Rewind

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Gó.

Há sempre espaço na vida de uma pessoa para esses amores fáceis, para esse espaço que tem sempre a exacta medida que nos serve nas ausências e nos alimenta os sonhos.




Muita da minha vida se continua a apoiar na facilidade com que as palavras se conjugam e os corpos se compõem na presença das pessoas que vestiram o hábito e a convicção de gostar de mim.




A Gó provou-me que há uma grandeza que floresce nas almas e que faz do amor uma espécie de missão. Admiro-a, com cada lembrança que guardo dela, sempre, a fazer-me ampliar esse sentimento como uma narrativa nunca acabada.




Tem nas palavras uma doçura que nos desarma tão rápido como nos devolve essa ingenuidade que empresta ao amor uma tonalidade primaveril, fresca e luminosa.




Há, guardada dentro da armadura resistente do seu corpo, toda a epopeia da minha família. Hoje, enquanto lanchava a mesa farta que prepara para nós, como num ritual antigo de que não sabe desistir, as suas palavras escorregaram para esses tempos do meu avô por perto, para o nome da minha avó que pronuncia como se enfeitasse um altar com flores.




É sempre assim - somos para ela como uma causa, uma luta que não lhe é emprestada porque justamente ama os protagonistas com uma força que reclama sempre justiça.




Sinto, quando a vejo, uma leveza que significa um filtro no ruído do mundo, uma gratidão que é como um longo eco que me impele na sua direcção.




Há uma família que nos nomeia por coisas que o sangue não traz, mas que o granito dos gestos faz brotar bem fundo nele, de forma definitiva.




Fala-me dessa infância difícil - o corpo despido de confortos gratuitos muito cedo, o trabalho, os pais e as irmãs que se uniram todos para serem maiores. E, sempre, como um mar de luz onde navega habilmente, uma fé das mais bonitas que conheci.




Os seus valores respiram nas palavras, com essa serenidade que nasce dos pilares sólidos em que assentam. É um ser humano enorme - o seu olhar é fundo, de uma bondade que se parece a um abraço muito longo e repetido vezes sem conta.




Tem uma gargalhada malandra - ri-se ao lembrar-se de mim e do A. enquanto nos íamos viciando nessa vida inteira de os ter a todos por perto.




A minha avó, os meus pais, o meu avô e um correr de vida fácil, perene e quase definitivo.



Com ela conheci o carinho da gratidão - põe, na memória do meu avô, a saudade que tem desse tempo em que gostava de observar a família feliz na grande sala.



Suspeita que há em mim e no meu irmão, um fanatismo que é a forma imortal dos afectos - sente-se lembrada quando lhe provamos que, em nós, também se gravou aquela tarde, aquela soma de dias indistintamente bons, felizes e nossos.






Foi uma aliada, uma cúmplice nessa fórmula de sucesso que somos - sempre devota do que somos e fascinada por onde conseguimos chegar. Digo-lhe, porque o sinto desde sempre, que ela foi, em parte, o segredo que fez funcionar a engrenagem daquela casa.



Associo o mistério dos seus olhos ao facto de ser como uma guardiã desse tempo em que o mundo se preparava para mim.



Fala-me dela e dos meus avós como se, desde o início, nos esperassem, se preparassem para nós.



E agradece a Deus que a minha avó viva com essa alegria cravada no peito de se poder abrigar no nosso amor por ela e pelo que nos deixa.



Contagia-a o bem que cada um de nós sente e isso basta-lhe. Digo-lhe que, graças a ela, o bem se tornou um lugar mais bonito, se fez uma realidade sempre mais perfeita, mais inteira.



No seu dedo há uma aliança. Riu-se, hoje, ao relembrar-nos a meninice:



"- Oh Gó, mas afinal com quem casaste tu?"



"- Oh meninos, eu casei com Deus."



Hoje entendo que o seu casamento foi com tudo o que tocou com as suas mãos grandes e bondosas. Casou-se, com o peso dos sacramentos, com essa vida que agradece ter desaguado nas nossas. Eu, enquanto me agarra num abraço, agradeço estes bocados que me provam o quão fundo se podem gerar elos e laços de ferro.



O ferro que nos une é essa admiração que se ergueu acima da vontade, acima do tempo, acima de tudo.



Senti, hoje, como sempre, essa certeza de não querer ter nascido noutro sítio, ou desejar outra vida. E, à mesa do lanche, nesta tarde, pudemos ser essa orquestra que se afina pelo eco do que sabemos ser nas vidas uns dos outros.



Isso basta-me - estas horas e, o que me nasce delas, alarga-se aos dias seguintes e fixa-se como uma mancha de luz na memória do tempo.



Ser feliz, para mim, é, em boa parte, recordar. Recordar é abrir uma porta e ter gosto de voltar a entrar. E, para mim, voltar a entrar na casa dos meus avós, pela mão dos meus pais e encontrar a Gó, é repetir o que nunca bastou.



Despedimo-nos dela:



"- Toda a sorte do mundo, meus meninos!"



Em silêncio, enquanto saio, sei que, na minha vida e nestas tardes, isso é um desejo há muito realizado que a Gó nem se apercebe de ter tornado real, para nos fazer felizes.

Enviar um comentário