Rewind

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

do amor honesto, mãe,

ter-te aqui, mãe,
mesmo na sala ao lado 
ir espreitar-te enquanto lês
lá fora, um sol que desenha no fundo das paredes,
não ter que te dizer nada
e ficar apenas a ver-te como o pó que, em silêncio, se abraça aos móveis

ter-te, mãe,
só isso. 
não encontrar palavras que encham esse mar por mais que, aqui dentro, tudo o que chova seja felicidade

sabes, mãe, o amor dos filhos é complicado
ensinam-nos a falar, mas não nos avisam que há coisas que nunca saberemos dizer
que queremos pronunciar,
que queremos inventar com toda a força do sangue e do sonho 
mas que não conseguem nunca ser o sal inteiro para o mar que as mães são no peito dos filhos. 

digo-te, 

mamã, quero inventar a melhor palavra do mundo, 
a maior, a mais luminosa, a mais doce, a mais-minha-de todas, ok?

[só para dizer que te amo muito
e mais a cada dia]

mas as palavras não bastam - mãe, o amor tem tantas ondas e marés que as letras não chegam e a gramática é difícil.  

então, desastrado, cheio de medo, 

olho-te infinitas vezes, 
decoro-te como a um texto lido e relido
e sublinho-te sempre as partes mais belas -

o coração grande, o sorriso, as mãos atadas nas minhas
a vida toda -

em todas as passadeiras do meu caminho,
em todas as chegadas,
em todos os erros,
em toda a infinita estupidez com que, querendo amar-te, te magoei 

e sorrio.

depois, lembro-me de que sempre me ensinaste que nas ondas havia sempre a esperança de um regresso e, por isso, amavas o mar.  

ter-te mãe, 
e só isso. 

sabes, o mar que me cravaste no peito nunca o encherei com as palavras todas que mereces. 

[desculpa, elas não existem]

mas, prometo-te uma coisa:

olhar-te-ei sempre como se fita o horizonte. 

e, ao lembrar-me de ti, 
vou saber que, numa onda ainda por chegar, 
tu virás sempre -

só para me dares a mão 
e, no fim de tudo,
contra tudo, 
apesar de tudo,
chegarmos os dois juntos ao outro lado. 

RM|XXIV-I-MMXVII
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