Rewind

sábado, 14 de janeiro de 2017

mãe,

vejo-te na rua do costume, mãe
essa, onde as casas alinhadas ainda dormem
essa, onde, no céu, ainda ardem os sonhos mornos da véspera
só para que tu, da tua janela aberta de esperança, me possas ver voltar

eu sei, mãe, que me olharás até ao fim da estrada
os teus olhos serão quase tão infinitos quantas as vezes que me chamarás
mesmo em silêncio - [eu sei.]

e, mãe, mesmo que eu não olhe para trás 
[porque me dói]
prometo fazer surgir parapeitos inteiros de saudade em flor
e deixar-te um bilhete escrito no cheiro doce do amor de cada alegria pura que vivemos juntos

mãe, vejo-te na rua do costume, combinado?
essa, onde mesmo as árvores nos esperam aos dois para encher as sombras de um abraço
essa, onde nos passeios os outonos nunca são tristes
e tudo nos aguarda para que, como um segredo aceso no escuro, tu me recebas

vejo-te na rua do costume, mãe 

um café curto, 
um sorriso teu que é todo o açúcar de que preciso
e um cigarro enquanto as palavras são os casacos que vestimos um ao outro 
[a solidão é fria]

e isso basta. 

lembra-te, mãe, de me esperar na janela da rua do costume

[eu volto]

espero que nunca tenhas que colher as flores todas
que tenhas apenas que pedir um café curto e acender um cigarro 

e eu chegue rápido. 

afinal, todas as ruas são a do costume
se nelas se repetir, em cada vez, o código postal do nosso amor. 


RM| XIV-I-MMXVII
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