Rewind

domingo, 12 de agosto de 2018

Casa,

Há, segundo creio, uma espécie de geografia dos afectos - somente o amor povoa as grades das nossas costelas das flores mais bonitas, de flores que nunca murcham. 

Há uma primavera-para-sempre que começa quando nos escolhem para ser a terra, o berço dos sonhos mais bonitos; há um baú que quem escolhe o amor acaba sempre sendo - o perfume intenso das velas sempre acesas debaixo das memórias que a maré do tempo não apaga nunca. 

Há uma paisagem que somos nós e, no fim de contas, quem amamos é o mapa que torna possíveis todos os regressos, todas as emendas, todas as vezes em que o caminho prossegue, se espreguiça, se alarga e nos leva juntos até ao fim e não nos afasta de nós mesmos. 

Os meus olhos foram sempre janelas abertas - memorizei, como pude e com a alegria do coração, todas as formas de voltar a casa. 

O abrigo que vocês me são, bem sei, tem a porta no trinco - entro, subo as escadas - os dedos, como sobre a pele de alguém conhecido, percorrem sempre as paredes todas; há no ar o perfume da infância que as jarras preservam e fazem boiar. 

Quem ama não tem nunca um silêncio calado - há um alvoroço nas entranhas, há um soalho que treme porque alguém nos trepa os ossos e nos assombra com luz o sótão da memória. 

Amar é sermos, para sempre, uma casa habitada - a mobília que trazemos dentro é feita, justamente, de todos quantos nos ensinaram o coração a girar o disco do amor. 

E o amor é uma dança que não tem coreografia - começando a música, nada há de ensaiado, de repetido - tudo é um milagre; o espanto no leito aceso dos olhos e uma vontade de, mesmo que de improviso, os corpos não se descosam, não se deslacem, se não separem jamais. 

A minha fé veio toda do altar que tem sido o vosso colo - por isso, obrigado. 

Há uma geografia dos afectos, dizia. 

Eu, pela minha parte, serei sempre a vossa morada - por perto, o mar e as portadas dos olhos sempre abertas. 

A porta no trinco e um silêncio nunca calado. 

Cá dentro, a música que alguém, um dia, pôs a girar e que se chama amor. 

Subam as escadas, pisem-me o soalho do sangue e encham de luz o sótão todo da memória. 

Passem, já agora, a levar as flores que plantaram na varanda de ferro das minhas costelas. 

É primavera-para-sempre, sabiam? 

E as jarras têm de cheirar, até ao fim, à alegria de uma infância feliz que não pode acabar nunca. 

Amo-vos. 

RM| XII-VIII-MMXVIII

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