Rewind

domingo, 1 de agosto de 2010

Uma aventura no mundo do trabalho por Isabel Alçada.

Há que dizer uma coisa: gosto de Portugal. Gosto mesmo, que isto dos apelos insondáveis da terra onde se nasce está bom de ver que persiste mais e melhor do que se explica. Um dia chegarei à política, quem sabe, dizendo aos portugueses que gosto de Portugal. Que até tenho um desses "kits patrióticos" com uma bandeira à la carte - desses que embelezam corta-unhas e as vestes interiores, que isto de gostar implica levar a coisa a fundo e pô-la à venda com uma inscrição "made in china", que o lucro faz com que se vista qualquer camisola e se ame qualquer país, desde que bom pagador, claro está. E o pior é pensar que há quem ganhe eleições a dizer que gosta do país. A política é um mundo movediço, com uma engenharia muito própria, diriam alguns. E provavelmente devo eu concluir que não estou maduro para mandar e desmandar na amada pátria, porque o gostar, senhor Ricardo, implica fazer muitos sacrifícios - sacrifica-se a honestidade, a seriedade e destrói-se a economia e as finanças, em nome desse amor à prova e contra tudo.




Não sou capaz de um amor desses. Um amor desses é ferida que dói e se sente. Não agora, mas um dia. Tenho aprendido o que é o amor à pátria com esta ministra da educação, por exemplo. Ler os jornais desta pérola atlântica que é Portugal é saber que há uma ministra, grande portento da erudição, que quer acabar com os chumbos. Não, a ministra não tem fama de dentista e se deu com a língua nos dentes nos jornais de hoje, não consta que tenha quebrado o belo sorriso de gesso que lhe enfeita as feições. Anda a dar-se esta pérola a porcos, e é já há muito tempo. Há demasiado, diga-se.


Mas Portugal está contaminado desse amor doentio - esse paternalismo de falsete que consiste em amar os filhos mesmo por cima dos seus erros. Porque a ministra não quererá reconhecer que o erro será precisamente seu e esse - o da educação que estará a dar aos amados filhos da Pátria. Que é que se espera? Que a Pátria se transforme em maralhal de génios e eruditos por decreto? Ou quer-se chamar de política educativa a mais uma das tentativas de cosmética estatística que consiste em reportar às instâncias europeias a fabulosa progressão do país?


E o pior é que, embora não analfabetos, temo-los iliterados - os tais que educados neste laxismo paroquial de "panos quentes" "não percebem nada de política" e acabam votando em quem lhes faz a cama e lhes compõe os lençóis.

Há dias em não apetece ler os jornais - deve ser a silly season, mas mais silly do que nunca. A ministra deve estar a pensar em mais uma aventura de verão, é o que é, coitada, que isto de ser patroa dos professores é muito para pouco, como qualquer alma caridosa perceberá.

Falha-me aqui a caridade, Deus me perdoe. E a ministra também. Não consigo imaginar profissão mais destruída que a de ser-se professor. Então não é que ser-se professor, nos tempos modernos, implica aulas de defesa pessoal e um cinturão negro? Pois, a pedagogia nos tempos modernos destruiu o mérito, destruiu o civismo e o respeito. O que se quer é canudos - de qualquer universidade que até se pode chegar a primeiro ministro. Nem que depois as criaturinhas doutoras não saibam mais do que os mandar à cabeça uns dos outros.

É o amor-ódio à Pátria, suponho. Mas não consta que países possam ligar a uma APAV.

O amor é uma coisa que vive mais do que se faz e menos do que se diz. Como se vai dizer a um aluno: "Não estudaste, não fizeste nenhum, mas o caminho continua." E, claro, o aluno nunca imaginará que a sorte da sua vida veio de um acto extremado de amor de uma ministra com sorriso de gesso; pensará, apenas, que isto de ter um saco de pancada é altamente. É o estatuto do aluno, veja-se só. Hoje vale tudo. Vale a pena construir um país de faz de conta; vale a pena premiar a estupidez; destruir os limites que devem balizar qualquer relação saudável.

Sugiro à alminha caridosa e ministerial que escreva um livro chamado "uma aventura no mundo do trabalho." Mas que seja sincera. Porque a leitura faz bem (ou fazia no tempo em que escrevia) se se contar a verdade. E diga, senhora ministra, que o país onde não há chumbos é, também, o país que não vai querer os seus trabalhadores; o país que não quer cidadãos deformados, sim, deformados, neste molde de amor cego.

Os amores acabam, senhora ministra. E alguns acabam mal. Porque a senhora pode gostar de uma ideia de país utópica, mas tem de gostar também das pessoas que vivem no país real. Não basta dizer que gosta do país, porque aprendeu que ministro que é ministro, também tem que negociar. Tem que gostar das pessoas; tem que gostar de ver um futuro onde não põe uma corda na garganta do país.

Fala-lhe alguém que não sabe nada do amor. Fala-lhe alguém que ainda acredita que os tabefes que os filhos dão aos professores são os que os pais não lhes deram, em bom tempo se perdeu a oportunidade, está visto. E isto não é amor. É até, quem sabe, fascismo. Porque a democracia, para os senhores, é estar em frente a um precipício e dar um passo à frente. É o "Avançar Portugal." Hoje não digo que gosto de Portugal. Prefiro mostrar que isso é verdade. E, prepare-se senhora ministra, porque neste país ainda se podem chumbar Governos.