Rewind

sexta-feira, 3 de abril de 2015

no princípio,

no princípio, acho que foram os teus olhos.

o autocarro passou e era noite, de repente.

no princípio, foi tudo o que não me disseste.

(ainda)

e eu atrasei qualquer futuro que fosse nas rodas daquele autocarro e deixei-me ficar.

fomos andar para perto do mar.

hoje, percebo que o amor começa quando o que ainda não vemos do outro é tudo o que queremos ter.

disse-te

algumas pessoas decidem ficar a viver sempre na véspera do futuro.

riste-te ao pensar nessa vida de vésperas, nessa vida que fica sempre do lado de cá do nevoeiro, nessa vida de quem se esqueceu de sonhar.

tens razão. mas escolhes sempre não apanhar autocarros só porque o futuro tem que estar noutro lugar?

nessa altura, acendeste um cigarro e o vento era quente e vagaroso.

[não. não apanhei o autocarro porque senti que o futuro tinha que começar hoje.]

esta teria sido a minha resposta, se não tivesse descoberto que havia pele no fundo dos meus olhos e que tu a acordaste.

escondeste-te dentro do meu casaco - os teus braços à volta da minha cintura e o silêncio a deixar, de repente, de ser um lugar desabitado.

fizemos tantas vezes isto - falar, noite dentro, agasalhados no corpo um do outro e descobrir que o silêncio de quem ama nunca é silêncio - é outra coisa.

no princípio, o autocarro passou e não demos por nada.

rimos por causa de um filme qualquer e rimos por causa de tudo e de nada.

rimos porque o que ainda não víamos um do outro era o que queríamos ter.

no princípio, atrasei-me.

e habituei-me a ver-te fumar pendurada no parapeito das janelas, nas escadas do prédio ou no meu colo, na varanda.

naquele dia, não tive pressa - falei-te como se sempre me tivesses esperado, como se fossem todos teus os meus sorrisos naquele desvio e improviso em que começa o amor.

naquele dia, o autocarro levou a véspera do futuro com ele. o futuro começava ali - no lado de lá do nevoeiro para onde me levaste pela mão.

naquele dia, amor, atrasei-me.

e cheguei a horas.
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