Rewind

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Ao longe, o verde.

A janela sobre o verde - esse corrimão de cheiros e lembranças onde se apoia a saudade que nos acompanha sempre. A janela da vossa juventude, os caminhos que nunca vos separaram.


As vossas casas - em pequenino o avô sentado à lareira com a mãe nesses Invernos de frio que estalava os ossos e adornava o tecto do mundo de uma luz pálida.


Tu envolta numa massa e bulício de feitios, génios e gestos que te fizeram inteira porque te sentiste desejada. Passo perto dos campos e ouço a espessura do silêncio e como a vida soa diferente ali.


Fui para te ver, avô - vejo-vos sempre melhor dessa moldura de felicidade que resgato nas pedras das fachadas, no musgo dos muros, no fumo das chaminés e nos rostos dessas pessoas que forjaram uma aliança com o trabalho e essa vida sem atenuações ou desculpas.


Sei que sentem a tua falta - falam-me de ti e não consigo deixar de sentir esse orgulho que vive em mim por te ter tido.


Espreito pela janela - essa em que imagino, avô, que a tua mãe te segurou nos braços, em que o mundo era da pedra das convicções, das palavras, dos compromissos, dessa ambição luminosa.


Tu e os teus irmãos que corriam pela casa, que já divergiam para sempre se saberem feitos do mesmo.


Sento-me no meio do verde - imagino que amor foi o teu pela avó - esse que te pôs nas linhas que lhe ofereceste o tom da promessa que deixaste realizada no peito dela e no nosso.


Apetece-me ficar aqui - mais perto de ti, mais perto dessa simplicidade feita de sorrisos, de gentileza e gente simples. Apetece-me ser como tu no meio deles e acabar como tu nos olhos deles.


Lembram-se de mim - dizem que corria para ti e para a avó (enquanto falam, ainda corro.) e que passava as tardes feliz enquanto observava os gestos, a gama ampla de cores que cabiam num fim de dia, enquanto ouvia a avó desfiar as vossas memórias como certezas de ferro que a agarram, ainda hoje, à vida.


Há um lugar onde esse fanatismo que tenho por vocês não morre - esse, onde ele começou assente na saudade que veio antes da ausência.


Sempre a saudade, antes de tudo, no nome de tudo, no início de tudo. Surpreende-se a grandeza do amor nesse absoluto desejo de prolongamento de umas coisas sobre as outras.


Imagino a avó quando passeava no descapotável do irmão mais velho, escutava os conselhos da mãe e amava o pai com um amor que chega para me contagiar.


Imagino, avô, o teu pai com ideias do tempo de hoje - apaixonado pelos ideais, pelos filhos, pela luta.


Imagino todas as coisas que soube pela vossa voz - vou ali para as ouvir melhor, outra vez, de perto.


Gosto da educação sem medo que tiveram, desse espaço de liberdade que vos ensaiou no peito desejos que só nascem da liberdade.


Imagino essas mesas repletas de vozes alegres, de gente que adora as palavras e ensaia o amor ao som delas, como uma música que tocasse num gira discos.


Passo nas ruas, nas casas, nos campos e sinto-me bem no ventre da memória - o frio do Inverno não tolhe essa sensação de que o nosso corpo e a nossa história nos serve, nos retrata, nos redime e nos enaltece.


Vou, avô, para te dizer do medo que trago ao saber que, como tu, a avó nunca me vai chegar, que já me falta antes das fintas da vida. Vou porque vivo a saber onde pertenço, a relembrar esse exemplo que foram para mim.


Sentado no meio do verde, o silêncio traz o teu nome no colo. Atrás dele, com o passo ligeiro de felicidade, correm duas crianças que trazem no rosto essa luz que anuncia a felicidade.


Vou para ver isso, para te dizer que a avó continua a ter alguém que se lembra de ti com ela.


São boas as nossas tardes - quase que parece que chegas para te juntar a nós de novo.


E, com isso, essa matéria espessa que é o amor bordado nas bordas das palavras, chamo por ti - e, de alguma maneira, a tua voz chega até mim.


Sempre.




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