Rewind

sábado, 23 de agosto de 2014

ainda,

ainda trago na pele restos de sonho
e ainda ardem inteiras as estrelas que roubei ao firmamento do teu corpo
ainda és tu neste odor prolongado na dobra das palavras
como se o mar me enchesse de súbito o olhar

ainda caminho nas ruas agarrado aos teus braços
e ainda dançam restos das nossas sombras dentro dos vidros
ainda trago a língua amarrada na primeira sílaba do teu nome
como se a soma de todos os meus poros fosses tu

ainda leio cartas que enchem o chão do quarto de saudade
e ainda há retratos fechados no parêntesis da memória
ainda ouço música onde desliza o teu cheiro na letra que corre
como se na brancura inclinada da manhã todas as portas se abrissem

ainda trazem o teu cheiro as camisas quando me pousam na pele
e ainda és tu no quente do café que me afaga o peito
ainda digo calado as mesmas coisas muitas vezes
como se o Verão ficasse para arder depois do fim

ainda podes regressar nas palavras que não disseste
e abraçar-me mesmo depois do vento ao fim da tarde
ainda podemos deixar que a dúvida arda inteira sob o sol
e esperar um pelo outro nos degraus antes da noite


RM
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