Rewind

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Avó,

Habituei-me a ti como o olhar se habitua a uma paisagem - sempre cativo de cada lembrança que escorrega do lugar onde te guardarei depois de tudo.
Habituei-me às tuas palavras e à tua inteligência como uma criança que se vicia na surpresa constante de se sentir maravilhado, de se sentir curioso por compreender melhor aquilo que sempre lhe servira no corpo, com a exacta medida dos braços que sempre se abriam para ele.
Tive-te sempre lá - o azul marítimo dos teus olhos, o calor do teu sangue onde mora tudo e todos quantos não consegues abandonar à sombra do tempo.
Sabes, Avó, tornaste os dias cheios desses pequenos nadas que são como rituais que ainda hoje sigo para te cumprir a ti e ao Avô - são pequenos canteiros de flores onde as lembranças são frágeis e misteriosas como as orquídeas do teu jardim.
Tive as caminhadas, a tua simplicidade, a tua ironia fina e os teus erros que te fizeram mais humana aos meus olhos e me provaram que temos sempre mais força depois de todos os abalos, depois de todas as feridas que o instinto me manda que te ajude a curar.
Habituei-me à tua admiração como a um cobertor numa noite fria desse Inverno do Norte, temperamental e espesso.
Procuro-te ou, afinal, acho que sempre me encontras - chegas com essas mãos compridas, esse coração bordado pelo fio da memória que desenrolas nesses serões em que eu e o A. te vamos ver para ficarmos a ouvir-te e a sofrer com a saudade que vamos ter quando a soma dos dias se tornar para sempre uma insuficiência para nós.
Habituei-me ao teu exemplo - a desejar ser um pouco como tu - crescer para te fazer sorrir de orgulho. Levo-te presa nos meus ossos - de onde estou espero que estejas bem, conto os dias para mais um desses chás em que adivinho essa saudade dos teus que não passa, que não deixas morrer porque o teu nome nasceu do mesmo chão onde os outros te quiseram feliz e uma gaiata faladora e curiosa.
Cosi em ti parte do sentido da minha vida - o azul do céu como uma escala menor face ao vibrar do teu olhar - esse poço de luz que viu mais longe.
És-me uma espécie de vício que o coração escolheu e foi mais feliz por ter caído no colo inteiro do teu carácter. Ser-me-ás a lembrança mais doce, o caminho que percorri sempre alegremente, essa negação do tempo que inunda os espaços de luz e se chama paz.
Tempo não condiz contigo porque toda uma vida não seria suficiente para deslindar o mistério do teu ser ou para dizer obrigado, como a fazer nascer rosas no manto fresco da tua gargalhada.
És um dos altares da minha fé - do cimento da tua vida, fica-me a certeza que foste um milagre no meu caminho.
Acredito que iremos sempre encontrar-nos - chama por mim e irei a correr depressa como que a fugir do tempo.
Para o fintar e chegar primeiro.
Para chegar a ti e ficar com essa leveza por te ter abraçado mais uma vez. E continuar.
E, quando distraída já não me vires, olhar para trás e fixar os contornos exactos desse sorriso que te fica no rosto e que como o meu apenas diz:
"Obrigado."
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