Rewind

quarta-feira, 19 de março de 2008

Oração do Amigo

A vida tem destas coisas. Coisas que surpreendentemente surgem em lugares e tempos menos esperados. Até num lar de idosos que tentam fazer batota com as regras da vida.
Crenças de lado e, não, não sendo uma tentativa de evangelização de diabretes em miniatura nem tendo eu visto nele uma manifestação daquela senhora vidente e vestida de branco que aparece aos guardadores de rebanhos (será porque julga que todos os advogados são do Diabo?), aqui fica o meu muito obrigado àqueles, Amigos, a quem nunca conseguerei dizer aDeus.
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Senhor, eu te dou graças pelo amigo que me deste.
É através da sua presença
que Tu ficas a meu lado.
Olhando para os seus olhos,
descobri o sentido profundo
que se oculta no Teu proprio olhar!
Deixando.me cativar
pelo seu sorriso contagiante,
aprendi também a sorrir.
Ouvindo as suas confidências sinceras,
aprendi a escutar a Tua voz.
Recebendo tantas provas de carinho,
Partilhando a vida, a Fé, os erros,as lagrimas e as alegrias,
eu vislumbrei-Te no rosto sereno do meu amigo.
Graças Te dou, meu Deus,
porque Te revelas
em gestos tao humanos
que posso experimentar-Te sempre
na pessoa deste amigo que me ama!
Faz com que ele seja muito feliz
e que eu Te encontre sempre
na transparência da nossa amizade. Ámen.

O nosso lugar no Mundo

Há um lugar nosso no Mundo. Acredito nisso. Um lugar de onde se vê e onde se traz o Mundo, como uma criança contente que traz na mão um segredo. Aqueles lugares que, mesmo não tendo paredes, são o lugar onde penduramos as imagens; os lugares que nos protegem. Há lugares assim, no Mundo. Lugares onde o tempo pára e tem o nosso tamanho. Onde o ar se suspende ou corre muito devagar. Aqueles lugares para onde olhamos através de uma janela ou, não podendo, guardamos para nós e evocamos sempre.
Poucos os lugares onde o tempo é nosso. Onde o tempo é para nós. Às vezes, sim, deixamos o nosso lugar. E corremos com o Mundo e com os carros e os fumos. E vemos as estrelas e o Sol de outro lado, lá longe. Pisamos outra terra, sentimos outro ar. E gostamos disso, que diabo. O vento que nos chega, naquele nosso lugar não passou pelos mesmos sítios, não traz a mesma vida e o seu sabor. E as estrelas adquirem um brilho diferente para quem as olha, daquele solo. Mas só então é que percebemos, lá longe, que este Mundo distante tem um sítio para ser vivido. Ou revivido. E ansiamos o regresso, para que a memória se chame e nos relembre o que foi de nós por lá. E colocamos no nosso reduto as cores, os sons, as vibrações e as vidas dessas outras paragens. E guarda-mo-las, ali. Para vermos, de vez em quando, o filme da nossa vida. Que desfila nessas paredes sem cor, que o vento reanima, as vezes, quando corre mais depressa.

E são lugares de partilha. Lugares onde deixamos entrar alguém. Para nos ver nessa nudez perfeita; para connosco saudar o Sol que ali desenha linhas mais audazes que em nenhum outro lugar; para dançar connosco à chuva que ali dilui e dissolve mais que em nenhum outro lugar. São estes os lugares que nos são fáceis ao corpo e à alma. Que parecem ter o nosso nome escrito, mesmo antes de nós. É bom encontrar lugares assim. E, por vezes deixar, nem que seja uma só, o Mundo ganhar-nos a corrida por detrás das costas. E entregarmo-nos a esse lugar sem tempo ou com todo o tempo que o Mundo, afinal, não tem.

E quando um dia tivermos de partir, levamo-lo connosco. E ninguém o verá ou saberá dele. Identificam-nos tão pouco esses tais de B.I., não é? A não ser que falemos deles a alguém especial - daquelas pessoas que parecem ver o Mundo pelos mesmos olhos que nós, que quase vestem a nossa pele e com quem estamos como se estivéssemos só connsoco. E quando não falarmos nele e for enorme a distância, há de nos encontrar o vento a lembrar-nos a origem e o que fomos, um dia.

terça-feira, 18 de março de 2008

"É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os."
Alexandre Herculano

segunda-feira, 17 de março de 2008


"A sopa é para as crianças, aquilo que o comunismo é para a democracia"


Mafalda (Quino)


Um outro Reis … um outro Amor… uma outra Lídia

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira rio.
Apaixonadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
Enlacemos as mãos.

Depois pensemos, seres adultos, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Enlacemos as mãos, porque vale a pena amarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como um rio.
Mais vale saber passar apaixonadamente
E com desejos grandes.

Com amores, ódios e paixões que levantam a voz,
Com invejas que dão movimento que chegue aos olhos,
Com cuidados, porque se os não tivesse o rio sempre correria
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos intensamente, sabendo que podemos,
Se quisermos, trocar beijos e abraços e carícias,
E que isso vale mais do que estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o

Colhamos flores, peguemos nelas e deixemo-las
No coração, e que o seu perfume eternize o momento –
Este momento em que corajosamente não tememos nada,
Fiéis conscientes da decadência.

Ao menos, se for sombra depois, lembrar-te-ás de mim.
E que a minha lembrança te console, contente e diga
Que sempre enlaçamos as mãos, e nos beijamos
E fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás intensa à memória lembrando-te assim – à beira rio,
Amante alegre e com flores no coração.

Ricardo Reis (apaixonado)

IF

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings--nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And--which is more--you'll be a Man, my son!

Rudyard Kipling

Europa

Agora que o novo milénio chegou, novos desafios se levantam a toda a comunidade europeia.
De facto, o nosso futuro dependerá dos laços de comunicação que se estabelecerem entre os diferentes países e respectivas culturas. Este será o verdadeiro instrumento na construção de uma Europa que se pretende mais justa, próxima e unida. Estou efectivamente convencido de que apenas pela via da comunicação se formará um verdadeiro mosaico cultural, que originará numerosas experiências de incalculável valor e riqueza.
Em plena era da globalização, a definitiva sobrevivência de um projecto tão grandioso e ambicioso como o da União Europeia passará, indubitavelmente, pela dissolução dos obstáculos culturais, linguísticos e raciais. Só assim se conseguirá obter uma verdadeira união, uma união que se baseie num conhecimento mútuo, num desejo assumido de aproximação e numa partilha de recursos, projectos e valências. O verdadeiro alargamento não se faz apenas pela via institucional e formal, mas também pela integração plena de todos os Estados numa verdadeira comunidade unida pelos laços de uma só língua e cultura – a do entendimento.
Desta forma, é forçoso que todas as instituições cooperem no sentido de mobilizar e alertar todos os cidadãos para a aposta numa cultura, num conhecimento e numa aprendizagem plenos da diversidade que nos caracteriza.



Now that the new millennium has arrived, the European Community has to face new challenges.
In fact, our future will depend on the communication ties that are established among the different countries and their own cultures. This will be the true instrument on the construction of a closer, fairer and more united Europe. I truly believe that communication will be the only way to put together a cultural mosaic, which will bring various experiences of unpredictable value and wealth.
In the so-called globalization, the true survival of such a magnificent and ambitious project as the European Union will depend undoubtedly on the abolishment of cultural, linguistic as well as racial barriers. Only through this way, a true union, one that stands on a mutual knowledge, on an assumed wish of closeness and on shared resources, projects and valences. The true enlargement isn’t done only through both institutional and formal ways, but also through the total integration of all States in a real community united by the ties of an only language and culture – the culture of understanding.
Therefore, it’s urgent that all the institutions cooperate to assure the mobilization and awareness of all citizens to the need of a genuine culture, knowledge and learning of our characterizing diversity.

Ricardo Pinto Mesquita



Nota: 1.º prémio no concurso: "The Pleasure of the Text", no âmbito do Fórum Humanidades - Caminhos do Presente, organizado pelo Conselho de Cursos de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, em 18 de Maio de 2005.

Os recambiados


Algo de estranho se passa neste país. E igualmente estranho é não ser isto nada de novo. Ainda assim, que esta estranheza passe ao papel. Com efeito, que país é este? Não sei se é possível amar-se tanto uma coisa e, ao mesmo, tempo odiá-la ainda mais por isso. Por ser um daqueles amores impossíveis. Diria que é pela diferença de idades. É um país antigo, é sabido. E talvez este meu Portugal tenha atingido aquela idade em que se senta num banco de jardim, a aquecer o esqueleto moído pelo tempo.

Sou jovem eu. Os bancos de jardim são sempre lugares fugazes, passageiros. Sigo caminho e eles lá ficam. Com os vultos cansados, ao sol. Gostava de ter um país jovem. Sim, capaz de marcar o ritmo e comandar o pelotão. Mas o meu país, coitado, fica na cauda. E, com a mão suave da complacência, se lhe diz: "Pelo menos participaste!". E o país retorna ao banco, para aí ficar mudo e quedo. O banco não chega para nós. Os velhos precisam de descansar, sempre ouvi dizer. E raramente os velhos cansados dos jardins aprendem a apreciar as gentes de furores, como eu. Vê-se o mar daquele banco. Um longo mar de prata, com um remate de espuma na areia dourada.

"Engraçado, penso eu, parece o velho do restelo." Mas cansado. Ou podia ser o Sr Zé ou um velho qualquer.

Quando se é velho, as vezes, a memória falha. E este país, já exaurido, esqueceu o rosto da prole. Ainda é capaz de reconhecer um traço ou outro, a voz talvez, mas logo retorna ao estado de ataraxia, com o olhar fundo, baço e vazio.

Quem cansou o meu país? Ou de que se cansou ele? Desde pequeno que sonho sair da praia pelo mar. Seguir caminho, ir além da Taprobana. E, embora o desejo me consuma e seja, até, maior do que eu, esperava que o velho me quisesse cá. Estranhamente, o velho nao resiste. Talvez nao perceba que me vou, o velho.

E é isto, o país nem resiste. O amor é sempre um pouco possessivo. Ainda que nao se ame da mesma forma ou na mesma linguagem, espera-se sempre ser o objecto estimado de um amor. O meu país deixa-me ir. Talvez nao me possa prometer nada. Ou talvez nao haja razões para que o velho do Restelo fale, agora.

A voz é unânime. "Ide e dissipai-vos, Disse."

Vou. Aqui o tempo parou. Como se a ampulheta contivesse, agora, toda a areia destas dunas, cada vez menores e nunca mais passasse. Este lugar nao é para mim. Há mar, há mar há ir. E voltar?

domingo, 16 de março de 2008

A caixinha mágica


Hora do jantar. Ritualisticamente a família senta-se. O pai cansado das horas entediantes no escritório vai debicando os tremoços. Amanhã novo dia. Sem glória. O que lhe vale é aquela miúda lá do trabalho que deambula a distribuir cafés. Estranhamente, sabem-lhe como se tivessem adoçante. O filho mais velho colado na consola a desferir golpes mortais resiste em ocupar o seu lugar na mesa. O bebé pequeno clama por sustento. E a mãe desdobra.se em múltiplas acrobacias, apesar da gravidade parecer pesar mais agora.
Tudo sentado, começam a comer. Enquanto a mãe pergunta ao filho como foi o dia, o pai agarra o comando como quem agarra um bilhete só de ida e liga a tv. "Que pena que não temos um plasma, desabafa para consigo mesmo!" Começam as notícias. É um alarido de cor, vozes que se levantam, palavras acutilantes como gritos de guerra. É o desemprego na Alemanha, a subida do Euro, uma menina de Vila Nova de Rabona que tem três olhos e, claro está, a fome em África e essas guerras que as pessoas sabem que metem petróleo, só ainda nao perceberam muito bem como. E é isto, estas personagens que aqui vemos, este pai, esta mulher e os seus filhos, fazem disto o pao deles de cada dia. Jantam a fome dos outros, a miséria alheia como quem enfarda o melhor dos repastos. A mulher ainda diz: "Ai, isto está cada vez pior!". O marido que ela repara estar cada vez mais gordo e onde ja nao vê os traços da juventude, continua, depois de responder com um suspiro, vidrado nas letras e luzes da televisão. Como nos westerns, mas agora com armas químicas e protagonistas de túnicas brancas e barbas que nao usam cavalos, mas aviões.
Segue-se um longo tempo dedicado ao desporto (estranho que só se jogue futebol, no país destas pessoas), o marido ainda solta dois urros. Findam as notícias. Estranhamente, ao contrário dos filmes da sua infância, não espera ver o tão aguardado "HAPPY END". Antes, como que seguindo uma série que se tornou a sua favorita, este homem aguarda as cenas dos próximos episódios. Com mais homens feios, porcos e maus e tempo para pensar na boazona lá do emprego. As crianças dormem. A mulher ainda na cozinha. Ele num zapping contínuo, acaba desligando a tv, como um miúdo cansado de brincar.
Agora que na sala, a caixinha mágica se desligou, há silêncio. O homem murmura: "É a vida!" E com esta tirada, parece chamar o sono ainda nao eterno, para lhe aliviar as dores da labuta. E este homem que dorme neste sofá, esta mulher que se afoga nos afazeres e os miúdos que dormem acreditam que aquilo que veêm não é a vida - pelo menos não a deles. É tudo lá longe em sítios com nomes estranhos e impossíveis de pronunciar. De costas colados na tv, nem se apercebem que aquilo que ali veêm é como uma câmara que lhes filma as costas e nem olham.
Todos dormem. Amanhã, novo dia. O marido vai apanhar o metro para ir ver a boazona, ao tomar o pequeno-almoço na firma. "Quantos são amanhã, mulher?", perguntara antes de adormecer.
"- 11 de Março homem, 11 de Março!"
“Nós”

Vou chegar perto de ti
E pedir-te um beijo
E pedir-te que nunca acabe
E acabado esse
Pedir-te mais um
E mais cem
E mais um outra vez
E tantos que não saibamos onde começa
E acaba o amor
E o céu
E tu e eu
E o calor
E o desejo
E a vida
E o sempre
E o tu seres minha
E eu ser teu
Para sempre
Vou chegar perto de ti
E beber-te sem pedir
E cheirar-te sem pedir
E ver-te sem pedir
Pedindo apenas que como o rio corre
E o céu brilha
Tu saibas ser eterno o meu amor
Eterna esta sede de te ver
Este ouvir-te ser comigo
Ao luar que nos toca
Vou chegar perto de ti
E chorar de alegria
E de tristeza dos que te não têm
E não bebem, não comem, não cheiram
A vida
Vou chegar perto de ti
E fazer-me teu como o céu das estrelas
E deixar-te brilhar
Para mim
E vou chegar tão perto
Que o teu brilho vai trazer o dia
E a luz
E o calor
E o vapor
E vai fazer do mundo a tua igreja
E de mim o teu altar
Olha, já cheguei...
E não vou fazer nada
Não te vou beber
Não te vou cheirar
Nem ouvir
Porque és em mim
Como eu sou
Somos um destino
Um futuro
Um presente
E nunca o fim
Sabes uma coisa?
Peço-te que fiquemos
Juntos
A bebermo-nos, a amarmo-nos, a ouvirmo-nos
Como o céu e a água
Qual deles o primeiro?
Qual deles o último?
Juntos
De tal forma que não acabes
Nem acabe eu
E sempre que haja nuvens
O vento sopre
E as leve
E nos deixe
A olharmo-nos
Como um espelho
Como só nós sabemos olhar
Como só nós sabemos amar.

Ricardo Mesquita 20-03-2005

O trilho

Eis que se começa a andar. E primeiro se firmam os pés na areia. Titubeando, começamos a viagem. Quantas vezes na vida é nosso este momento? O momento em que podemos tudo, porque nada está dado; o momento em que decidimos começar e, uma vez começando, damos passos no escuro em direcção ao que não sabemos.
Que aqui se inicie uma viagem. De comboio, por sinal. Sempre gostei dos comboios. Neles se podem as pessoas sentar. E descansar o peso dos seus corpos e das suas vidas. Com vista para uma janela. E seguir com os olhos, o mundo que passa. Hoje tomo aqui o meu lugar. Nesta viagem sem destino, mas tambem sem revisor, que é o que se pode prometer como aliciante.
Nunca gostei de viajar sozinho. Por isso, sim, talvez seja um convite a quem partilhe do gosto de ver o mundo por uma janela. E, em cada paragem, vê-lo entrar, sentar-se e esbarrar com o nosso. Quando se viaja segue-se com o Mundo. E roda.se com ele um pouco.
Que trilho seguimos hoje? Talvez seja melhor aqui para o maquinista inexperiente prometer o trilho dos principiantes, não vá o Diabo tecê-las e o negócio se esboroar antes do princípio.
Não há aqui propaganda colorida, nem luzes de neon e umas miúdas bonitas ( embora este comboio tambem siga por cabo) mas, em compensação, também não há letras manhosas de leitura difícil para míopes.
Desde logo a viagem é para todos. Sem nada a pagar. Sim, à pala, sem mais! "Grátes!" que é mais vernáculo.
Não, não há descontos para idosos, não há promoções para jovens. Não se pretende uma excursão do INATEL, nem uma viagem de finalistas a um qualquer destino do Sul de Espanha. Venham as pessoas.
E que nesta espécie de Arca de Noé se guardem impressões do Mundo, visões e cheiros, ritmos. Digitais, claro está. Não há roteiro. Não há destino. Tão somente há, e em grande medida, uma vontade desenfreada de correr o Mundo e ver o que nos espera o caminho.
Seremos capazes? Até quando? Não sei. Mas que se caminhe sempre. E muito. E que, a cada paragem se traga e se carregue a nossa vida de tudo o que há lá fora. E que entre e saia quem quiser. E que volte sempre. Que é a vida senão uma encruzilhada?
Começemos. Próxima paragem: terra dos sonhos.

Do lado de cá do vidro

Colo no vidro a face. E fixo o mundo do outro lado. A terra onde cai a chuva, onde deambulam pessoas com nomes e códigos genéticos; a terra onde correm carros, onde escorre a água, onde os pés batem em surdina. E vejo formas e cores, vejo luzes, ouços sons. Tudo são ecos e luzes fortes. E vejo mais lá ao longe. Pirilampos lançados ao céu. Olho para baixo. Há um rosto que fita o meu, por acaso. E segue na rua. Faz frio, de repente. E aqueles olhos que se fixaram em mim, por instantes, perdem.se no escuro.
Gosto de ver as coisas de cima. Parecem pequenas vistas assim. E é mais fácil acreditar que as sabemos. Que cabem todas nos nossos olhos, sem termos de levantar muito a cabeça. Estou sentado mesmo ao pé do vidro.
Mais um daqueles momentos em que sinto qualquer coisa percorrer-me a mente, embora seja ainda insondável. Apenas a sinto. Fecho os olhos.
Começa a chover. A rua deserta converte.se num tecido de linhas de água. E as luzes ganham mais magia. Velas no meio do bréu. Noto que o lume se apagou. Volto a acendê-lo não sem antes sentir o calor das brasas quentes na cara. Anoitece. A cidade pára.
Pareço viver entre dois mundos. Este, em que me é tão familiar o cheiro, em que as paredes me sabem e, esse outro, o das luzes, o das ruas e dos jardins. Das caras e dos olhares. Aqui dentro, deste lugar ondo vos olho, pareço conseguir ouvir o silêncio e falar toda uma outra linguagem. Aí fora, onde as coisas mudam, fluem, as folhas caem, as buzinas estoiram no ar, os semáforos mudam e os corpos se tocam sem se olharem, parece ser impossível este olhar demorado. Impossíveis as palavras. Estas palavras. Parece impossível gritar ou falar acima do Mundo. Contudo, os meus olhos apenas vislumbram até àquela esquina. Que há depois? Onde me leva a cidade, o turbilhão das gentes?
Colo os olhos o mais possível ao vidro. Não consigo ver o que há depois. Visto o casaco. Saio. A chuva não tarda parará. Vejo a água a escorrer no chão. Passa-me por cima dos sapatos. Mas os pés, intactos. Viro a esquina. A rua ali desce. Vejo as luzes no interior das casas e imagino os talheres a tilintarem nas mesas. Sigo a rua como se ela me puxasse para baixo. Inspiro fundo. O ar da rua. Vejo nas árvores as marcas do vento. E, ao longe, o rio.
Não falo. Vejo aquela massa, aquela profusão de cheiro a gente, o cheiro a passos, a vida. E sigo, rua abaixo. Eis que o Mundo me fala. E eu ouço. E vejo as caras na multidão. Uma criança que passa. E a gargalhada que ecoa. E isso é como uma almofada. Em que me apoio e sonho. Agora, de verdade. Caminho pela cidade. Dou ao mundo a minha presença. Que alguém no cimo de um destes prédios vê.