Rewind

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

into my arms,

não sei se foi o nick cave ou se foram os teus lábios.
 
sei, às tantas, que a saudade começou a doer como se esperar fosse conjugar as feridas todas da tua ausência.
 
esqueci-me de fazer a barba, os lençóis trazem solidão que é uma viagem demasiado perigosa para se fazer de noite e deixei de ligar o rádio de manhã todos os dias.
 
não sei, malandra, se foi o nick cave ou se foi isto tudo que deixaste para trás - às vezes, gasto os olhos no tecto alto do quarto, ponho-me a ver fotografias do tempo em que julgámos ser novos para toda a vida e sorrio.
 
sinto falta de te esperar aí em baixo encostado ao teu prédio. a tua rua é bonita, já reparaste?
 
os meus olhos espiando as sombras da tua janela - que vestido trarias, que perfume, que truque novo com a língua me mostrarias hoje?
 
acho que as árvores da tua rua ainda crescem graças aos bocados de sonho que lhes deixei e ainda tenho aqui o estupor do guarda-chuva que me deste.
 
és tolinho, estiveste este tempo todo à chuva?
 
sabes, há aqui um lugar para o carro. mesmo aqui, em frente à porta.
 
podias aparecer. passei a acreditar que sempre recuperamos o que nos pertence.
 
e tu dizias
 
és meu 
 
[como o guarda-chuva]
 
não sei se há poemas que falem de amor e guarda-chuvas. e eu nem gosto da porrinha dos guarda-chuvas.
 
mas, sabes, gosto das tuas mãos, gosto mesmo de te ver no fundo do mesmo espelho que eu. nus os dois e embaciados todos do desejo um pelo outro.  
 
e gosto da tua voz rouca a estender um cobertor por cima dos meus ossos frios da chuva e da espera.
 
olha malandra que às vezes me apetece ligar-te e dizer-te
 
deixei aí dois casacos, algumas t-shirts e os boxers que me roubavas para a preguiça dos domingos sem horas. deixei aí os filmes que legendaste com os beijos que a minha boca te deu.
 
que idioma era aquele? que idioma falam duas línguas abraçadas no silêncio?
 
quando se ama, as memórias são as coisas que se vão deixando para se saber encontrar, de novo, o caminho.
 
és minha
 
hoje liguei, sem querer, o rádio de manhã.
 
And I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candles burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms
 
havemos, amor, de encontrar dentro das gavetas umas quantas razões que nos lembrem do que fomos.
 
vem. nem que seja por causa do desgraçado do guarda-chuva.
 
já sabes, espero por ti o tempo que for preciso.
 
 esperaste este tempo todo à chuva?
 
sim, amor, esperei.
 
e, afinal, talvez possa haver um poema sobre nós e um guarda-chuva.
 
e esse ser um poema de amor.
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