Rewind

domingo, 3 de janeiro de 2010

Comboios

O comboio parado na linha. Luz saindo do ventre da estação pelas portas abertas, em dia de chuva. A mesma paisagem da chegada. E tudo o que nos nasce debaixo da pele, banhado por essa satisfação interior que nos ata os pés ao chão.

O mesmo banco de há meses ou anos atrás - a madeira e o seu colo apelativo para quem sabe que não vai poder ficar. Os mesmos gestos e ruído de fundo, rostos que parecem todos iguais. E, no meio da multidão, alguém que nos espera e que esperamos também.

Os locais têm sempre o rosto de alguém como as músicas têm as vozes que as dizem. Gostava daquele sítio - os braços que sempre o receberam. Alguns que já não estavam ali à espera. Às vezes, passar nos mesmos sítios o corpo e a memória provoca um eco no fundo do peito. Mas é sinónimo de saudade - uma saudade que podia não morrer. Sabia bem viver com ela - como se os instantes de felicidade que se viveram fossem provas que guardamos contra o que veio depois.

Curioso como podia tanta coisa habitar aquele caminho de ferro, gente e luz. Voltara sempre para viver depois de uma perda - para habitar a morada um pouco mais vazia. E, sim, é verdade que da esquina de uma rua, do sol que morre na relva quente de um jardim, saltava, por vezes, o eco de memórias silenciosas que talvez agora apenas ele visitasse. Mas sabia-lhe bem essa camada de vida que morava na pele de todos aqueles lugares.

A evocação era como um filme a que assistia em silêncio. Sabia de cor as deixas dos outros - e de alguns dos que se foram perdendo, sempre guardara as palavras - como pedaços que iluminam o que vamos sendo uns aos outros.

De novo, a estação e o rio como uma baínha perfeita de luz e acalmia. O trânsito com o pulsar da vida preso no asfalto. E, enquanto esperava, fazia uma visita a todos e a tudo o que ainda morava ali.

Sempre gostara de comboios - há sempre dois extremos e, no meio, esse elo que une o que se deixa ao que se vai encontrar. O sabor do regresso, essa paisagem reconhecida pelo vidro do caminho. E sempre o que acontece depois, misturado no pó do que já foi há muito e que a aragem do caminho vem sacudir .

Os comboios significavam para ele quase o mesmo que a vida. A certa altura do caminho, alguém pode sair. Há estações em que se parte. Outras em que se chega. Mas pelo rosto familiar do caminho, há estações onde se volta depois da partida.

Gente, ferro e luz. E alguém que sai da multidão.

A próxima deixa:

"Fica."



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