Rewind

sábado, 30 de abril de 2016

ouvir-te ficar, Mãe,

Mãe,

ouvir-te ficar, Mãe -

o teu amor com passos doces e braços enormes como janelas

os teus olhos como parapeitos de luz e de esperança

e o silêncio em que te digo com a pele o que me falta


ouvir-te ficar, Mãe -

tu que entras sempre devagar

não sei bem como, mas arranjas sempre a chave

e vais entrando,

o amor, de repente, é um filme que vemos os dois no sofá

ou um café improvisado em que me dás a mão mesmo antes de eu sair para a rua,

os carros passam, Mãe,

tu ficas a sorrir-me do lado de dentro do vidro

e eu repito em todos os vidros de todos os cafés o nosso encontro

como num espelho.


ouvir-te ficar, Mãe -

e eu que sei que nem sempre o meu amor é como o teu

e tu continuas,

insistes,

não pedes nada, Mãe,

um fósforo, de repente, acende as letras do nome de tudo

tu sobes o vão da minha escada todas as vezes

só para me ensinares a soletrar esperança no vapor do vidro das janelas.


ouvir-te ficar, Mãe,

os teus dedos a agarrarem-se aos meus

mesmo antes de eu ir para rua

tu que ficas a sorrir-me do lado de dentro do vidro num café 

e eu que repito em todas as montras de todos os cafés o nosso encontro

só para saber qual o caminho,

que a casa é perto

e isso chega.


RM| XXX-IV-MMXVI
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