Rewind

quarta-feira, 15 de março de 2017

Gó,

06.03, 

Vou escrever-te esta carta como mais um daqueles postais que te enviava nas férias, 

Invariavelmente um, 

Querida Gó, 

seguido de frases doces que falavam do mar, da praia e, no meio de tudo, como uma bainha a rematar-nos o tecido da pele, as saudades. Sempre as saudades, Gó. 

Tuas, do teu sorriso doce, das tuas mãos meigas, desse à vontade em que as coisas do amor crescem e permanecem para sempre. 

Hoje, Gó, não vou falar do mar, nem das férias, nem escrever-te de tão longe que tenha que ir ao correio enviar-te o meu amor com selo e tudo. 

Escrevo-te, somente, para poder ser aquela criança de seis anos que, espetando o indicador no fundo das tuas costas altas, te perguntou: 

- Oh Gó, achas mesmo que o menino Jesus comemora o dia do Pai? Ouvi na missa que ele sacrificou o filho pelos Homens. Achas isso bem? ou Oh Gó, porque é que não acontece às mulheres que não podem ter filhos o que aconteceu com Nossa Senhora?

E tu, atrapalhada, falavas-me de milagres, do bem que se devia fazer pelos outros e eu, no teu colo, acreditava na resposta porque sentia a verdade do que me dizias - ali estava o meu milagre, ali estava o bem que tu me fazias, os sacrifícios que fizeste por nós, por amor a nós e isso chegava. 

Era novo demais para pensar nas responsabilidades parentais do pai do JC ou, sequer, para defender o direito à procriação medicamente assistida ou outras maneiras de as pessoas serem felizes, quase como acontecera à Nossa Senhora. Isso veio mais tarde, com o Direito, mas são outros quinhentos. 

Lembro-me todos os dias de ti, de ir contigo de mão dada a todo o lado, de descascar feijão verde no terraço ou de ver matar uma galinha; de te fazer cócegas na missa e tu não te importares. 

Dizia eu, Gó, sabes que eu não sou baptizado, não sabes? 

E tu, sei, sim, menino. E não gostava de ser?

E eu, com seis anos e chato como tudo, se calhar sim, mas se Jesus foi com 33 anos, eu ainda tenho muito tempo.  

E tu sorrias, desejando que, de facto, eu e o A. tivéssemos tempo para tudo, uma vida cheia de coisas que tu não tiveste, os olhos repletos de coisas que não viste mas que pedias, animada, que te contássemos noite dentro.

Um dia, pelos teus anos, muito mais tarde, disse-te, 

Gó, mesmo que não me baptize, quero que saibas que tu e a Vovó seriam as madrinhas. Que achas?

Achei que esse era o melhor presente e disse-te porquê - sim, tinhas sido tu quem me ensinara esse amor sem tamanho, essa fé nos outros, nas mãos que se dão e seguem dadas a vida toda - como as nossas. 

Tu choraste - e eu fiquei aliviado de ires a tempo de saber que a minha família é o meu coração quem a escolhe - e, sim, gostava que a tua mão não se largasse nunca da minha, minha menina, pode ser?

Para postal, isto vai longo.  

Quero que saibas que te adoro e que sempre que o meu coração se aperta me lembro de ti,

Oh menino, vai correr tudo bem, vai ver. 

E eu, como em toda a minha vida, acredito em ti - como uma vela acesa no escuro, mostras-me que há sempre um caminho; que, apesar de tudo, há sempre uma casa aonde voltar e alguém que nos espera. 

Um postal que dissesse sempre, 

Obrigado, 

mil vezes enviado pelo correio, 

(e não chegaria)

ou, então, como eu prefiro, 

uma tarde no banco do jardim de tua casa em que te pergunto, malandro: 

Gostas mais de mim e do A. do que dos outros, Gó?

Que acha, menino? Mas não diga a ninguém! 

Ou, ainda, 

Gó, acho que terias sido uma Mãe do caraças, sabes? 

E tu, com um de nós de cada lado, abraçando-nos, dizes-nos: 

E fui, menino, e fui. 

Pois foste. 

Parabéns, querida Gó. 

PS: Só faço 30 anos este ano. Para ser como JC, ainda faltam 3. Falamos do baptismo nessa altura, pode ser? Até lá, a minha fé fica toda no milagre que foste para mim. 

Um beijo de quem te ama, 

R. 

RM|XV-III-MMXVII  

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