Rewind

quarta-feira, 8 de junho de 2011

mãe,

Há algo que nasce com os dias de Verão. Há uma luz inteira que desmaia na areia da praia. E o mar parece vestido de uma seda leve e de cores intensas.




Vive preso no Verão esse tempo de calor imenso e de noites povoadas do rumor das ondas junto à casa. Revejo-te com os livros presos entre as mãos e o fumo do cigarro que serpenteia. Um imenso jardim com uma linha de azul como uma baínha cravada no horizonte.

As roupas leves e o olhar perdido nas páginas - essas horas de leveza em que a beleza é uma chaga aberta no corpo aceso dos dias.



Recordo a Meia Praia - a baía como um larguíssimo ventre onde o vento corre assobiando. A cal e a calçada e os infinitos passos que demos - eu, abrigado na sombra fresca dessa família que me ensinaste a segurar pela mão no caminho da vida.




Há uma saudade dessas janelas e portas abertas para o escuro com as luzes da casa como pequenos faróis sob o véu opaco da noite.






Há o som das palavras trocadas e a memória feliz de me saber guardado no fundo dos teus olhos. Esse teu olhar imenso e melancólico a que as fotografias emprestam saudade.



Lembro a cidade como um corpo quieto e sereno sepultado na luz da curva. As rochas com arestas rasgadas e o som das gaivotas. As noites de peixe grelhado, sorrisos acesos, bebidas geladas e uma meninice que desabrochou nessa cumplicidade que nos talhou iguais.



Lembro sempre o avô e a luz que refulge no azul dos olhos da avó.



No Verão a luz cai direita no corpo das memórias e há um eco que acorda.



Lembro a pele dourada e o teu rosto iluminado perto da janela. As tuas horas de leitura e de escrita e as nossas de conversa defronte de uma planície azul quase em flor. Há flores de espuma semeadas nos poros da areia.



O Verão lembra-te a cal e a cidade com uma praia imensa como um abraço. A cal e a cidade lembrar-me-ão sempre de ti e de nós - daquilo que se guarda preso debaixo da pele e que se assemelha muito às memórias e cheiros que os teus livros guardam dos jardins e praias para onde os levaste. Para onde te levaste e nos levaste para resgatar esse amor à vida que vive nos cheiros imensos e fundos, nas caminhadas na areia, no fogo do sol e nas flores de um jardim de onde se vê o mar.



Lembro os ecos da noite - como um imenso estendal de negro e revoadas de vento; com vozes perdidas na distância e um rumor a gente feliz.



Recordo a casa e a luz dos teus olhos no jardim perto do mar. Há um fio de fumo que serpenteia no ar e o teu rosto acende-se porque as linhas que lês, as sentes na pele.






Levantas o teu rosto e sorris-me. E sei, mãe, que há um só lugar onde se chega e se quer ficar. Preso no fundo dos teus olhos, náufrago desse amor feito de dias grandes e noites que a alegria ilumina e acende junto ao mar.



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