Rewind

domingo, 22 de abril de 2018

24.04|Papá,

PELOS TEUS 70 ANOS, 

Papá, 

O tempo voa mesmo, velhote. 


Tu, aos meus olhos, ainda assim, permaneces o mesmo - nós, está visto, não te deixamos envelhecer, 

O nosso Bi, o filho do Sr. Mesquita, o Papá


E, todas as vezes que assim te chamamos, o meu coração julga que o tempo suspende a sua respiração, que as coisas podem simplesmente ficar assim - como uma mobília que definitivamente traga flores em todas as jarras para sempre. 

Nasceste de um parto longo e difícil - quase uma semana de dores e sofrimento que fizeram a Vovó e o Vovô recearem o pior. Felizmente ficaram os dois. 

Eu, parvo como tudo,

Oh Vovó, o pior de tudo seria eu e o A. não termos nascido, não achas? Já viste o que terias perdido?,

E a Avó ri-se enquanto me abraça. 

Nunca te conheci longe da família - foste sempre o filho em quem mais o Avô confiou - o homónimo -; foste sempre quem melhor satisfez as vontades da Avó; o sobrinho preferido e o companheiro e confidente mais presente de uma viagem que, ainda hoje, continua. 

E os Avós sabiam disso e sempre mo disseram. 

Um dia, agradeci-te, 

Papá, obrigado por teres salvo a vida à Vovó e ao Vovô várias vezes -  no fim, a vida triunfou e pude ser deles e eles meus -  e isso foi tanto. 

Folheio os teus álbuns da Guiné - fotografias que, se falassem, me diriam que, nessa altura, o cabelo da Avó ficou todo branco; que o Avô sempre acreditou que voltarias para eles e para nós - que haveria um futuro onde nós te esperávamos, embora não o soubesses ainda.

Um dia,  perguntei à Avó, deitado na cama onde nasceste,

Vovó, porque amas assim só o Papá?, e disse-lhe que nisso éramos iguais - eu e o A., como ela e o Avô, só conhecemos esse tipo de amor que é um fanatismo, uma entrega absoluta, uma existência ampliada apenas por termos o coração emprestado inteiro ao nome dos que amamos - e não amamos todos, diga-se. 

E, antes que a Vovó respondesse, atirei, 

Imagino que, quando o Papá esteve na Guiné, tu só pedisses a Deus que ele voltasse - dentro de ti, desde que ele voltasse, tudo teria emenda, tudo se perdoaria, tudo ficaria bem. 

E ela, 

Como sabes, pequeno?, 

Eu, Milinha, conheço-te tão bem que, pela minha boca, tu julgas, às vezes, quando me ouves, que eu nasci muito antes, que vi tudo, que sei tudo - e, de facto, quando se ama como eu vos amo, quase se vê no escuro - no fim de contas, o amor sempre acenderá as velas do tamanho certo para que a luz engula o escuro de uma vez. 

Entre nós, Papá, eu o A. sempre te falámos com verdade - mesmo que doa, mesmo que custe, mesmo que todos soframos mais por causa disso, a verdade é o único chão e cimento do verdadeiro amor. 

Tu sabes que, no A., o teu Pai continua vivo  - e cada vez mais - e, que, em mim, também só houve sempre a vontade de manter este círculo fechado em que a felicidade sempre existiu.

Digo, a rir-me, à Avó, ao explicar-lhe que, para mim, só por vocês é que há amor, 

Eu faço parte de uma família e não de uma tribo!, 

Rimo-nos os dois - ela sabe que o que eu quero é mergulhar de cabeça em cada um de vocês e levar - porque levo - mais amor que todos eles, mais tempo, mais verdade, mais intimidade, mais perdão, mais felicidade e é isso que me basta. 

Por isso, velhote, antes que o tempo passe todo, lembra-te de que a verdade é sempre a maior prova de amor que sempre te demos.

Com ela, haveremos sempre de arranjar uma forma de ficarmos todos juntos. 

Obrigado por tudo. 

Também eu fiz um pacto há muito - desde que vocês cá estejam, tudo se arranja e, seja qual for a guerra, só pode haver um futuro que nos leve a todos de mãos dadas. 

Parabéns, Papá!

RM|XXII-IV-MMXVIII