Rewind

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

romaria.

Reconheço aos hábitos, a esses lugares e momentos que são como agasalhos com a exacta medida do nosso corpo, da nossa necessidade do familiar, do conhecido, uma razão para te querer mais fundo.
Era afinal dia de romaria - estávamos juntos nessa missa campal com a vasta planície verde a olhar-nos sob um céu de um cinzento pardo, tímido e húmido.
O verde tornava-se um manto mais baço com os flocos do nevoeiro a emprestarem a toda a paisagem uma melancolia própria desses dias do princípio do Inverno. Enquanto a multidão se alinhava e a missa estava prestes a começar depois de a chuva ter suspenso o pranto mais copioso, eu olhava-te por entre as pessoas - loira, com os olhos inundados dessa felicidade que te nasce sempre quando cumpres o teu papel, quando passas a fazer parte dessa valsa dos afectos de que voltar a casa sempre faz parte.
Olhava-te enquanto rezava e, quando me surpreendias o olhar, sorrias-me toda feita menina de novo, toda daquela terra com as tradições vincadas, com as gentes conhecidas, os caminhos percorridos, as paisagens amadas como verdadeiros capítulos, como autênticos parentes merecedores de afecto e atenção.
Tínhamos ido antes de tudo ao cemitério - enfeitar com as flores a dor da saudade de modo que elas pareçam promessas de beijos que a fatalidade não deixa cumprir, abraços que a finitude de tudo não deixa selar. Imagino que te doam essas romarias em que são mais os que já não vêm para que os recebas na tua casa com o jardim imaculado, com uma mesa farta e esse ruído que sai pelas janelas nos dias felizes.
Dói-me a saudade pérpetua que te tenho mesmo ainda te tendo - o amor como esse incêndio que se consome e se agiganta até aos confins do tempo.
Lembro-me desses dias longos do Verão em que ia de biciclete buscar os ovos a uma das quintas, em que escorregava nas ribanceiras à volta dos campos do milho.
Lembro-me do cheiro do lagar que em breve estará cheio quando chegarem as vindimas, lembro-me dessa rede que estendíamos por entre as árvores mais altas do jardim. Lembro-me dessas japoneiras frondosas e azevinhos brilhantes e do chão repleto de sementes que germinam um pouco por todo o lado.
As árvores de fruto e as tuas flores em todos os canteiros. As ruas cheias, o largo repleto de tendas e gente simples, dessa alegria despudorada que espanta as dores do corpo e as misérias da alma de todas aquelas pessoas que se juntam numa devoção chorona e quase infantil.
A procissão com os andores como torres de babel de cor e brilho desafiando o calor, desafiando os limites do corpo, as medidas da resistência e da fé.
As pessoas, algumas descalças, cumprem promessas e há em tudo isso um ensinamento de esperança e um olhar de admiração de quem olha.
Segredas-me que também tu já foste na procissão um dia, com uma das tuas filhas. Guardo-te mais essa confidência e observo o verde - "os meus campos", como lhe chamava o avô. Imagino-vos orgulhosos dessa construção maior que é a família.
O dia passa-se por entre conversas alegres, com a tua mão a procurar o meu braço para caminhares por entre as ruas de que me voltas a contar a história - que casas foram de quem, que esconde o tempo de ti e que vou descobrindo contente.
Juntos esperamos a noite - esse fogo que inunda o céu como se o dia nascesse, de repente, mais cedo.
Estar em família - recordar ao olhar para os retratos das paredes os nomes, os traços de carácter, o génio, os gestos, as dores, o humor e a ambição de cada um dos nossos que também já estiveram por entre aquelas paredes.
Juntos lembramos melhor - eu já te lembro pormenores do que me contaste, já te avivo a memória e já sinto que faço parte desses tempos que quase vivi quando deliciado captava a tua voz na minha infância.
Enquanto a tarde caía tive saudades de quando eu e o A. íamos com o avô ver se tínhamos apanhado algum melro, ver os castanheiros, ver as vinhas e adivinhar o grau, percorrer tudo e sentir nos pés e no peito o alívio que se desenha depois da imensidão.
Uma imensidão de promessas que se cumpriam sempre quando o lume do sol de apagava. Essa sensação de ir dormir com o corpo cansado e a alma cheia do orvalho da emoção e do calor da alegria que nos aconchega quando os sonhos, enfim, chegam.
Quando já era noite e estávamos os dois num dos terraços lembrei-te eu que fazia naquele dia anos em que começaste a namorar com o avô. Sei que te lembraste disso o dia inteiro mas lembrei-to eu para que da tua surpresa por´não me esquecer te nasça o consolo dos que jamais serão esquecidos.
E voltas a falar-me desse colar de três fiadas de pérolas e do vestido cor de tijolo que usaste e como o avô era bonito.
O amor é uma forma suprema de contágio - infiltra-se-nos na pele e depois nos ossos e faz ranger e brilhar tudo como uma casa que se abre de novo depois de muito tempo.
Propaga-se rápido como o fogo no céu que finalmente começa.
Tudo é luz e cor num céu preto como um véu. A capela iluminada lá no alto. E, no escuro, dás-me a tua mão. Aperto-ta com força e é assim que entramos na noite, sabendo que dela nascerá sempre o dia como uma promessa que afinal sempre se cumpre.
  
   
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