Rewind

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Avó,

"-Meu pequenino queres vir lanchar comigo?" - a tua voz depois de ter medo que ela não me soasse dentro do ouvido, direita ao coração.
Cheguei e já tinhas mandado preparar a mesa - o chá que ainda soltava um bafo quente (como o teu nome e a tua lembrança) e os doces da quinta feitos "dos mimos", como dizes, da terra que é nossa.
Percorro o caminho até tua casa com o frio a arrepiar-me a pele e o passo apressado de quem corre a saber que o tempo não chega, que o amor é essa espécie de filme a meio que apanhamos - ao amor chega-se sempre atrasado.
Fico em silêncio a observar-te - sei que há um vício meu de te decorar as palavras, de gravar a tua voz para a fazer soar dentro de mim.
Tive contigo mais uma dessas conversas que nos tornaram dois bons amigos, dois cúmplices - a minha admiração por ti como a bandeira que ergo com a nossa lembrança - sempre a falar do avô que foi a maior medida do sonho, da ambição e o homem que nos amou a todos mais e melhor.
Digo-te do medo que trago comigo de te perder, do hábito que tenho de subir as escadas a correr e ouvir-te saudar-me com esse sorriso malandro que denuncia o quanto me desejas.
Agarras-me nas mãos - de pianista, como dizes, e pego nas tuas e sinto-lhes a suavidade, a ternura com que me recebem.
Falo-te do A., prometo-te que o trarei sempre comigo - os dois que sempre te procuraram mais, te souberam melhor e te cumprem como um ritual que nos dá o chão.
Penso em ti, pela manhã. Imagino que me acompanhas enquanto "nos faço maiores", como me pedes.
Falo-te do avô e da paixão dele pelos melros, desse tempo de Outono, das castanhas e dos ouriços que nos faziam passar tardes imensas no verde da vossa infância.
Falo-te e noto que me sorris feliz porque o não esqueço, porque me não esquece esse tempo que foi o mais feliz da minha vida.
Falo-te das falhas, das coisas menos boas e sorrio-te - aprendi a ter fé na raça, nessa capacidade de superação que nos põe mais juntos no fim de tudo.
Falas-me dos teus irmãos - és a última dessa casa de gente dotada dessa capacidade de antecipar o jogo do tempo e triunfar.
Penso em ti todos os dias - de como te ris quando te lanço provocações, de como nós fomos o sentido maior e último da tua vida - quiseste-nos e isso foi a maior razão para nos amares.
A casa em silêncio - apenas eu e tu. Dizer "a casa dos meus avós" e senti-la como minha.
Encho-.te o coração das minhas palavras - cravo na vida o que me traz preso em ti e quero que o saibas - é o meu obrigado.
Vi que contigo há toda uma medida que faz querer mais, ser mais e melhor.
O lanche corre - abro-te o coração porque o meu vacila se o teu treme - aprendi a agarrar o que te agarrou à vida. Falas-me da tua avó e de como a ias visitar, todos os dias, depois da escola.
Falo-te de ti e de como te quero ir ver, todos os dias, depois de tudo.
Discutimos política, discutimos as decisões que um dia eu, como tu, terei que tomar. E falas-me das lições que o teu pai te dava - a ti, a menina mais nova, a pequenina dos olhos azuis de mimo e de felicidade.
Contigo sinto-me o bisneto, o trineto - sinto-me em casa e recebido por essa gente de olhos azuis e cabelo muito louro com uma inteligência fina e audaz.
Vês muito de ti em mim e no A. - somos crentes do mesmo milagre de agradecer as pessoas que temos, de lhes apreciar a virtude e a história com verdade.
Somos bons contadores de histórias, todos nós, avó.
A minha história conta-se como a tua - orgulhosos por sermos frutos do mesmo chão, voltamos ao abrigo da memória que é a morada das coisas mais bonitas e que nunca morrem.
És a minha casa - o azul dos teus olhos, como uma promessa de manhãs frescas e luminosas.
Falo-te da mãe e do pai como me falas dos teus - somos como amigos que trocam o que a vida lhes deu, como cartas que se escrevem e se guardam, a salvo do tempo e do esquecimento.
O medo morre sob a felicidade que me nasce de te abraçar mais uma vez.
Noto que há pequenas contas nos teus olhos.
"- Gosto tanto de ti, avó."
A tua resposta (Eu também, muito) ouço-a mais do que nas palavras, na forma como prendes nos teus braços a dizer:
" - Vai tudo correr bem. Eu estou aqui."
E ainda bem.
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