Rewind

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Avô,

Há horas maiores nesse chão verde do campo. O céu como uma pira bem acesa e o som da água que mergulha nos braços de pedra dos tanques largos e firmes.





Caminhei sozinho por entre o verde - ias gostar das vinhas e dessa proximidade das vindimas que enche a casa de uma azáfama ruidosa e um bulício de trabalho.





Ias gostar das vinhas e eu de que as visses comigo.





As folhas cobrindo as uvas como palmas de mãos protectoras. Ao longe, cães que latem para o ar quente. E, por fim, o silêncio. No silêncio, sempre o mesmo chão - nosso, dos avós, dos bisavós, trisavós e de todos os outros que se prenderam nele e amaram essa terra com um amor suado e intenso.





Ia gostar de te ter comigo nessas horas grandes - essas que passavas comigo nos Verões da infância enquanto me contavas que muros, esteios e caminhos foram nascendo da vontade desses bocados de nós que aprendi a imaginar nos ecos do tempo a que a tua voz emprestava carinho e gratidão.





Fazes-me falta - nos caminhos da terra e nos da vida. Tudo continua pintado dessa acalmia e simplicidade cristalina - os animais no ritmo lento, a igreja e a capela ao fundo e os portões erguidos por entre os muros.





Julgo que sempre vieste aqui para te lembrares. Para te lembrares de ti e dos teus e, ao trazer-nos contigo, ias apresentando-nos a tudo o que a esta família se coseu na alma.





Entro nos quartos - e pergunto-me qual seria o da tua meninice? O A. diz-me qual era aquele em que dormíamos sempre que aqui vínhamos - esses dias de romaria e de festa, de gente nas ruas e dessa fé chorona que o povo vive.





E sempre o teu olhar fundo e o teu sorriso quando eu o A. víamos os retratos das paredes e sabíamos os nomes. Como pode, afinal, um nome colar-se-nos na pele e sermos nós mais dele do que ele o nosso.





Tu serás sempre o avô como nenhum outro - sempre vivo nessa palavra que aprendi a dizer para te chamar. Para te chamar a ti e a essas horas de vida fácil e serena - eu e o A. em teu redor, sob uma cúpula de sol, encantados com os cavalos de que tanto gostavas e a gravar no fundo do olhar essas imagens que confirmam essa amputação que eu e ele sofremos.





Mas nesse dia fui ver-te onde descansas - do sítio onde estás vês essa terra que tanto nos ensinou. Viste-me entrar no portão e andar no chão a que devotaste a tua vida. Percebo hoje, avô, que a família era a tua espécie de sacerdócio e que a terra e as propriedades eram uma espécie de compromisso vital - desse chão brotava o oxigénio que, nos nossos passeios, nos puseste no coração sob a forma da memória e da saudade.





Continuo a chamar por ti - a olhar os muros, os esteios e os caminhos. E a agradecer. A agradecer-te a ti porque o chão da minha vida se fez sempre mais seguro porque o esteio eras tu e nas horas largas boiava uma felicidade imensa.





Hoje sei que um dia levarei os meus pela mão até ali para amarem o pôr do sol que adormece no colo verde do vale - e saberão de ti. Cada vez que disser "avô" virás até mim para me abrigares no teu sorriso e me mostrares o caminho.





E eles saberão, então, que a vida só o é porque há pessoas que nos moram no sangue e que o calor da memória não deixa morrer nunca.





Ficaremos sempre gravados na paisagem - ao longe, os cães latem sob um céu que despe a sua luz. E há duas crianças e um avô. Juntou-se-lhes a saudade que os faz quererem segurar a mão que os agarra mais fundo. Até ao fim.
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