Rewind

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

se eu soubesse,

se eu ao menos soubesse que a felicidade era aquilo.

sim, sentir o peso do teu silêncio todo dentro da minha boca e ir desapertando, um a um, todos os sentidos na tua pele.
 
ser feliz e não saber.
 
acordar no sonho que há dentro do teu peito, morar inteiro nas esquinas alegres do teu sorriso.
 
ser feliz e não o saber.
 
todo o amor é uma frase sem sentido - como uns olhos que guardem sempre o mesmo olhar, umas mãos que prolonguem sempre o solstício das nossas peles dentro da cama ou uma estrada desconhecida onde se descubra, sempre, uma forma de voltar a casa.
 
o meu desejo tropeçava sempre nos degraus dos teus ossos até à boca, lembras-te?
 
e eu passeava-me entre os teus dedos, os meus dedos passeando-te no ventre um mar de ondas como se, por perto, tivesse algures que existir uma praia.
 
ser feliz e não saber, amor.
 
tenho saudades de todos os sinais que me diziam que eras minha - o teu casaco pendurado na cadeira da sala, o teu perfume na minha toalha de banho, bocados dos teus olhos desenhados na pele aberta das minhas costas.
 
deixámos um filme por acabar, sabias?
 
começaste a beijar-me o pescoço como se quisesses matar-me na garganta uma sede que me inundava todo.
 
amor,
 
diz?
 
e a minha resposta era sempre um silêncio em que o peito se lançava num abismo, era uma mão estendida dentro do calor doce das tuas pernas.
 
ser feliz e não o saber.
 
no amor todos os relógios se atrasam - os amantes chegam sempre antes da hora e, se amam, esquecem-se de partir.
 
as gavetas são um poema cheio de palavras por dizer, tenho a vida suspensa na página do livro que íamos ler juntos à noite.
 
anda cá,
 
assim?
 
sim,
 
ser feliz e não o saber.
 
poder dizer, amor, enquanto andas nua pelo quarto.
 
poder espreitar pela porta dos teus olhos enquanto sonhas.
 
poder perdoar-te tudo pelo amor que te tenho e pela falta que me fazes.
 
poder fazer amor contigo e emendar os erros todos com saliva e suor. 
 

se eu soubesse ao menos que a felicidade era tudo aquilo, amor
 
tinha corrido atrás de ti pelas escadas.
 
a sério.
 
sabes, tropeço sempre na falta doida que me fazes.
Enviar um comentário