Rewind

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

tão branco este silêncio,

o nosso silêncio era feito de paredes cansadas, lembras-te?

e eram nossas as sombras que nelas dançavam as horas rápidas da noite, lembras-te?

sabes, os meus olhos ainda procuram a janela onde deixaste a minha roupa.

não precisas dela, dizias.

e rias-te enquanto tudo o que eu vestia eram os teus dedos.

comecei a calar-me dentro dos teus braços - a minha língua queria era ler as letras trémulas do teu arrepio e tu trazias o mapa do meu corpo todo escrito no relento quente da pele.

hoje lembrei-me de ti - há uma solidão demasiado branca nas paredes desta casa, trago na boca um mastigar de espera que incomoda e continuo sem saber da roupa.

este sofá cheira às flores que te semeei no fundo da barriga e ainda há restos de ti no fundo dos espelhos do quarto.

sabes, há uma luz de primavera a inundar o chão e faltam os teus pés a mostrar-lhe o caminho para dentro do meu peito.

ontem à noite, dormi sem almofada - ainda havia nela a expectativa dos sonhos que inventei para ti; havia ainda, no avesso, promessas por cumprir.

ando sem roupa à procura da janela onde ias só para fumar um cigarro. e ando à procura do teu sorriso quando dizias

não vais precisar dela.

tenho o corpo à espera e um coração que tem pressa, amor.

ando à procura do verbo que te empurre.
 
sim, do verbo que te empurre para dentro de uma parede branca comigo.

outra vez, mais uma vez.

deixaste os cigarros na mesa da entrada.

volta nem que seja para os vires buscar.

vá lá, entra e tranca a porta.

onde estão as chaves?, perguntas.

não vais precisar delas, digo-te eu.
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