Rewind

domingo, 19 de abril de 2015

Milinha,

Ao Deus que inventou o azul dos teus olhos,

eu disse que não queria amor mais nenhum.

[não é preciso]

não sei se é próprio de um Deus sorrir mas continuei,

e falei-lhe dos nossos abraços como gavetas em que as nossas imperfeições nos uniram mais

e aproveitei para lhe lembrar que te prometi muita coisa que ainda não fiz só para haver futuro.


Ao Deus que não sabe o que nos chamar,

eu disse que não queria milagres.

[não é preciso]

não sei se é próprio de um Deus abanar a cabeça com doçura mas continuei,

e contei-lhe que não sei o que fazer com o verde da Aparecida, as palavras no meu peito e as mãos nervosas se tu não estás

e, já agora, mostrei-lhe as fotografias que vimos os dois outro dia, à noite.


Ao Deus que se esconde no lado de dentro das tuas mãos,

eu disse que não quero saber para onde vou.

[não é preciso

não sei se é próprio de um Deus encolher os ombros mas continuei,

e pus-me a ler todos os postais da minha infância que tu ainda guardas

e, já agora, ainda hoje se ouve o meu riso por baixo das palavras.


Ao Deus que sempre me disse que estás à minha espera

eu disse que não sei rezar.

[não é preciso]

não sei se é próprio de um Deus piscar um olho mas continuei,

e escrevi o teu nome mil vezes na espera irrequieta do meu sangue

e, sem saber, escrevi com ele também o meu.


Ao Deus que inventou a Primavera do teu jardim

eu agradeci cada uma das flores.

são todas para ti, Vovó.



não demores.
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