Rewind

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

mãe,

isto de ser voz tudo o que te guarda - 
os livros, os discos que me deste, as cartas, 
e poder neles ouvir-se do teu amor sempre a toada firme
quase como se o princípio de um abraço pudesse sempre começar
e no chão apontasse o pó o caminho para casa

isto de te ouvir passear dentro de mim - 
eu, a casa onde tu decidiste que havia de morar o amor
e, desde então, essa ferida que ajudas a curar sempre que as coisas me doem 
que o tempo não chega ou não existem palavras para calar-me as perguntas

chegas tu, mamã, 

arrumas-me o peito - com jeito, como num livro que conheces de cor -
abres a página certa, reabres as janelas, o ar fresco entra como se, de repente, se pudesse começar de novo, 
e eu, ao som da mesma música, descubro que se pode amar outras coisas, aprender outros nomes, 
dançar com outros corpos uma felicidade desconhecida

é isso, minha querida, 

decidiste, no momento em os nossos dedos se ataram, que eu havia de conhecer o amor. 

por isso, minha malandra, 

obrigado

fizeste de mim, ainda assim, uma casa grande - as divisões cheias de rumores de gente que, algures, deixei entrar; as gavetas repletas do cheiro dos enganos do mundo, restos de sonho, cartas que não enviei ou que ainda esperam, de alguém, a resposta merecida - e ser isso tudo, mesmo assim, o lugar onde persiste tanta coisa boa - o ter-se tentado, o ter-se errado, o ter-se emendado, a tempo, o que quisemos, sem dúvida, que permanecesse. 

ensinaste-me, mãe, o amor - o convidarmos alguém a pisar-nos o soalho dos ossos; o dizermos a alguém, com vontade, onde se esconde a chave do nosso coração e deixar tudo isso entrar. 

mas, mãe, as casas grandes desarrumam-se, às vezes, 

sabes, o correio não traz todas as respostas, 
as janelas precisam de quem as abra, 
e as gavetas de quem, finalmente, as feche

por isso, mãe, diz-me que, se eu precisar, tu vens e arrumas-me,

não me importo que os teus pés pequenos me pisem o soalho dos ossos, 
que as janelas se abram e se desenhem na parede, sob a luz da tarde, pegadas do tempo que passa
isso e que ponhas a tocar a música de sempre - 

gasta, repetida, decorada, ridícula - nossa. 

vem e fica. 

as mães ensinam aos filhos o que é o amor e só elas, que os conhecem como a uma casa, sabem onde se esconde, sob a pele deles, a chave suplente que lhes abre, de novo, o coração. 

Obrigado. 

RM| IV-IX-MMVII    

sábado, 26 de agosto de 2017

24.08

Meu querido Avô Adélio, 

só porque o teu jardim se encheu de flores, porque há uma luz quente que acendeu mais a vista da janela do teu quarto e a nossa saudade não deixou nunca de se ouvir, 

parabéns

só porque, sob a sombra das árvores da tua casa, queria poder segurar-te os dedos compridos, ver-te sorrir para a minha mãe com os olhos inundados de orgulho - ficar, sempre, pendurado na varanda de aço florido da vossa cumplicidade sem medida, sem tempo, sem remédio - os dois, para sempre, condenados a uma adoração mútua, a uma caminhada repleta de coincidências que vos fizeram mais unidos na compreensão do verdadeiro sentido de tudo. 

só porque, uma vez mais, te queria dizer,  

obrigado. 

e, enquanto a minha mãe fuma um cigarro e, nas árvores, cantam os pássaros esquecidos de partir, pedir-te que desenhes, que me fales das tuas inúmeras viagens - o pôr do sol de áfrica, o calor do brasil, os hóteis, as saudades de lisboa, a música, os bailes e esses rituais em que a minha mãe era o centro do teu mundo. 

os salões grandiosos em que a minha mãe dançou contigo uma música que o coração dela ainda ouve, a tua paixão pelo design nórdico, os teus sapatos entrançados feitos por medida e a tua pose, nobreza e elegância até ao fim.

mas, mais que tudo, por cima de tudo, para lá de tudo, 

haver corações que amem como amou o teu a minha mãe, 

os dois que liam compulsivamente noite dentro, tu que ias a coimbra se a voz da mãe estava mais triste ou a saudade te doía mais fundo - e vocês entregues sempre um ao outro por uma vida que quis ensinar, a quem vos visse, que o amor sempre nos borda na pele o caminho de casa. 

vejo-te nas fotografias - que saudades de ser visto pelos teus olhos e ler escrito neles o amor que nos tinhas, de te ver a perna cruzada a balouçar como se o tempo de viver fosse, então, mais lento, mais longo, mais livre e tudo quase pudesse durar para sempre. 

tenho saudades tuas todos os dias e a minha mãe sente falta do bem que só tu lhe fazias. 

fala muito do teu nome, relê livros cujas passagens, como caminhos, ela espera a levem até ti e ama-te com a gratidão do primeiro dia. 

aprendi com ela o vício dos afectos, o antídoto que a memória é contra a saudade, a finitude, a injustiça de despedidas que não podiam nunca ter acontecido. 

e sei, meu querido, que não há corações como o teu. 

por isso, por tudo o que me ensinaste e que a gramática do mundo não pode conter, um beijo enorme. 

97 anos, farias tu. 

pudessem vocês e a minha mãe voltaria ao estio sem fim para dançar contigo a música que o coração dela ainda ouve. 

encosto o ouvido ao peito dela. 

lá dentro, a orquestra não parou nunca de tocar. 

é contigo que ela dança até hoje. 

RM| XXVI-VIII-MMXVII          

domingo, 23 de julho de 2017

mãe,

amar-te-ei sempre mais a cada um dos meus versos não relidos
ditos todos assim com a pressa dos que se amam com verdade -
esvazio os bolsos fundos na folha ainda em branco - 
e mais do que poesia, é amor tudo o que teu trago comigo 

entre nós, mãe, há poemas meus que falam de cafés, de livros trocados, 
dos erros que a gramática trapalhona dos amores acesos deixa no papel e na pele 
de passeios, mesas de jantares felizes ou de janelas de onde se veja o teu rosto 

porque poesia, mãe, podem muito bem ser as flores que o teu amor faz nascer nos canteiros de cimento da vida. 

amar-te-ei sempre, querida mãe, com a pressa de quem chega da rua
de quem, mesmo no escuro, se guia pelo teu cheiro nas curvas da casa e sempre te encontra
os olhos demorando-se nos vincos da tua pele quando sorris ou a doçura nas tuas mãos que me pousas no ombro, mesmo antes de eu sair, 

Mamã, amo-te, 

os degraus engolidos e um último olhar meu como que certeiro no teu coração - que te abrace, te chegue, nos baste e te agradeça, meu amor. 

por isso, mãe, alguns poemas falam de tudo quanto um filho acumula no bolso das calças gastas - 
os dedos a pescarem a infinita bondade com que me esperaste sempre, 
todas as vezes em que inventaste uma resposta só porque eu precisava que a verdade doesse menos
e ser tudo isso amor - uns jeans, um filho com pressa para chegar a casa e alguém que sempre o esperou

riem-se da nossa poesia tonta, os que vêem um filho guardar o amor da mãe nos jeans

e talvez, até, que não haja poesia alguma nem sejam versos sequer as vezes em que - 

voltei a passear contigo na praia, 
te levei a jantar só comigo, 
me aninhei no silêncio em que deixas não ser preciso falar

talvez, querida mãe, não seja isso um poema. 

mas, mãe, deixa, por favor, que continue a poder amar-te como quem despeja do bolso dos jeans coisas esquecidas e que, de repente, me lembram de que o teu amor é o chão de todos os meus caminhos. 

riam-se os que não lhe chamam poesia - eu escolherei sempre chamar-lhe amor, mãe. 

chamando-lhe poesia ou não, sabe tu ao menos
que mesmo quando a métrica não esteja certa
e eu fale de coisas pouco dignas de versos muito pensados

tu, mais que ninguém, sabe que, se é amor, é poesia, 

porque o meu coração não desiste de chamar por ti. 

Amo-te. 


RM| XXIII-VII-MMXVII

domingo, 7 de maio de 2017

Mãe,

De todas as palavras do mundo, uma que é só para ti,

Mamã,

e que sorte a minha teres sido tu quem veio ter comigo neste encontro da vida,
que milagre ter sido através das paredes dos teus braços que comecei a espreitar o mundo
e que infinita alegria a minha por teres sabido sempre esperar-me sem cansaço

De todas as palavras do mundo, uma que é só para ti,

Obrigado,

e que sorte a minha teres sabido ler os gatafunhos confusos com que, às vezes, só quis dizer que te amo,
que milagre saberes caminhar no meu silêncio como quem vê no escuro
e que infinita gratidão a minha por saber a tua mão atada na minha dentro dos bolsos de todos os meus casacos

De todas as palavras do mundo, uma que é só para ti,

Desculpa,

e que sorte a minha teres sabido sempre perdoar-me com os braços abertos,
que milagre teres-me dado, de uma vez, a chave da porta do teu coração e ela ser para sempre inútil
e que infinita luz a que me chega porque a soube desde sempre encostada só no trinco para mim

De todas as palavras do mundo, uma que é só para ti,

Saudades,

e que sorte a minha de só poder ter vontade de um futuro que te tenha,
que milagre que em todas as minhas esperas a tua voz se ouvisse sempre
e que infinita esperança me nasce de te imaginar sorrindo por detrás do vidro que dá para a rua

De todas as palavras do mundo, uma que só tu me ensinaste,

Amor,

e que sorte a minha o meu coração poder ser um baú onde:
os filhos caminham na praia com as mães,
onde as mães fumam um cigarro enquanto os filhos cansam nelas, como o mar nas rochas, todas as dores, a estupidez e a solidão absurda do mundo
e que infinita dádiva todos os dicionários serem incompletos na definição do que nos une

Querida Mãe,

que as minhas palavras mais sinceras sejam sempre tuas,
e que a verdade, mesmo que doa, nos leve aos dois no mesmo caminho

no fim de tudo, terei aprendido o que é o Amor,
e sabido poder ele ser um sorriso teu só para mim por detrás de um vidro que dá para a rua

entrarei sempre, meu Amor
a porta no trinco como me habituaste
e um cigarro que espero que fumes comigo como um abrigo dentro do absurdo imenso do mundo.

Amo-te.

RM| VII-V-MMXVII

terça-feira, 25 de abril de 2017

Avó,

sobre a desgraçada falta que as mães fazem aos filhos, Avó, 
(e desculpa começar por falar assim)
podia deixar-se uma folha branca - sim, toda branca - 
e imaginar nunca mais poder continuar-se a dar o que só nasceu para ser dado - 
uma maré a que falte das ondas a esperança de um regresso,
uma manhã que chegue sobre as coisas, as ruas e tudo o resto para sempre atrasada
ou um abraço a que falte a carne para que a vontade sossegue, finalmente

sobre a desgraçada falta que tu fizeste, querida Avó, 
a mãe com dezassete anos apenas,
tu com quarenta e dois 
e, depois, esse deserto de sonhos adiados,
de coisas que tinham que ser ditas - 
o amor gasto de repetido, 
os olhos embaciados de felicidade, 
os teus netos a chamarem-te, 

Avó

e isso não ter podido acontecer
essa maldita doença que nos roubou - 
o som da tua voz que nunca ouvi,
as tuas mãos que nunca me levaram ao jardim de tua casa, 
a tua letra que nunca li num postal pelos meus anos
ou, apenas, o obrigado que nunca te pude dizer pela mãe que me deste

sim, Avó, obrigado. 

aqui por casa, a mãe fala de ti como se te encontrasse em mim e no A., 

A Mãe era assim, meninos, também fazia isso

e que felicidade a nossa porque a nossa pele também é, afinal de contas, a tua morada. 

mas, mesmo assim, Avó, que desgraçada falta tu nos fazes,
um telefone que tocasse só para nós e se pudesse dizer, 

Avó Bela, como estás?,

e o meu coração que se põe a imaginar o que te diria, 
que cartas te enviaria ou 
como gostarias, somente, de ver como a minha Mãe é boa para nós.

42 anos,  

e eu ter contado os anos até que a minha Mãe durasse mais - 
o medo que tenho, ainda hoje, de coisas demasiado curtas
do que se não diz, do que se não dá, do que se não emenda 
a tempo. 

isso ou, quando acabei o curso, a primeira pessoa a quem telefonei, 

Mamã, acabei o curso, 

e, nesse momento, me ter lembrado que a minha Mãe não pôde ter feito o mesmo
e isso me doer como um gume afiado, quando desliguei a chamada 

da desgraçada falta que nos fazes, Avó, 
das coisas que tinha vontade de viver contigo, 
do que te podia ter dito sentado no jardim da tua casa

e, melhor que tudo, um sorriso teu que saísse das fotografias que guardamos
e fosse teu só para mim
ouvir-te dizer, 

Ricardo

e saber que, finalmente, tu me respondes à falta com que te chamamos cá em casa. 

sabe, Avó, que o meu coração consegue acender uma luz na tua ausência
e ter a certeza de que, se pudesses, me havias de sorrir, 
caminhar comigo uma estrada infinita de verdade e de alegria,
telefonar-me mil vezes e deixar-me gastar-te o nome com um amor guloso

eu sei disso, querida Avó, 

mas a falta que nos fizeste, tornou-me a mim e ao A., capazes apenas de um amor vigilante, de um amor de quem anda por perto a medir o pulso e que, mesmo longe, leva no coração sempre uma janela com vista para casa. 

querida Avó, 

sabe que entro no quarto enorme da nossa saudade por ti, muitas vezes, e, no meio do escuro, desafio a distância que não escolhemos e imagino que, como numa fotografia, nos sorris com a ternura generosa que o coração da minha Mãe aprendeu contigo. 

temos saudades tuas, Avó, 

se nos ouvires, sabe-te lembrada
se possível, responde-nos, 

apesar de nunca ter ouvido o som da tua voz, tive quem, graças a ti, me ensinasse a reconhecer o amor. 

Um beijo, 

R.

RM|XXV-IV-MMXVII

sábado, 15 de abril de 2017

Avós,

os vossos nomes e uma luz que se acende -
nas paredes dos corredores, marcas de dedos e eu a correr
gritando, inteiro,

Vovó, Vovô, 

e a ser feliz no meio do ruído amplo de um amor despreocupado
a ser todo dessa vontade de um futuro que vos guardasse sempre como num abraço
e a ser mais vosso a cada promessa cumprida na forma de um sorriso

os vossos nomes,

Milinha e Bininho, 

e as paredes do meu coração todas escritas de saudade -
a letra firme da luz do vosso milagre na minha vida
e o orgulho de me poder abrigar debaixo da verdade que sempre nos uniu

os vossos nomes,

e uma casa de onde nunca sairemos -
uma mesa alegre que nunca se levante
e onde sempre se celebre apenas os que escolhem ficar

os vossos nomes,

e quanto de mim são vocês -
a vontade de sorrir,
o sabor da certeza no sangue,
a possibilidade eterna de um regresso

ou, então, o conforto do silêncio,
as roupas gastas em que se cheira a vida que tivemos
e em que sempre sentimos um ventre quente de uma casa

os vossos nomes,

e a pele que me lateja do lado de dentro,
o medo de não saber escrever nunca na língua da vossa ausência
de não saber respirar o ar de alguma distância que nos separe

os vossos nomes,

meu Avô, minha Avó,

falados no presente, sempre.

e ter sido isso que vocês foram para mim - um presente.

Para o Ricardo, 
os vossos nomes,

e eu um embrulho-pessoa que quem visse por dentro saberia dizer,

Obrigado, 

e onde existe um corredor infinito de gratidão a que escolho voltar
só para poder correr e chamar-vos,

Vovó, Vovô,

e saber que, afinal, estou em casa
e que isso chega.

RM|XV-IV-MMXVII 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Gó,

06.03, 

Vou escrever-te esta carta como mais um daqueles postais que te enviava nas férias, 

Invariavelmente um, 

Querida Gó, 

seguido de frases doces que falavam do mar, da praia e, no meio de tudo, como uma bainha a rematar-nos o tecido da pele, as saudades. Sempre as saudades, Gó. 

Tuas, do teu sorriso doce, das tuas mãos meigas, desse à vontade em que as coisas do amor crescem e permanecem para sempre. 

Hoje, Gó, não vou falar do mar, nem das férias, nem escrever-te de tão longe que tenha que ir ao correio enviar-te o meu amor com selo e tudo. 

Escrevo-te, somente, para poder ser aquela criança de seis anos que, espetando o indicador no fundo das tuas costas altas, te perguntou: 

- Oh Gó, achas mesmo que o menino Jesus comemora o dia do Pai? Ouvi na missa que ele sacrificou o filho pelos Homens. Achas isso bem? ou Oh Gó, porque é não acontece às mulheres que não podem ter filhos o que aconteceu com Nossa Senhora?

E tu, atrapalhada, falavas-me de milagres, do bem que se devia fazer pelos outros e eu, no teu colo, acreditava na resposta porque sentia a verdade do que me dizias - ali estava o meu milagre, ali estava o bem que tu me fazias, os sacrifícios que fizeste por nós, por amor a nós e isso chegava. 

Era novo demais para pensar nas responsabilidades parentais do pai do JC ou, sequer, para defender o direito à procriação medicamente assistida ou outras maneiras de as pessoas serem felizes, quase como acontecera à Nossa Senhora. Isso veio mais tarde, com o Direito, mas são outros quinhentos. 

Lembro-me todos os dias de ti, de ir contigo de mão dada a todo o lado, de descascar feijão verde no terraço ou de ver matar uma galinha; de te fazer cócegas na missa e tu não te importares. 

Dizia eu, Gó, sabes que eu não sou baptizado, não sabes? 

E tu, sei, sim, menino. E não gostava de ser?

E eu, com seis anos e chato como tudo, se calhar sim, mas se Jesus foi com 33 anos, eu ainda tenho muito tempo.  

E tu sorrias, desejando que, de facto, eu e o A. tivéssemos tempo para tudo, uma vida cheia de coisas que tu não tiveste, os olhos repletos de coisas que não viste mas que pedias, animada, que te contássemos noite dentro.

Um dia, pelos teus anos, muito mais tarde, disse-te, 

Gó, mesmo que não me baptize, quero que saibas que tu e a Vovó seriam as madrinhas. Que achas?

Achei que esse era o melhor presente e disse-te porquê - sim, tinhas sido tu quem me ensinara esse amor sem tamanho, essa fé nos outros, nas mãos que se dão e seguem dadas a vida toda - como as nossas. 

Tu choraste - e eu fiquei aliviado de ires a tempo de saber que a minha família é o meu coração quem a escolhe - e, sim, gostava que a tua mão não se largasse nunca da minha, minha menina, pode ser?

Para postal, isto vai longo.  

Quero que saibas que te adoro e que sempre que o meu coração se aperta me lembro de ti,

Oh menino, vai correr tudo bem, vai ver. 

E eu, como em toda a minha vida, acredito em ti - como uma vela acesa no escuro, mostras-me que há sempre um caminho; que, apesar de tudo, há sempre uma casa aonde voltar e alguém que nos espera. 

Um postal que dissesse sempre, 

Obrigado, 

mil vezes enviado pelo correio, 

(e não chegaria)

ou, então, como eu prefiro, 

uma tarde no banco do jardim de tua casa em que te pergunto, malandro: 

Gostas mais de mim e do A. do que dos outros, Gó?

Que acha, menino? Mas não diga a ninguém! 

Ou, ainda, 

Gó, acho que terias sido uma Mãe do caraças, sabes? 

E tu, com um de nós de cada lado, abraçando-nos, dizes-nos: 

E fui, menino, e fui. 

Pois foste. 

Parabéns, querida Gó. 

PS: Só faço 30 anos este ano. Para ser como JC, ainda faltam 3. Falamos do baptismo nessa altura, pode ser? Até lá, a minha fé fica toda no milagre que foste para mim. 

Um beijo de quem te ama, 

R. 

RM|XV-III-MMXVII  

sábado, 25 de fevereiro de 2017

glossário,

pelo natal ou pelos teus anos, não sei, mãe,
mas hei de dar-te um dicionário,

ris-te, eu sei, mas eu insisto - um dicionário, sem embrulhos, sem enfeites
- um lugar, apenas, onde possam existir palavras para ti, para o teu amor
e para as coisas que vi pendurado na varanda florida dos teus ombros.

procurarás por mim nessas páginas, eu sei, mãe,

mas o dicionário que eu te der falará de olhos como se fossem janelas,
falará de abraços como se fossem portas,
e de mães como se fossem casas

dos verbos dirá de todos que se conjugam melhor no gerúndio -
caminhando, esperando, encontrando, sorrindo, perdoando -
amando - como se fosse o som do próprio amor que se pudesse ouvir em cada uma das páginas
e o vento passasse, malandro, a apregoar em todos os cantos a nossa alegria

um dicionário no fundo da tua cama, mãe, que achas?

para ti, que me ensinaste a chamar as coisas por todos os nomes que elas podem ter,
a acreditar que os verbos conjugados no futuro -
caminharás, esperarás, encontrarás, sorrirás, perdoarás -
amarás - te teriam sempre a ti na outra ponta do caminho
e que o desconhecido, de alguma forma, me traria sempre de volta

um dicionário para ti, mãe,
só para falar das palavras que tu inventaste para me fazer feliz,
do tamanho superlativo do teu coração
e da infinita aliteração da saudade em cada um dos teus beijos

que achas?

quero, mãe, que saibas que te agradeço eternamente o teres-me  ensinado a falar com palavras que não existem,
a abrir janelas que mais ninguém vê,
e a poder voltar a casa cada vez que penso em ti -

obrigado.

um dicionário de um filho para uma mãe para lhe lembrar que foi ela quem o ensinou que há tanto por inventar - palavras, beijos, abraços, pretextos - sempre uma qualquer forma de voltar.

por isso, o dicionário, mãe, dirá sempre duas coisas:

1. Obrigado. 

2. Eu volto. 

Um beijo do teu filho, 

Ricardo

PS: Mãe, apesar de todos os nossos desacordos ortográficos, eu sei quanto de mim se escreve graças a ti. 

Amo-te.


RM|XXV-II-MMXVII

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Avô,

13.02

sabes, os meus poemas são a nossa casa.

neles cabe a roupa dos sonhos que ainda não usamos, existem gavetas que aguardam a meiguice das cartas ainda por trocar, as escadas ainda sentem o som dos meus pés seguindo os teus pelos corredores. 

[sorrindo, sempre]

descobri, avô, que nos poemas o amor não prescreve nunca - há uma primavera que podemos inventar sempre - só para que, da janela, eu possa ver-te sorrir-me e acenar como se me chamasses para dentro de um abraço. 

e, a cada verso, a cada rima, vou colhendo frutos sonhados, trepando árvores imensas de saudade e, assim, acreditando que, no fim, estou mais perto de ti. 

só isso. 

sabes, acho que escrevo para continuar aquele parágrafo que alguém interrompeu há já 17 anos e que nunca consegui terminar -  connosco a poesia pode ser simples e falar de campos verdes e tardes de conversa num banco de um terraço qualquer. 

connosco e sobre nós as coisas podem ser ditas com pouco - eu queria ir e sabia que me esperavas e isso foi tanto - foi tudo. 

mas, avô, escrevo sobretudo para poder voltar à casa de onde nunca saí nem te deixei sair - falo como quem se repete, sorrio como quem reconhece o cheiro de cada lembrança, como quem veste um casaco que nos conhece o corpo e nos serve na perfeição como um abrigo. 

assim, de alguma maneira, o parágrafo continua - por cima da dor, da distância, da saudade, as palavras constroem um terraço que, como um ventre generoso, nos acolhe, de novo, aos dois somente para que seja possível mais um abraço, uma gargalhada, um conselho, uma ajuda ou apenas o silêncio fundo em que o amor verdadeiro se ouve melhor.

fujo tantas vezes para as palavras só para te lembrar - continuo a passar no mesmo passeio e a olhar a janela do teu quarto; continuo a sentar-me no terraço, no mesmo banco e a ter fé no verde que renasce nos campos que percorri contigo tantas vezes. 

fujo para tentar calar a saudade, ou para ouvi-la melhor, não sei. 

sei, avô, que ainda me fazem muita falta os teus abraços e que, até ao fim, os meus poemas falarão disso. 

não sei quanta poesia pode caber num abraço ou com quantos versos se cansa, finalmente, a saudade. 

não sei mesmo. 

mas, avô, se puderes ouvir isto, sabe que alguém ainda olha a janela do teu quarto e te espera no mesmo banco do terraço. 

se conseguires, recebe nas palavras o abraço que eu não te posso dar. 

e, se te deixarem, pede para vir ao vidro do teu quarto e acenar-me. 
só para que o parágrafo se possa escrever 

e um poema nos guarde aos dois abraçados para sempre. 

Parabéns, Avô. 

RM| XII-II-MMXVII

domingo, 5 de fevereiro de 2017

o caminho de casa, mãe

se os versos fossem um caminho, mãe, 
quase como uma estrada que se estende como uns braços abertos
ou, então, um atalho trapalhão que se inventa só por causa do amor
os meus poemas falariam todos de ti, acredita

eu sei, mãe, que a poesia nos abre as janelas
que, sim, parece levar-me, às vezes, para longe - 
é o mar que chama, é o vento que passa a perguntar
e eu vou com eles - 
a tempo de ainda ver arder todos os poentes
a tempo de emendar a imperfeição dos dias ao colo do sonho 

vou, sim, mãe, tu sabes.

às vezes, nos poemas ainda pode ser verão - 
a pele anda nua, 
os versos crescem como as ondas que dançam ao luar
e as horas espreguiçam-se devagar 

por isso, me demoro, eu sei, 

[desculpa]

sabe, mãe, que ando apenas a ouvir do mar a repetição doce de um segredo 
e que o vento, às vezes, até me traz de casa o cheiro doce do teu perfume

por isso, mãe, não sofras

se os versos me atrasarem
põe-te a imaginar o mar feliz deitado inteiro numa praia no verão 
sente do vento morno a meiguice que te lembra um sorriso meu 

e espera por mim, 
eu volto. 

vou só aprender do mar segredos que ainda não sei
e ouvir do vento as histórias todas que ele traz no bolso 
só isso. 

se eu chegar tarde, não te preocupes
as janelas estão abertas - é verão 
eu trepo o muro e entro. 

na areia, deixo o teu nome escrito mil vezes

só para te agradecer tudo - só porque sim.

eu sei que o mar sabe guardar um segredo 

mas que o vento, malandro, te vai contar tudo. 

não importa. 

obrigado, mãe, 

por me ensinares a amar o mar,
o vento, 
e pelas janelas sempre abertas -

como num abraço 
tu só as fechas quando eu chego
e isso basta.
   
RM| V-II-MMXVII