Rewind

sábado, 26 de junho de 2010

Saramago (1922-).

O dia em que, pela primeira vez, encontrei José Saramago aparece hoje como uma recordação nítida, ampla como um acto contínuo de deslumbramento e admiração. Um deses amores prolongados, alimentados pela luz de uma voz. Poucos o são homens dessa forma; menos ainda o conseguem dizer de uma forma tão verdadeira. E Saramago era isso tudo: era o homem, cujo retrato era revelado pela força da palavra; era a verdade na nudez explícita que o traço fino da ironia teimava em expor.
De Saramago ficam as palavras, dizem. Mas não. A palavra em Saramago é, como em poucos, ele mesmo: a sua convicção, o seu embate, a sua ferocidade, a sua desilusão. Escrever sobre o homem é conhecê-lo. Escrever como Saramago é assumir-se como homem: o homem no seu duelo com o mundo, na sua angústia, na sua alegria, no seu desalento.

É a vida que sempre se elogia. É esse impulso, essa sede que é a raíz de cada parágrafo. E, com ela, a humanidade.

Por isso, também se admira o homem: apesar de estarmos longe em muita coisa, era a sua sinceridade, a sua coerência que sempre me levavam até ele. Como acaba acontecendo com todos os que possuam esse dom. Como disse, uma vez, "só a morte nos ensina a entender a vida."

E, na verdade, o difícil é entender a morte quando se nos rouba tanto. Quando sentimos perder alguma coisa que nos ajudou a entender a nossa; que nos foi também em tanto do que disse.

Mas Saramago continuará sempre. Porque todos seremos sempre capazes de lhe reconhecer a voz na luta que se vive nas suas palavras. Essa voz era o seu rosto. E aos que venham ficará a lembrança de um homem de feições duras e sorriso raro - mas cujo sorriso, quando aparecia, significava uma promessa que, no seu caso, sempre se cumpria.


"...não tinha fé em Deus (mas certamente Deus teve fé nele)"

gabriela canavilhas



Não me Peçam Razões...

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"




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