Rewind

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Você na TV.

Assistir a um programa de televisão dá, hoje em dia, vontade de voltar aos tempinhos do preto e branco simples, com vozes que pareciam envernizadas e pertenciam a esse género de locutores engomadinhos-guardiães-dos-bons costumes.
Começo por reiterar que nada tenho contra a cor que, aliás, existia no mundo muito antes de nos entrar pelos olhos dentro graças à caixinha mágica, hoje, da grossura de uma folha de papel.
O problema reside, justamente, no facto de a televisão actual se poder bem definir como "tebê-chiclete" - abunda toda a vasta gama de cores fluorescentes e apenas essas.
Veja-se e conclua-se, depois, pela justeza ou não da sentença que ditamos.
Tudo começou com essa criatura a que a literatura dos guiões chamou de Floribela - de repente, era super giro tratar de criançinhas, falar com árvores e acreditar que toda a gente aprecia essa modalidade desportiva chamada alpinismo social, desde que devidamente disfarçada, claro.
Que voltem os hippies, a boa música e os tarolos que o mundo sempre tinha outro colorido.
Portugal passou a apreciar esses melodramas plastificados dessas Lolitas pseudo-puras e perseguidas pelos azares da vida e do mundo.
O "amore" passou a levar um "e" no fim e, veja-se, ainda ninguém sonhava com essa evolução-natural-por-decreto do acordo ortográfico. Mas as pessoinhas viviam felizes, atafulhadas com os novos heróis do contemporâneo - a heroicidade dura pouco e as heroínas, coitadinhas, cedo largam os folhos e os pinchos histéricos e vão rápido quitar a prateleira e brincar aos médicos, mas a sério, desta vez.
As heroínas são umas brincalhonas que, ao contrário da Heidi, não pulam, mas cavalgam as montanhas deste mundo. E, talvez, se perceba agora que todos "deêm no cavalo.", pois então, com a Cicciolina a presidir às lides e dar o exemplo (e o resto também.)
Os Marcos de hoje em dia dão pontapés em directo - "falar pela frente" é, literalmente, chapar a verdade nas fronhas das pessoas.
As heroínas podem ser gordas - longe vão os tempos dessas belezas que só a cabeça dos homens pode imaginar existir. Mas, gorda que é gorda para ser famosa, tem de querer deixar de o ser. A isto se chama a auto-estima dos tempos da chiclete: "Aceitamos que sejas o que és, desde queiras deixar de o ser, tass?"
E, ligado o aparelho, podemos ver o desfile triste que é o aproveitamento pela cultura do plástico dos fantasmas que ajuda todos os dias a criar.
Vivemos no tempo em que a hipocrisia é, essa sim, obesa mórbida sem que ninguém se preocupe em mudar o disco e pôr a tocar a banda gástrica.
Depois chegou a casa dos segredos - com ela voltou aos ecrãs essa comadre casamenteira que alertava as pessoas para não se esquecerem da escova dos dentes. Ela, lá por casa, usava o piaçaba que era o mais indicado para pôr a brilhar essa preciosa reserva de marfim.
E está o espectáculo montado - desculpem-me o termo, mas decerto não haverá alminhas preversas que desconfiem da idoneidade do palavreado.
Assistimos a um desfile de um conjunto de criaturas saídas de uma linha de montagem (literalmente) da sociedade do plástico e da chiclete: temos ruído e brilho e o argumento da história mede-se, literalmente pelo tamanho do bícepe e da copa das meninas.
Nada contra pessoas saudáveis, naturalmente. É até giro ver as gordas que sofrem contra as saudáveis que tentam convencer meio mundo que sabem guardar um segredo melhor do que (não) guardaram outras coisas na vida.
E a Ordem dos Médicos agradece encarecidamente a descoberta de novas doenças - uma tal de "apeneira do sono". Isto faz avançar o país, não se duvide. Todos aprendemos com esse circo da estupidez em directo - o circo dessas abéculas, literalmente, mortinhas por armar a tenda.
A Sociedade de Geografia agradece as lições dadas ao "pobão" - os continentes estão, agora, "para cima" ou "para baixo". Percebe-se, de resto, a alusão. O melhor ensino é aquele que adequa as matérias à linguagem dos petizes. E, as meninas sabem que no mundo, às vezes, se fica por cima ou por baixo, que é giro mudar de posição e alargar (literalmente), os horizontes.
A sociedade chiclete está ao rubro na tebê - e a "frase mastiga e deita fora" é o slogan para esses directos a fazerem a apologia da carne mastigada e dos afectos transformados num diário de alcova foleiro e devidamente pago - o taxímetro está a contar, pois então...
Há uma apologia da espiritualidade e, quiçá, do respeito pelas doenças mentais - as pessoas ouvem "a Voz" e cumprem os seus ditames.
É lamentável ao que chegam os apelos que algumas alminhas sentem hoje - vivemos num tempo em que mais depressa se implanta silicone do que uma república ou outra ideia qualquer.
As pessoas alimentam-se da fantasia do proibido vivido pelos outros - é giro descobrir uma freira, uma mulher que dormiu com mil camionistas e uma girafa, um homem que se chama Tatiana quinta e sexta à noite. E as pessoas que assistem agarram-se a isso como à verdade oculta do mundo e da coisas.
É triste assistir às trocas e baldrocas das benfeitoras das manhãs - a Julinha ou o "Megafone" vs a Fatinha ou a "sou tanto melhor para os descamisados deste país, quanto mais me pagarem, coiso e tal."
A vida deixou de ser contada como vida e passou a ser um espectáculo - a encenação deve-se a algum lunático e o guião a um infeliz qualquer que se acha Nabokov porque as meninas que são personagens falam com uma vozinha melada e ar bovino.
O país adquire uma escala patética - as pessoas dizem isto nos autocarros:
" - Fuogo já viste aquela que não sabe qual é a capital de Espanha? E eu que pensava que era burra."
E, de repente, as pessoas adquirem uma ficção de auto-estima com o clicar no comando. Nalgum canal próximo, em vias de ser fechado, há peritos que falam dessas coisas que não interessam nem ao menino Jesus chamadas política ou economia ou cidadania.
Não interessa o que somos, onde estamos e para onde vamos se digerimos o jantar ao sabor das calinadas desse coliseu de hereges de plástico.
A caixinha faz magia, sim. Tornou-se no Xanax ou Lexotan dessas pessoas que se focam nos outros porque não se comprometem com uma ideia para si mesmos ou para o país.
A fábula tem uma moralidade oculta: há que crer em coisas que não se veêm - os ideais, as convicções, o diálogo moram longe desse mundo de princesas esbarradas e com mau português. Há mais nuances no mundo do que aquelas que se fazem nos cabelos, como há mais cores na paleta do que as "qualquer coisa-choque".
Às vezes, penso que devia voltar o tempo do preto e branco - do radicalismo no sentido de raíz ou pureza das coisas para o mundo avançar ao som da valsa que Hegel soube bem descrever.
Falta o furor de outrora - as terceiras vias, embora bem-intencionadas e meritórias, foram pretexto para o enfraquecimento dos discursos e das medidas.
As personagens deste contemporâneo são como o lixo - pode ser que, no final, se possam reutilizar. Até lá, são passadas de flash em flash como hologramas de um vedetismo fatela e ridículo.
Não há espaço para nada de imaterial nesta avalanche de ruído - o ridículo apadrinhou o sucesso e emprestou-lhe um sabor amargo de antropofagia social.
Há um país que definha nos sofás a almoçar a desgraça alheia - este é o apogeu da chamada fast food. Sorve-se a sopa de calhaus, em directo. Almoça-se barrigas de freira e janta-se miúdos de frango, com a tebê a falar dessa justiça em que ninguém acredita piamente. (desculpe-se o advérbio, para os que sabem o que isso é.)
Os predadores são as presas - e, nesta pocilga em directo, "os animais são todos iguais, mas uns são mais iguais do que outros."
Soubessem as pessoas ler ou entender o que leêm e as coisas poderiam mudar.
Até lá, despeço-me - the show must go on.
E o "Grande Máno is watching."
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