Rewind

quarta-feira, 3 de junho de 2015

para o né|

I.VI.MMXV
 
cada vez que faço anos, agradeço aos meus pais pelo meu irmão.
 
é verdade.
 
não sei como se diz obrigado vinte e tal anos de forma diferente, mas eu insisto.
 
dizem-nos que nascemos com cinco minutos de diferença.
 
e foi isto - desde o início, o Né esperou por mim.
 
e ter quem nos espere é do caraças - é ter um princípio de casa no arrepio de cada dúvida, é ter um miradouro de calma e riso sobre as desgracinhas que, de repente, quando alguém nos diz
 
está tudo bem
 
já não são nada, nunca foram nada - afinal, o meu irmão entende as várias línguas do meu silêncio.
 
tenho um irmão que é a minha cópia, é o que nos dizem.
 
eu nunca acreditei - o Né sou eu, mas os olhos dele são os do meu Avô, as mãos dele são mais compridas e o cabelo rapado só lhe fica bem a ele.
 
para mim, ficam os brincos e pouco mais.
 
e o Né percebe de carros como ninguém, usou uns sapatos Oxford aos treze anos como ninguém e organiza tudo como ninguém.
 
tenho um irmão do caraças, só vos digo.
 
o meu pai diz que o meu irmão lhe lembra do pai até quando discutem. sobretudo quando discutem.
 
e eu quero acreditar que o meu pai tem menos saudades do pai dele e isso é bom.
 
o meu irmão tem um abraço que é como uma porta que não se fecha à chave - assim, à moda antiga, antes do tempo dos ladrões de leste e coisas tristes.
 
costumo entrar e fico para ali esquecido de voltar - nesse lugar, onde todos os relógios são inúteis e onde esvazio os bolsos de toda a tristeza e desencanto.
 
só o meu irmão sabe quantas mulheres amei e como as amei.
 
(coitado, e nunca se riu do meu amor em que os olhos são quase sempre os dedos.)  
 
às meninas apetece-me dizer: o meu irmão é muito melhor do que eu.
 
a toda a gente, já agora. porque é verdade.
 
um irmão como o meu dá jeito quando for comprar o meu primeiro Aston Martin - eu só sei que o quero verde garrafa. ele já sabe tudo, já reviu tudo e escolhe sempre o melhor.
 
talvez o meu irmão seja assim - eu sonho com um carro verde garrafa e ele certifica-se que o meu carro verde garrafa é o melhor que há para mim.
 
ter um irmão assim não é para todos, não senhor.
 
estou velho e repito-me, está visto.  
 
quem ama, repete a verdade julgando com isso que a torna maior.
 
fazemos anos.
 
vinte e oito.
 
(e a mim a saltar-me a tampa com os amigos de lisboa: ah já são vinteeóóito.)
 
olho à minha volta:
 
uma Mãe que eu não merecia (check)
 
uma Avó malandra e com olhos do azul mais bonito que há (check)
 
um Pai que me ensinou que nas diferenças que temos também há muito amor (check)
 
uma Tia-Avó que foi a mãe da minha Mãe quando a dela morreu e que é um exemplo de bondade (check)
 
a saudade dos meus Avôs que se senta sempre comigo à mesa (check)
 
e a Gó ao telefone a dizer: Ricardinho e Dédé parabéns! e a chorar do outro lado (check)
 
ter um irmão como o meu e uma família assim é como receber um presente que, não sabemos como, às tantas, nos calhou na rifa por engano.

é que eu não me portei sempre bem nem nada.
 
mas eu não os devolvi.
 
(afinal, não tinham defeito e pode ser que se esqueçam de mos vir roubar). 
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