Rewind

domingo, 17 de abril de 2011

noite.

O ar quente como um beijo junto ao contorno sereno do teu rosto. A noite vestida de uma nudez explícita e a cidade como um manto iluminado de encontro ao mar.

O teu corpo como o declive por onde desliza o desejo. Há uma imagem presa no reflexo do vidro dessa janela - vejo os teus braços presos nos meus e lembro a leveza intensa com que o teu corpo se abandona ao véu do silêncio com que o amor nos envolve. Vejo-te o sorriso iluminado como um brilho mais forte que venha coroar a chama das horas que se despiram em cinzas.

Há um rumor pequeno de vida no ventre das ruas - essa vida que se cumpre enquanto os dedos acendem e tocam as cordas da tua pele.

Escreves o meu nome na transpiração dos vidros e espreitas a praia vazia com o olhar preso na abóbada enorme de um céu amplo e enorme. O teu corpo quieto de encontro à brisa que sopra e o arrepio que te faz correr para dentro.

E vejo que o amor se assemelha muito a uma forma de sequestro - fica-se refém dessa dimensão que só nasce em nós depois de certos voos; deseja-se para nós a medida de um corpo que não é o nosso.

Fica-me nas mãos o cheiro do teu corpo que é maresia e desejo apagado na espuma da noite. Procuro o teu olhar adormecido e a forma quente do teu corpo imerso num sono profundo. Leio o que me ficou escrito depois de ti. E percebo como os teus beijos são uma janela aberta sobre o mundo; relembro como o teu corpo se assemelha em tudo a uma alameda de cheiros suaves e intensos. Apagou-se na janela o fim de tarde e em ti apaguei o desejo como um tiro à queima roupa - um lampejo de fogo e sede.

A janela continua aberta - no vidro já não se vê o teu rosto. Dormes perto de mim e levo comigo para o sono o teu rosto gravado bem fundo no vidro do olhar.
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