Rewind

domingo, 8 de junho de 2014

Até sempre, Maria.

A minha infância foi um longo tempo feliz sem despedidas e, talvez por isso, nunca me tenha sido fácil, até hoje, dizer adeus.
 
Ser criança foi o tempo do "oh menino", normalmente seguido de um sorriso cúmplice de algumas das pessoas que me habituei a ter por chão, a agarrar num hábito fácil e doce de meiguice e liberdade.
Ter quem goste de nós é poder pensar, apesar de tudo, que sempre nos esperam, que sempre teremos, no fim de contas, quem queira para nós um caminho melhor por entre a imensidão desabrigada do mundo.
 
A Maria foi uma dessas pessoas, uma pessoa a quem dizer adeus é injustificado, é sempre interromper o conforto profundo do bem que nos fazem as pessoas de quem, primeiro que tudo, recordamos o açúcar das palavras, a pureza nua e simples dos modos e dos instintos, o imediatismo do amor, da dádiva e do carinho. A Maria, irmã da nossa Gó, foi sempre "a Maria" como se, apesar dos cabelos brancos e da idade, aos nossos olhos o tempo não andasse por perto e se esquecesse dela nos bancos do jardim, nos domingos da minha infância em que a Glória nos levava a casa dela.
 
A Maria tomou conta do meu Pai e dos meus Tios. Dizem eles que com o Menino Jesus e a Nossa Senhora, ela os punha muito quietos, os segurava com um jeito infinito de catequista a contar histórias de atitudes bonitas, de pessoas boas que queria que eles não esquecessem.
 
Comigo e com o A. foi o mesmo - Deus existiu sempre nas palavras e nas acções das pessoas, como elas, que nos encheram a memória de afecto e perenidade. Nunca lhes disse isto, mas Deus foi sempre muito mais elas, a possibilidade maravilhosa de as ter encontrado e de elas serem um bocado "minhas", do que um senhor escondido algures por aí.
 
Na minha infância, o amor nunca esteve longe, nunca tive de o procurar muito - nasci dentro de um abraço de muitas mãos, de muita gente que parecia esperar encontrar-me desde há muito.
 
A vida é a arte dos encontros - há pessoas com quem sempre sentimos retomar uma conversa que não sabemos bem quando começou. Ontem no velório, foi a minha vez de resgatar o Deus justo, o Deus de um amor sem limites para salvar a Gó de uma noite escura demais. Ontem inventei por ela um outro chão, um chão onde o amor não exista tanto no que vemos ou precisamos de ver, mas mais naquilo que somos incapazes de largar e esquecer.
 
O que vivemos nunca nos pode ser roubado e isso, num dia como o de ontem, é a única luz com que podemos avançar neste caminho, por dentro da noite em que nos perdemos de alguém.
 
Quando a Gó me agarrou a mão e se deixou ficar assim por muito tempo, foi a minha vez de lhe lembrar a fé e de lhe agradecer - de lhe agradecer as irmãs, de lhe agradecer aquela família que se confunde com a história da minha. E, em silêncio, ficar; em silêncio pensar nela, na minha Avó, na minha família e em todas as pessoas que me chamam e, sempre depois, me sorriem.
 
Dentro da noite, ao segurar-te a mão, Gó, segurava também o meu chão para também eu poder andar. 
 
"Obrigada, menino", dizias tu uma e outra vez. E, como sempre, sorrias.
 
"De nada, Gó."
 
E, sem saberes, o teu sorriso depois de me chamares encheu-me o coração de esperança; de esperança de que, a nós, nos baste sempre chamar.
 
Do outro lado, na memória do sorriso da Maria, haverá sempre a alegria de um reencontro. 
 
 
Até sempre, Maria!      

  
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