Rewind

sábado, 31 de julho de 2010

sexus_henry miller.

"Escrever, reflecti, deve ser um acto despido de vontade. A palavra, como a profunda corrente oceânica, deve subir à superfície impelida pelo seu próprio impulso. Uma criança não tem necessidade de escrever, é inocente. Um homem escreve para se libertar do veneno que acumulou, em consquência do seu falso modo de vida. Tenta recapturar a sua inocência, mas só consegue (escrevendo) inocular na palavra o vírus da sua desilusão. Nenhum homem escreveria uma palavra se tivesse a coragem de viver de acordo com aquilo em que acredita."


"Falar é apenas um pretexto para outras formas de comunicação mais subtis. Quando estas são inoperantes, a fala morre. Se duas pessoas estão empenhadas em comunicar uma com a outra, não tem importância absolutamente nenhuma que a conversa se torne desconcertante. As pessoas que insistem na coerência e na lógica raramente conseguem fazer-se compreender. Estão sempre à procura de um "transmissor" mais perfeito, iludidas pela suposição de que a mente é o único instrumento para a permuta de pensamentos. Quando uma pessoa começa realmente a falar, dá-se. Profere as palavras despreocupadamente, em vez de as contar como se fossem moedas, e não se importa com erros gramaticais ou factuais, contradições, mentiras, etc. Fala. Se falamos com alguém que sabe ouvir, esse alguém compreende-nos perfeitamente, mesmo que as palavras não façam sentido. Quando se consegue este género de conversa, há um casamento, quer estejamos a falar com um homem quer com um uma mulher. Os homens que falam com outros homens têm tanta necessidade deste casamento como as mulheres que falam com outras mulheres. (...)

Quanto a mim, conversar, conversar verdadeiramente, é uma das mais expressivas manifestaçãoes do homem por um casamento ilimitado."


"Enfim, pondo a coisa do modo linear como me ocorreu ao espírito, digamos que se tratava do seguinte: qualquer pessoa pode curar a partir do momento em que se esquece de si própria. A doença que vemos em toda a parte, a amargura e a repugnância que a vida inspira a tantos de nós, mais não são do que o reflexo da doença que trazemos no nosso interior. A profilaxia jamais nos protegerá da doença do mundo, porque trazemos o mundo dentro de nós. Por muito maravilhosos que os seres humanos se tornem, a soma total será um mundo doloroso e imperfeito. Enquanto vivermos com a consciência de nós próprios seremos incapazes de nos avir com o mundo."


"O caminho é infinito, e quanto mais longe chegarmos mais a estrada se alargará. Os lamaçais e os charcos, os pântanos, as covas e as armadilhas, encontram-se todos na mente. Esperam de tocaia, prontos para nos engolirem no momento em que deixarmos de avançar. O mundo fantasmal é o mundo que não foi completamente conquistado. É o mundo do passado, nunca o do futuro. Avançar agarrado ao passado e como arrastar uma corrente e uma bola de ferro. O prisioneiro não é aquele que cometeu um crime, mas sim o que se agarra ao seu crime e não deixa de o reviver. Somos todos culpados de um crime, do grande crime de não viver a vida na sua totalidade. Mas também somos todos potencialmente livres.
Podemos deixar de pensar naquilo que não fizemos e fazer o que quer que se encontre ao nosso alcance. Ninguém ousou ainda, verdadeiramente, avaliar as potencialidades existentes em nós. Compreenderemos que são infinitas no dia em que admitirmos, para connosco, que a imaginação é tudo. A imaginação é a voz da ousadia. Se há algo de divino em Deus, é isso: Ele ousou imaginar tudo."


"O medo, o medo de cabeça de hidra, desmedido em todos nós, é uma herança de formas inferiores de vida. Cada um dos nossos pés está num mundo, daquele de onde emergimos e naquele para o qual nos encaminhamos. É esse o mais profundo significado da palavra "humano", o significado de que somos um elo, uma ponte, uma promessa. É em nós que o processo da vida se dirige para a realização. Temos uma tremenda responsabilidade, cuja gravidade desperta os nossos temores. Sabemos que se não avançarmos em frente, que se não realizarmos o nosso potencial, recaíremos, nos desintegraremos, e arrastaremos o mundo connosco. Trazemos Céu e Inferno dentro nós: somos os construores cosmogónicos. Temos possibilidade de escolha, e a criação é o nosso campo de acção."
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