Rewind

quinta-feira, 10 de junho de 2010

noite.

Saía, enfim, de casa. Uma noite muito escura: como um lençol esticado sobre o mundo. No ar esse rumor entorpecido de um dia que quase já não se ouvia. A cidade quieta, apenas se ouvindo as ondas e os passos nos passeios húmidos. Descer até à praia. E ficar só - como se se pudesse ver a vida de fora dela; vivê-la como num intervalo com cheiro a maresia. Não participar dela, como para ter tempo para prolongar as horas que soubemos demasiado curtas, demasiado breves e esguias. Lembro-me sempre de ti. De como chegavas para me pedires o meu ombro. E agasalhares o teu corpo no meu - assim como se ambos pudessemos desistir de seguir no compasso que se nos impõe.
A luz dos teus olhos e o recorte dos teus lábios; a tua pele com um ligeiro arrepio. E o encaixe perfeito da tua respiração na face vazia do mundo. Ouvir o que me dizes - a noite, como sempre, o nosso refúgio, como uma luz que ilumina o que outros nunca viam em nós.
Na noite, a única luz é a da intimidade - como se vestíssemos os corpos um do outro e soubessemos o que nos pesa a alma, enquanto as ondas se fazem vidro que reflecte a noite.
Os teus olhos eram o meu reflexo; dizias que as minhas palavras eram o teu. E que as minhas mãos te tornavam a vida mais fácil de usar sobre o corpo.
As palavras que o vento ouvia e abafava como uma cortina - as horas que finalmente corriam sem que lhes chamassemos tempo ou sem as sentirmos cair-nos no corpo.
Tu com um casaco meu - que me pedias a rir. Deixavamos a vida toda ali na praia - e o brilho dos teus olhos a tornar tudo, de repente, tão mais sereno e luminoso. O teu corpo a prometer um exílio feliz. As noites eram sempre longas. E quase sentia que nascíamos de novo - o teu corpo adormecido no meu com o sabor salgado das ondas. Tão simples a vida: despida assim do que a torna um eco distante. Contigo nunca me senti viver nos intervalos.
O mar traz-me sempre o eco do que me sabe mais ser a vida. Talvez por ma ter ouvido quase toda - como um barco atraído pelo farol dos meus olhos que acendias sempre. O mar sempre me trouxe esse sabor de regresso. Como se fosse uma noite muito escura. E tu chegasses. Para trazeres escrito no olhar o nome daquilo que peço.
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