Rewind

quarta-feira, 10 de março de 2010

da auto-ajuda (ou talvez, não.).


Podia começar por falar dessa tão afamada auto-ajuda. Dessa vastíssima secção que ocupa parte de qualquer livraria que se preze (ou despreze) mas que queira, em suma, sobreviver - são sinónimos, ao que parece. E é ver toda uma parafernália de céus azuis, rosas de cores muito vivas e sumarentas; títulos em que coexistem (nem sempre pacificamente) um sentimento - dos bons como nostalgia, saudade, alegria e afins derivados e um qualquer elemento natural - "ao luar", "na praia". ("no raio que os parta", não?). Podia descrever como quase tenho a certeza que aquelas capas são o pesadelo de um qualquer designer desesperado que finalmente percebe que devia ter dado ouvidos à mãe ou ao pai. Podia fazê-lo, mas deve-se começar por coisas menos indigestas, que ainda agora aqui chegamos e não queremos já dissuadir os leitores mais incautos que aqui tenham vindo parar por acaso do destino.

A auto-ajuda anda a fazer estragos, que é como quem diz a ajudar uns e a prejudicar outros. Esses que têm de presenciar episódios como o que aqui venho contar.

Elas eram duas - assim sentadas muito juntas num café de uma rua qualquer. Uma com a perna a estalar na licra num género "pseudo-nasty"; a outra mais discreta mas com uns borrões nos olhos que fariam uns murros nos ditos parecer uma benção do Altíssimo. Eram uma parelha perfeitamente inócua, não fosse terem o dom da palavra e uma vida para viver.

Sei que não se deve escutar conversas alheias mas, naquele caso o alheio tornou-se de todos os que, por acidente, literalmente, suspenderam as suas vidas naquele lugar, por uns instantes.

Começou uma: "Sou escorpião, Cristina. É o signo da paixão, percebes? É por isso que eu preciso tanto daquilo." Suspende-se brevemente aqui a narrativa dizendo que a libidinosa de licra movia os braços em gestos amplos quase enfiando o mindinho e até quem sabe todo o corpo no olho da interlocutora. Todo o público ouvia, fingindo à superfície com gestos como o trincar e o beber que nada daquilo era anormal. Eu, incluído.

A outra respondeu: "Escorpião é a morte. Por isso é que tens que lutar e deixares de enganar a tua própria natureza." Note-se, a breve trecho, que o lutar pareceu saído de uma qualquer cavidade visceral, arriscando-me a dizer que houve risco da senhora cuspir a pleura. Chamemos-lhe convicção.

"Morte? Desculpa, significa paixão. Por isso é que não consigo decidir. Eu sei que quero aquilo."

"Mas qual é o problema de escolheres?"
"Oh Cristina (que passamos a ser todos nós) até é fácil escolher. Este "cansa-se", percebes? E o outro não. Mas eu já não tenho 24 anos. E isto é romântico. E ele leva e dá."

"Mas tens que lutar para não negares a tua natureza. E tu não és assim. É porque não estava escrito."

Entretanto a conversa muda e a Cristina, que não sendo amiga de ninguém, depressa se fez intíma, continua: "Eu paguei 200 euros no "inxame". Ai meu deus, tenho que passar.

"- O destino há de querer que passes."

Com esta lapidar frase que pareceu encher (mais) Cristina de ânimo, a conversa continuou:

"Ele é psicólogo e a mulher dele de certeza que é tarada. Só ele é que ainda não percebeu."

"Temos que ir embora."

"Tá benhe. Vamos."

Foi isto que me foi dado como acompanhamento do lanche de hoje. Os diários intímos do Moby Dick e da amiga. E, de repente, todas aquelas secções das livrarias com conselhos de gente com nome de abelha; com livros que nos mandam ir aonde nos leve o coração, parecem estar a trazer graves consequências. "Está escrito, dizem." E eu penso para comigo como é que pessoas que mal sabem ler, conseguem perceber o que quer que seja.

E percebo que a maioria desses livros, desses que auto-ajudam, dizem o que as pessoas querem ouvir, não o que elas precisam de ouvir. E trazem um sol gigante na capa e promessas de volúpia na areia. E isso deve ser, certamente, "aquilo" que toda a gente quer. (ou não.)
PS: A palavra "rodada" não é um trocadilho ordinário sobre a menina nasty de licra.
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