Rewind

domingo, 11 de julho de 2010

tinha um desejo: amar.

Lembro-me de discutir o desejo - podia escolher o mapa que os meus dedos desenharam no teu corpo para o dizer. Talvez o devesses perguntar ao teu corpo, pensei, que o ouviu do meu. Mas também me perguntaste pelo amor. Percebo que semprei falei muito de noite - podiam viver-se vidas inteiras, outras vidas, de noite. E confesso-te que o desejo é o impacto mais intenso que se pode sentir - como se os corpos estivessem fatalmente munidos de cargas que, de súbito, se atraem. Como um saco de ar que, de súbito, rebenta. E a plenitude de boiarmos num mar de esquecimento, num mar em que estamos vivos mas sem a parte de nós que dói, que estilhaça, que se cansa, que exige.
Percebi-te nas palavras o arrepio - esse arrepio que chega quando o desejo acaba: os corpos e as marcas dos movimentos da paixão como despojos e apenas isso; as horas apenas isso. E tu não querias isso e falar era a forma de afastares essa imagem, de garantir que tudo apenas acabava de começar aí; não querias abstracção e apenas isso. Onde está o corpo do teu amor? Como se o pudesses agarrar com as mãos para cobrires a tua pele.
Percebo-te nessa imagem atroz da paixão justamente descarnada; de corpos como cinzas de um fogo que já não há. E a consciência de que tudo pode acabar exactamente aí.
Para ti o amor não pode ser refém de um corpo. Mas sei que perceberias que as coisas não têm que ser verdadeiramente assim. Então, lembrei o que acontece depois: quando chamo o teu corpo para abrigar o meu é a ti que eu chamo; quando acordo de manhã é a ti que quero ver por detrás da luz dos teus olhos - com aquele frio das horas primeiras dos dias de Verão. Talvez o desejo seja forma e o amor substância. E é essa substância que traz ao desejo tantas formas: as formas que os beijos deixam gravadas em ti; a forma como as palavras que me segredas todas as noites me abrem o peito. E cedo perceberás que não há ali só forma; que dorme connosco a matéria inivísivel que justamente dá nome a tudo isso que ardeu. E poderás ler nas cinzas o teu nome e os teus predicados que tento devolver à tua pele, sob a forma de um beijo. O amor é voz; o desejo sozinho é um monólogo. Vês as horas que passamos: e reparas que levas no corpo uma confissão, como se dançasse em ti o frémito da paixão muito depois de mim.
O desejo foi o rastilho mas foste tu quem me fez ficar. E isso que nos cobre os corpos enquanto dormimos é um fogo que arde mas não queima, que não se queima; como a luz dos teus olhos: funda e serena; como um beijo doce e longo com que inauguras o dia que acabou de começar. Nesse dia como em todos. Sempre.
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