Rewind

terça-feira, 25 de abril de 2017

Avó,

sobre a desgraçada falta que as mães fazem aos filhos, Avó, 
(e desculpa começar por falar assim)
podia deixar-se uma folha branca - sim, toda branca - 
e imaginar nunca mais poder continuar-se a dar o que só nasceu para ser dado - 
uma maré a que falte das ondas a esperança de um regresso,
uma manhã que chegue sobre as coisas, as ruas e tudo o resto para sempre atrasada
ou um abraço a que falte a carne para que a vontade sossegue, finalmente

sobre a desgraçada falta que tu fizeste, querida Avó, 
a mãe com dezassete anos apenas,
tu com quarenta e dois 
e, depois, esse deserto de sonhos adiados,
de coisas que tinham que ser ditas - 
o amor gasto de repetido, 
os olhos embaciados de felicidade, 
os teus netos a chamarem-te, 

Avó

e isso não ter podido acontecer
essa maldita doença que nos roubou - 
o som da tua voz que nunca ouvi,
as tuas mãos que nunca me levaram ao jardim de tua casa, 
a tua letra que nunca li num postal pelos meus anos
ou, apenas, o obrigado que nunca te pude dizer pela mãe que me deste

sim, Avó, obrigado. 

aqui por casa, a mãe fala de ti como se te encontrasse em mim e no A., 

A Mãe era assim, meninos, também fazia isso

e que felicidade a nossa porque a nossa pele também é, afinal de contas, a tua morada. 

mas, mesmo assim, Avó, que desgraçada falta tu nos fazes,
um telefone que tocasse só para nós e se pudesse dizer, 

Avó Bela, como estás?,

e o meu coração que se põe a imaginar o que te diria, 
que cartas te enviaria ou 
como gostarias, somente, de ver como a minha Mãe é boa para nós.

42 anos,  

e eu ter contado os anos até que a minha Mãe durasse mais - 
o medo que tenho, ainda hoje, de coisas demasiado curtas
do que se não diz, do que se não dá, do que se não emenda 
a tempo. 

isso ou, quando acabei o curso, a primeira pessoa a quem telefonei, 

Mamã, acabei o curso, 

e, nesse momento, me ter lembrado que a minha Mãe não pôde ter feito o mesmo
e isso me doer como um gume afiado, quando desliguei a chamada 

da desgraçada falta que nos fazes, Avó, 
das coisas que tinha vontade de viver contigo, 
do que te podia ter dito sentado no jardim da tua casa

e, melhor que tudo, um sorriso teu que saísse das fotografias que guardamos
e fosse teu só para mim
ouvir-te dizer, 

Ricardo

e saber que, finalmente, tu me respondes à falta com que te chamamos cá em casa. 

sabe, Avó, que o meu coração consegue acender uma luz na tua ausência
e ter a certeza de que, se pudesses, me havias de sorrir, 
caminhar comigo uma estrada infinita de verdade e de alegria,
telefonar-me mil vezes e deixar-me gastar-te o nome com um amor guloso

eu sei disso, querida Avó, 

mas a falta que nos fizeste, tornou-me a mim e ao A., capazes apenas de um amor vigilante, de um amor de quem anda por perto a medir o pulso e que, mesmo longe, leva no coração sempre uma janela com vista para casa. 

querida Avó, 

sabe que entro no quarto enorme da nossa saudade por ti, muitas vezes, e, no meio do escuro, desafio a distância que não escolhemos e imagino que, como numa fotografia, nos sorris com a ternura generosa que o coração da minha Mãe aprendeu contigo. 

temos saudades tuas, Avó, 

se nos ouvires, sabe-te lembrada
se possível, responde-nos, 

apesar de nunca ter ouvido o som da tua voz, tive quem, graças a ti, me ensinasse a reconhecer o amor. 

Um beijo, 

R.

RM|XXV-IV-MMXVII

sábado, 15 de abril de 2017

Avós,

os vossos nomes e uma luz que se acende -
nas paredes dos corredores, marcas de dedos e eu a correr
gritando, inteiro,

Vovó, Vovô, 

e a ser feliz no meio do ruído amplo de um amor despreocupado
a ser todo dessa vontade de um futuro que vos guardasse sempre como num abraço
e a ser mais vosso a cada promessa cumprida na forma de um sorriso

os vossos nomes,

Milinha e Bininho, 

e as paredes do meu coração todas escritas de saudade -
a letra firme da luz do vosso milagre na minha vida
e o orgulho de me poder abrigar debaixo da verdade que sempre nos uniu

os vossos nomes,

e uma casa de onde nunca sairemos -
uma mesa alegre que nunca se levante
e onde sempre se celebre apenas os que escolhem ficar

os vossos nomes,

e quanto de mim são vocês -
a vontade de sorrir,
o sabor da certeza no sangue,
a possibilidade eterna de um regresso

ou, então, o conforto do silêncio,
as roupas gastas em que se cheira a vida que tivemos
e em que sempre sentimos um ventre quente de uma casa

os vossos nomes,

e a pele que me lateja do lado de dentro,
o medo de não saber escrever nunca na língua da vossa ausência
de não saber respirar o ar de alguma distância que nos separe

os vossos nomes,

meu Avô, minha Avó,

falados no presente, sempre.

e ter sido isso que vocês foram para mim - um presente.

Para o Ricardo, 
os vossos nomes,

e eu um embrulho-pessoa que quem visse por dentro saberia dizer,

Obrigado, 

e onde existe um corredor infinito de gratidão a que escolho voltar
só para poder correr e chamar-vos,

Vovó, Vovô,

e saber que, afinal, estou em casa
e que isso chega.

RM|XV-IV-MMXVII 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Gó,

06.03, 

Vou escrever-te esta carta como mais um daqueles postais que te enviava nas férias, 

Invariavelmente um, 

Querida Gó, 

seguido de frases doces que falavam do mar, da praia e, no meio de tudo, como uma bainha a rematar-nos o tecido da pele, as saudades. Sempre as saudades, Gó. 

Tuas, do teu sorriso doce, das tuas mãos meigas, desse à vontade em que as coisas do amor crescem e permanecem para sempre. 

Hoje, Gó, não vou falar do mar, nem das férias, nem escrever-te de tão longe que tenha que ir ao correio enviar-te o meu amor com selo e tudo. 

Escrevo-te, somente, para poder ser aquela criança de seis anos que, espetando o indicador no fundo das tuas costas altas, te perguntou: 

- Oh Gó, achas mesmo que o menino Jesus comemora o dia do Pai? Ouvi na missa que ele sacrificou o filho pelos Homens. Achas isso bem? ou Oh Gó, porque é não acontece às mulheres que não podem ter filhos o que aconteceu com Nossa Senhora?

E tu, atrapalhada, falavas-me de milagres, do bem que se devia fazer pelos outros e eu, no teu colo, acreditava na resposta porque sentia a verdade do que me dizias - ali estava o meu milagre, ali estava o bem que tu me fazias, os sacrifícios que fizeste por nós, por amor a nós e isso chegava. 

Era novo demais para pensar nas responsabilidades parentais do pai do JC ou, sequer, para defender o direito à procriação medicamente assistida ou outras maneiras de as pessoas serem felizes, quase como acontecera à Nossa Senhora. Isso veio mais tarde, com o Direito, mas são outros quinhentos. 

Lembro-me todos os dias de ti, de ir contigo de mão dada a todo o lado, de descascar feijão verde no terraço ou de ver matar uma galinha; de te fazer cócegas na missa e tu não te importares. 

Dizia eu, Gó, sabes que eu não sou baptizado, não sabes? 

E tu, sei, sim, menino. E não gostava de ser?

E eu, com seis anos e chato como tudo, se calhar sim, mas se Jesus foi com 33 anos, eu ainda tenho muito tempo.  

E tu sorrias, desejando que, de facto, eu e o A. tivéssemos tempo para tudo, uma vida cheia de coisas que tu não tiveste, os olhos repletos de coisas que não viste mas que pedias, animada, que te contássemos noite dentro.

Um dia, pelos teus anos, muito mais tarde, disse-te, 

Gó, mesmo que não me baptize, quero que saibas que tu e a Vovó seriam as madrinhas. Que achas?

Achei que esse era o melhor presente e disse-te porquê - sim, tinhas sido tu quem me ensinara esse amor sem tamanho, essa fé nos outros, nas mãos que se dão e seguem dadas a vida toda - como as nossas. 

Tu choraste - e eu fiquei aliviado de ires a tempo de saber que a minha família é o meu coração quem a escolhe - e, sim, gostava que a tua mão não se largasse nunca da minha, minha menina, pode ser?

Para postal, isto vai longo.  

Quero que saibas que te adoro e que sempre que o meu coração se aperta me lembro de ti,

Oh menino, vai correr tudo bem, vai ver. 

E eu, como em toda a minha vida, acredito em ti - como uma vela acesa no escuro, mostras-me que há sempre um caminho; que, apesar de tudo, há sempre uma casa aonde voltar e alguém que nos espera. 

Um postal que dissesse sempre, 

Obrigado, 

mil vezes enviado pelo correio, 

(e não chegaria)

ou, então, como eu prefiro, 

uma tarde no banco do jardim de tua casa em que te pergunto, malandro: 

Gostas mais de mim e do A. do que dos outros, Gó?

Que acha, menino? Mas não diga a ninguém! 

Ou, ainda, 

Gó, acho que terias sido uma Mãe do caraças, sabes? 

E tu, com um de nós de cada lado, abraçando-nos, dizes-nos: 

E fui, menino, e fui. 

Pois foste. 

Parabéns, querida Gó. 

PS: Só faço 30 anos este ano. Para ser como JC, ainda faltam 3. Falamos do baptismo nessa altura, pode ser? Até lá, a minha fé fica toda no milagre que foste para mim. 

Um beijo de quem te ama, 

R. 

RM|XV-III-MMXVII  

sábado, 25 de fevereiro de 2017

glossário,

pelo natal ou pelos teus anos, não sei, mãe,
mas hei de dar-te um dicionário,

ris-te, eu sei, mas eu insisto - um dicionário, sem embrulhos, sem enfeites
- um lugar, apenas, onde possam existir palavras para ti, para o teu amor
e para as coisas que vi pendurado na varanda florida dos teus ombros.

procurarás por mim nessas páginas, eu sei, mãe,

mas o dicionário que eu te der falará de olhos como se fossem janelas,
falará de abraços como se fossem portas,
e de mães como se fossem casas

dos verbos dirá de todos que se conjugam melhor no gerúndio -
caminhando, esperando, encontrando, sorrindo, perdoando -
amando - como se fosse o som do próprio amor que se pudesse ouvir em cada uma das páginas
e o vento passasse, malandro, a apregoar em todos os cantos a nossa alegria

um dicionário no fundo da tua cama, mãe, que achas?

para ti, que me ensinaste a chamar as coisas por todos os nomes que elas podem ter,
a acreditar que os verbos conjugados no futuro -
caminharás, esperarás, encontrarás, sorrirás, perdoarás -
amarás - te teriam sempre a ti na outra ponta do caminho
e que o desconhecido, de alguma forma, me traria sempre de volta

um dicionário para ti, mãe,
só para falar das palavras que tu inventaste para me fazer feliz,
do tamanho superlativo do teu coração
e da infinita aliteração da saudade em cada um dos teus beijos

que achas?

quero, mãe, que saibas que te agradeço eternamente o teres-me  ensinado a falar com palavras que não existem,
a abrir janelas que mais ninguém vê,
e a poder voltar a casa cada vez que penso em ti -

obrigado.

um dicionário de um filho para uma mãe para lhe lembrar que foi ela quem o ensinou que há tanto por inventar - palavras, beijos, abraços, pretextos - sempre uma qualquer forma de voltar.

por isso, o dicionário, mãe, dirá sempre duas coisas:

1. Obrigado. 

2. Eu volto. 

Um beijo do teu filho, 

Ricardo

PS: Mãe, apesar de todos os nossos desacordos ortográficos, eu sei quanto de mim se escreve graças a ti. 

Amo-te.


RM|XXV-II-MMXVII

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Avô,

13.02

sabes, os meus poemas são a nossa casa.

neles cabe a roupa dos sonhos que ainda não usamos, existem gavetas que aguardam a meiguice das cartas ainda por trocar, as escadas ainda sentem o som dos meus pés seguindo os teus pelos corredores. 

[sorrindo, sempre]

descobri, avô, que nos poemas o amor não prescreve nunca - há uma primavera que podemos inventar sempre - só para que, da janela, eu possa ver-te sorrir-me e acenar como se me chamasses para dentro de um abraço. 

e, a cada verso, a cada rima, vou colhendo frutos sonhados, trepando árvores imensas de saudade e, assim, acreditando que, no fim, estou mais perto de ti. 

só isso. 

sabes, acho que escrevo para continuar aquele parágrafo que alguém interrompeu há já 17 anos e que nunca consegui terminar -  connosco a poesia pode ser simples e falar de campos verdes e tardes de conversa num banco de um terraço qualquer. 

connosco e sobre nós as coisas podem ser ditas com pouco - eu queria ir e sabia que me esperavas e isso foi tanto - foi tudo. 

mas, avô, escrevo sobretudo para poder voltar à casa de onde nunca saí nem te deixei sair - falo como quem se repete, sorrio como quem reconhece o cheiro de cada lembrança, como quem veste um casaco que nos conhece o corpo e nos serve na perfeição como um abrigo. 

assim, de alguma maneira, o parágrafo continua - por cima da dor, da distância, da saudade, as palavras constroem um terraço que, como um ventre generoso, nos acolhe, de novo, aos dois somente para que seja possível mais um abraço, uma gargalhada, um conselho, uma ajuda ou apenas o silêncio fundo em que o amor verdadeiro se ouve melhor.

fujo tantas vezes para as palavras só para te lembrar - continuo a passar no mesmo passeio e a olhar a janela do teu quarto; continuo a sentar-me no terraço, no mesmo banco e a ter fé no verde que renasce nos campos que percorri contigo tantas vezes. 

fujo para tentar calar a saudade, ou para ouvi-la melhor, não sei. 

sei, avô, que ainda me fazem muita falta os teus abraços e que, até ao fim, os meus poemas falarão disso. 

não sei quanta poesia pode caber num abraço ou com quantos versos se cansa, finalmente, a saudade. 

não sei mesmo. 

mas, avô, se puderes ouvir isto, sabe que alguém ainda olha a janela do teu quarto e te espera no mesmo banco do terraço. 

se conseguires, recebe nas palavras o abraço que eu não te posso dar. 

e, se te deixarem, pede para vir ao vidro do teu quarto e acenar-me. 
só para que o parágrafo se possa escrever 

e um poema nos guarde aos dois abraçados para sempre. 

Parabéns, Avô. 

RM| XII-II-MMXVII

domingo, 5 de fevereiro de 2017

o caminho de casa, mãe

se os versos fossem um caminho, mãe, 
quase como uma estrada que se estende como uns braços abertos
ou, então, um atalho trapalhão que se inventa só por causa do amor
os meus poemas falariam todos de ti, acredita

eu sei, mãe, que a poesia nos abre as janelas
que, sim, parece levar-me, às vezes, para longe - 
é o mar que chama, é o vento que passa a perguntar
e eu vou com eles - 
a tempo de ainda ver arder todos os poentes
a tempo de emendar a imperfeição dos dias ao colo do sonho 

vou, sim, mãe, tu sabes.

às vezes, nos poemas ainda pode ser verão - 
a pele anda nua, 
os versos crescem como as ondas que dançam ao luar
e as horas espreguiçam-se devagar 

por isso, me demoro, eu sei, 

[desculpa]

sabe, mãe, que ando apenas a ouvir do mar a repetição doce de um segredo 
e que o vento, às vezes, até me traz de casa o cheiro doce do teu perfume

por isso, mãe, não sofras

se os versos me atrasarem
põe-te a imaginar o mar feliz deitado inteiro numa praia no verão 
sente do vento morno a meiguice que te lembra um sorriso meu 

e espera por mim, 
eu volto. 

vou só aprender do mar segredos que ainda não sei
e ouvir do vento as histórias todas que ele traz no bolso 
só isso. 

se eu chegar tarde, não te preocupes
as janelas estão abertas - é verão 
eu trepo o muro e entro. 

na areia, deixo o teu nome escrito mil vezes

só para te agradecer tudo - só porque sim.

eu sei que o mar sabe guardar um segredo 

mas que o vento, malandro, te vai contar tudo. 

não importa. 

obrigado, mãe, 

por me ensinares a amar o mar,
o vento, 
e pelas janelas sempre abertas -

como num abraço 
tu só as fechas quando eu chego
e isso basta.
   
RM| V-II-MMXVII

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

do amor prosaico, mãe

um café e um cigarro contigo, mãe
ao fundo, o trânsito carregando as veias escuras da cidade

saber que me esperas - as tuas costas pequenas numa cadeira de uma mesa no canto
eu, vindo de um sítio qualquer, entretido pelo caminho a pensar na métrica irregular de tantas coisas
e, ao fundo de um lugar qualquer, sem nome, mas com uma mesa num canto 
tu, eu, nós e um café curto e um cigarro  

de repente, já pode haver silêncio como se me lançasses um cobertor 
olhas-me com o teu sorriso paciente de quem conhece todos os meus truques - 
em que bolso do casaco escondo a angústia, 
que camisa uso para poder ter menos saudades de alguma coisa, 
ou em que bolso das calças amasso com os dedos o que me dói

e, então, o teu cigarro acende-se como uma luz dentro da noite, 
o café fumega quente e vagaroso
e os teus dedos procuram os meus, como uma palavra cruzando outra, na folha de um jornal esquecido.

o amor pode ser tantas vezes feito disto - 
as mães acendendo a luz de um cigarro no escuro do caminho dos filhos 
em silêncio, lançando cobertores que são como braços onde se vai buscar o ar de que se precisa
e, enquanto o café fumega e se espreguiça a tarde sobre as ruas, os filhos sabem que alguém os ama -
só porque há silêncio, 
só porque as palavras estão prescritas nos diálogos mais sinceros do amor,
só porque o café é curto, a mesa é no canto e o cigarro e tu têm paciência para mim

querida mãe, que ridículo medir-te o amor pelos cafés e cigarros dos nossos encontros, 
eu sei. 

mas, sabes, preciso de ti 
e de acreditar que, em todos os lugares do mundo, pode haver uma mesa no canto
só para que acendas um cigarro, 
peças um café curto
e me estendas a mão como uma palavra que cruza outra na folha de um jornal esquecido. 

29. Inclinação da alma e do coração. [subs.]

ambos adivinhamos que palavra é - amor. 

mas só tu, num café sem nome, em qualquer lugar, sabes com quantas letras caladas ele se escreve. 

Amo-te. 

RM|XXVII-I-MMXVII

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

do amor honesto, mãe,

ter-te aqui, mãe,
mesmo na sala ao lado 
ir espreitar-te enquanto lês
lá fora, um sol que desenha no fundo das paredes,
não ter que te dizer nada
e ficar apenas a ver-te como o pó que, em silêncio, se abraça aos móveis

ter-te, mãe,
só isso. 
não encontrar palavras que encham esse mar por mais que, aqui dentro, tudo o que chova seja felicidade

sabes, mãe, o amor dos filhos é complicado
ensinam-nos a falar, mas não nos avisam que há coisas que nunca saberemos dizer
que queremos pronunciar,
que queremos inventar com toda a força do sangue e do sonho 
mas que não conseguem nunca ser o sal inteiro para o mar que as mães são no peito dos filhos. 

digo-te, 

mamã, quero inventar a melhor palavra do mundo, 
a maior, a mais luminosa, a mais doce, a mais-minha-de todas, ok?

[só para dizer que te amo muito
e mais a cada dia]

mas as palavras não bastam - mãe, o amor tem tantas ondas e marés que as letras não chegam e a gramática é difícil.  

então, desastrado, cheio de medo, 

olho-te infinitas vezes, 
decoro-te como a um texto lido e relido
e sublinho-te sempre as partes mais belas -

o coração grande, o sorriso, as mãos atadas nas minhas
a vida toda -

em todas as passadeiras do meu caminho,
em todas as chegadas,
em todos os erros,
em toda a infinita estupidez com que, querendo amar-te, te magoei 

e sorrio.

depois, lembro-me de que sempre me ensinaste que nas ondas havia sempre a esperança de um regresso e, por isso, amavas o mar.  

ter-te mãe, 
e só isso. 

sabes, o mar que me cravaste no peito nunca o encherei com as palavras todas que mereces. 

[desculpa, elas não existem]

mas, prometo-te uma coisa:

olhar-te-ei sempre como se fita o horizonte. 

e, ao lembrar-me de ti, 
vou saber que, numa onda ainda por chegar, 
tu virás sempre -

só para me dares a mão 
e, no fim de tudo,
contra tudo, 
apesar de tudo,
chegarmos os dois juntos ao outro lado. 

RM|XXIV-I-MMXVII

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

mãe,

acho que devias entrar no meu quarto sem eu saber, mãe
a sério, 
entrar no meu quarto e abrir uma gaveta por cada coisa que não te digo 
[e que devia.] 

senta-te na minha cama e enquanto, da janela, o dia te fita sereno
abre a gaveta que achares mais próxima do meu coração e espreita
anda lá, eu deixo, 

algures, pelo meio dos discos, dos livros - quase todos teus e com o teu cheiro - 
algures, pelo meio das t-shirts, dos bilhetes de cinema e das meias - há de estar o amor

sim, o amor: 

ou o número de vezes em que adormeci agarrado à promessa de ti no dia seguinte,
todas as cartas, os postais e as respostas que sempre tiveste para mim, mesmo antes que te soubesse perguntar coisa alguma, 
ou os passeios todos e o cheiro a infinito e a pele morena nas fotografias, o abraço do mar e da praia onde pudemos sempre demorar-nos um no outro sem ter pressa

juro que, às vezes, imagino que o amor se possa guardar em gavetas

porque amar talvez seja guardar na gaveta mais perto do coração aquilo que nos fez, nos faz e nos fará lembrar e tentar ser sempre o melhor de nós mesmos. 

e, sabes mãe, eu volto tantas vezes a essa gaveta - e repito os passeios, ouço do mar a voz rouca que me traz do teu nome a luz inteira ou, ouvindo o Zeca Afonso ou o Simon e o Garfunkel, volto a poder aninhar-me no teu colo, no chão de uma sala às escuras, a deixar-nos ser, na pele inteira, do tamanho da verdade que o conforto do silêncio nos deixa aos dois. 

volto à gaveta para escrever um bilhete desajeitado e trapalhão, 

desculpa, a sério, malandra, 
desculpa. 

ou somente para pensar em ti - e na luz de todo o perdão que me deste com os teus braços sempre doces, o teu sorriso como uma janela que se esqueceu aberta um verão inteiro e a tua saudade doce de quem espera, no banco de um jardim qualquer, que eu chegue - e isso chega-te. 

eu chego-te, o A. chega-te. 

mas, mãe, uma gaveta não chega para ti - eu sei. 

mesmo assim, quando não estiver, entra, senta-te e espreita, que eu deixo. 

sorri, de novo, como na fotografia na varanda atravessada pelo poente na praia, 
recebe, de novo, as flores que te dei e secaste e deixaste dentro dos livros
[sabes, mãe, elas cheirarão, para sempre, à minha gratidão.] 
  
entra no meu quarto, fica e demora-te no meu amor por ti, mãe
a sério. 

uma gaveta perto do coração não chega, eu sei.
mas o resto, mãe, anda comigo todos os dias 

acredita, 

eu serei a gaveta mais cheia de luz onde viverás sempre 
e onde se ouvirá repetida pelo mar a esperança eterna de um regresso. 

Obrigado.


RM| XX-I-MMXVII

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

18.01.

Avó, 

PELOS TEUS QUASE 93 ANOS,

Que as minhas palavras te levem para junto do mar
e que aí, juntos, possamos ficar para sempre esquecidos de partir
tu, a minha praia de luares acesos e segredos doces
e eu, eternamente, a maré que feliz retorna a casa

Que eu te chame mil vezes e tu me respondas sempre, Vovó 
e que, dentro das paredes transparentes de um abraço, nos prometam, uma vez mais, o amanhã
tu, esse meu milagre que me acende, de noite, as curvas do caminho 
eu, essa estrada que, por ti, terá que ser sempre a de um regresso 

Que eu te nomeie mil vezes como quem aprende, de novo, a falar
e, sem saber, aprenda a gastar a luz do amor imenso que me deixas no coração
tu, essa janela enorme de onde se vê a infinita planície da tua bondade
eu, uma criança que, pendurada no parapeito, só sabe que quer ficar

Que eu te veja florir mil vezes num terraço atravessado pela luz da tarde
e, sem que tu saibas, te olhe com os olhos cheios de lágrimas que são vontade de futuro 
tu, essa chuva de flores com que quero inundar os dois lados da estrada onde sigo
eu, suplicando, em silêncio, mais chão, mais tempo, mais vida 

Que, sobretudo, eu te agradeça sempre, Milinha, 
e, a alguém, o mistério eterno da luz do nosso encontro. 

do resto, falamos logo quando, depois de subir as escadas a correr, te der mais um abraço dos meus. 

espera por mim e deixa sempre a chave no mesmo sítio. 

Avó, a minha casa é o lugar onde estivermos os dois

e isso chega-me.

Amo-te. Obrigado.

RM|XVI-I-MMXVII 

sábado, 14 de janeiro de 2017

mãe,

vejo-te na rua do costume, mãe
essa, onde as casas alinhadas ainda dormem
essa, onde, no céu, ainda ardem os sonhos mornos da véspera
só para que tu, da tua janela aberta de esperança, me possas ver voltar

eu sei, mãe, que me olharás até ao fim da estrada
os teus olhos serão quase tão infinitos quantas as vezes que me chamarás
mesmo em silêncio - [eu sei.]

e, mãe, mesmo que eu não olhe para trás 
[porque me dói]
prometo fazer surgir parapeitos inteiros de saudade em flor
e deixar-te um bilhete escrito no cheiro doce do amor de cada alegria pura que vivemos juntos

mãe, vejo-te na rua do costume, combinado?
essa, onde mesmo as árvores nos esperam aos dois para encher as sombras de um abraço
essa, onde nos passeios os outonos nunca são tristes
e tudo nos aguarda para que, como um segredo aceso no escuro, tu me recebas

vejo-te na rua do costume, mãe 

um café curto, 
um sorriso teu que é todo o açúcar de que preciso
e um cigarro enquanto as palavras são os casacos que vestimos um ao outro 
[a solidão é fria]

e isso basta. 

lembra-te, mãe, de me esperar na janela da rua do costume

[eu volto]

espero que nunca tenhas que colher as flores todas
que tenhas apenas que pedir um café curto e acender um cigarro 

e eu chegue rápido. 

afinal, todas as ruas são a do costume
se nelas se repetir, em cada vez, o código postal do nosso amor. 


RM| XIV-I-MMXVII

domingo, 8 de janeiro de 2017

para o Carlos,

Carlinhos, 

Não sei bem porquê, mas acredito que chegamos sempre tarde ao entendimento dos milagres que nos acontecem na vida.  

Mesmo assim, Amigo, aqui vai. 

Não sei porque uso agora as palavras, porque vêm elas tentar dizer do tamanho da luz que deixou nos nossos corações. Talvez sejam as saudades, talvez seja o seu sofá que, ainda ontem, passei a noite toda a olhar como se esperasse que, algures dali, viessem umas palmas, um sorriso, uma qualquer prova de que o abraço da vida há de tentar, até ao fim, engolir tudo. 

449, o número da vossa casa e o caminho que eu e o mano tantas vezes fizemos a pé, dispostos a escolher o abrigo dos vossos sorrisos, das vossas palavras, das vossas tristezas para aí nos unirmos nesse profundo mistério de certos encontros das nossas vidas. 

Aos poucos, a vossa casa foi também a nossa e a vossa família a prova de que há promessas que levamos até ao fim - só para que elas se cumpram, só para que, no fim de contas, nos acabemos cumprindo a nós mesmos também. 

E o Amor é isto - falar de si há de ser sempre falar da Clara, a nossa Lopinhas, - essa mulher que, por cima do abismo mais fundo de todos, abraçou o homem que escolheu e dançou com ele até ao fim - apesar de tudo, contra tudo, por causa de tudo. 

Tantas vezes vim para casa pensando que, algures neste mundo, quantos dariam tudo para ter um Pai Coelho que, mesmo já sem poder falar, disse mais à família sobre o que é o amor do que tantos outros que, podendo, deixam quase tudo por dizer. 

[Gosto muito de vocês, meus sacanas] 

Espero que, mesmo de um jeito trapalhão, o Carlinhos tenha percebido que ter estado perto de si me fez melhor pessoa, me lembrou ao coração o valor infinito da nossa entrega aos outros, o retorno absoluto e luminoso que nos fica de termos podido, noite dentro, esquecer o medo, a finitude e, fintando a morte, rirmo-nos como se tudo fosse durar para sempre. 

[E tudo dura para sempre.] 

Sobre a sua filha, as palavras não chegam. 

Para a Maria fica o longo caminho de verdade que fizeram os dois. E isso, mesmo depois da sua partida, será o espelho onde ela poderá encontrar o sentido do amanhã, as respostas, uma forma de "pensar em grande" e vencer, como sempre lhe dizia.

Grande, Carlos, foi o seu Amor pelas suas meninas. 

Grande foi a forma como viveu, como amou, como lutou, como foi sempre. 

Espero que as minhas palavras se ouçam e, quem sabe, o Carlinhos possa bater palmas só para dizer que está tudo bem que, apesar de tudo, no fim de contas, no número 449 ou noutro lugar qualquer, quem se ama sempre se encontra. 

Até lá, prometo que, no meu coração, continuarei a brindar ao Pai Coelho e a pensar em grande.

Um abraço, meu Amigo, de quem sabe, apesar de tudo, nunca conseguir vir a ser tão grande como o Carlos foi. 

Até sempre!

RM| VIII-I-MMXVII