Rewind

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A criança que fui, às vezes, ainda sou eu. É verdade. Achamos nós que crescer é deixar para trás o olhar viçoso; o génio variável a exigir uma atenção desmedida; a capacidade ingénua e quase instantânea de ir, de fazer, de dizer, sem mais. É essa criança que, do nada, ainda me visita. Que teima em saber onde moro. E sempre as horas em que, sem saber, mais preciso dela.
Há noites em que a memória de mim se espraia, como um filme a preto e branco. E, a princípio, não custava ver-me ali actuar. Talvez porque (achava eu) não fossem meus aqueles passos, aquelas gargalhadas soltas e as lágrimas com a intensidade funda de um grito. Mas, fui-me sabendo eu, em cada um dos trechos.
Como mudei... Como cresceram as pernas e os passinhos de outrora são, hoje, como passos dados com os mindinhos. Por vezes, apetecem-me os passos vagarosos. Quem disse que o caminho teria de ser rápido?
Anseio aquele olhar com uma sede e uma fome sem limites. Lembro-me dos abraços onde me recolhi e me recolheram. E comove-me aquele sorriso aberto para quem, do outro lado, tirava a fotografia.
E os olhos que brilhavam de um contentamento, cheio e feliz.
Crescidos nunca foram bons a jogar às escondidas. E, mesmo por detrás das horas que pareceram acompanhar o crescimento e, hoje, correm também, esse miúdo de olhos brilhantes, de gargalhada e conversa faceis, descobre-me sempre.
Mesmo que as mãos tenham crescido e as pernas também, por entre a aparente espessura dos dias e do tempo que nos separa, o miúdo das fotografias volta sempre. E eis que o olhar brilha de novo e um sorriso se desenha para vincar a felicidade na pele do rosto.
E, por entre a cautela e o cuidado, que são vícios dos adultos, o puto ainda sou eu de cada vez que em mim há um desejo súbito de ir, de dar, de correr. Como se o primeiro passo tivesse sido ontem, como se nunca houvesse chegada e tão somente o simples querer, o sentir, sem mais.
Somos o mesmo cada vez que ainda rasgo os joelhos e dói da mesma forma; de cada vez que me seduz uma promessa de aventura e de surpresa; de cada vez que preciso de um regaço. Não o perdi, nunca. Ou ele nunca me perdeu a mim.
Chuto uma bola. E ouço-o rir-se, bem cá dentro.
"Deve ser de felicidade", penso eu.
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