Rewind

domingo, 26 de outubro de 2008

O amor

Como descrever o maior dos amores? Com que exacta combinação de palavras, fazer o decalque do que me habita e parece o mais perene dos existires? Não sei as palavras do meu amor. Não lhe sei decifrar o ritmo, a valsa. Não lhe sei a forma. Para to dar assim como o mais belo dos bocados de mim. Deram-me o impulso, o turbilhão; a serenidade e tudo isso junto e seguido e alternado. E alternando dentro de mim, mas sempre com a mesma voz e a mesma palavra, mas numa escala diferente.
Uma voz muda, um baque forte que se alastra e semeia. E se multiplica e me sai do corpo pelo ar. Deram-me um amor sem som. Um amor a quem nunca descubro a forma, apesar de sempre tentar. Não consigo segurar a luz nas mãos fechadas para ta dar. Ela escorre por entre os dedos para iluminar as partículas infímas do véu do ar.
Como dizer tudo e sempre e a cada momento com as exactas palavras? Não cabe nas palavras. Não cabe na vida que tenho. O meu amor é a vida de véspera. Mas sobra-me ainda muito, para além das horas que se contam por aqui. Fica sempre de fora o resto. O resto que é tanto.
O meu amor existe no verde das folhas, no orvalho das ervas. Existe nas luzes da nossa cidade. Existe em cada gargalhada perdida. Existe na espuma das ondas. Existe no vento frio e na chuva que te rega a pele.
Existe nas mesas dos cafés com o calor das vidas que por ali passaram. Existe na vertigem livre do voo picado de um pássaro solitário, por entre os flocos de nuvens.

Existe no mal e na dor do Mundo. Existe nas despedidas e nas lágrimas e sulcos das faces de toda a gente. Como algo que não nos atinge. Ou pode atingir e por poder atingir-nos, nos faz amar mais e mais de perto. Sempre a encontrar o nosso lugar num lugar com a mesma medida dos desaires do Mundo. O meu amor é feito do silêncio. Daquilo que sempre fica por dizer - sempre há mais uma flor que desabrocha, mais uma lágrima que serpenteia. E tudo isso cabe aí. Nesse contínuo, sempre igual. Sempre igualmente maior. E por isso me parece o silêncio ser o mais fiel guardião do que sinto - esse contínuo onde cabe tudo. Como tudo o que deixei debaixo do arrepio fácil da tua pele. Lê no Mundo a nossa medida. E não te esqueças do céu. De onde nos assistem as estrelas. A nós e a este espectáculo. Sempre a brilhar. O corpo do meu amor é isso mesmo. O céu com o pó silencioso das estrelas que, nas noites mais escuras, parece tanto o teu, cheio de pequenos sinais, que já sei de cor.



L.O.V.E -


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