Rewind

domingo, 26 de outubro de 2008

O acreditar


Vem segredar-me aos ouvidos as maravilhas do Mundo. Prova-me que ainda acreditas nele. Não quero acreditar sozinho numa coisa tão grande. Ou tão pequena. Tenho medo de não ser cuidadoso com este "acreditar". Acreditar é como a mais acutilante das sedes. Bebes desenfreadamente e não adormeces a secura.

Temo não saber esperar. Às vezes, o medo infiltra-se nos ossos e o corpo pesa demais. Não consigo esperar com o medo de que não aconteça. Sei que me vai doer. O não agir, o não fazer não significa que tenhamos conseguido ensinar à nossa natureza e ao nosso coração a virtude da paciência.

Apesar de nada fazermos, estamos à espera. Que é como se alguém andasse a mexer cá dentro, mas sem as mãos. À espera que o sonho apareça no meio do Mundo cheio de coisas nossas, mas tão pouco meu.

Diz-me que para lá do asfalto, do cimento e da areia e dos sinais de trânsito e pedras do passeio, acreditas.

E que esse sonho será uma coisa que viveremos acima disto. Apetece-me ver de cima. Que é o mesmo que sonhar. Mas junta-te a mim. Ou pelo menos concretiza o meu desejo e põe aqui o teu corpo para que não seja só a minha vontade sozinha a por-te lá.

Vem comigo. Não te posso prometer a mais bela das travessias. Mas pelo menos se formos dois a acreditar, já não terei medo de passar nos amarelos dos cruzamentos da vida. Com o teu acreditar terei outras vidas que viver. E poderei ouvir-te falar da semente que o mundo te deu do que não tens. Deu-to e, nesse dia, começaste a sonhar.

Conta-me do bom que viste, só para saber que há mais. Fala-me do mal que viste e viveste, só para saber que o bem que vimos e vivemos os dois, é mais certo que todos os arbítrios da vida.

Chora todas as tristezas comigo. Também aí, se choras, é porque não deixaste de acreditar e te dói. Deixa-me vestir a tua pele, nesse momento. Quando deixares de acreditar em ti, eu acredito por ti. Em ti.

Fala-me das maravilhas do Mundo. E aqui, sentado ao pé de mim, és o meu búzio que, por mais longe que esteja, fala sempre do mar. Porque acredita.


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