Rewind

domingo, 2 de junho de 2019

Aos 32 anos,

Aos 32 anos, sei que o tempo não se deve contar. 

Outro dia, disse à minha Avó, 

Há pessoas que posso amar uma vida toda. E uma vida inteira não me chegaria. 

E é isto - aos meus, àqueles que me receberam neste caminho da vida, que, todos os dias, me escolhem, a minha vida inteira nunca lhes chegará. 

Nesta data, mais do que tudo, celebro aquilo que nunca poderá ter fim - este puzzle de afecto, de verdade, de perdão em que, nenhum de nós, prescinde do outro, se esquece do outro, avança, enfim, sem olhar para trás - estamos todos?

Nunca gostei de viajar sozinho - e, bem vistas as coisas, fui sempre uma casa habitada. 

O seu domicílio fiscal, faz favor?, 

Entendessem as finanças de amor, responderia, 

A minha família

Facto é, que é a verdade. Se é um facto tributário ou não, isso é coisa que não cabe aqui. 

Celebro o milagre de, por eles, ter uma vontade infinita de que o bem aconteça - de que, mesmo errando, ser, para eles, tudo o que garanta que ficamos juntos, que nos encontramos, que nunca nos perderemos uns dos outros. 

Aos 32 anos, ainda não aprendi outro amor que não seja este - o de amar-ao-perto. 

A eles, por mais óculos que a oftalmologia invente, nunca gostarei de os ver ao longe. 

Todo o coração que ama, vê mal ao longe, está claro. 

Dizia que, por aqui, não se conta o tempo. 

Aos 32 anos, senti-me, já, várias vezes, eterno e julguei, outras tantas, que morreria se, por acaso, não encontrasse a minha casa e, nela, cada um destes pedaços de mim, no seu lugar. 

Por isso, que eles caibam sempre todos no abraço que lhes ofereço. 

Estamos todos?, pergunta o meu coração. 

Naquele momento, julgo-nos eternos. 

Aos que já cá não estão, não deixo nunca de os esperar. 

Haverá sempre um lugar na minha mesa para eles. 

Essa mesa sou eu. 

Há 32 anos, sentaram-se todos para nos receberem. 

Eu não direi nunca que a festa já acabou. 

Obrigado.

Um beijo, 

R. 

RM|II-VI-MMXIX

sábado, 4 de maio de 2019

mãe,

dizem-me que é próprio das mães ficarem com certos dias
a minha, pelo contrário, visita-me, antes, de noite
traz com ela o agasalho da pele, o amor que veda as torneiras onde pinga a tristeza
traz com ela toda a terra que prolonga as estradas e evita os abismos e as faltas
senta-se comigo no escuro fundo e mobilado apenas pelo abraço das nossas sombras
ambos a ouvirmos o mar no gira discos da praia ao fundo

podia, eu sei, dizer que a amo - e isso é verdade
mas isso só assim é uma frase muito curta, quase como um post-it 
e eu, pelo contrário, gosto de prolongar o amor em vez de dizê-lo: 
ter pressa em dizer que se ama esvazia o peito de ar
e um peito que ama, como um balão cheio, só quer o céu 

compro-lhe, antes, uma data de livros, 
dou-lhe a mão quando vamos no passeio, 
sei exactamente como gosta do café
e digo-lhe que as flores de todos os jardins são para ela 

isso é um amor que dura mais
que traz mais cola que um post-it -
as flores ainda lá que ninguém as arranca
[são da mãe]
e ambos a querermos somente
que não nos faltem ruas onde dar a mão 
vontade de um café numa esplanada qualquer
ou de trocarmos livros como quem sublinha no papel as saudades que trazemos

o sulco é fundo, mãe,

tenho saudades tuas

vem ver-me de noite
talvez não diga que te amo - mas isso é a verdade
a noite traz o mar no gira discos da praia ao fundo

a verdade não a quero gastar, sabes?

que o amor se prolongue 
que as flores existam 
e haja ruas e sempre as nossas mãos

que o amor, dizia-te, se prolongue
que como o gira discos que roda as ondas na praia onde te abraço
se ouça o silêncio encher-se de luz
e do que não tem ainda um nome que lhe baste


RM| IV-V-MMXIX

sábado, 23 de março de 2019

21.03| Avós,

Milinha e Bininho, 
meus queridos,

Dizem-me que foi um dia feliz. 

Tu e o Avô, aliás, sempre me falaram de amor - foi isso que vos juntou, foi isso que vos reconciliou, foi isso que, tantas vezes, vos salvou. 

73 anos depois, essa luz perdura - a força do vosso encontro, a verdade da vossa entrega, a intensidade com que se quiseram ilumina, ainda hoje, as sombras maiores e os abismos mais fundos.

Começa a primavera, pensei todo o dia. 

Nem todos, ainda assim, lançam à terra tamanha promessa e tão funda, anseiam, sequer, por essa coisa sem nome e sem medida que foi o amor que vocês fizeram acontecer diante dos meus olhos e que me infiltrou a pele como uma chuva de esperança e de orgulho. 

Ainda hoje, 

Porque sorri, menino?

E, toda a minha vida, dentro de mim, houve essa luz, uma fé indestrutível no elo que nos une. Por isso, por mais afiado que seja o gume do sofrimento, por mais densa que seja, por vezes, a névoa do desalento, eu reacendo o farol que é o nosso amor - há uma casa onde me quiseram, onde me amaram e, em mim, esse mapa é eterno. 

Eu sou daí - dessa primavera de 1946 que vos uniu e me trouxe, mais adiante, no leito dessa história. 

Também vos disse sempre e para sempre, 

Sim, aceito. - e amar-vos-ei por tudo o que foram e que eu, por mais que tente, nunca conseguirei igualar, retribuir ou merecer. 

A minha Avó diz-me, rindo-se,

Tu sabes os meus segredos todos

E, todas as vezes, decidimos os dois que esse dia pode ser também o de hoje - pode amar-se com a mesma ânsia de futuro, pode querer-se o outro como se tudo fosse ser eterno - e sou eu quem a leva pela mão ao altar da memória, sou eu quem lhe lembra que palavras lhe disseram o Avô António e a Avó Maria do Carmo, quem lhe aponta nas inúmeras fotografias todos os que são os nossos e que somos nós. 

Quando os Avós se mudaram para Paços, um ano depois, dizem-me que o Avô António foi visto a chorar quando os criados arrancaram com as coisas e os Avós se puseram ao caminho. 

Encontro-me com o meu bisavô nessas lágrimas - para quem ama os nossos como nós, é sempre primavera. E nunca, nunca, os nossos rebentos podem ir para longe de nós. 

Vocês, todavia, voltaram, toda a vida, a casa. 

A minha Avó sabe que eu e o A. decidimos ficar. De que serve um coração que não consegue consumar aquilo por que vive?

Há 73 anos, acendia-se uma luz - e eu comecei também aí. Volto a essa igreja inúmeras vezes, imagino a minha família espalhada por ali e orgulho-me do que os meus Avós fizeram nascer no coração um do outro. 

Essa Primavera teve mais força do que todas as outras - foi, no fim de contas, a que me permitiu uma felicidade sem tecto, a que me ilumina o olhar e me faz trazer um sorriso debaixo da pele. 

Porque sorri, menino?

Apanhavam-me imensas vezes imerso inteiro nas recordações de tudo quanto tive, quase como se, num salto de olhos fechados, eu mergulhasse de cabeça nos mares que sempre conheci.

Obrigado, Milinha e Bininho, por toda a luz do meu caminho.

Vocês são o meu farol.

Hoje começou mais uma primavera. 

Todos os dias, porém, eu escolho viver perto da árvore onde pertenço. 

Se o Avô António me visse, saberia que a ideia de não estarmos juntos também me tira o chão. 

Por isso, em todas e cada uma das vezes, eu voltarei sempre. 

Cá dentro, o menino guarda a centelha que lhe iluminou o caminho. 

Porque há uma casa

porque tem sempre que haver um regresso. 

Um beijo, 

R. 

RM|XXIII-III-MMXIX

sábado, 2 de março de 2019

06.03|Gó,

Minha Gó, 

Como te lembrarás, nas coisas do amor, eu tive sempre pressa. Hoje, vendo bem, o amor soou-me sempre à possibilidade de uma chegada ou de um encontro, a uma promessa que se cumpriria, a uma carta que viveria para nos ficar nos bolsos, depois de recebida, a vida inteira. 

Contigo, minha malandra, foi sempre assim - estás comigo desde que me lembro, houve, bem o sei, no tamanho generoso dos teus braços, uma casa que me serviu, todas as vezes,  no corpo. E, mais do que tudo, também tu me ensinaste o nome do que fica para lá das palavras ou, antes, sempre e sempre, além delas e do tempo. 

Fazes 81 anos e, enquanto vi o mar de fotografias em que a corrente da vida seguiu o seu caminho, reparo que nenhuma maré te levou jamais para longe de nós. 

Fomos todos tão mais felizes por tua causa, sabes?

Não vai haver nunca ninguém que me chame como tu, 

Menino

Ou que acenda velas porque eu e o A. tínhamos que ter sorte, tudo tinha que se compor, a felicidade tinha mesmo que acontecer. 

E nessas velas, digo-te, eu acreditei sempre - nunca deixei de sentir, até hoje, que há luzes que nunca se apagam. 

Um dia, 

Gó, porque usas tu aliança? Tu não és solteira? 
Casaste com Deus, foi?

Sim. Vê como o menino sabe?, 

Até aceito isso, menina! Casa-te com quem quiseres, desde que homem nenhum te leve daqui de casa, está bem?, 

Tu rias-te - eu, malandro, respirava de alívio por esse teu marido ausente te deixar andar pela nossa casa sem, aparentemente, se importar muito e isso, para mim, ser da máxima conveniência.

Hoje e, porque sei que talvez a ideia de casais a morarem em casas separadas fosse demasiado moderna para ti, percebo que Deus tenha morado sempre connosco na dádiva que foste para nós e em todo o bem que nos fizeste. 

Eu exclamava da mesa, 

Na minha casa, Gózinha, também não hei de impor sacramentos, sabes?, 

"Estapor-de-moço-dum-raio", que eu era, 

Quando morrer vou para o limbo, é, por não ser baptizado? Isso parece-me bem melhor do que ir para o meio de pessoas com asas e túnicas brancas ou para o inferno que não tem ar condicionado. E, sabes que mais, se eu for para o limbo, nunca mais nos encontramos, percebes? Tu vais de certeza para o Céu!, 

Lembro-me de, ao dizer isto, o coração me doer fundo. A ideia de nunca mais nos vermos atingiu-me como um raio. E disse, 

Tu vais lá buscar-me, não vais, Gó? Deus tem-te em boa conta e sabe que vou precisar sempre de ti!, 

E é isto - o amor como a promessa de um encontro, a vinda de alguém que nos resgata, que nos liberta, que nos alivia o coração. 

Um dia, vislumbrei em ti uma futura causídica digna de nota, 

Sr. Mesquita, nas coisas do amor ninguém manda! Eu gosto destes dois meninos mais do que tudo na vida! Para mim, ninguém se compara a eles, 

O meu Avô sorriu, acenou como quem concordava e, nesse dia, eu e o A. fundámos o clube-de-fãs-da-Gó-que-adora-os-gémeos-mais-do-que-ninguém-que-por-acaso-e-só-mesmo-por-acaso-são-eles-próprios.

Que bom que, às crianças, ninguém exige coerência.

O mais engraçado de tudo - ainda hoje, o clube está de saúde e, já agora, que nenhuma alminha peça, alguma vez, ao amor que seja coerente. 

Amor e coerência são um oxímoro, diz aqui o génio. 

Nunca quiseste comer connosco nas mesas das salas grandes. Ficavas sempre pela mesa da cozinha, apesar da insistência. 

Um dia em que estávamos só eu e tu, 

Ai é, não comes comigo na mesa da sala? Então espera lá que já vais ver. Vou eu ter contigo! Tu és católica, mas quando a montanha não vai a Maomé, filhinha, Maomé tem que ir à montanha!, 

E jantei contigo na cozinha com a felicidade imensa de estarmos juntos e isso me chegar. 

Vou amar-te enquanto viver - também eu aprendi que, para os que amo, nunca há um limbo. Só pode haver uma vida que os salve sempre, os encontre sempre, os eternize meus.

Oh Gó, sabes o que sou? Sou a criança mais feliz da rotunda!

Há felicidade na Praça da República ou noutro lugar qualquer. 

Basta que o meu coração receba uma carta que diga, 

Menino

que ninguém lhe ponha uma data

e a luz, nunca, nunca se apague. 

Um beijo do teu, 

R. 

RM| II-III-MMXIX

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

13.02|Bininho,

Ainda te ouço falar dentro de mim. 

Sei-te, no entanto, maior do que eu em tudo e, talvez por isso, levantar os olhos para o céu seja o mais perto que estou sempre de encontrar uma medida que diga do que és para mim. 

Digo, aliás, que sou teu neto como quem se agasalha, como quem sabe que teve um marinheiro que lhe ensinou todos os segredos do mar, como quem, até hoje, não deixou de te esperar nunca. 

Outro dia,

Vovó, vocês são a razão porque quase acredito em Deus., 

Então pequeno?,  

O nosso amor é o meu antídoto contra tudo, sabes? E não sei bem como mereci tudo isto., 

Reparo que estou abraçado à nossa Milinha em frente aos retratos que vocês trocaram no início do vosso namoro e que no mar dos olhos dela se acende uma luz quando lhe falo. 

E ela diz-me, doce como sempre, 

Sem filhos, vocês os dois não estavam cá, pequeno. A sorte foi toda nossa.,  

E eis que me lembro de ti, Vovô, sentado no sofá da sala cá de casa a falares com a minha Mãe, 

Sabe, Zitinha, tenho muito que lhe agradecer pela forma como educou estes meus netos. Foi a Zitinha que lhes ensinou a amar assim. E eu e a Milinha temos dois companheiros para a vida,

Foi talvez a coisa mais bonita que te ouvi dizer. 

Por isso, amar assim é, no fundo, conjugar o futuro de todos os verbos que ajudaste que fossem carne.

Por cada sonho meu que atinjo, és tu quem vive nele. 

Por cada vez que a estrada se aperta, é a tua lembrança que ilumina o horizonte. 

Outro dia, 

O Doutor é neto do Sr. Mesquita?

Sou, sim

Então diga à sua Avozinha que, porque me ajudaram e me mataram a fome, hoje eu tenho uma casa e estou bem na vida. Faz isso, Doutor? Primeiro ajudaram-me os seus Avós e agora encontro-o a si. Já viu como é a vida?

E encontro-me, eu, contigo no bem que deixaste mudo no mundo - nunca apregoado, feito  somente como uma espécie de chamamento que a vida te ordenasse que cumprisses. 

E amo-te mais por isso - por cada vez que te sei ainda mais generoso, por cada vez que o bem que semeaste no mundo te mantém vivo nele e em mim. 

Colho, com orgulho, as sementes que floriram no futuro que quiseste para mim.

Onde quer que estejas, tenho muitas saudades tuas. 

De vez em quando, o céu é longe demais. 

Pede para voltar por um bocado que seja para que te abrace. 

Os milagres são possíveis, sabes?

Foste tu que mo mostraste. 

Um beijo com saudades, 

PARABÉNS, 

R. 

RM|XV-II-MMXIX

domingo, 27 de janeiro de 2019

Padrinho,

Há pessoas que são os esteios da nossa vida, verdadeiras traves mestras do edifício em que nos tornamos. 

Crescer foi, afinal de contas, poder sempre vê-las, foi sempre receber delas uma espécie de certeza de ferro de que não nos faltariam nunca. 

O Padrinho foi tudo isso - a pessoa que melhor conheceu o meu Pai, a pessoa que melhor lhe fez, a pessoa a quem, no fim de tudo, nós todos mais devemos. 

Cá por casa, sempre ouvimos o seu nome como o de mais um membro da família. O Zé que, em menino, fugia para almoçar ou jantar com o meu Pai; que andou no colo da minha Avó e do meu Avô como mais um filho. 

Diz-me a minha Avó, 

Foi no meu colo que o Sr. Francisco deixou o Zé no dia em que, de repente, se sentiu mal, 

Em jeito de brincadeira, disse sempre à minha Avó, 

Vovó, os Costa Leite são Mesquitas honorários

E, para o Pai, o Padrinho foi melhor do que qualquer irmão dele - sempre que o Pai estava consigo, eu sabia que ele estaria bem, que ouviria palavras de infinita bondade, que haveria sempre um abraço, perdão para todos os erros, genuína vontade de partilhar o mistério desta viagem que foi a vossa. 

Hoje, o mundo ficou diferente - partiu um dos nossos. E isso, para mim, é como ter que me despedir da paisagem que sempre se viu do meu coração. 

Toda a vida, eu e o meu irmão dissemos, 

Quando formos grandes, queremos um melhor amigo como o do Papá

Hoje, sei que não há muitos encontros desses; que recebemos a dádiva da sua amizade muito para lá do que seria imaginável, que sempre fomos protegidos por um coração enorme que nunca se esqueceu de nós. 

Por tudo isso, a minha vénia. Por tudo isso, muito obrigado. 

E a nossa Fernanda - uma mulher com um sentido de missão em tudo na vida, dona de um sorriso doce e meigo e parte, bem o sei, da felicidade que foi tudo o que vivemos. 

Acho sempre que a saudade é a folha perene de que é feita a árvore da gratidão. 

Vou ter saudades suas o resto da minha vida pelo tanto que tenho que lhe agradecer. 

Lembro-me de dizer aos meus Avós, 

O Zé até parece vosso filho, 

O mesmo cabelo loiro, os olhos azuis e, sobretudo, muita coisa que nos uniu para lá do sangue. 

A vida não é um caminho fácil. 

Felizmente, pela minha parte, tenho o coração cheio de motivos para nunca deixar de agradecer. 

Um abraço como aqueles que trocávamos quando, na rua, a vida nos punha no caminho um do outro. 

A imagem eterna do sorriso bondoso que era o seu e um, 

Até já!

Só porque nunca se pode dizer adeus a parte de nós, 
Só porque, no fim de tudo, quem se ama sempre se encontra. 

Obrigado por tudo. 

R. 

RM|XXVII-I-MMXIX

sábado, 19 de janeiro de 2019

18.01| Milinha, meu Amor,

PELOS TEUS 95 ANOS, 

Quis ser o primeiro hoje de manhã.

Tinhas os telefones na sala e, vinte e duas chamadas minhas depois que não ouviste, atendeste, 

Finalmente, Milinha, minha malandra!, disse-te eu a rir, 

Meu amor, como estás? Estava no banho, desculpa

Primeiro que tudo, queria dizer que te amo muito. Já agora, porque parece que fazes anos, muitos parabéns e, claro, estás desculpada! Bonita e bem arranjada sempre, se fazes favor!

Rimo-nos os dois, enquanto a tua voz tremia, quando repeti que te amava, uma vez mais. 

Sempre tive pressa nestas coisas do amor - do chegar a tempo, dizer tudo, ter a certeza absoluta de que sabes que todos os dias te levo comigo para todo o lado. 

Hoje é um dia feliz, pensei. Devo ter andado com um sorriso parvo o tempo todo, o trabalho não me custou nada e senti-me em paz depois de te ter ouvido responder-me, 

Eu também te amo muito

Sabes, Vovó, hoje sei que só consigo amar quem me espanta. Tu, desde sempre, foste um exemplo de como podemos ser afogados inteiros pela admiração que nos causa a inteligência, a bondade, o afecto e o estoicismo de alguém. 

Em criança eu não falava, fazia anúncios.

Aos dez anos, disse, ao almoço, que era fundamental a educação sexual nas escolas. Que não se podia fazer do corpo um tabu; que jovens instruídos e confiantes tomariam, em princípio, melhores decisões. 

Ninguém me excomungou - os meus Pais concordaram, o A. também e os meus Avós sorriram. 

A minha Avó acrescentou, 

Nunca percebi as pessoas que diziam que teriam os filhos que Deus quisesse. Eu, pelo menos, achei sempre que devia ter apenas os filhos que pudesse manter. 

Olhou para mim com um sorriso irónico e, em jeito de confidência, 

Além do mais, filho, espera-se mais das mulheres do que serem somente mulinhas de carga!

Milinha e a defesa do planeamento familiar, pois então. 

Eu, parvinho-da-silva como até hoje, pisquei o olho ao meu Avô e ainda disse, 

Eu acho, aliás, pensando bem, que educação sexual pode ser um contra-senso. Em matéria de alcova, alguma falta de educação pode até ser desculpável, 

Todos se riram - eu achava, sobretudo, admirável o facto de nunca a minha família me ter parecido anacrónica - não se sente, até hoje, que o tempo separe as pessoas. Falamos todos a linguagem do progresso e todos quiseram que ele acontecesse mais cedo. 

Hoje, recordei outra conversa nossa. 

Filho, sabes o que fez o teu bisavô António, um dia? Sentou as filhas à mesa e disse-nos, 

As meninas que sangue têm nas veias? Não é o meu e o da Mãe? Então para quê adoptarem os nomes dos vossos maridos? É desta casa que vocês são - hoje e sempre. Não caiam nesse disparate, isso é um atestado de inferioridade. 

Obviamente, assim fizeram e Mesquitas que eram, Mesquitas foram, até ao fim.  

Um dia, para provocar a Gó, eu disse, 

A minha relação com o vizinho-do-andar-de-cima é estritamente pessoal. Não acho muita graça a padres, se queres saber, 

Como assim, menino?, 

Gó, sou a quinta ou sexta geração de uma família ligada aos negócios. Achas que não percebi a vantagem de eliminar intermediários? Pode ser que consiga negociar a salvação da minha alma de forma mais vantajosa, entendes?, 

[Coitada da Gó, penso eu hoje, certo de que o amor dela por nós é, de facto, imenso.]

Seguiu-se toda uma explicação da minha parte sobre as indulgências - a igreja dela tinha vendido lugares no céu aos ricos para construir a Basílica de São Pedro, em Roma e, também, uma revolta grande minha contra o lugar que os pobres teriam, afinal, no céu num mundo desses. 

E, mais, não acredito na absolvição pela simples confissão. Um erro, basta uma avé Maria ou duas e um Pai Nosso e já está? Não seria melhor aliviar a consciência pedindo perdão a quem se fez mal? Os padres têm, por acaso, uma tabela para indexar isso?,

Ninguém me proibia as questões, ninguém achava o raciocínio estúpido. Ninguém se apressava a abafar a dúvida. 

O meu encontro com a espiritualidade faz-se como todos os abraços da minha vida. Umas vezes, abro eu os braços; outras, sou surpreendido pelo milagre que foi esta família - os Avós, os Pais, o A. e a Gó. 

E faltam-me sempre as palavras para este espanto com que os contemplo, este orgulho sem medida que tenho na liberdade que me foi permitida e que me amarrou a eles para sempre. Amá-los era a única hipótese - eu já era deles, desde o primeiro dia. 

Sabes, Milinha, cheguei à conclusão de que amo muito poucas pessoas, sabes?

Ai é? Não me parece, filho. Tu tens um coração grande, 

Milinha, um coração grande? Isso é uma cardiopatia grave! Tenho um coração justo, acho eu, 

Como assim?, 

Amo incondicionalmente muito poucos e gosto até mais deles do que de mim. Gosto do que sou porque vos tenho, entendes?, 

A minha Avó entende-me, eu sei. 

Lemos bem o silêncio um do outro, trocámos, toda a vida, olhares, toques e cotoveladas debaixo da mesa quando ambos reparávamos em alguma coisa. 

A minha fé está toda nisto. A minha liturgia é a do amor pelos que me amaram e somente por esses. 

À minha Avó, dou o meu coração inteiro como quem lhe devolve a vida que ela ajudou que valesse a pena. 

Obrigado, minha Milinha. 

PARABÉNS! 

O maior dos beijos, 

Do sempre teu, 

R. 


RM|XVIII-I-MMXIX

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Os livros da Mãe,

A Mãe lê como quem repete um hábito antigo - abre o coração como a umas portadas de madeira para que entre a luz, se sinta o mundo, se cheire e ouça a vida - para que se veja através de outros olhos, se ouça a verdade no timbre de outras inúmeras vozes que não somente as nossas. 

Gostei sempre disso na Mãe - o gosto que guarda por cada livro, as lembranças e as marcas dos personagens de quem fala como se os tivesse recebido para jantar, lhes tivesse conhecido os segredos mais íntimos, as esquinas mais afiadas ou os sorrisos mais iluminados. 

E sempre, em todos eles, a sua assinatura e a data em que os leu. De certo modo, os livros da Mãe são uma outra biografia que posso traçar dela - quem conheceu e quando, onde estava quando se deram todos esses encontros e, mais do que tudo, pelos sublinhados e notas suas nas páginas, posso ouvir o que disse, então, o seu coração. 

O papel dos livros cá de casa tem a minha Mãe dentro - o cheiro do perfume que usava, vestígios de uma caligrafia que aprendi a reconhecer de imediato, dobras e sulcos nas capas que mostram os quilómetros das viagens que fizeram - eles sempre ao seu lado ou dentro de uma das suas inúmeras carteiras onde, sem que perceba bem, pode, afinal, caber o mundo inteiro. 

Há livros da Mãe que eu leio ou levo em viagem para que as saudades doam menos - mesmo longe, descubro que, ela e eu, podíamos ser amigos dos mesmos personagens, recebê-los, sim, para jantar ou ficar a ouvi-los enquanto durem as páginas e as confidências. 

Abrir um livro da Mãe é, justamente, abrir uma espécie de baú para o tempo que veio antes de mim - passar nos passeios das mesmas ruas, entrar nas vidas e nas casas dessas pessoas e quase poder dizer, 

A minha Mãe esteve por aqui. Lembram-se dela?

Também eu os assino sempre com a data em que os leio, também eu os sublinho e anoto como se, com os sedimentos do tempo e de ambas as passagens pelos mesmos lugares, se pudesse fixar para sempre um encontro meu com o coração da Mãe. 

Guardo os livros da Mãe como partes de um retrato seu que hei de continuar a fazer enquanto durarem as páginas, enquanto puder encontrar dela o perfume doce, a letra desenhada 

e o caminho para casa. 

RM| XXV|XII|MMXVIII

sábado, 10 de novembro de 2018

Mamã,

Porque a Mãe faz anos,

Ouço-te chegar, sempre.

Nos tempos da creche, não falhavas - acontecesse o que acontecesse, essa era a tua hora - a hora de nos ires buscar, de nos ouvires as aventuras daquele dia, de nos trazeres, finalmente, para casa. 

Toda a minha vida foste isto - sempre que foi preciso que me fosses buscar, que me desses a mão, que houvesse um regresso, estiveste lá. 

Na verdade, os meus ossos são as escadas que te ouço subir quando o meu coração se aperta, se interroga, se perde ou duvida - o meu sangue é a tua morada e a minha consciência tem o som meigo da tua voz. 

Por isso, hoje, como sempre, digo que te ouço chegar.

És tu quem conhece, verdadeiramente, a casa que sou - percorres-me as divisões todas, lembras-te de que há que vedar as torneiras onde a tristeza teime em pingar, que há que abrir as janelas e deixar entrar a luz. 

Mas, Mãe, a luz é toda do teu nome, 

Mamã, o que faço?

Não te preocupes, filho, eu trouxe a chave

E a chave que tu trazes, essa de que tu nunca te esqueces, é a chave do meu coração - é a chave que abre a porta da esperança, que inventa outros sonhos, se preciso, ou um outro chão e céu, só para que eu possa continuar. 

O som da tua chegada é o som mais feliz da minha vida - sempre que te lembro, que te vejo ou te chamo minha, estou em casa. 

Devo-te, mais do que a vida, esta vida - uma vida em que houve, até hoje, uma casa, em que me soubeste, sempre, perdoar, em que me arranjaste por dentro como ninguém. 

Tu tens a chave suplente do meu coração - caso eu perca a que é minha, só tu me poderás salvar. 

Vou amar-te sempre. 

E, melhor do que isso, sei que vai ser impossível não te amar. 

Fazes anos, meu amor. 

O meu coração está em festa. 

Sobe-me as escadas dos ossos e demora-te num abraço. 

Para ti, para sempre, a porta fica aberta. 

Um beijo, 

R. 

RM| X|XI|MMXVIII

sábado, 3 de novembro de 2018

Gó,

Gó, 

Foste um rochedo forte contra as minhas inúmeras investidas de miúdo chato, sabes?

Era um puto com perguntas nos olhos, uma criança que teve a liberdade debaixo dos pés, que andou de colo em colo e que foi feliz. 

Eras para mim, bem o sabes, o amor no superlativo - sempre. 

Mesmo assim, lembro-me bem, eu testava os limites da tua fé, media o pulso da tua crença sem perceber, no fundo, que o que queria era poder emendar o mal que achava que o mundo te tinha feito e que não merecias. 

Gó, achas que Deus é justo? - eu, de pijama de seda trazido de Macau, uma espécie de quimono que achavas que me ficava bem, sentado na tua cama, com não mais de oito, nove anos,

É que não percebo como Deus dividiu o mundo entre pobres e ricos e os ricos vão para o céu só por ajudarem os pobres. Isso é instrumentalizar os pobres, percebes? Quem decidiu, antes de tudo, quem fica de que lado?, 

[Round 1] - Menino Ricardo - 1 vs. Gó - 0. 

Dentro de mim, ecoava a história da tua vida - muitas irmãs, uma casa pequenina, uma infância de trabalho, pouco direito a sonhar - o mais longe possível do que eu tive. 

Doía-me tudo aquilo, gostava de poder aliviar algumas das tuas dores, devolver horas inteiras à criança que não chegaste a poder ser. E, antes de dormir, zangava-me com um Menino Jesus que, como criança que foi também, não te deixou ser uma por mais tempo. 

Tu sorriste-me e, enquanto me calçavas as pantufas, disseste-me, 

Menino, a minha vida não foi fácil, sabe? Mas, no meio de tudo, tive direito à minha dose de coisas boas. Apareceram nas nossas vidas os seus Avózinhos e tudo melhorou. O seu Avô empregou a minha família toda, trouxe-me cá para casa e, mais tarde, veio o menino e o Dedé e tudo mudou na minha vida. 

Não acha que Deus esteve por detrás de tudo isso?, 

[Round 2] - Menino Ricardo - um murro no estômago. 

Nunca me esqueci disto, sabes? 

Que os teus olhos me tenham ensinado a ver que na vida há sempre uma razão para agradecer. Que, por muito mal que nos tenha acontecido, há sempre a esperança de que alguém nos estenda a mão e tudo se possa compor. 

Mas eu não desistia, 

Sabes, Gó, quando estiveres aflita, não peças logo ajuda a Deus. Eu ajudo-te no que puder, está bem? Prometo., 

Pelo amor que te tinha, não podia arriscar que a ajuda de que precisasses, pudesse não chegar a tempo. Havia de fazer tudo o que pudesse por ti - era o coração, desde pequeno, a querer salvar-te do que viesse que pudesse levar-te de nós. 

Levaste-me à escola, meu amor, muitas vezes. Na verdade, o teu exemplo tornou-se, até hoje, na mais perfeita lição de amor, de paciência, de abnegação, de coragem e superação que conheci. 

Desculpa, Gó, qualquer coisa. Tudo o que quis, em todas as vezes que interroguei o teu Deus, foi uma resposta para os desaires do mundo. 

Percebo, hoje, que a culpa é dos homens - e que, sim, há pessoas como o meu Avô e a minha Avó que, podendo, estenderam a mão e tentaram fazer a diferença. 

Mesmo assim, tal como te disse, em pequeno, 

Um dia quem te vai dar colo sou eu!

Telefona-me e, se quiseres, diz,

Menino, quer ir comigo e com o Dedé à missa?

Eu vou, nós vamos. 

Por ti, pela fé que tenho no mistério deste nosso encontro e, também, para agradecer. 

Por ti, pela luz do teu coração e pelo bem infinito que te devemos. 

Obrigado por tudo, meu amor.

Os milagres existem. 

Tu és o meu. 

RM| III-XI-MMXVIII