Rewind

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Voltando à vaca-fria

"Aprendemos das lições da vida que de pouco nos poderá servir uma democracia política, por mais equilibrada que pareça apresentar-se nas suas estruturas internas e no seu funcionamento institucional, se não tiver sido constituída como raiz de uma efectiva e concreta democracia económica e de uma não menos concreta e efectiva democracia cultural. Dizê-lo nos dias de hoje há-de parecer um exausto lugar-comum de certas inquietações ideológicas do passado, mas seria fechar os olhos à simples verdade histórica não reconhecer que aquela trindade democrática – política, económica, cultural -, cada uma delas complementar e potenciadora das outras, representou, no tempo da sua prosperidade como ideia de futuro, uma das mais apaixonantes bandeiras cívicas que alguma vez, na história recente, foram capazes de despertar consciências, mobilizar vontades, comover corações. Hoje, desprezadas e atiradas para o lixo das fórmulas que o uso cansou e desnaturou, a ideia de democracia económica deu lugar a um mercado obscenamente triunfante, finalmente a braços com uma gravíssima crise na sua vertente financeira, ao passo que a ideia de democracia cultural acabou por ser substituída por uma alienante massificação industrial das culturas. Não progredimos, retrocedemos. E cada vez se irá tornando mais absurdo falar de democracia se teimarmos no equívoco de a identificar unicamente com as suas expressões quantitativas e mecânicas que se chamam partidos, parlamentos e governos, sem atender ao seu conteúdo real e à utilização distorcida e abusiva que na maioria dos casos se vem fazendo do voto que os justificou e colocou no lugar que ocupam. (...)"
in O Caderno de Saramago
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