXVII